Algodão-doce
1 Capítulo 0 -n
Notas iniciais
Gilbert deixou o corpo cair na cadeira. Estava anoitecendo e, como a época não era tão quente, a sorveteria — se é que podia ser chamada assim — estava quase vazia. Era mais uma daquelas barraquinhas de sorvete italiano que ficavam espalhadas pela praça. Mesmo assim, estava aberta.
Estava ali por um motivo idiota. Ciúmes. Simplesmente vira Ludwig junto de Roderich enquanto eles conversavam alegremente. Sentiu seu coração apertar. Os dois o viram e, naturalmente, chamaram-no para participar da conversa.
Porém, Gilbert estava levemente triste, diferente de como sempre era — energético, sem parar por um segundo, incomodando todos à sua volta. Naquele momento, ele estava quieto e nenhum dos dois países demonstrou atenção a isso. Em seu pensamento, era claro que eles estavam bem ali e que se danasse o prussiano. Gilbert encolheu os ombros e, com as sobrancelhas juntas, anunciou que estava indo embora. Não esperou resposta de nenhuma das duas nações e retirou-se, deixando-os ali. Ninguém o seguiu, o que o piorou um pouco mais.
O grande mistério era por que ele se sentira triste naquela hora. Sem motivo? Ou era mesmo ciúmes? Ludwig era seu irmão... O que ele estava fazendo ao sentir aquele tipo de coisa? Percebeu que só queria alguém pra conversar.
O parque onde ele estava era lindo. Com a noite caindo, as luzes começavam a acender-se, aos poucos. A calçada era de pedras e haviam canteiros entre o chão, com tulipas vermelhas que exibiam, orgulhosas, suas lindas flores. No centro da praça, havia uma fonte. Vários bancos de madeira estavam espalhados por ali. Do outro lado da fonte, havia uma árvore grande e majestosa, balançando as folhas verdes e finas, embalada pelo vento fresco da primavera. Presas ao tronco da imensa árvore haviam pequenas luzes, como enfeites de um Natal fora de época. Começavam no tronco, passando por todos os galhos até chegar à ponta deles, caindo levemente entre as folhas, como se fizessem parte daquela planta.
Gilbert escorregou na cadeira, deixando sua coluna completamente torta. Queria alguém disposto a ouvi-lo, ou até mesmo abraçá-lo. Olhou em volta, esperando ver alguém, qualquer um — qualquer pessoa que não fosse Ludwig ou Roderich. Mas... Não tinha ninguém ali além dele mesmo.
Levantou-se, chateado. Caminhou lentamente através do parque, olhando para o céu. O sol ainda não estava completamente sumido, deixando um azul ainda claro e as nuvens, iluminadas pelos restos de luz, estavam alaranjadas. Algumas pareciam levemente róseas — como algodão-doce, ele pensou. Riu de seu próprio pensamento bobo e abaixou a cabeça. Conservava as mãos atrás de seu corpo, dadas como se ele estivesse em companhia de si mesmo — o que não deixava de ser verdade, já que ele não conseguira achar seu consolo.
As luzes da árvore ainda estavam apagadas. Havia um banco em baixo dela e era para lá que o prussiano estava indo.
Ao passar pelo lado da fonte, uma leve rajada de vento fez com que uma sutil névoa de água tocasse o rosto de Gilbert, que se limitou a respirar fundo e continuar seu caminho.
Chegou ao gramado da árvore e, levemente decepcionado, percebeu que já havia alguém ali. Um garoto?..., pensou consigo. Estava com a cabeça baixa, escondendo o rosto. Só se podia ver seu cabelo louro, discretamente comprido. Gilbert arriscou e sentou-se ao lado dele.
— Se incomoda se eu ficar aqui? — o prussiano se estranhou. Desde quando se preocupava em incomodar alguém ou não? Geralmente, era esse mesmo seu objetivo.
O garoto ergueu a cabeça e seus olhos encontraram as íris vermelhas de Gilbert.
— Não — ele sorriu de modo inocente.
— Ah... Parece que te conheço de algum lugar... — coçou a cabeça, como se quisesse puxar suas memórias de volta ao lugar onde elas deveriam estar.
— Certamente — disse o país, balançando a cabeça em um gesto afirmativo. — Você pode não se lembrar, mas eu sou o Canadá. Realmente, não temos muito contato. Você é... O prussiano.
— Como você sabe? — levantou uma sobrancelha, intrigado.
— Ah, o que é isso — riu levemente, tranquilo. — Eu não ando te perseguindo. Alfred me fala sobre você.
— Por quê? — sua sobrancelha continuara na mesma posição. Por que o americano?
— Por causa do Alemanha. Hm, você sabe... Inimigos.
— Ah, eu sei... — suspirou, deixando transparecer que estava chateado com alguma coisa.
— Problemas?
— Alguns... Com esse alemão. Mas nada muito sério.
Por um momento, ficaram quietos. À frente deles estava um lindo e imenso rio. As folhas ainda farfalhavam, deixando uma leve canção no por ali. Novamente, o vento tornou-se intenso de repente, trazendo o ar frio que ficava sobre o lago até as duas nações. O canadense tremeu e se encolheu como se quisesse se proteger.
— Venha até aqui — pediu o prussiano, abrindo um dos braços.
— Eu, é... — Matthew sentiu o rosto corar.
Gilbert puxou-o pelo braço, trazendo-o para perto de si e protegeu-o do frio em um abraço caloroso. Suas mãos afundaram-se no cabelo louro, acariciando-os levemente.
Matthew quis falar qualquer coisa, mas ficou calado. Não conseguia sequer mover-se, como iria dirigir-se ao prussiano? Além do mais, gostou de estar ali. Fechou os olhos e se deixou ser embalado pelos toques em seus fios de cabelo. Respirou fundo e teria adormecido não fosse pela mão de Gilbert em seu queixo.
Com cuidado, o prussiano elevou a cabeça do canadense em sua direção. Quando seu olhar encontrou o de Matthew, percebeu que ele tremia levemente e estava corado. Aos poucos, levou seus lábios até ele, prendendo-os em um beijo calmo e desajeitado.
Com o passar do tempo, o beijo melhorou. Gilbert era firme e logo comandava o pequeno país — sua língua passeava por toda a boca canadense. O abraço ficou mais apertado e Matthew apenas entregou-se, dando permissão para que o prussiano agisse como quisesse.
Enquanto beijava o louro, Gilbert pensou no que estava fazendo. Estava com ele apenas por que precisava de uma espécie de... Refúgio? Percebeu que não sabia ao certo. Seu carinho pelo canadense começara a crescer a partir dali — o que iria fazer? Decidiu que pensaria naquilo depois. Concentrou-se nos finos lábios do outro garoto, beijando-o de forma mais apaixonada e intensa. Sentiu que estava ali por carência, sim, mas não apenas por isso. O modo como Matthew o havia acolhido, sem mais perguntas e apenas se dispusera a estar ali cativara o prussiano.
Os lábios separaram-se brevemente. Ainda tocavam-se, molhados pelas salivas misturadas e quentes. O rosto do canadense estava cada vez mais vermelho e seu cabelo estava levemente bagunçado — e a culpa era prussiana.
Quanto a Matthew, deixou que Gilbert o trouxesse para perto. Sentia-se sozinho também, pois sabia que Alfred estava sempre junto de Arthur, o que fazia do pequeno uma espécie de “segundo plano”. Para o americano, o canadense só era importante quando o inglês não estava por perto.
Viu a chance no prussiano e aninhou-se em seus braços, sentindo-se realmente protegido. Quando o beijo aconteceu, não sabia como reagir apenas por inexperiência e não por falta de vontade. Por isso, deixou o prussiano no controle.
Beijaram-se mais uma vez e, logo depois, Matthew voltou-se para frente, olhando para o rio. O braço de Gilbert ainda estava sobre seus ombros e as luzes da árvore haviam acendido, embora o céu estivesse pouca coisa mais escuro.
Ambos olharam para o céu, em silêncio. Sabiam que não precisavam falar nada e as duas nações tinham um leve e discreto sorriso no rosto. Gilbert quebrou o silêncio.
— Lindo dia, ou final de um, não?
— Sim — concordou Matthew, balançando a cabeça outra vez. Com um olhar mais melancólico e perdido, acrescentou: — Uma ironia ficar triste em um desses.
O prussiano assentiu.
— Gosto das nuvens — comentou apenas para não deixar o assunto morrer e ouvir a voz canadense um pouco mais.
— São como... Algodão-doce — sorriu Matthew.
Gilbert surpreendeu-se um pouco ao ouvir a comparação do canadense, mas logo sua expressão de espanto transformou-se em um sorriso. Seus olhos acompanharam os lábios, afinando-se com a elevação dos músculos de seu rosto.
— Sim... Como algodão-doce — e bagunçou os fios louros outra vez.
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