Alegria

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Espero que gostem, boa leitura!

Quando minha mãe me deu a noticia apenas confirmando minhas expectativas não fiz nada além de encarar a parede daquela casa enorme esperando que tudo aquilo fosse apenas um péssimo pesadelo. Eu queria dizer que sentia muito por ela e que no futuro iriam se arrepender, mas meu egoísmo foi mais forte e eu pensei apenas em mim e em como tudo aquilo era culpa dela.

Estávamos na Alemanha em 1930 e minha mãe era contra o governo da época o que, como qualquer um pode imaginar, era simplesmente péssimo. É claro que ninguém pretendia matá-la por simplesmente ser contra, mas quando ela passou totalmente dos limites fazendo protestos contra, começaram a se irritar.

- Brasil?

- Brasil. — ela repetiu — Quando a guerra começar, o que nós sabemos que vai acontecer, o melhor é ficar bem longe daqui e de todo esse povo.

Ela falava do "povo" como se não fizéssemos parte dele. Eu também era alemã, eu também era bem loira e tinha a pele bem clara, mas ela quase nunca parava para pensar naquilo. Tudo o que importava era contrapor-se. Sempre.

Como se não fosse ruim o suficiente ter que largar meu país, também teria que largar Josh. Meu único amigo — se é que podia chamar ele assim -, o único que se preocupava de verdade comigo e passava as noites em claro me ouvindo chorar e me abraçando quando meu corpo tremia de frio. Esperei minha mãe sair do quarto para pegar uma pequena caixinha fechada com um cadeado. Tirei a chave do bolso e a abri fazendo um enorme esforço para não chorar.

Eles — os homens que odiavam minha mãe — cortaram nosso telefone e luz, o que significava que eu só podia falar com Josh pessoalmente, mas contar pessoalmente para ele que minha mãe tinha apanhado no mercado era ruim demais. Então tivemos a ideia da caixinha: escrevíamos tudo o que não conseguíamos falar pessoalmente em uma carta e a colocávamos na caixinha trancada e entregávamos um para o outro.

Peguei uma caneta e arranquei uma folha de meu caderno quase vazio.

"Josh, eu sinto muito. Talvez você não entenda, mas eu estou realmente triste no fundo. Eu não quero perder minha mãe e muito menos você, mas é o que precisa ser feito.

Você me mostrou muitas coisas e eu prometo nunca esquecer uma única palavra dita. Eu entendo seu lado, entendo o que você acha de tudo isso, mas você não pode simplesmente me obrigar a concordar com isso.

Até onde nós vamos por amor? O que nós faríamos por amor? Eu tive muito tempo para pensar e descobri que faria absolutamente qualquer coisa. Não pensei que eu não te amo, pois eu amo, mas... Você sabe que isso não é suficiente.

Alemanha. Nazistas. Hitler. Disseram que o amor é cego e agora eu compreendo isso muito bem. Podemos facilmente amar quem destruiu nossas vidas porque nosso coração não se importa com isso. Eu não tive a infância com qual sempre sonhei, não estou tento a adolescência perfeita, minha mãe está destruída e mesmo assim eu continuo os amando. Eu amo suas palavras, amo suas caras, amo seus atos e o amo. Além dele, amo também quem o segue, pois não posso negar também ser uma seguidora. Porém, o que eu mais amo é a Alemanha. Não consigo me ver morando em outro lugar sem ser aqui, não consigo pensar em um paraíso melhor que esse.

Espero que um dia você possa me perdoar por isso, de verdade. Não consigo me colocar em seu lugar, pois não consigo te entender plenamente e você sabe. Um dia, talvez, quando você estiver morrendo, você me perdoe. Um dia, talvez, você se lembre de mim e sorria. Ou talvez isso seja só mais um sonho estúpido.

Eu falei com os homens antes mesmo de minha mãe confirmar, pois era o que estava previsto. Por favor, não vá. Não quero te ver lá, falo sério. Preciso ser fria nesse momento Josh, e você não me ajudará nem um pouco com isso. Eu preciso agora, mais do que nunca, ser alemã.

Enquanto você está lendo isso eu estou com minha mãe indo pegar um avião que nos levará para o Brasil, ou pelo menos é o que ela acha. É muito fácil adivinhar o que você está pensando nesse momento, sabe? Eu até consigo ouvir sua voz me dizendo que eu sou uma péssima pessoa, e, acima de tudo, uma péssima filha. E talvez eu seja isso mesmo, mas pelo visto meu amor por esse país é maior do que o meu próprio.

Não quero terminar essa carta, Josh. Eu sempre consegui escrever coisas difíceis, mas dessa vez parece impossível. Eu não vou terminar essa carta. Eu vou simplesmente...”

Terminei de escrever a carta daquela forma mesmo e percebi que meu rosto estava molhado. Olhei para os lados e vi que não havia ninguém lá, a porta ainda estava fechada. Olhei de volta para a carta e a dobrei no meio para que coubesse na caixinha. Coloquei-a lá dentro e depois fechei a tampa junto com o cadeado. Ele provavelmente viria no dia seguinte para me ver e, quando visse que eu não estava mais ali, a primeira coisa que iria fazer seria olhar a caixinha.

- Filha? – minha mãe chamou da sala.

Suspirei fundo ao ouvir sua voz. Eu era realmente um ser horrível, um ser horrível que amava pessoas horríveis e um país horrível.

- Sim?

Silêncio. E mais silêncio. Pelo o que conhecia dela sabia que estava pensando no que dizer, e sabia também que no final ela não saberia o que dizer e esperava que eu pudesse dizer por ela. Era sempre assim.

Abri a porta do quarto e a vi jogada em um canto do sofá com os olhos tristes, mas, como sempre, não chorando. Só vi minha mãe chorando uma vez na vida: quando meu pai morreu e disseram que ela não tinha condições de cuidar de mim.

- Que horas nós vamos amanhã? – perguntei fingindo que não sabia a resposta.

- Eu te disse, não disse? Vamos sair assim que o Sol nascer. Se o Sol nascer, porque eu não duvido nada que aquele traste acabe com o Sol também! – ela disse com raiva.

- Mãe! Chega, okay? Estamos indo embora, isso não é suficiente para você?

Fiquei a encarando esperando que a raiva sumisse de seus olhos, mas como aquilo não aconteceu então simplesmente me virei e voltei para o meu quarto. Joguei-me na cama e encarei o teto tentando dormir, mas minha preocupação era demais para simplesmente fechar os olhos e relaxar.

Arranquei mais uma folha do caderno e decidi deixar outra carta na caixinha, mas aquela não era para Josh.

“Mãe, eu não vou te pedir desculpas, pois sei que você nunca irá me perdoar. Também não vou dizer que me arrependo, porque não é verdade. E, nessa carta, prometo não escrever nada além da verdade.

Eu não sei onde você está nesse momento e espero que possa ler essa carta. Talvez você nunca ponha as mãos nesse papel, e isso seria algo tão ruim que eu não posso me dar o luxo de pensar. Nesse momento, não posso pensar em nada que não seja o lado positivo de tudo isso.

Eu te amo. Eu te amo de verdade, mãe. Eu queria poder fugir de tudo isso com você e viver a vida que sempre sonhamos, mas ambas sabemos que isso não é possível. Como eu posso te explicar isso de forma que você entenda? Meu amor por esse país e meu desejo de purificá-lo é maior do que tudo.

Seria bom se você tentasse falar com Josh, mas tenho quase certeza que eles descobrirão, então tudo será pior e você pode até arranjar problemas para ele. Só... Tente se manter viva, tudo bem? Eu prometo que farei de tudo para buscar você.

O motivo de eu estar fazendo isso não é apenas porque você está atrapalhando parte do nosso desenvolvimento, mas porque você é meu passe para estar onde eu sempre quis estar. Eu estarei com eles, eu os apoiarei e quem sabe no futuro ser alguém de confiança deles; quando isso acontecer eu prometo que vou buscar você, mãe, eu prometo.

Eu te amo. Mantenha-se viva.”

Terminei a carta e a guardei na caixinha com pressa, pois não estava mais aguentando de sono. Finalmente consegui relaxar e não podia desperdiçar aquele cansaço, pois sabia que após alguns minutos pensando no dia seguinte ele iria embora.

~~~~~~~~~~~ 30 anos depois ~~~~~~~~~~~~~~~~

Empurrei a cortina para o lado e encarei a paisagem da janela sem a abrir. O clima em São Paulo era terrível. A garoa era constante e o frio vinha acompanhado de uma terrível umidade; já no verão o Sol não durava muito tempo, as noites eram maravilhosas e o clima seco parecia fazer todos passarem mal.

Como eu havia chegado ali? Brasil. Brasil, o país que eu nunca gostei. Brasil, o país que não nos ajudou quando estávamos perdidos, mas ao mesmo tempo o país que não tinha direito de ir contra. Sempre os vi como os excluídos, e lá estava eu: excluída do resto do mundo em um lugar simplesmente insuportável.

Quando olho para trás me arrependo de um número maior de coisas do que uma pessoa normal, mas também vejo que fui muito mais alegre durante uma época do que uma pessoa normal. No fundo eu já sabia que aquilo viria a acontecer. Eu sabia que nenhuma alegria era eterna e aquela não seria a exceção. Eu assinei embaixo do acordo que diz “essa alegria é passageira, mas o sofrimento será eterno”. Eu fiz minha decisão.

Minha mãe foi morta dois dias depois daquilo. Passei duas semanas chorando trancada em um quarto de um orfanato horrível até que alguns homens vieram me buscar. Era tudo o que eu queria, mas não parecia valer a pena. Meu plano era salvá-la depois e viver uma vida como a que sempre sonhamos. Infelizmente, eu só fui descobrir bem mais tarde que a vida que sempre sonhamos era uma em que estivéssemos juntas não importava em que situação.

Josh sumiu. Simplesmente desapareceu. Como eu já esperava, ele foi teimoso e corajoso o suficiente para ir até o lugar marcado. Eu o vi enquanto passava pela multidão de pessoas com um homem em volta de mim. A cara dele quando me viu foi a segunda pior que eu já vira na vida – a primeira foi a cara que minha mãe fez quando estava sendo levada. Ele me olhou com puro desprezo e eu já esperava aquilo dele, mas doeu da mesma forma. Depois tentei procurá-lo, mas ninguém sabia dele há anos. Ele foi dado como desaparecido.

E eu? Eu perdi junto com a Alemanha. Eu perdi junto com Hitler. Eu perdi junto com os nazistas. Perdi a guerra, perdi a vontade de continuar lutando por aquilo tudo, perdi minha mãe, perdi Josh, e perdi minha sanidade. Minha cabeça não funcionava bem quando eu tomei aquela terrível decisão, eu tinha certeza, mas acontece que a coisa piorou ao longo tempo. Minha cabeça estava tão confusa... Milhares de pensamentos passavam por ela e meus sentimentos mudavam a toda hora. Eu lembrava meus anos de alegria e glória na Alemanha e me sentia bem novamente. Eu lembrava a morte de todas aquelas pessoas – incluindo minha mãe e possivelmente Josh – e me sentia suja. Se sentir dessas duas formas ao mesmo tempo me enlouquecia.

O que eu iria fazer? Para onde eu iria? Eu poderia me matar, mas não tinha tanto ódio da vida. Eu poderia fugir, mas não tinha para onde ir e nem necessidade de fazer tal coisa. Eu poderia simplesmente voltar para minha cadeira e continuar a tentar escrever a única coisa que me mantinha viva; as pessoas pagavam caro por livros que contam o que aconteceu por alguém de dentro e de confiança do Fúria.

Fiz minhas escolhas e sei que as fiz errado. Troquei minha felicidade estável – algo que deve ser muito bem preservado, pois é raro – por um período de sorrisos e alegria. Pensei que estava trocando minha pequena felicidade por uma ainda maior, mas descobri depois que aqueles anos foram marcados por alegria, e alegria não é sinônimo de felicidade.

Notas finais
E aí? O que acharam? Comentem, por favor, quero saber o que vocês acharam.
Beijos, até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!