Eu sentia raiva. Muita raiva.

— Michael, volte aqui agora! Não vou mais aturar essas suas fugidas idiotas. Se você for, nunca mais vai voltar a por os pés nessa casa.

Não estava mais aguentando minha mãe. Tudo que acontecia naquela merda de casa era culpa minha.

— Michael, eu estou avisando: ou você entra agora e vai direto pro seu quarto ou nem precisa mais voltar.

Era para o quarto que ela queria que eu fosse? Então era para o quarto que eu iria. Entrei em casa e subi a passos fortes a escada até meu quarto. Bati a porta com força e a tranquei. Estava determinado a fugir de casa.

Peguei minha mochila de escalada e fui colocando tudo de mais importante nela: camisas, calças, cuecas, carregador de celular, meu computador, entre outros objetos de uso diário. Fechei a mochila – que não tinha lugar para mais nada – e coloquei-a em minhas costas. Conectei o fone de ouvido no celular e coloquei as músicas em modo aleatório. Abri a porta do meu quarto e, antes que pudesse por um pé para fora, ouvi uma voz que parecia vir de dentro de minha cabeça:

"Não faça isso! É perigoso demais!"

Disse para mim mesmo que era o vento ou a música. Eu não estava pensando, então não podia vir da minha cabeça. Era impossível.

Sai do quarto. Minha mãe estava na sala, assistindo a um daqueles programas idiotas que ela assistia. Quando me viu abrindo a porta, ela gritou meu nome, dizendo o mesmo de antes:

— Volte aqui agora!

Fingi não ouvir nada.

— Michael, eu estou mandando.

Eu parei de andar.

— Mandando? Que moral você tem para mandar em mim? Você só me despreza e me humilha. Você diz que sou um indesejado, que nem você nem meu pai queriam um filho. Que diferença vai fazer eu nessa casa ou fora dela? Estou fazendo um favor pra você, mas principalmente para mim. Eu não mereço mais essa vidinha medíocre que eu levo ao seu lado. E que você se dane!

Depois disso, virei-me e continuei andando. Ouvi a voz dela de novo, dizendo eu ia me arrepender. Duvido. Aquele momento foi libertador para mim. Nunca mais veria a cara daquela mulher novamente. Nunca mais.

Depois de duas horas andando sem rumo, cheguei a um lugar estranho, mas ao mesmo tempo conhecido. Estava em frente a uma casa muito descuidada. Parecia abandonada, mas uma luz no terceiro andar, além de alguns barulhos, mostrou-me que tinha alguém morando lá.

Eu nunca tinha estado ali antes, mas tinha a sensação de que conhecia aquele lugar. Mas de onde? De um sonho? Acho que não. Na maioria das vezes, eu não tinha sonhos, só dormia.

Deixei a casa de lado e vi que, no outro lado da rua, havia uma praça. Atravessei a rua deserta e me sentei num dos bancos enferrujados da praça. Ouvia o barulho dos grilos na calada da noite. Aquele som me irritava desde pequeno. Peguei algumas de minhas blusas e fui fazendo nós até que elas ficassem parecidas com um travesseiro. Não estava com sono, então peguei meu celular – que ainda estava tocando as músicas da minha playlist – e mandei a seguinte mensagem para um de meus amigos:

"Fugi de casa. Nunca mais vou voltar pra lá. Até algum dia. Não me procure."

Depois de ter enviado a mensagem, a bateria acabou. Tirei os fones de ouvido e fiquei pensando em alguma maneira de arranjar comida, pois não sobreviveria só com quatro pacotes de salgados e três latas de refrigerante.

De repente, aquela voz voltou:

"Você não sabe o que está fazendo. O perigo que está correndo é muito grande. Volte para casa. Lá você estará seguro."

Os pelos de minha nuca se arrepiaram. Aquela voz se parecia com a de um filme de terror. Garanti-me que era o sono.

Peguei meu travesseiro improvisado e umas calças para por de cobertor. Queria que logo chegasse o dia. Não gostava muito da escuridão. Fechei os olhos e em poucos minutos já estava dormindo.

Nessa noite eu tive um sonho. Um sonho não. Um pesadelo.

Notas finais
Olá leitores! Espero que tenham gostado do 1º capítulo. É provável que tenha um capítulo novo todo final de semana. Muito obrigado por lerem minha história. Até a próxima, Gustavo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.