Algo novo

1 Alguma mudança


“É um mundo só belo

onde cores escorrem pelas paredes,

brilhos pelos ares e alegria por dentro de nós”

Terminei de ler os últimos versos do poema que acabara de escrever, nem lembrava que estava no meio de uma aula qualquer, com tédio e distraída demais para compreender o que o professor falava. Um leve bagunçar em meus cabelos me puxa de novo para a realidade.

-Vai tentar anotar ou ao menos prestar atenção nessa aula? — Perguntou a dona da mão que o fizera — Mais um pra coleção? Deixa eu ler — Pegou a folha na qual estava escrevendo.

-Esse ficou meio ruim — Encolhi os ombros com vergonha e logo lembrei que falo isso de todos — Mais ou menos.

-Adorei — Falou me devolvendo e passando para Gab — Passa esse pra sua agenda também.

-Tá — Falou com seu tom normal de tédio.

Passei o resto da aula (5 minutos, como descobri depois) pensando em quanto minha vida havia se tornado monótona e como eu precisava mudar. Dizem que a primeira coisa a se mudar na sua vida quando está infeliz com ela, é o cabelo, o primeiro passo para uma nova vida. Comecei a acreditar que era disso que eu precisava, uma mudança, não necessariamente em meu cabelo, mas em minha aparência, afinal, precisava de uma vida nova.

O resto da manhã passou como o usual (sem a parte do poema, já havia escrito um), vários professores chatos falando coisas chatas, nada de relevante. Assim que a aula acabou sai depressa e fui para casa.

Li alguns poemas e críticas que havia feito, realmente odiava a pessoa incrivelmente chata que havia me tornado, precisava mudar, deixar a rotina de lado, mas não era capaz nem de falar com uma pessoa nova sem parecer uma idiota. Apesar disso, decidi mudar, mesmo sendo só por um dia (no caso o dia seguinte), decidi-me a cortar o cabelo, algo novo para uma vida nova, enfim, saí de casa.

Voltei com o cabelo curto algumas horas depois, uma tinta preta azulada para me livrar do castanho claríssimo e sem graça que coloria de forma deprimente meu cabelo.

-Decidiu mudar um pouco o corte? — Perguntou meu pai assim que cheguei. Quando ele fazia perguntas obvias sentia vontade de simplesmente ignora-lo, mas também sabia que ele as fazia apenas para iniciarmos um diálogo.

-Pois é, já estava cansada dele daquele jeito.

-Estamos saindo agora, se quiser sobrou um resto de almoço — Minha mãe falou pegando seu casaco em cima da cadeira.

-Ok, obrigada. Divirtam-se. — Assim que falei, ela abriu a porta e saíram. Quando ouvi a porta do elevador se fechando fui para meu quarto começar minha mudança.

***

Acordei sem muita disposição, o preto havia ficado bom em mim, um contraste com minha pele branca. Levantei-me e fui procurar algo para comer. Levei junto meu celular para ver as notificações, imaginei que todas seriam de grupos, mas me surpreendi com uma mensagem de uma amiga que não via desde as últimas férias.

“Hey, quanto tempo… Você está bem? Está afim de sair? Um amigo meu vai fazer uma resenha e como faz tempo que a gente não se vê pensei em matar a saudade”

Respondi que iria sim, queria mudar mesmo, tentar ser mais sociável e espontânea. Falei com meu pai e fui para casa dela. Nos arrumar juntas, como fazíamos antes.

-Finalmente! — Foi minha recepção — Achei que já tinha desistido de ir. — Dei uma risada sem graça.

-Trânsito e eu moro longe… — Falei enquanto ela me levava para seu quarto. Olhei ao redor lembrando de boas histórias que vivemos juntos que terminaram ou começaram ali.

-Então, preciso que me ajude com a roupa… Não consigo me decidir — Olhou para minha cara de perdida — Com que ou roupa você vai?

Passamos a tarde relembrando nossa infância, como normalmente fazíamos quando ia para lá, e nos arrumando. Saímos por voltas das 20h com o famoso discurso de sua mãe.

“-Cuidado, nunca aceite bebida de estranhos, não fiquem em lugares isolados… Eu amo vocês duas. E Janny, avisou seus pais que ia para a festa? Se a Mirian fosse para alguma e não me avisasse ficaria muito chateada… E você vai dormir aqui? Cuidado, tem muita gente má nesse mundo, podem tentar drogar vocês…”

E assim continuava, sem pausas, tudo embolado. A mãe dela não era boa com discursos, mas sempre que ia para lá me sentia acolhida e cuidada, mas não de forma sufocante.

***

-Oi, finalmente chegaram. Trouxeram bebida? — Um menino magrelo e meio alto perguntou.

-Trouxemos sim, onde colocamos? — Ela perguntou. Nem sabia que ela estava trazendo algo. O menino apontou um lugar e deixamos lá.

-Jenny? — Escutei uma voz conhecida me chamar de longe — Não acredito que está aqui. — Anthony, um cara que eu costumava gostar falou me abraçando.

-Pois é, como o mundo é imprevisível — Falei e dei um gole na bebida que Miriam tinha acabado de me dar, ele provavelmente contaria para todos no próximo dia de aula.

-Como está? Com quem veio? — Fez as duas perguntas enquanto procurava alguém, provavelmente quem havia me trazido.

-Ah, uma amiga de uns tempos atrás — Respirei fundo e tive coragem de olhar em seus olhos — E você? — Me arrependi da pergunta assim que falei, ele conhecia aquelas pessoas, claro, era bem sociável, diferente de mim.

-Bem… São meus amigos — Falou com um sorriso de canto, uma das coisas que eu mais admirava nele. Sorri também, mas meio sem graça.

-Claro, nem sei porque perguntei — Tomei mais alguns goles empolgados, estava fiando muito vermelha, até que lembrei da existência de Miriam, que não estava mais lá. — Ahm… Minha amiga sumiu — Ele riu mais uma vez.

-Vem comigo, vou te apresentar algumas pessoas.

Me guiou até um grupinho de pessoas fumando algo, talvez tabaco, talvez maconha, não sabia exatamente a diferença. Ele me apresentou, passei um tempo com eles e descobri, por meio de um deles, que Miriam estava ficando com alguém em algum banheiro da festa. Fui pegar mais algo para beber e Anthony foi junto.

-Bem, o que está achando do evento?

-Não é muito minha cara e como não conheço muita gente está sendo meio monótono — Falei sem perceber, provavelmente o álcool fazendo efeito. Ele deu mais um daqueles sorrisos.

-Entendo, realmente imaginei que não seria. Já havíamos nos falado fora da escola antes?

-Se conversar na parada contar, sim — Mais um sorriso de canto. Dei um gole tentando me controlar com aquele sorriso. — Estava tentando mudar um pouco, queria fazer algo interessante na minha vida, por isso vim — Falei, mesmo que ele não tivesse perguntado.

-Entendi… Bem, até que ponto chegaria para tentar mudar sua vida? — Lhe direcionei um olhar curioso — Tenho algo que talvez vá lhe interessar. Algo recreativo que, na minha opinião, costuma mudar bastante a vida das pessoas — Fiquei ainda mais curiosa.

-O que é?

-Bem, algo que chamam de doce, faz você ver e sentir coisas diferentes — Explicou e me mostrou um papelzinho em sua mão. Me aproximei para ver, talvez um pouco demais, pois perdi o equilíbrio e tive que me apoiar nele.

-É bonito… O que vai acontecer comigo?

-Bem, como eu disse, você vai ver e sentir coisas diferentes, provavelmente rir bastante também, eu costumo me divertir muito.

-Tudo bem, eu quero — Não pensei direto nas consequências, ou em qualquer coisa, só ouvi a explicação do que deveria fazer e esperei o efeito começar. Ele tomou um também.

Certo tempo depois começou o efeito.

Notas finais
Tenho uns poeminhas também, se quiserem ler c:
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.