Algo Além do que Eu Possa Acreditar
1 Sustos, Assaltos e Policiais
Notas iniciais
— O que estou fazendo aqui? – Falou o rapaz com um tom que em meio a multidão somente ele poderia ter ouvido.
Só haviam desconhecidos aos seus olhos, e não fazia idéia porque tinha entrado no meio de toda aquela gente. Nenhuma associação era feita com elas ou o lugar em que estava. Seus neurônios ainda estavam ligando aos poucos. Postes iluminados e uma multidão espremida sem bons modos. Não demorou muito a perceber que algo estava de errado consigo, sentindo-se profundamente estranho, interpretou como tivesse acabado de acordar de um sono profundo.
— Meu Deus, qual o meu nome? — Indagou-se bem baixinho para sí, mascarando seu desespero.
Memórias passadas, recordações, nomes, tudo estava em branco, e quanto mais se esforçava, mais nervoso ficava. Imaginou que talvez se respirasse fundo poderia se acalmar e analisar melhor aquela situação, porém a cachoeira de sensações negativas parecia ser mais forte que ele, agravado pela multidão que ainda lutava em meio a empurrões para saber o que estava acontecendo. Todos estavam falando simultaneamente. Ouvir seus próprios pensamentos era um desafio, bem como raciocinar direito. Então não viu alternativa que não fosse sair daquele lugar primeiramente.
Ao virar-se nos calcanhares a procura de uma saída naquele furacão de cabeças que ia se expandindo, um olhar castanho claro acompanhado de um rosto sereno lhe chamou sua atenção verdadeiramente.
A garota de cabelos castanhos que deslumbrou era delicadamente bela, porém se observasse com cautela, podia constatar que ainda estava no segundo grau, já que não aparentava ter mais de dezoito anos. Estava apoiada na ponta dos pés na tentativa de ver algo, tão abismada como os demais para ver o motivo de tanta gente. Tentava se aproximar sem sucesso, pois as pessoas estavam cada vez mais espremidas. E logo após algumas poucas tentativas, saiu às pressas com facilidade, já que era uma das ultimas da multidão dos curiosos.
Por um breve momento o garoto pensou em esperar a polícia chegar para que pudessem lhe ajudar, já que talvez as autoridades competentes soubessem o que fazer, todavia a presença da garota o incomodava, sentia como se ela pudesse lhe ajudar e encarou sua saída por algum tempo, olhando suas costas se afastarem mais e mais. Em pensamento decidia se pediria sua ajuda ou não.
Demorou alguns segundos para que ela pudesse alcançar o fim da longa rua. E bastou ela sumir do seu campo de visão para tomar uma decisão de súbito instinto.
Avançou pela multidão com extrema pressa. Sentiu como se estivesse passando por dentro das pessoas de tão rápido que estava se movendo, e sem olhar para os lados ou pedir desculpa a ninguém, trilhou os passos da garota.
Novamente a sensação estranha lhe acometeu em cada movimento que realizava. Tinha certeza que aquela sensação era incomum por algum motivo desconhecido, mesmo sem suas memórias a única certeza que tinha era essa anormalidade, contudo não conseguia explicar ao certo o que seria esse “incomum”.
Decidiu que por agora deveria colocar a culpa em sua amnésia e continuou avançando rapidamente para não perder seu alvo de vista. O que não foi difícil, já que não havia ninguém na rua. A paisagem em volta era constituída de poucas árvores escuras e bancos, até que a dedução de que aquilo era um pequeno parque veio a sua cabeça. A rua que a garota tinha seguido era o fim do pequeno lugar, um bairro vazio e deserto. Seja lá o que tivesse acontecido naquele parque tinha conseguido fazer com que todos em um raio de dezenas de metros se direcionassem ao fato desconhecido.
Logo abaixo de um poste com uma lâmpada defeituosa, a garota fez uma parada, remexia sua bolsa a procura de algo. Oportunidade perfeita para o rapaz alcançá-la naquela viela que se encontravam.
Sem demoras, correu em sua direção, diminuindo a velocidade quando cada vez mais próximo para diminuir uma possível impressão de hostilidade. Seus detalhes iam ficando mais perceptíveis, apesar de ter apenas a visão de suas costas. Vestia um casaco vermelho e uma calça jeans, sua altura não passava de um metro e setenta, só que talvez fosse a impressão que seus calçados lhe davam.
— Ei... Garota... Pode me ajudar? – Tentou ser o menos sutil possível em sua fala.
Não houve resposta. Deduzindo que não o havia escutado decidiu se aproximar ainda mais, porém sua tentativa de abrir a boca foi interrompida pela figura de um homem que virou a esquina naquele instante. Vestia um casaco preto, calça jeans e luvas, mas foi seu rosto encapuzado e o revolver empunhado que calaram suas palavras.
— Senhorita, eu não quero te machucar, apenas me dê o que você tem de valor que poderei liberá-la em segurança, e por favor... Não reaja. – A voz do homem soava mais grossa e rouca do que uma pessoa normal conseguira emitir, ou talvez fosse a situação do momento que os fizessem interpretar assim.
O Desespero estava na tremedeira das mãos da garota enquanto de modo desajeitado retirava o celular e a carteira da bolsa.
— Calma, não machuque ela, eu não tenho dinheiro no momento. Nós vamos cooperar. – Apesar de trêmulo, o rapaz sentiu a necessidade de apaziguar a tensão da situação, mas o bandido interrompeu-o no fim de sua frase mudando para uma voz hostil.
— RÁPIDO GAROTA! Eu não tenho o dia todo. – Dessa vez agressivo quase como um rugido. Em resposta a garota deu um pulo, conseqüentemente derrubou algumas notas de cinco e dez dólares.
O assaltante mantinha os olhos fixos na garota, parecendo ignorar o rapaz. Era inquieto, a pressa estava visível na batida de seus pés a cada segundo, ao mesmo tempo em que sua atenção estava ligada em tudo ao seu redor.
Aquele segundo parou para ele. Pasmo, ainda estava engolindo aquela situação toda, contudo sentia-se na obrigação de ajudar a desconhecida. Pelo menos enquanto não reagissem, a vida dos dois estaria segura. Alem do mais "não poderia ficar pior", pensou consigo, até o bandido desferir um forte soco na cabeça da garota enquanto ela recolhia o dinheiro no chão, derrubando-a de bruços, juntamente com seu dinheiro e seu celular.
Uma reação agora tornou-se opção, mas ao mesmo tempo lembrava-se da segurança da vida dela e da sua, além do mais ele tinha uma arma. A frase “por que isso esta acontecendo comigo” vinha a todo o momento na sua cabeça, pensava o quanto Deus devia lhe odiar para lhe fazer tudo aquilo, como se não bastasse a amnésia deixou também um ladrão bater em mulher indefesa. Foi a única explicação que fez sentido naquele momento.
Voltando a realidade, procurou rapidamente em um olhar disfarçado por um salvador, de preferência um policial, só que não havia ninguém naquela pequena rua escura, que por sinal parecia ter agora quilômetros de distancia.
E foi naquele mesmo instante, o esperado milagre. Um carro da policia virou a esquina a frente do local em que estavam. Uma incrível coincidência, daquelas que acontecem uma vez na vida de cada pessoa. Qual era a chance daquilo acontecer? Retirou todas as blasfêmias sobre Deus de sua mente pedindo até mesmo o seu perdão.
O barulho da sirene do carro de policia alarmou o assaltante, que rapidamente recolheu o celular e a carteira no chão e entrou em fuga pulando o muro que se encontrava logo ao lado, enquanto euforicamente o jovem gritava por socorro, estendendo os braços ao ar para que pudessem lhe ver, e quando a viatura se aproximou, fez sinal para que parassem.
Dois policiais saíram do carro. Um era visivelmente alto e moreno, deveria ter o tamanho de um armário e o outro de pele negra robusto, ambos pareciam ter saído de um filme de ação. Qualquer um que visse aqueles dois policiais juntos se assustaria mesmo que não estivesse fazendo nada de errado, mas nesse momento eram seus tão esperados salvadores.
— Policiais, por favor, um cara acabou de nos assaltar e pulou o muro ao lado. –Desferiu as palavras em uma velocidade incrível enquanto apontava para o muro que se encontrava ao lado, porém os guardas seguiram rapidamente em direção a moça caída, logo a ajudando se levantar.
— Você esta bem senhorita? Esta machucada? – Enquanto perguntava a garota o outro guarda observava o local em um ligeiro olhar, e voltando ao carro, relatou o acontecimento e a posição que se encontravam no radio da policia.
Sem fôlego, o jovem tentava reformular a frase para o policial:
— Um homem encapuzado acabou de nos assaltar e quando os senhores chegaram, ele pulou o muro e fugiu. – Naquele instante a garota se ergue tonta, mas em alguns segundos ela reconhece a figura do policial tentando lhe ajudar e parece interromper o garoto no fim da frase dele:
— Eu estava andando e um homem apareceu muito rápido, bem de repente, apontou uma arma para mim, e gritando disse para que eu não reagisse, então quando eu entreguei as minhas coisas ele bateu bem forte na minha cabeça e fugiu. – A versão da garota era um pouquinho mais dramática, pensou o garoto, só que basicamente era aquilo.
— A sua sorte senhorita é que um acidente aconteceu em um parque aqui perto e fomos chamados para averiguar, foi uma coincidência termos passado por aqui. –O policial tinha uma voz poderosa. Falava enquanto ajudava a garota a se ajeitar, pois sua calça estava suja do tombo, enquanto isso o outro policial olhava novamente em volta, na esperança de avistar o suspeito do acontecimento, mas sem sucesso, assim direcionou-se os passos até a garota e disse:
— Esta se sentindo bem? Acha que pode voltar para casa sozinha? Temos uma emergência em um parque aqui ao lado. Fomos chamados já tem quase vinte minutos e só conseguimos chegar agora. – Recolheu o dinheiro que estava caído, em seguida entregando-a.
Sem pensar muito o garoto decidiu protestar a ação dos policiais:
— Acho melhor os senhores acompanharem ela até em casa, parece que esta meio tonta e assustada ainda, então essa carona seria de ótima ajuda. – Nem mesmo ele entendia essa preocupação repentina com uma estranha, que nem ao menos dirigiu a palavra a ele ainda, nem mesmo um obrigado havia saído de sua boca, mas nesse momento devia deixar esse tipo de coisa de lado por hora.
A garota ainda estava assustada pelos fatos ocorridos e quando ouviu a pergunta do policial, demorou conseguir responde-la, estava ainda processando o que tinha acontecido, até que disse:
— Hã... Tudo bem então... – Porém o policial que terminava de ajudá-la a se limpar interrompeu-a em sua fala.
— Acho melhor levarmos ela até em casa Sandro, ela não me parece bem ainda.
O jovem se sentiu ignorado, só que ao mesmo tempo aliviado. Decidindo agradecer os policias estendendo sua mão para cumprimentá-los, mas foi interrompido por um barulho na viatura, logo então percebeu que era o radio da policia.
— Oficial Sandro e oficial Stevan indiquem suas posições nesse momento, por favor. – Era uma voz feminina e educada. Imediatamente o policial correu até o carro e atendeu o radio.
— Estamos a uma rua do acidente ocorrido central e já estamos a caminho – Disse o policial Stevan quando atendeu o radio as pressas.
— Entendido então, mas sigam rapidamente até o local, pois a vitima esta em estado grave e precisa ser socorrida imediatamente, os senhores são a unidade mais perto, a ambulância esta a caminho.
— Já estamos a caminho — Desligou o radio em seguida.
Ao olhar o policial dentro do carro, percebeu que um homem estava sentado no banco de traz do carro, não conseguiu enxergá-lo muito bem, pois a grade de proteção quadriculada impossibilitava uma visão nítida.
Ouvindo a conversa do outro policial no radio o policial Sandro que estava perto da garota direcionou a palavra a ela em um tom de pressa:
— Senhorita, vá para casa sem passar por nenhum outro lugar, seguindo por lugares iluminados e com pessoas por perto, ou talvez ligue para algum familiar de um telefone publico. Peça para que venham te buscar, conte a eles o que aconteceu e amanhã de manhã vá à delegacia e faça um boletim de ocorrência, está certo?
Após o aceno positivo da cabeça da garota, o policial correu em direção ao carro, retornando com a sensação de perigo no jovem que novamente tomou as preocupações da garota, assim mais veloz que o policial que corria para o carro, tentou colocar a mão ligeiramente em seu ombro.
Silêncio.
Parado, o garoto encarava suas mãos, enquanto os policias saiam com o carro em alta velocidade com a sirene ligada. Agora ele não conseguia acreditar no que tinha visto... Sua mão tinha acabado de atravessar o corpo do policial. Então aquela situação fez sentido para si, ninguém estava lhe vendo desde o inicio, sua voz não estava sendo ouvida e sua presença não estava sendo notada. O desespero veio de encontro com seu peito. Gritava na esperança que alguém pudesse lhe ouvir, mas não havia resposta, a garota agia como ele não estivesse ali.
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