Alcuhuati
2 O Mago
Notas iniciais

Os sinos da cidade soavam pela visita. A cidade havia trocado aquela aparência sofrida por um ar de comemoração. Estavam sentindo-se honrados, e por aquele momento esqueceram-se de todas as vítimas e a história envolvendo a tal aberração. A comemoração por sua chegada fora tanta que simplesmente ignoraram o motivo por ele estar ali. Ele caminhava. Vestia túnicas azuis escuras embaixo de um manto preto. Sua face ficava tapada pelo capuz, mas mesmo assim ele não precisava de nem uma palavra para saberem quem era.
Crianças vinham em sua direção. Logo repreendidas pelos pais por estarem incomodando-o. Ele seguiu reto, à cada respirada sentia um imenso desconforto em sua face graças ao ar frio que exalava de sua boca. Não perdia tempo analisando a cidade em sua volta. Seguiu uma estreita rua até chegar no edifício principal da cidade. Os trabalhadores de lá, apesar de tudo, não ficaram surpresos. Pois já haviam sido noticiados. Ele se dirigiu a alguém que sentava em torno de balcões em plena recepção. Deve ser o responsável pelos quartos, pensou.
–Acho que já deve saber...
O homem, eufórico, começara a falar coisas que ele nem ouvira. Após pegar a chave e ignorar seu papo furado, ajeitou seu quarto expulsando qualquer tipo de serviçal.
Começara tirando a trouxa que levava por entre o manto e largar ao lado da cama. Esta que parecia extremamente confortável, o mínimo que deveriam ter feito.
Depois organizou um mapa da região perto de Ch'Tarael. Havia tudo exatamente como era, desde o rio já seco loteado de cavernas às planícies sem vegetação que cercavam as muralhas. Estas que deveriam estar cobertas de neve. Mas ele, não sabia nada sobre a região e expulsara qualquer homem que poderia falar, assim como não dera ouvidos à história contada pelo recepcionista e trancou a porta para ninguém o perturbar. Retirou seu capuz revelando seu rosto. Longos cabelos de um tom similar à bege acompanhados com uma barba mal cortada. Aparentava estar perto dos quarenta. Tirou seus sapatos, extremamente gastos pelo fato de passar dias caminhando sem sequer um cavalo, este que fugira no seu ultimo trabalho. Ajeitou-se na cama e adormeceu. Havia dormido por sete horas quando finalmente sucumbiu às batidas da porta, elas que quebraram todo o silêncio e logo assim seu conforto.
Levantou-se da cama, abriu a porta ainda vestindo as túnicas e fitou os homens. Vestiam armaduras da guarda real com as siglas S.I.P.S.S. Ao velos, deduzira rapidamente que eram novatos. Mas o homem que os acompanhava, este ele pode sentir que não era qualquer um. Não teve nada haver com magia nem nada, simplesmente as roupas que trajava eram nobres demais e todas uma mistura de cores vermelhas. Vestia também um broche com o símbolo de um touro. Parecia estar cheio de irritação, há que suas testas não se acalmaram nem por um segundo. O homem logo perguntara.
– Tens um nome que poderíamos chamar-te ou não?
– Apenas o mago já basta. Vamos pular logo para o que interessa, não quero perder tempo — Ele pausou para bocejar -Vítimas. Três bandos de caçadores que o perturbaram mortos por uma espada com lâmina fina. Percebi pelas linhas que deixaram. Poderia ser um sujeito qualquer. Torça para ser algo interessante, caso contrário, quero o triplo do valor que pedi.
Outro soldado trouxe outro homem. Era um pouco acima do peso, nem tanto. e de baixa estatura. Algumas vezes já fora expulso de lugares por "Só humanos aqui, não permitimos anões" apesar de ele insistir ser um homem...Vestia uma roupa de couro comum da região. Um detalhe legal de se citar era seu bigode que carregava um certo preconceito, graças ele o chamavam não somente de Anão, mas de "Carroceiro" sendo que na verdade era um caçador experiente com uso de bestas. Estava com um aspecto desnorteado. Havia uma enorme cicatriz no peito e tremia.
O mago começou a rir quando vê-lo e todos olharam-o com desgosto.
– Com sua licença. Meu nome é Daniel Schartz e sou um humilde caçador. Sofri um descuido e isso quase acarretou à minha vida.
– Foi mal. Mas então, você foi uma vítima desse tal cara. — Entrelaçou seus dedos e curvou seu corpo para frente — Então é a prova que ele não é alguém muito forte.
Passou-se cinco minutos de todos pensando a respeito e logo o anão fora contestá-lo.
– Mas ele...
– Dizimou meia dúzia de gente fraca e ainda falhou com um anão.
Mas não foi nem ser chamado de anão que despertou o mal humor de um mesmo.
– Não chame eles de.. — Seus ferimentos impediram-o de continuar a ficar nervoso. Após se acalmar, voltou a falar -Bebeu o sangue do cadáver do Kriger! Sei que vai me tomar por louco só porque falo isso mas ele tomou e cuspiu! Deve ser um vampiro...
– Detectou alguma diferença em sua arcada dentária?
– Nem vi.
– Ainda bem. — dirigiu-se à suas trouxas -Acho que é algo bem mais fraco.
– Há outras criaturas que bebem sangue como um vampiro? — Perguntou-lhe um dos novatos.
– Não tão conhecidas. Eu devo estar certo, mas se sim... Acabei de achar algo muito raro. Ele demonstrou nojo ao beber o sangue? — Pegou algumas pedras estranhas de suas coisas, assim como algo similar a um colar dourado e colocou ao lado.
– Nenhum. Isso que me chocou. Mas...
Fora o mago quem continuou.
–Não precisou bebê-lo. Não chegou a tocar nas outras vítimas não é?
–Eu sou a prova disso...
–Pois bem. Senhor que me esqueci de perguntar a respeito do nome.
O nobre diz-lhe:
–Duque Visconde da casa Souza. Proprietário da cidade. Peço desculpas por ter esquecido de começar um diálogo.
–Já eu agradeço. Então, quero um certo valor por tirá-lo de sua cidade.
–Pode falar, meu caro.
–190.000 quilates.
Esta fala fez o duque assustar-se, mas com um forçado sorriso no rosto, aceitou-a.
Estranhamente quando estavam retirando-se do quarto o mago levou um pedaço de um papel, grande, dobrado pela metade até o carroceiro que se surpreende.
–Idêntico, cara. — Ele soltou uma peculiar gargalhada -As macumba tão a mil. Só brincando. Como conseguiu?
–Eu tenho meus truques. Com sua gentileza.
Fechou a porta, trancou-a e se atirou na cama. Dessa vez capotou de sono. Sonhou, afinal também era humano. Apesar de que seu sonho foi extremamente estranho. Corria pela cidade fugindo de vacas que usavam alabardas e outras armas de soldados. As vacas perseguiam-o e a cidade estava deserta. Uma delas, vestia um manto vermelho. Por trás dele, surgiu uma espada que o esfaqueou. Assim acabou. Melhor anotar, disse ele para si mesmo.
As ruas da cidade eram desertas, e somente ouvia seus próprios passos. Logo avistou uma taverna, mas decidiu não entrar e procurou outra.
Ao entrar, deu sorte de os cidadãos estarem ocupados demais para não reconheceram-no. Sentou-se perto do balcão e observou as mesas atrás.
Homens jogando um jogo similar a dominó, outro assediava uma prostituta qualquer. Havia dois que pareciam serem apenas amigos comemorando algo, e por incrível que pareça, um casal encontrava-se naquela taverna. Sentou-se no balcão assim como costumava fazer e pediu para o taverneiro um gole de vodka. Tirou de algum bolso da túnica uma pilha de acartazes de procurado e começou a folhá-las. "Dime o piromaníaco, 5.000.000", esse é dos bons, pensou. "Balthazar, 17.000", parou nestes, mas retirou um em especial.
–Olha só o preço que está valendo. Acha que vale a pena perder o tempo?
Mostrou a um homem que estava sentado ao seu lado bebendo vinho. De cabelos negros e sobretudo... Idêntico ao do cartaz.
–Perdão senhor, conheço-lhe?
–Deveria. Aliás, pareceste-me inteligente a princípio. — Bebeu um gole de sua vodka — Não achei que faria a burrada de vestir a mesma roupa.
–Ah, ela é maneira demais. Preferi correr o risco. Achei o cartaz bem desenhado. Rapaz lindo o da foto, eu pegaria.
–Eu também. — Henrique olhara-o com estranheza pela fala — Apenas brincando.
–Sinto que é um tanto inteligente, decidiu pensar duas vezes antes de tentar ganhar a recompensa.
–Na verdade vim lhe dar um presente.
Rapidamente levou ao seu campo de visão aquele colar e com o indicador e o polegar, fechou-o em seu pescoço. Pegou aquelas pedras estranha, uma tinha um simbolo marrom estranho, já a outra um azul e babulceou algumas palavras.
–Que porra é essa? -Levantou-se e sacou uma espada. Uma bela lâmina fina de único gume com entalhes dourados. Colocou-a no pescoço do mago, assim sendo obrigo a responder. Todo a taverna parara os seus afazeres para olhá-los.
–Uma garantia.
–Não acabei a bebida — pegou a garrafa — pra que eu confiaria em ti.
–Pois devo ser o único que o vê como uma oportunidade.
–De ganhar dinheiro — Desatou a rir — quando seguiria um cara totalmente estranho que não conheço. — Porém seguiu.
–Apenas chame-me de mago.
Henrique retirara a espada e falas deixaram o bar por pagar esquecendo-se do cartaz e partiram para um estábulo. o mago montou um cavalo próximo a um estábulo e alcançou outro para Henrique, que irritadamente montou. Quando estavam saindo pela rua, foram abordados por um homem que vestia um gibão com o símbolo de um touro em um broche e carregava um machado polido. Segurava somente com a mão esquerda, pois a direita estava enfaixada.
–Seu filho da puta. Como só fui perceber há alguns minutos atrás? -Mostrou o cartaz de Henrique para eles -Que foi, cansou de fuder a minha mulher e agora está saindo com um macho?
Henrique estralara os dedos e falou:
–Ah, agora lembrei de ti. O marido da, acho que era Ana... Não me cansaria não, cara. Ainda não entendo por que não dava atenção à ela. Por que o desejo daquela mulher...
–Pare de falar. Enfrente-me em um duelo.
–Foi mal. Não gosto de brigar. Aliás, trocou de roupa hein.
–Enfrente-me ou chamarei os guardas. Tenho o direito para fazer isto.
O mago, preocupado após ter visto aquele broche novamente, falou:
–Cara isso é muito estranho. Primeiro que to aqui calmamente ao lado de um cara que matou centenas e eu deveria acabar com ele mas estou assistindo seu duelo.
–Isto vai ser pela minha honra, e um pouco pela minha mulher.
Ele partira para acertar Henrique com o machado. O mago usando mais um par daquelas pedras estranhas fez magicamente surgir um estranho bastão de um metal igualmente estranho de uma delas, e parou o machado do homem com o mesmo e falou:
–Não faz nenhum sentido eu estar confiando nele. Deixe resolvermos e depois interfere.
–Cale a boca. Olha o jeito que está falando comigo. Eu sou...
–A minha presa! -E olhe que essa não foi nem uma frase da aberração.
O mago batera seu bastão na cabeça do homem ainda por cima do cavalo. Deixou-o caído e fora falar com Henrique.
–Uma dica antes de partimos: Eu sei exatamente o que você é, assim como sabe que deveria estar morto, não é? Assim como todos os outros. Sua existência é vazia, somente preenche uma lacuna. Ainda assim causara tantos problemas. Apenas alguém amaldiçoado por puro egoísmo.
–E por que não me mata?
Por algum motivo o mago ficara um tanto que deprimido após a pergunta. Disse a si mesmo: Pois eu não me difirencio tanto de você, afinal...
–Pois você não parece que se importaria em perder a vida. A princípio poderia ser um blefe para o manter vivo, mas pode ser um jeito de fazer com que pense que estou blefando e assim te matar. Mas Você também pode estar querendo que eu pense... O que importa é que sou a pessoa com maior potencial no reino para isso, toda a cidade coloca esperança em mim para isso e fico perguntando-me se devo.
–Eu também penso se matarás-me ou não. Aliás pareceu bastante covarde. Afirmo que todo mundo deveria esperar muito mais de ti e decepcionou todos. Esta é a graça de lidar com as pessoas, mago. Não importa a raça, profissão ou caráter, são sempre imprevisíveis.
Vestiu-se com o manto e tentou deixar a região, mas por algum motivo não conseguiu o que desencadeou as gargalhadas do mago.
–Você acha que falharia em matar a porra de um ser que não passa de um humano que nem mesmo beber sangue precisa, o faz somente por prazer. Algo que não tem motivo nenhum no nosso mundo, somente existe para preencher um vazio. E este é você, alguém que deveria estar morto.
–Mas não fui graças a falha de alguém.
–Assim como eu — Disse uma outra voz. O anão estava mirando-o com sua balestra.
–Não se meta carinha das carroças Disse o mago. -Ele é meu trabalho... — colocou a mão no bolso.
–Isto é pelo que tive medo de fazer na hora!
O mago desencadeara uma onda de fumaça que prendeu a vista do carroceiro. Ele e Henrique fugiram a cavalo enquanto Daniel ficava assustado e ao mesmo tempo deprimido por ter falhado de novo.
Enquanto fugiam a cavalo, ambos discutiam.
–Estou abandonando 190.000 mais 10.000.000 somente para mantê-lo vivo, está entendendo?
–Ficou apaixonado? — Bebeu seu vinho.
–Claro que não. Apenas preciso de ti vivo para um trabalho. Viajará comigo até onde desejo sem receber nenhuma informação. Até morrer, sua vida pertencerá a mim.
–E se eu o matar?
–Não quererás. Não quererás fazer nada que eu não desejo enquanto possuir o colar. Este é o preço pela sua vida.
Henrique tentara quebrar o colar mas por algum motivo não conseguira. Então você queria que cortasse seu pescoço, já que não houve problemas. Quando retornou o olhar para as ruas, viu um homem ruivo vestindo uma armadura que segurava uma espada de duas mãos, junto com toda a guarda que uma cidade poderia ter seguindo para o estabulo. Ao vê-lo, Henrique sentiu um nó na garganta. -Agora não -babuceou sozinho -Aceleremos os trotes, mago. Depois tiraremos nossas diferenças, algo que tenho certeza que tens vontade de fazer.
Ambos seguiram reto por entre centenas de guardas, alguns tentaram seguí-los, mas os trotes do cavalo foram rápidos demais para os pés de homens. A única alternativa fora deixar a cidade, esquecendo todos pertences que poderiam deixar para trás Cruzaram uma ponte que dava acesso para outra margem de onde já houve um riacho. Única saída que restara. Infelizmente mais tarde descobririam que não é por qualquer motivo que esta zona era isolada, inclusive necessita de haver um posto de controle na região.
Daniel estava xingando si mesmo pelo erro quando Charles encontrou-o.
–Parece que não conseguiu. -Ao ver o marido de Ana, que estava se levantando, agarra-o pelo pescoço.
–Vai com calma. Sabe que posso te prender por... -Sua cabeça fora batida com força contra o chão, algo que fez até o carroceiro sentir a dor.
–até hoje não entendo como permiti seu casamento. Falha com minha filha assim como seu pai falha com a cidade. Amanhã, ambos, avisem todos. O mago é um traidor.
E mais uma vez os sinos soaram
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