Alguém liga, afinal.
1 "Juro que vou ficar"
Notas iniciais
Lá estava o nosso gato preto. Sozinho no telhado de um prédio, a observar as estrelas e com um único pensamento em mente: “Ninguém liga, afinal...” Hoje era seu aniversário e ele não pôde ficar na companhia de seus amigos novamente, mas dessa vez não foi pelo simples motivo de seu pai não lhe permitir fazer uma festa, foi porque ninguém podia ir... Claro, ele sabia que mesmo que seus amigos pudessem ir seu pai não permitiria que ele fizesse uma festa, mas seria bom que eles pudessem se ver na escola e dizer um “Feliz aniversário” para ele. Mas infelizmente todos estavam ocupados demais. Seu pai e Nathalie tiveram que sair para uma reunião, Gorila estava de folga, uma das irmãzinhas de Alya ficou doente e ela teve que ficar em casa cuidando dela, Nino teve que visitar um parente em outra cidade, até mesmo Chloe teve que ir a uma festa chique com o pai dela! Por um momento, ele pensou em uma companhia um tanto quanto diferente: “Marinette... Será que ela estaria ocupada demais para me fazer companhia? Ela é sempre tão legal com todo mundo que duvido que me negue companhia no meu aniversário! Mas e se ela estiver ocupada também e eu atrapalhar? Bom, ela não chega a ser exatamente uma amiga próxima de mim, então provavelmente seria estranho se eu chamasse ela para sair do nada!” Então ele soube que não teria outra solução além de ficar sozinho como ele sempre foi... Ah, se pelo menos sua mãe estivesse aqui... Ela sempre foi tão presente e gentil, com certeza tudo seria melhor se ela estivesse com ele.
— Super-heroína se apresentando para troca de turno! — Alguém falou em um tom animado.
Chat Noir arregalou os olhos ao ver Ladybug ao seu lado sorrindo de uma maneira gentil, ele tinha se esquecido completamente que estava na hora da troca de turno na patrulha noturna. Ladybug estava lá, radiante como sempre, e aquele sorriso dele sempre fazia ele se lembrar da...
— Minha mãe... — Chat Noir acabou pensando alto.
— O quê? — Ladybug disse confusa. Geralmente a primeira coisa que Chat diria seria algo como “Oh! My Lady, como está miautástica esta noite!”. Claro que ela tinha percebido que ele estava estranho hoje, já haviam se passado dez minutos e ele não notou que ela estava sentada ao lado dele! Ele estava lá, olhando para o céu com um olhar perdido...
— O-o seu sorriso... — Chat disse olhando fixamente para a joaninha — É igualzinho ao da minha mãe... Ela tinha o seu sorriso.
Ladybug sorriu. Era muito bom saber que de algum modo Chat Noir achava ela parecida com alguém importante pra ele. Mas aí ela reparou num detalhe na frase de Chat.
— Tinha? — Ela perguntou.
— Bom é que- Chat engoliu seco, esse era um assunto delicado pra ele, e não teria como ele dizer isso pra Ladybug e não parecer um fraco.
— Chat, se você não quiser me contar eu entendo. Deve ser difícil pra você ter passado por... seja lá o que for... — Ladybug disse de maneira reconfortante e colocou uma das mãos no ombro de Chat. — Eu só fico um pouco preocupada... Você não acha melhor passar por momentos difíceis junto de quem se importa com você?
— Não é nada demais! Não precisa se preocupar! — Chat deu um sorriso forçado, mas depois de encarar os belos olhos azuis e preocupados de sua Lady por alguns segundos ele não aguentou mais se segurar e começou a deixar as primeiras lágrimas caírem, e então não se aguentou. Abraçou Ladybug e começou a chorar. A heroína de vermelho ficou um pouco surpresa com aquilo, afinal ela nunca esperou ver Chat Noir, o convencido e galanteador herói de Paris, chorando de modo tão desesperado e a abraçando como se o único lugar seguro para ele fosse dentro do abraço de sua lady, o que era a mais pura verdade. — La-lady... A-a-a minha mãe... Ela... Desapareceu... Eu prometi para mim mesmo que eu seria forte e que não iria chorar, mas eu não aguento mais fingir que está tudo bem, porque não está! A minha vida é péssima, lady! Eu não aguento mais! Meu pai não liga pra mim, eu quase nunca posso sair com os meus amigos, o meu primeiro ano em uma escola de verdade foi ano passado, porque meu pai não queria que eu estudasse em uma escola normal, mas depois que eu fui para a escola achei que as coisas finalmente iam começar a voltar a serem boas pra mim, e no começo foi! Eu conheci você, eu conheci vários colegas, e pela primeira vez senti que existiam pessoas, que existem pessoas que eu posso chamar de amigos de verdade. Mas a cada dia que se passa eu percebo que meu pai liga mais pro trabalho que pra mim, ele é frio comigo e tenta afastar os meus amigos de mim... Está tudo pior, por que agora que eu sei como é ter amigos e eu não quero voltar a ser como antes! Eu quero continuar sendo livre, mas parece que pra mim a felicidade é impossível!
— Chat, pare... — Ladybug murmurou e abraçou o herói de preto — Eu nunca tinha te visto chorar, mas agora que vi percebi que nunca mais quero te ver desse jeito! Agora olhe pra mim e me escute... Adrien...
Chat arregalou os olhos e imediatamente olhou para sua lady, que estava muito séria o olhando diretamente nos olhos. Ladybug demorou um pouco para perceber, mas depois de ouvir aquele desabafo de Chat ela notou quem ele realmente era e sentiu-se com o coração esmagado... Ela nunca poderia imaginar que Chat (ou Adrien como agora ela conseguia o reconhecer) se sentia daquela forma em relação à sua vida... Ele realmente foi sincero quando a disse uma vez que nunca frequentou uma escola e que nunca teve amigos, e isso só fazia ela se sentir pior...
— Você pode ser sincero comigo... E não se preocupe! Eu vou ficar do seu lado queira o seu pai ou não, tá bem? — Ela falou com o sorriso gentil que Chat tanto amava.
— Não diga isso — Chat falou enterrando sua cabeça na curva do pescoço de sua lady — A minha mãe sempre falou que sempre estaria comigo e agora ela desapareceu... Eu não quero ter a ilusão de que alguém realmente vai ficar comigo pra sempre só para ter que perder tudo de novo...
— Eu vou ficar! — ela disse com firmeza — Não se preocupe, eu vou ficar sempre! Eu te juro!
— Ladybug — Chat levantou a cabeça e encarou a menina de vermelho à sua frente. Ele estava com um sorriso e um olhar que demonstravam a mais pura e delicada felicidade — Obrigado...
Ladybug sorriu e ficou encarando o rapaz à sua frente... Ela nunca imaginou que o verdadeiro Chat Noir estivesse esse tempo todo tão perto... Chat segurou o queixo de Ladybug e ficou encarando ela como se não fosse real, como se fosse algum tipo de ser divino. Ele a amava muito, via nela o seu porto seguro, algo que ninguém nesse mundo poderia tirar dele.
— Ladybug eu- Chat ia confessar seu amor, mas como sempre, as coisas não podiam dar muito certo...
*Bip*
Seu tempo transformado estava acabando e ele não podia ficar muito tempo fora de casa, pois ia ter que levantar cedo para ir a uma sessão de fotos no dia seguinte. Então ele explicou que era melhor ele ir porque ia ter que trabalhar no dia seguinte e -contra a sua vontade — saiu do confortável abraço de sua Bugaboo e foi se afastando até o outro lado do prédio, mas logo foi impedido porque uma mão segurou seu pulso. Ladybug o puxou pra perto e ele percebeu que ela estava com o rosto tão vermelho que poderia se camuflar na sua roupa. Ele ficou muito confuso, não tinha ideia do que ela queria...
— Er... Lady, o que foi? — Ele perguntou e as maçãs do rosto de Ladybug se avermelharam mais ainda.
— Chat. Eu... Nada. Pode ir. — Ela o soltou e deu um sorriso.
—Ah não! — Chat disse com um sorriso curioso — Agora você vai falar!
— Não é nada mesmo, é melhor você ir! — Ladybug deu um sorriso que praticamente dizia “Ei! Eu estou escondendo uma coisa! Continue me perguntando até eu ser obrigada a dizer! Obrigada de nada!”.
— Diga! Vamos lá! Fala! Eu quero saber! Fala! Fala! Fala! — Chat ficou repetindo tanto, sendo tão insistente e irritante que ela foi obrigada a obedecer.
Ladybug beijou Chat Noir. Foi um selinho rápido que não durou mais que 7 segundos, mas foi suficiente pra deixar Chat completamente doido. Ele estava gritando internamente, uma parte do seu cérebro gritava “Hey, fale alguma coisa pra ela, idiota!”, outra falava “O que está esperando? Beija ela de verdade!”, e ainda tinha outra que dizia “Ai meu Deus! Aconteceu! E agora? Acho que você tem que desmaiar!” mas Chat simplesmente não sabia o que fazer. Provavelmente ficaria o resto da noite sentado no chão encarando as estrelas e tentando lembrar qual era o seu nome, mas um pigarrear vindo de Ladybug o acordou para a vida real.
— I-sso foi um presente. Feliz aniversário! — Ela disse mais vermelha que a própria roupa e saiu pulando de prédio em prédio antes que Chat tivesse a chance de pensar em algo para responder.
Chat resolveu então fazer o mesmo que a heroína, foi saltando de prédio em prédio até chegar em casa. Se sentou na sua cama, sua transformação se desfez e ele começou a encarar o teto. Plagg estava a falar algo sobre os humanos serem idiotas por ficarem completamente paralisados por um simples toque de lábios, mas Adrien o ignorou. A única coisa que ele conseguia pensar naquele momento era que, apesar de tudo, alguém ligava para ele, afinal.
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