Alffs

6 Sonhos e mais sonhos


Abro os olhos e olho em volta, eu estava em um quarto enorme, deitada numa cama de casal, ao lado da cama havia uma escrivaninha com um telefone fixo e um abajur. Em frente a cama havia um computador de mesa antigo. As paredes e o teto eram brancos, clareando o local. Onde eu estava?

Me levanto rapidamente e na mesma hora que desço da cama me arrependo, eu sinto uma dor cortante nas minhas costas e na minha perna, e eu desabo no chão.

—Ai!

A porta do quarto se abre bruscamente e entra correndo uma mulher com no máximo um metro e cinquenta e cinco centímetros, com cabelo vermelho e aparentava ter uns vinte e cinco anos.

—Querida, não se levante assim! -ela diz

Sua voz era doce, nem um pouco enjoativa. Era daquelas vozes de pessoas simpáticas.

—Q-quem é você? -pergunto

Ela tenta me levantar mais eu me arrasto mais para perto da escrivaninha ignorando a dor que sentia. Não sabia quem era aquela mulher e nem onde estava. Na verdade só me lembro do meu nome.

—Eu sou sua tia Gabriela -ela diz gentilmente

As lembranças começam a voltar em minha mente, ela era a irmã mais nova de minha mãe. Minha mãe! A lembrança do incêndio volta a minha mente e meus olhos começam a marejar. Controlo o choro e quando minhas lagrimas secam tia Gabbe me ajuda a levantar. Eu não via a tia Gabbe a uns dez anos, quando ela sumiu misteriosamente.

—Tia, é verdade? -pergunto

—Eu não tenho certeza mas sei que você sabe -ela diz

Olho para tia Gabbe confusa ela sorri gentilmente. Como ela podia estar sorrindo?-me pergunto irritada. Me lembro de Megan e olho ao redor a sua procura. Eu preciso dela mais que tudo nesse momento,espero que ela não esteja longe.

—Onde está a Megan?

—Ela está na cozinha jantando -ela diz -Ela foi menos atingida na explosão do que você.

—Posso me levantar de novo?

—Mas você está mal querida -ela diz -Que tal se eu chamar Megan?

Eu ia protestar quando lembro da dor que eu senti quando eu cai. Aceno concordando e em um segundo tia Gabbe desaparece. Em menos de um segundo Megan vem correndo e pula na cama.

—Você sabe quanto tempo ficou ai? -ela pergunta meio preocupada

—Umas horas -digo sem entender

—Você ficou ai por três dias -ela diz

Fico boquiaberta, parecia que eu havia dormido a tão pouco tempo. Um silêncio repentino tomou conta do lugar. Nós ficávamos olhando o teto branco sem piscar, eu me sentia tão vazia e ao mesmo tempo tão completa. Eu conseguia sentir minha mãe, como uma mãe sente seu filho.

—Sabe, nos últimos dois dias, eu tenho sonhos bizarros -disse Megan quebrando o silêncio

—Sério? Com o que? -pergunto curiosa

Nós sempre contávamos os sonhos uma das outras como passatempo, principalmente quando não tínhamos nada para falar.

—Eu tenho visto um homem, não sei quem ele é mas em todos os sonhos ele dizia a mesma coisa, começava assim: "A carta, a carta, a carta" -ela disse olhando o teto -Foi tudo tão estranho Kat, ele só dizia "a carta!" várias vezes nos dois sonhos.

Reflito no que Megan diz, acho que eu sei do que ela quis dizer mais não me lembro, mesmo me esforçando eu não consigo me lembrar. Meu estômago ronca alto e rapidamente tia Gabbe entra com uma bandeja nas mãos.

—Aqui querida -ela me ajuda a ficar sentada -Você deve estar morrendo de fome.

Sem falar nada, eu começo a devorar a comida e, em menos de dois minutos eu havia comido tudo. A comida estava deliciosa, tia Gabbe cozinhava muito bem. Ela percebe que eu acabei rapidamente e dá um longo sorriso.

—Você estava mesmo com fome querida, daqui a pouco eu vou dormir, não fiquem conversando até tarde.

Tia Gabbe sai do quarto com a bandeja e logo, eu e Megan estávamos sozinhas. Aquilo que Megan me disse ainda estava na minha cabeça, pode ate ser somente um sonho mas por um motivo eu sei que não é apenas um sonho.

Fecho os olhos por um instante e abro novamente.

—Meg, tenho um pressentimento que não é somente um sonho

—Eu tinha certeza que você é inteligente o suficiente para saber. -uma voz conhecida diz

Olho ao redor e acho o homem de olhos vermelhos.

—Quem é você? -pergunto assustada

—Meu nome é Maitilat. Não temos tempo, pegue a carta antes que caia em mãos erradas.

—M-mas, que carta? E onde ela está?

—Você sabe que carta é, ela está aqui na casa de Gabriela -ele diz

—Mas em que lugar da casa está? -pergunto

—Somente você encontrará -ele diz -Preste atenção, o ar, a água e a terra não vai abrir a carta, somente o fogo conseguirá.- ele diz misteriosamente -A carta lhe explicará a maioria das coisas, e eu não posso dizer nada apenas que, se você encontrar a carta e seguir passo a passo, muitas coisas serão esclarecidas e uma recompensa ganhará.

—Recompensa? Por que só eu posso encontrar?

A figura do homem desaparece e eu acordo, Megan não estava mais lá e eu vejo que já é madrugada. Me levanto e vejo que não sinto mais dor, o que me deixa completamente surpresa. Será que aquilo não foi somente um sonho? Será que estou ficando paranoica? Me levanto e percebo que não estou mais dolorida, estava completamente curada!

—Que carta ele estava falan... -cochicho para mim mesma

Antes de terminar a frase eu me lembro de uma coisa: "Abra isso quando for a hora, e eu não estou dizendo a hora que vamos jantar mas sim... Quando te pedirem, abra a carta quando lhe pedirem". A carta que Lucian me entregou, essa é a hora de abri-la! Começo a remexer no quarto da tia Gabbe quando me lembro que a carta havia ficado na minha mochila queimada na minha casa queimada. É impossível abrir uma carta sem ter uma carta. "O jardim"-diz uma voz na minha cabeça. Eu nunca havia estado na casa da tia Gabbe mas não devia ser difícil andar por lá. Sigo o que a voz diz, andando com muito cuidado eu passo pela cozinha e saio para o frio congelante. O jardim da tia Gabbe era enorme, ele cobria toda a casa, e eu nem sabia direito por que eu havia saido. Seguindo meus instintos, eu me caminho para a esquerda e vou para o jardim dos fundos. Atrás da casa era magnifico! Flores de todas as cores e tamanhos, árvores com folhas rosas e uma era até roxa! Me concentro nos meus instintos e me caminho até a árvore roxa, eu fico parada em frente a árvore, estava super frio e eu estava tremendo. Meus instintos diziam para cavar em frente a árvore, ma não tinha nem uma pá por perto. Fecho os olhos para pensar, bem que podia ter alguém para me ajudar a cavar mas provavelmente me chamariam de louca. Me agacho em frente a árvore e fico com o rosto perto da terra.

—Olá!

—Ah! -eu grito caindo de cara no chão com um pouco de lama

Me levanto e olho ao redor para ver se não acordei ninguém. Um menino alto, magro e musculoso estava parado do meu lado. Seu cabelo era preto e seus olhos roxos, parecia ter por volta dos dezessete anos.

—Me desculpe! Você fica uma gracinha com a cara na lama! -ele diz

—Quem é você? -pergunto -O que faz aqui de madrugada?

Ele arqueia uma das sobrancelhas como quem disesse "sério? Olha quem fala" .

—Eu sou Marcel -ele diz sorrindo -Eu não estou realmente aqui.

Ele se aproxima de mim flutuando e dá um sorriso.

—O que você quer? -pergunto assustada -Ou melhor, quem é você?

—Quando você fechou os olhos e pediu para ter alguém aqui, eu apareci. Eu estou na sua mente, isso é somente uma visão que você está tendo.

Visão? Eu acho que com a pancada que recebi da explosão me deixou maluca.

—Se concentre -ele diz

—Me concentrar para que? -pergunto

—Você não quer cavar essa terra dura? Faça o que eu digo.

—Não! -exclamo

—Ah! Então tá...

Ele estava desaparecendo, ele pode ser o único que pode me ajudar agora.

—Não vai!

Ele volta a sua cor normal e dá um sorriso implicante.

—Eu só quero saber, isso é só um sonho certo? Eu estou te imaginando, você não existe certo?

—Existo sim! -ele diz batendo o pé no chão

—Não existe não!

—O que você prefere, que eu estou vivo mas não presente aqui ou que você está maluca? ele pergunta

—Você existe sim! -digo sem conseguir conte o riso -Então, o que eu tenho que fazer?

—Feche os olhos e pense no lugar onde você quer cavar, cave ele no seu pensamento.

—Mas como isso vai me ajudar? -pergunto sem entender

—Só faça.

Fecho os olhos e me concentro no lugar que eu quero que cave, eu penso que eu estou com uma pá cavando o buraco mais e mais fundo. Abro os olhos e vejo o buraco cavado.

—Mas...

—Eu sei que você ainda não entende Katarina, mas não falta muito para você compreender.

—Mãe explique por favor! -digo suplicante

—E-eu não posso, eles não me deixam, eu preciso ir.

Num piscar de olhos ele desaparece completamente. Coloco minha mão dentro do buraco e sinto uma coisa, um papel. Puxo o papel, era o envelope que Lucian me entregara, que salvaria minha vida. Mas como a carta foi parar ali? Ela estava em minha casa na hora do incêndio e eu nem conhecia a casa de tia Gabbe.

Percebo que já tinha movimento nas ruas, pessoas saindo para trabalhar. Entro dentro de casa e vou para o quarto. Apesar de a carta ter ficado de baixo da terra, ela não estava sujo. Num gesto rápido, rasgo o envelope para abrir. Rasgo de novo. De novo. E de novo. Eu rasgo a carta mas ela cola sozinha novamente! O que está acontecendo?

—Já de pé Katarina?

Me assusto e caio da cama, batendo de cara no chão. Ótimo, hoje já mal começou e eu já cai de cara duas vezes.

—Ai querida, tudo bem?

Minha tia Gabbe veio me socorrer. Me levanto e ando pelo quarto.

—Sente-se querida, você está machucada!

—Eu já melhorei tia Gabbe -digo-Preciso ir na Megan, onde ela está?

Ela faz uma careta quando eu digo que estou melhor mas não questiona.

—Vá na cozinha e vire a esquerda.

Saio do quarto e vou a cozinha, viro a esquerda como tia Gabbe havia falado e entro em quarto preto, muito diferente do que eu estava. Mesmo sendo sete horas da manhã, estava tudo escuro e eu enxergava pouca coisa.

—Buu!

Viro-me rapidamente e dou um soco em alguem. Corro e ascendo a luz, Megan estava caida no chão com a mão no rosto.

—Ei, você não sabe brincar mais não?-ela diz se levantando -Era só começar a gritar e se debater.

Dou um riso e mostro ela a carta.

—Essa é aquela que Lucian te deu? -ela pergunta -Essa carta não ficou no... -ela pensa bem em uma palavra bem diferente de incêndio. -Não tinha perdido?

—É, eu sei, eu achei em baixo da terra daqui da casa da tia Gabbe.

—O que? -ela pergunta confusa

Explico tudo para ela, desde os meus sonhos até o Marcel.

—Bem, é só abrir -ela diz

Ela rasga o envelope mas, para variar ela se recoloca novamente e lá estava o envelope totalmente lacrado.

—O que? -ela pergunta assustada

Ela faz de novo e de novo, mas sem conseguir.

—Como isso é possível? -ela pergunta

—Eu não sei.

Ela pensa um pouco e de repente seu rosto se ilumina.

—Esse cara, o Maitilat disse que somente o fogo conseguirá, e eu acho que não é exatamente o fogo. Quando te falam fogo, do que ou melhor, de quem você lembra?

Sem precisar pensar eu já digo.

—Lucian!

Saimos correndo pela porta da frente quando Megan para bruscamente.

—Não acha melhor trocarmos o pijama?-ela pergunta apontando e rindo para meu pijama.

Meu pijama tinha um ursinho lambendo mel e era uma fofura. Aponto língua para ela e vou para meu quarto me arrumar.

***

—Pronta? -Megan pergunta.

Estávamos paradas em frente a casa de Lucian, indecisas de quem vai bater na porta. Concordo com a cabeça e bato na porta. Depois de dois minutos esperando, eu me encosto na porta e olho para Megan irritada.

—Já era, ele não vai abrir.

Megan se vira para olhar ao redor. Repentinamente eu sinto a parede sumir, ou melhor a porta se abrir com força e um abraço forte.

—Você me deve uma princesa gótica -ele diz sorrindo

Ele ainda estava me segurando, meu coração estava a mil. Com um gesto rápido ele me coloca em pé. Eu nunca pensei que falaria isso mas ele estava lindo! Estava com uma camiseta vermelha que deixavam seus musculos a mostra e parecia que havia acabado de tomar banho pois estava todo molhado.

—Preciso de sua ajuda -digo entrando na casa

—Para o que? -ele pergunta curioso

—Preciso que abra uma carta.