Alderann

6 Capítulo 6 - Julio


Notas iniciais
Os gnomos são conhecidos por sua alegria e gosto para festas e mais ainda pela sua curiosidade. Julio é um colecionador de histórias - SUAS histórias. Seu grande sonho é ser cantado como herói em contos de outros bardos pelo mundo inteiro, e para isso ele sabe que precisa realizar grandes feitos. O resultado disso é que ele quase sempre conta e reconta as mesmas histórias sobre si mesmo, quase sempre com algo a mais para engrandecer seus próprios atos – como o clássico em que ele diz ter matado sete reis-orcs montados em escorpiões-gigantes sobre um verme-púrpura do deserto. Seu amigo Ellons’mir costuma desmentir essa versão dizendo que ele na verdade desmaiou ao ver um escorpião comum andar na sua direção. Seja como for, o elfo é o único que consegue passar mais de cinco minutos na companhia do gnomo.

Aldina estava impaciente. A relutância de seus subordinados em prosseguir com a perseguição às bandidas Ishtah e Celéstiah, mesmo em campo aberto e com suprimentos de sobra recém-coletados de algumas aldeias e fazendas – obviamente com o consentimento e colaboração de seus respectivos donos, ainda que intimidados tanto pelas impressionantes armaduras e armas do grupo de capitães quanto pelo não tão impressionante mas igualmente intimidador emblema da cidade de Misk em cada uma delas – fazia mais do que o suficiente para agravar a sua crescente inquietude. Ellons’mir, o hábil caçador elfo que vinha ajudando-os a seguir os rastros das duas há dias, também achara prudente parar para descansar. Seu bom-senso dizia que não seria uma boa ideia forçar a marcha para encontra-las sem que os homens tivessem em condições de captura-las. Estavam há dias caminhando e afastando-se da cidade, e apesar dos sinais encontrados por ele estarem cada vez mais recentes – e consequentemente estarem cada vez mais próximos – ainda não havia nenhum indício de que as bandidas tenham notado sua aproximação.

O bruxulear da chama da fogueira faz as sombras de todos dançarem no chão. Os homens da Guarda dormem profundamente no solo coberto pela relva, e mesmo Ellons’mir, o caçador elfo, aproveita o pequeno intervalo na busca para renovar suas energias, entrando no característico transe contemplativo élfico. Nesse estado, segundo os próprios elfos, a mente desliga-se parcialmente do corpo e a consciência pode vagar livremente dentro de si mesma e expandir-se a ponto de todos os pensamentos comunicarem-se entre si de forma harmônica, provocando um nível de entendimento e paz interior quase sobrenaturais. Em outras palavras, é como ter uma noite decente de sono. Apenas Aldina e Julio, o bardo gnomo, permanecem acordados. A primeira olhando fixamente para o fogo crepitando ao centro do acampamento, o segundo olhando fixamente para ela. Ao notar que está sendo observada, a Dama dos Cavaleiros devolve-lhe um olhar severo, porém hesitante.

– Não consegue dormir também, bardo? – Aldina quebra o silêncio.

– Não preciso. Gnomos não dormem senão uma vez por semana – Julio saca seu bandolim e começa a afinar-lhe as cordas – Além disso, essa é a hora mais inspiradora para uma boa mús...

– Agora não – ela interrompe – Estão todos dormindo. Com todo o respeito, se for para descansarem, é melhor que o façam sem que sejam incomodados.

– Mas eu...

– Agora não.

– ...está bem então...

– Obrigada.

Silêncio constrangedor.

– Não quer ao menos ouvir uma história?

– Não.

– Um conto, quem sabe?

– Não.

– Uma fofoca?...

– Já disse que não.

– E que tal uma...

– NÃO! – Aldina tapa a boca, numa reação quase infantil. Olha para os outros integrantes do pequeno grupo e, como ninguém esboçasse reação, expira com certo alívio, fulminando o gnomo com um olhar hostil em seguida – Pare com isso, é irritante.

– É só concordar em ouvir algo, ué.

Aldina leva a mão à testa e a faz escorregar rosto abaixo, transtornada.

– Eu devia prendê-lo numa masmorra por me desacatar. Vá em frente, conte sua maldita história...

– Obrigado, milady. Tentarei ser breve.

A Dama revira os olhos e respira fundo, já enfadada. Tentando achar o lado positivo da situação, ela conclui que se a história do gnomo fosse ruim o suficiente, conseguiria ao menos fazê-la cair no sono. Então, Julio continua:

– Todos sabem que os elfos possuem um costume quase religioso, que em sua língua chamam de “A Jornada”. Consiste em nada mais do que, ao menos uma vez na sua longa vida, viajar pelo mundo durante pelo menos uma década em busca de autoperfeição e essas coisas esotéricas em que eles acreditam, e depois retornar a seu lar. Bem, nosso amigo Ellon aqui está entre vocês humanos já há um bom tempo e é um exemplo disso, mas não é dele que quero falar. Na verdade, a história é sobre sua soberana direta, que até hoje vive nos bosques da Deusa, na cidadela élfica de Anadyr.
Contam os bardos que em sua jornada a Princesa Élfica veio às terras de Misk algumas décadas atrás. Isso, essa mesma cidade de onde vocês vieram há alguns dias. Não tratava-se de uma ‘visita oficial’, como suas autoridades gostam de chamar quando alguém importante resolve aparecer, mas ela foi recebida pessoalmente pelo Duque Haroldo Tem-mel e...

– Harold Themel – corrigiu Aldina.

– Sim, sim, o Duque de Misk. De todo modo, apesar de ter vindo sozinha e sob mantos e disfarces, ela fora reconhecida e trazida à casa e presença do nobre governante, ainda moço naquela época, e lá serviram-lhe banquetes, ofereceram-lhe canções e muitos outros presentes. Conta-se também que apesar da recepção, a princesa aparentava estar menos do que impressionada, e então o Duque pediu ao seu mago-conselheiro, o qual chamava-se Lebrun, para entretê-la. Ora, encantado com a beleza da donzela, ele tentou enfeitiça-la em meio aos seus truques, mas mal sabia ele que a princesa também era versada nas artes arcanas; Lebrun sofreu grande humilhação diante de toda a corte de nobres como castigo, mas o que exatamente aconteceu naquela noite ainda é controverso. Uns dizem que o feitiço virou-se contra o feiticeiro e ele acabou enfeitiçado por si mesmo, tendo desistido de tudo para viver em isolamento consigo mesmo; outros dizem que o feitiço se voltou contra o Duque e este provocou a fuga do mago após tentar beijá-lo à força; e há ainda a versão de que o próprio Duque, ao perceber a artimanha do mago e como também fora tomado pelos encantos da nobre elfa, mandou-o para o exílio e assim tentou corteja-la. Como se sabe, e ao que parece, seu intento não deu certo...

– E daí? – pergunta Aldina, sem demonstrar interesse.

– Daí que a história termina assim...

– Ótimo.

– Não quer ouvir como...

– Não.

– Nem se...

– Não. E se insistir, amarrarei você em meu saco de dormir e o pendurarei nesta árvore.

– Está bem, está bem... Não vou mais insistir.

– Ótimo.

– ... mas eu ainda quero contar sobre...

Na aurora seguinte, já devidamente descansados, os capitães despertam com o cheiro da comida preparada pelo caçador elfo. Ellons’mir havia “acordado” mais cedo e havia conseguido duas lebres, agora fritas na chama da fogueira e servidas em folhas grandes ao redor desta. Apesar de ter achado estranho o saco de dormir pendurado na árvore onde repousava a senhorita Aldina antes de deixar o acampamento, o elfo não deu muita atenção ao fato – sobretudo depois de ouvir a voz do gnomo saindo de dentro do saco – e deixou o acampamento para caçar a refeição matinal. Ficou surpreso ao deparar-se com uma maçã mordida junto a pequenas tiras de pano manchadas de sangue – estavam realmente mais perto do que ele imaginava – e com a direção que haviam tomado. Permaneceu em silêncio, mesmo quando todos estavam despertos e aproveitando o desjejum que acabara de preparar. Não queria alarmá-los nem apressá-los. Pelo menos não a essa hora da manhã.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.