Entraram em um café não muito longe de onde Alexa havia derrubado o tal homem narigudo cujo nome ainda não havia sido mencionado uma segunda vez.
– O que vão querer?
A garçonete usando um uniforme rosa bebê mastigava um chiclete e estava com os cabelos tingidos de loiro presos em um coque extremamente largado. A junção de tudo isso enojava a garota sentada na mesa, mas considerando que estava suja, com os cabelos desgrenhados com as raízes mostrando sua cor natural e provavelmente fedendo ela tomou a sábia decisão de permanecer calada.
– Panquecas, por favor. Com muita calda. – O homem pediu e olhou para a ruiva ao acrescentar o pedido de calda extra.
Se ele achava que poderia comprar Alexa Beatintense com comida... ele estava muito certo.
– Bom, vamos começar novamente, certo? – ele voltou a sorrir – Como você deve se lembrar, meu nome é Jason Arch e estou aqui representando a Academia Woodhand para alunos excepcionais.
– E você é tipo o que? Tipo, achando moradores de rua e simplesmente dando vagas em escolar para gente nerd?
– B-bom, não é bem assim, eu... Ai, eu sou mesmo um desastre – disse ele rindo.
Isso lá era motivo para rir? Essa felicidade toda irritava a garota mais do que a garçonete e seu uniforme rosa.
– Ok, calma, vamos seguir o script, Jason, fale o que devia.
Agora ele estava falando consigo mesmo.... Ela pensou em sair correndo, mas suas panquecas ainda não haviam chegado e sua barriga roncava mandando-a esperar. Maldita loira que não trazia logo sua comida.
– Ahm, Jason... – Chamou ela – Fala tudo logo de uma vez.
– Certo. Eu sou um Detector. Eu detecto jovens especiais como você! Eu não sei se devo jogar tudo em você assim, mas você é especial, Alexa... Sei que passou por muita coisa, sei que fugiu do orfanato com apenas dez anos! E sei que semana passada foi seu aniversário.
Dizendo isso ele retirou um pequeno pacote da maleta que ela ainda não havia notado que estava ali. Um presente...? Não. Ela nunca recebia presentes.
– Pegue, vamos, é pelo seu aniversário.
Ainda incerta ela esticou a mão e apanhou o embrulho rasgando o papel e vendo uma caixa de veludo.
– Lisonjeada, mas não estou atrás de compromisso – disse ela fazendo o homem rir.
– Claro que não é isso! Vamos, abra logo!
Ao abrir ela se deparou com dois belos piercings de argola, perfeitos para os furos que ela havia feito dois anos atrás na cartilagem da orelha direita.
– Eu sei que os seus não são nem ao menos piercings de verdade, só uns pedaços de ferro que achou por ai...
– Ok, escuta – disse ela abaixando o presente – como sabe tanto sobre minha vida, Arch?
– B-bom, como eu disse, sou seu detector... Tive que te observar por algum tempo, bem pouco, juro! Mas eu acabei prestando atenção na sua orelha, já que você não tem furos como todas as garotas, mas tem esse piercing duplo. Isso me chamou a atenção e da pra ver claramente que isso não é de verdade, só um pedaço de lixo e...
– Chega! Você me segue, me espiona e quer me sequestrar, até onde sei! Saiba que se estou aqui até agora é por que nossa garçonete é péssima e ainda não trouxe nosso pedido! Pra falar a verdade, panquecas não valem isso, então estou indo!
Assim que a garota se levantou, pronta para jogar o presente no homem, a garçonete chegou colocando o prato gigantesco de panquecas pingando calda bem no meio da mesa e para completar um pode extra lotado da substancia viscosa.
– Panquecas com calda extra ganham um Milk Shake, me avisem quando quiserem. – dizendo isso se afastou sem esperar resposta.
Sentou-se novamente sem dizer uma palavra se quer e puxou o prato em sua direção, não deixando espaço para o Detector comer mesmo se tentasse.
– Você tem até eu terminar minhas panquecas, magrelo.
O homem pareceu momentaneamente perplexo, ou pelo ataque repentino ou por não ser tão magro assim, afinal. Era um homem normal, até onde podia ver. Antes que seu objetivo ali terminasse de comer, o que se baseando na rapidez com que o fazia não iria demorar, ele voltou a falar.
– Bom, eu não vou lhe sequestrar! É uma escola real! Lá você terá aulas de diversas lutas, duelos, desafios, competições, tudo o que um heró... Bom, tudo o que você pode querer. Também algumas aulas de historia, mas garanto que com os colegas que terá, não serão aulas comuns.
– Quer saber, J? – disse ela já na ultima panqueca – Eu vou ficar com o presente e declinar gentilmente sua proposta.
Sorriu imitando-o, claramente fazendo graça do modo como falava e agia, e levantou-se indo até a porta.
– Pode ficar com o Milk Shake! – gritou já do lado de fora.
Hunf! “Woodhand”, ta bom. Ela não tinha nada de excepcional, não via motivos para um engomadinho tentar leva-la para uma escola ou para tal escola ter aulas assim. Mas admitia que seria um sonho... Retirou os piercings da caixa jogando-a em qualquer lugar da rua e levando as mãos até a orelha direita, retirou os dois pedaços de arame que usava para manter seus furos abertos substituindo-os pelas pequenas argolas de prata. É, provavelmente estava bom, mas só saberia quando achasse algum lugar para ver o próprio reflexo. Será que queria mesmo fazer isso...?
Com os pensamentos conturbados voltou a descer a rua cuja desembocadura dava em uma avenida larga e muito movimentada. Pessoas, eca. Alexa odiava pessoas (andando por ai sorrindo para todos e sendo simpáticas) com todas as forças do seu ser, forças essas que pareciam estar cada vez maiores, na verdade. Virou uma rua antes para evitar o contato com a felicidade alheia causada pela praga que chamavam de compras e se encontrou em um lugar escondido entre dois grandes prédios espremidos muito próximos um ao outro. A temperaura ali estava melhor, graças a certa umidade e sombra causada pelas toneladas de concreto e o cheiro era uma mistura de xorume e cachorro molhado. Melhor ali do que em meio ao som de risadas e conversinhas na avenida cerca de 100 metros abaixo. Em passos confiantes aprofundou-se na selva de concreto sem medo do que poderia estar a aguardando, até por que bem sabia ela que na maior parte das vezes não havia nada, principalmente a essa hora da manhã. Mas como seu dia estava propícios a eventos surpreendentes e irritantes ela esbarrou com um conhecido que, se fosse por ela, nunca mais deveria ter encontrado.
– Juan – Disse entre dentes.
– Ora, se não é minha ruivinha favorita! Não me deve algo, garota?
O homem era cerca de três centímetros mais baixo que Alexa, tinha a barriga saliente e cheia de pelos para compensar a falta dos mesmos em cima de sua cabeça. A boca faltando cerca de 4 dentes e fedendo a churrasco de gato completava a obra de arte que era Juan Ortega.
Antes que pudesse responder ouviu o som de freios e a porta de um carro se abrindo e, ao olhar para trás, avistou Jason saindo de um Santana branco e andando em sua direção.
– Só pode ser brincadeira... – murmurou.
– Ei, Narigón, melhor sair se não quiser encrenca!
– J, saia já daqui! – disse Alexa com raiva.
Estava prestes a arrebentar a cara de Juan quando surgiu o alto e magro conhecido que ela tanto desejava que desaparecesse.
– Alexa, venha comigo, por favor, eu...
– Oe, Narigón? Não me escutou não? Essa garota está me devendo!
– Escute, seja o que for, eu pago. Faça o favor de deixar ela em paz.
Juan começou a rir a plenos pulmões e de trás de uma lixeira mais ao fundo saíram dois homens com os mesmos 1,85 que parecia ter Jason, mas cada um com pelo menos o dobro da largura dele. Alexa revirou os olhos.
– Não há necessidade para violência, eu vou pagar o que ela deve.
– Sem problemas para mim, Narigón.
Alexa levantou uma única sobrancelha para Juan que apenas deu de ombros e começou a ir em direção à Jason.
– Tire as calças.
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