O ano é 2064, Jason acorda em sua cama, ele estava suado e com os olhos arregalados, novamente, teve pesadelos. O mesmo que o atormentava há anos na verdade, sobre as coisas horríveis que falam sobre seu pai. Sobre como ele levou, toda uma nave, para a morte certa.

Ele balança a cabeça, se forçando a não se preocupar com tais pensamentos. De pé, o garoto vai para o banheiro e se olha no espelho. Passa a mão em seus cabelos lisos e negros, cortados em um corte militar, e analisa a nova cicatriz, um pequeno corte lateral, em sua bochecha direita, pouco a abaixo de seus olhos castanhos. Seu rosto estava sonolento, mas ainda mostrava seus traços e olhar que eram mais selvagens.

A pequena cicatriz viera de uma pequena placa de metal que se soltou em quanto fazia reparos nos Andadores, na noite passada. Mesmo na pele clara do garoto, a cicatriz era bem visível. Ele sorriu ao lembrar-se da preocupação de Kelly, quando ela viu o sangue em seu rosto.

Logo o aparelho em seu pulso apitou. O sorriso se desfez, ele sabia que aquilo significava problemas.

Escovou os dentes, vestiu calça e camiseta azuis que eram seu uniforme, seu cinto de ferramentas sobre seus ombros, calçou suas botas de trabalho e saiu de sua cabine. Seguiu por um corredor de ferro com diversas portas de outras cabines fechadas. Desceu vários lances de escadas em meio a dezenas de trabalhadores pendurados que soldavam diversos canos de metal ou levavam caixas e peças para cima e para baixo. Logo chegou ao Hangar, seu destino. O lugar era enorme, ao todo vinte e nove naves de reconhecimento eram mantidas ali. Cada uma em frente a uma passagem que se abriria automaticamente assim que a nave fosse liberada para uma missão.

Jason seguiu seu caminho normalmente, passando por entre naves e outros trabalhadores uniformizados, e ao longe ele viu seu destino. Embrenhados nas paredes vinte compartimentos, de um pouco mais de dois metros de comprimento cada um, se encontravam. Cada compartimento tinha a porta transparente e podia-se ver uma grande figura robótica em seu interior. Jason se aproximou do compartimento no final da parede da direita. Em seu interior, um grande robô branco com detalhes em azul e visor vermelho se encontrava.

— Galaxy. — Jason disse baixo e para si mesmo.

Ele olhava a armadura, quase como se fosse hipnotizado por ela.

— Onde você estava?! — Uma voz feminina disse atrás dele.

Jason suspirou e então se virou.

A sua frente, uma garota loira com cabelos compridos e olhos azuis o encarava de braços cruzados. Sua pele parecia brilhar, graças aos poucos raios de sol que adentravam o hangar, pelas portas de saída, abertas, da nave.

— Eu me atrasei, Kelly, foi mal. — Ele disse passando a mão no cabelo e com um sorriso bobo no rosto.

Kelly arqueou uma sobrancelha, ela usava a velha bandana vermelha de sempre para prender seus cabelos, o que tornava impossível não reparar nos traços finos e delicados que moldavam seu rosto. Estava com as mãos sujas de graxa e uma pequena mancha em seu rosto, próximo ao queixo. Jason adorava vê-la assim.

Ela olhou para o rosto de Jason e a raiva sumiu de seu rosto.

— Como está o corte? — Ela perguntou ainda tentando manter o tom de raiva em sua voz.

— Ainda preocupada com isso? — Ele passou os dedos sobre a pequena cicatriz. — Não é nada demais, eu te disse. Não precisa se preocupar.

Ela assentiu com a cabeça.

— Glover está maluco atrás de você! Engie deveria ter saído há uma hora. — Disse Kelly.

Jason se virou, e digitou alguns números em um painel, sobre a porta da cabine em que estava olhando anteriormente.

— Eu sei disso. — Disse ele em um tom de cansaço. — Vou deixar o Galaxy pronto para ser lançado em dez minutos.

Ele olhou para Kelly por cima do ombro.

— Tudo bem?

Kelly fez um movimento com a mão e saiu sem responder.

A porta do compartimento se abriu, a porta se retraiu para as laterais e a armadura foi suavemente à frente. No chão, pequenas comportas se abriram e um pequeno painel se ergueu do chão, ao lado da armadura.

— Ok, vamos acabar logo com isso. — Jason disse, entrelaçou as mãos estalando seus dedos.

Suas mãos voaram sobre o painel, apertando botões uma velocidade incrível. Jason nunca soube ao certo como conseguia se sair tão bem com coisas mecânicas e complicadas. Na grande maioria das vezes, ele apenas deixava suas mãos e sua mente no piloto automático, as ideias vinham e rapidamente ele as executava sem pensar muito em como ou por que, apenas fazia. Logo um compartimento nas costas da armadura se abriu e Jason foi até ele, retirou uma chave de fenda e um alicate de seu cinto e começou a trabalhar. Cortava e emendava fios, realinhava e desmontava pequenas peças de metal a uma velocidade e concentração assustadora.

— Howen! — Uma voz gritou irritada e se aproximando.

Jason, ainda trabalhando na armadura, suspirou. Já sabia que esse seria um longo dia.

— Já estou acabando Sargento! Me de mais alguns minutos e já podemos colocar Engie no Galaxy. — Jason disse sem olhar.

— Mais alguns minutos?! Ah não, por favor, Jason. Demore o tempo que precisar nos atrasou em apenas uma hora. — O tom do sargento transbordava sarcasmo.

Jason finalmente olhou para ele. E viu o Sargento Glover, responsável pelas forças de ataque da nave.

Glover tinha o cabelo escuro em um corte militar, pouco mais baixo e alinhado que os de Jason. Seu rosto era “marcante”, suas expressões eram duras e frias ou então debochadas e irritantes. Seu corpo era de alguém que malha regular e excessivamente, ele estava usando seu uniforme padrão: calças camufladas, botas pretas e lustradas, e uma camisa verde também camuflada. Ele olhou para Jason, com seus pequenos e cinzentos olhos, com o olhar de desprezo, com qual sempre tratava o garoto.

— Sarcasmo logo pela manhã, Sargento? Vá com calma, seus dois neurônios podem não aguentar tanto. — Respondeu Jason com um sorriso debochado.

Ao lado de Glover, estavam outros dois soldados, um em cada lado, e vestidos exatamente como ele. O soldado a sua direita era pálido, seu rosto tinha traços fortes e diversas cicatrizes perto dos olhos, sua cabeça era raspada e, assim como o Sargento, aparentava exagerar na academia e assim que ouviu o deboche de Jason, o fuzilou com os olhos negros como obsidiam. Já o soldado da esquerda tinha a pele um pouco mais escura, e seus cabelos eram um pouco maiores do que o da maioria, chegando a cobrir seus olhos. Ele tinha olhos castanhos claros e sua expressão era amigável, difícil acreditar que ele era um militar. Embora, a primeira vista, estivesse tão em forma quanto qualquer um dos outros dois.

Glover foi em direção a Jason e o puxou pela camisa, fazendo o cinto cair dos ombros do garoto. Jason se debateu em protesto, mas seus um metro e setenta e nove, e o corpo magro nada adiantaram contra a força do Sargento.

— Insolente como sempre. — Resmungou Glover.

Ambos se encararam. Glover nunca gostou de Jason, ele era insolente e pouco compromissado. Tentou fazer o teste para soldado mais do que cinco vezes, mas ele nunca passou da primeira fase. Ele era fraco, desmotivado e insubordinado. Mas o que Glover mais odiava no garoto, era esse seu estranho olhar. O olhar que Jason fazia quando estava com raiva, era um olhar selvagem, descontrolado e sem nenhum pingo de obediência, ele carregava esse olhar desde que era apenas uma criança, e mesmo agora com dezoito anos ainda o mantinha. Era tudo o que o Sargento mais odiava no garoto.

— Se não quiser que eu concerte o Galaxy, é só dizer! Tenho certeza que o General Antônio vai ficar feliz com isso. — Disse Jason sorrindo.

Glover se enfureceu, aquele garoto o encarando e sorrindo daquela maneira? Era demais pra ele.

— Ora seu! — O Sargento avançou contra o garoto.

Antes que o punho de Glover atingisse Jason, alguém segurou o braço do Sargento.

Jason olhou para cima e viu o soldado que estava à esquerda de Glover, seu amigo e piloto do Galaxy, Engie, segurando o braço de seu superior.

“Ufa!” Pensou Jason.

O olhar de Glover para Engie era de surpresa.

— Oqu-o que você pensa que está fazendo?! — Berrou o Sargento que moveu seu braço e afastou Engie.

— Senhor, por favor, me escute.- Engie disse com tamanha calma que até Jason parecia impressionado. — Precisamos do Galaxy pronto logo, como o senhor mesmo disse, a patrulha está atrasada em uma hora. Bater em Jason só vai atrasar as coisas ainda mais, e causar conflitos desnecessários, por favor, peço que releve.

Engie tinha jeito com as palavras, qualquer um ali admitiria. Até mesmo Jason estava pensando em se desculpar, mas esse pensamento logo deixou sua cabeça.

— Acho... acho que você esta certo, soldado. — Disse Glover, tentando analisar a situação.

Ele olhou feio para Jason.

— Eu quero o Galaxy no ar. Você tem dez minutos. — O tom do Sargento era frio e sério. -Certifique-se que ele termine rápido e depois reúna sua equipe.

Engie assentiu.

Glover, e seu outro soldado, deram meia volta e se afastaram.

Engie suspirou quando eles se afastaram.

— Quando você vai aprender? — Ele perguntou para o amigo sorrindo.

— Ah! Agora a culpa é minha? — Jason retrucou sorrindo.

Engie revirou os olhos.

— Cara é tão difícil obedecer às pessoas?

— Tenho sérias duvidas se o Glover é uma pessoa, ou um ciborgue movido a whey protein. -Jason coçava o queixo, de forma pensativa, quando respondeu.

Engie não conseguiu não rir.

— Ah, um dia você vai se ferrar muito e sabe disso, não é?

Jason deu de ombros.

— Quando esse dia chegar, ai você pode me dizer: “Eu te avisei.”

Ambos se aproximaram do Galaxy. Jason continuou seu trabalho e enquanto conversava com Engie.

— Como você sabe o que fazer com essas coisas? — Perguntou Engie.

— Não sei. — Disse Jason com sinceridade. — Acho que é do mesmo jeito que você sabe pilotar essa coisa.

— Pode ser. — Disse Engie pensativo. — Kelly me disse que você tinha se machucado ontem.

Jason suspirou.

— É sério que ela disse isso?

— Sim, por quê?

Jason apontou para a pequena cicatriz, próxima a seu olho direito.

— Ah. — Engie entendeu e começou a rir. — Ela se preocupa com você, sabia?

— Eu sei. Ela é meio exagerada às vezes. — Jason não olhou para Engie enquanto falava.

— Hã. Não foi exatamente isso que eu quis dizer. — Engie insistiu.

Jason sentiu um arrepio na espinha e deixou a chave de fenda cair. Sua cabeça estava entrando em curto, tentando assimilar o concerto do Galaxy e as incontáveis imagens de Kelly que vinham a sua cabeça. Não era surpresa isso acontecer, Jason tem uma queda por Kelly desde os dez anos de idade, mas ele se achava medroso demais para tentar alguma coisa.

Ouvir de Engie, seu melhor amigo e grande amigo de Kelly também, que ela “se preocupava” foi o suficiente para fazer o garoto ter um pequeno colapso.

— Hã... tá tudo bem cara? — Engie perguntou.

“Qual é! Recomponha-se Jason!” — Ele disse para si mesmo.

— Tá, tá tudo bem sim. — Ele disse pegando a chave de fenda do chão.

Jason começou a trabalhar mais rápido, não queria ter outro momento como esse na frente de Engie. Mais alguns minutos se passaram e estava acabado.

O rosto de Jason estava coberto de manchas de graxa e suas mãos de pequenos cortes. (Quando ele se desconcentrava, encostava-se a em alguns fios desencapados)

— Muito bem. Está pronto! — Anunciou Jason, limpando as mãos.

— Certo, vou reunir o pessoal. Você monitora o Galaxy? — Perguntou Engie.

Os Andadores eram armaduras de combate com vários recursos, era muito para alguém fazer tudo sozinho. Por isso um Andador depende de duas pessoas: O piloto, que controla os movimentos e toma as decisões. E o controlador, é quem controla os níveis de energia da armadura, habilita armamentos, e ajuda a criar estratégias.

Uma vez que, Jason e Engie, construíram o Galaxy juntos apenas eles podem pilota-lo ou monitora-lo da maneira correta.

— Claro. Não vou deixar você destruí-lo de novo tão rápido. — Respondeu Jason.

— Bem ent — Engie foi interrompido pelos sinais de alarme do hangar.

Uma sirene estridente cujo som anunciava a pior das noticias. Eles estavam sobre ataque.