Alcohol, love and lies

1 Único - Alcohol, love and lies


Notas iniciais
Só passei essa fic por Nyah pra tirar um pouco da poeira da minha conta.

Um pouco mais cedo naquela noite brilhante a Guarda estava festiva; algo sobre uma missão perigosa bem sucedida da qual eu não participei, mas fui convidada para a festa mesmo assim. Não fiquei muito, afinal, não sou muito chegada a álcool. Preferi me recolher pouco antes da meia noite para estar em forma no dia seguinte. Meu chefe de guarda não é a melhor das pessoas, diga-se de passagem, então é bom eu não lhe dar ainda mais motivos para me perturbar.

Como de costume fui tomar um banho antes de dormir, e já que eu não tenho um banheiro próprio, tive que usar o comunitário. Por fim retornei ao meu quarto, vestida num robe de algodão simples, onde bastaria terminar de secar meus cabelos para desfrutar de um merecido sono. Mas...

Quando abri a porta de meu quarto, além dos aromas florais habituais, um outro cheiro incomum se destacava entre as fragrâncias das flores. Algo um pouco mais forte. E eu logo descobriria que aquele cheiro não era meu único convidado indesejado da noite. Não que eu tenha um olfato muito apurado, mas o odor de álcool se destaca bastante. Torci o nariz incomodada, mas relevei.

Não me dispus a acionar os cristais de iluminação, apenas peguei a toalha seca que havia previamente deixado pendurada na cadeira da escrivaninha e fui me sentar na cama. Eu sentei em algo que num primeiro instante achava ser meu travesseiro, isso até ele se remexer e reclamar. “Ngh” ouvi o grunhido incomodado.

— Waah! — eu levantei num pulo. Eu me virei para aquilo e aquilo, ainda deitado na minha cama, se virou também. –Ezarel, seu peste!

Não sei dizer se estava mais surpresa ou irritada naquele momento. Se eu esperava alguém deliberadamente “se convidando” para a minha cama no meio da noite, seria o Nevra, não esse elfo! Consequentemente descobri a fonte do cheiro de álcool.

— Pare de gritar – ele resmungou incomodado, deitado de barriga para cima sem chegar a abrir os olhos, tinha o cenho franzido. – E não me lembro de tê-la autorizado a me perturbar à esta hora.

Só pode ser piada.

— Também não me lembro de tê-lo autorizado a entrar no MEU quarto.

— “Seu quarto?” Se esse não é o MEU quarto, como foi que eu entrei?

... Eu não tranquei a porta quando fui para o banho. Já que ele está aparentemente bêbado, deve ser fácil se confundir já que foi ele mesmo quem decorou o meu quarto. Mas isso não importa!

— Você entrou porque é um bebum sem noção. Agora me faça o favor de sair. – E eu não quero ter que discutir com um bêbado tarde da noite. – Anda logo, vaza.

Eu teria empurrado ele não soubesse o quanto ele fica chato com contato físico.

— Sai você. – ele se virou, me dando as costas. Eu quero matá-lo. – Esse é obviamente o MEU quarto. Se você está carente ou necessitada, o quarto do Nevra não é muito longe.

“Carente ou necessitada?” Como ele ousa! Meu rosto está queimando de raiva.

— Escuta aqui seu...! – Dei um pisão forte no chão, o que provocou um estranho som de vidro contra o cascalho do piso. Eu olhei para baixo e pude ver um reflexo da luz dos cristais que ficam pendurados na cama em uma garrafa de vidro vazia. Conhecendo o Ezarel, aquilo deveria ser de hidromel. Como alguém fica bêbado com hidromel!? – Você “virou” uma garrafa toda sozinho!?

— Ngh, para de gritar.

— Não vou parar de gritar enquanto você não sair da minha cama!

Ezarel simplesmente pegou meu travesseiro e pôs sobre a cabeça como se o usasse para abafar o som. Esse elfo desprezível! Decidi ignorar completamente a regra de “não tocar” e passei a empurrá-lo com a intenção de derrubá-lo no chão. Entretanto foi inútil, ele mal se movia.

— Seu gordo! — Ele já não respondia mais, e eu duvido que o travesseiro abafe os sons tão bem assim. – Se você não sair da minha cama agora eu vou...! Eu vou... eu vou deitar com você! – O que eu estou dizendo? Que ameaça estúpida.

Sinceramente esperava alguma reação dessa vez, nem que fosse outra provocação maldosa. Porém ele continuava estático. Talvez o silêncio em si fosse a provocação? Seja como for, eu estou muito irritada agora. E cansada também; essa praga que ocupa minha cama é a mesma que me fez organizar todos os frascos novos do laboratório durante a tarde.

Bufei. Acho que não tem mesmo jeito de fazê-lo sair. Mas eu fiz uma ameaça (estúpida) e vai parecer que me rendi se eu não a cumprir. Não vou dar esse gostinho à ele, não mesmo.

Voltei a sentar na cama sem cerimônias, puxei o travesseiro de volta e deitei de costas para meu convidado indesejado. Minha cama não é lá muito grande, mas enquanto estivermos de lado cabemos os dois, por muito pouco não tocando as costas um do outro. Tinha espaço o suficiente para eu me deitar, e me pergunto se isso foi proposital.

Não, impossível.

Entretanto, pensar nisso me despertava certo nervosismo. E agora parando pra pensar, eu estou na cama com um homem, que por acaso é o meu chefe, que por acaso tem altos e baixos em sua personalidade hora sendo uma verdadeira peste hora sendo uma pessoa decente. E ultimamente, seu lado “decente” tem aflorado bastante. Se ele fosse atencioso e gentil mais vezes...

Inevitavelmente meu coração passou a palpitar mais rápido e meu rosto ficava quente. Não, não, não ,não é nada disso! Ele é só um bêbado desgraçado que se apossou da minha cama pra me infernizar! Ele definitivamente fez de propósito para eu ter uma péssima noite de sono enquanto ele dorme feito uma pedra e amanhã vai me dar outra tarefa estúpida e exaustiva.

Enquanto eu discutia comigo mesma, não percebi que Ezarel se movia atrás de mim. Quando me dei conta, ele já tinha se virado, tocava meu cotovelo logo abaixo do fim da manga e respirava leve atrás da minha orelha. O ar quente que expelia era quase como uma carícia tímida.

Meu coração disparou, e embora fosse uma sensação quente, eu estava congelada sem conseguir reagir. Minha mente me dizia para gritar e dar uma cotovelada nele, mas eu simplesmente não conseguia me mexer.

— Você usou meu xampu de flores brancas – ele sussurrou letárgico, meio enrouquecido. Abri a boca para responder, só que minha voz saiu como um ofego nervoso. Então eu apenas fiz que sim com a cabeça – Boa escolha.

Eu senti a ponta do nariz dele deslizar por atrás da minha orelha descendo para o canto do rosto até o início do pescoço me provocando um arrepio gostoso.

Okay, digamos que eu não tive muito “contato” com alguém desde que vim parar em Eldarya. E eu também não sou de ferro, né?

— Não faça nada que vá se arrepender depois, seu bêbado. – resmunguei contrariada. Se ele ao menos estivesse sóbrio...

— Não estou bêbado. – suspirou. Seus lábios propositalmente roçavam contra minha pele quando ele falava.

— Claro que está. – revirei os olhos – Se não estivesse, nem estaria aqui pra começo de conversa. Muito menos ficaria tão perto da “ex-humana que você detesta”

— Você não é a “ex-humana que eu detesto”.

— Sou o quê então?

— Talvez... – ele respirou fundo, fazendo uma pausa curta. Sua voz continuava baixa, calma e sonolenta. Era, de certa forma, sedutora – Seja a “ex-humana que eu gosto”.

... Ele não disse o que eu acho que eu ouvi, disse? Antes que meu coração disparasse de novo, eu tinha que ser realista.

— Você está bêbado. Definitivamente. – Tentei soar séria e reprovativa, mas meu rosto estava tão vermelho e eu sentia minhas mãos tremerem e meu estômago se revirar. De todas as piadas de mau gosto dele... – Está ficando insuportável. Se não vai sair da minha cama, ao menos me deixe dormir em paz.

— Já disse que não estou bêbado. – repetiu, e embora ainda calmo, eu pude perceber que estava um pouco contrariado. Aquela mão que me tocava o cotovelo seguiu pelo meu antebraço até minha própria mão e se acomodou ali, encaixando sua palma morna e seus dedos longos sobre ela, quase a envolvendo totalmente. – Por que não acredita em mim?

Isso está muito estranho, não tem como ser verdade. Será que eu bebi alguma coisa estranha na festa e estou delirando agora? Acho que nem mesmo uma ilusão do Ezarel que eu conheço poderia ser tão carinhosa.

— O Ezarel... Você nunca me deu motivos para acreditar. Sempre me fazendo de boba e rindo às minhas custas. Como eu poderia acreditar em você?

Realmente, não tem como isso ser real, não tem como esse ser o Ezarel de verdade. Ou ele está bêbado ou essa é mais uma de suas piadas. A pior de todas elas. Nem aquela com o bigode falso foi tão ruim quanto esta.

— Acreditando – disse como se fosse simples. – Eu gosto de você.

Eu estou ficando irritada. Como ele pode querer brincar com os meus sentimentos assim? Ele é mesmo o pior de todos.

— Diga isso me olhando nos olhos. – Rangi irritada.

— Tudo bem.

Ezarel soltou a minha mão para que pudesse empurrar meu ombro de modo que me fizesse virar para cima e terminar por encontrá-lo sobre mim, apoiando-se ao meu redor. O olhar fixo em mim quase brilhava na escuridão, e embora estivesse mesmo escuro, eu podia perceber um tom diferente naquele rosto sempre tão pálido; ele estava corado. Sua expressão era bem séria. Meu coração batia muito rápido.

— Eu gosto de você. – Repetiu.

Agora, de frente para ele e tão perto, eu posso sentir seu hálito quente e o cheiro do hidromel. É doce, mas ainda tem aquele odor peculiar de álcool. E é óbvio que ele bebeu e não foi pouco.

Eu estou tão confusa. Não posso acreditar que ele esteja mesmo sóbrio, e ainda quero acreditar que aquelas palavras que ecoam dentro de mim sejam verdade. Ele é um peste, narcisista e egocêntrico que só existe pra fazer da minha vida em Eldarya um inferno total, e ele nunca vai ser nada além disso. Mesmo que ele goste de mim... e que eu talvez goste dele, isso nunca daria certo. Isso é impossível.

Droga, meus olhos estão ardendo.

— Humpf, eu só acreditaria nisso se estivesse tão bêbada quanto você. – Tentei, de novo, soar séria e firme, porém era notável que minha voz tremia. Não aguentava mais olhar para o rosto sério dele sabendo (ou duvidando) que não passava de uma farsa alcoólica.

No instante em que nossos olhares se desencontraram, ele me beijou. O sabor do hidromel invadiu minha boca junto com aquela língua atrevida e inquieta que praticamente me obrigava a corresponder. Era essa a tentativa dele de me embebedar? Que coisa boba. O beijo foi tão longo e desajeitado quanto um “primeiro beijo de língua”; não era o meu e duvido que também fosse o dele, era mais como duas pessoas sem prática tentando de novo. Chegava a ser divertido, então eu me deixei levar. Eventualmente encontraríamos o ritmo certo.

Depois de um tempo ele se afastou e eu arfei. Aquele beijo fez o meu corpo ferver e queimar a frustração que eu sentia momentos atrás. Como eu disse antes, não sou de ferro.

— Acredita agora? – ele ofegava discretamente. Aparentemente alguém se esqueceu de como se respira durante um beijo. Deve ser o álcool fazendo efeito, porque Ezarel parece adorável agora.

— Não acho que um beijo baste pra me embebedar.

— Então eu darei quantos foram necessários.

Era óbvio que eu estava apenas provocando, mas ele pareceu levar a sério. Ele voltou e me tomou de novo, dessa vez mais ou menos ciente de como fazê-lo. Embora o objetivo fosse “me embebedar”, Ezarel não se limitou a me beijar apenas a boca; às vezes descia para meu pescoço, outra ia até o canto da minha orelha e sussurrava “eu gosto de você”. Logo suas mãos começaram a agir também. Ele me tocava, e não protestou quando comecei a tocá-lo também.

Então eu decidi que o que quer que acontecesse a partir dali, no dia seguinte, mesmo que eu estivesse sóbria, eu culparia o álcool.

~~

Eu me lembro de tudo que aconteceu naquela noite. Cada toque quente parece marcado na minha pele, a voz sussurrante de Ezarel chamando meu nome ainda ecoa em minha mente, o cheiro dele, o gosto do hidromel... Mesmo que ele já não estivesse ali quando eu acordei, eu sei que aquela farsa luxuriosa foi de alguma forma real.

Na manhã seguinte, minha primeira tarefa foi ajudar o Nevra com o inventário da despensa. Ele conferia as coisas e eu anotava numa prancheta.

— Parece estar faltando uma garrafa de hidromel. – ele comentou.

Citar aquela bebida me deixou inicialmente nervosa, mas me mantive firme. Não quero que essa história caia na boca de alguém, principalmente na de um fofoqueiro como o Nevra. Eu vou agir normalmente.

— Não abrimos nenhuma na festa.

— Pode ter sido coisa do Ezarel.

— Se foi, deve estar anotado no relatório do Jamon. Nós estamos contabilizando apenas o que consumimos ontem.

— Mesmo que ele goste tanto de hidromel, não acha um exagero ter pegado uma garrafa inteira só pra ele?

— Eu não me preocupo – Nevra deu de ombros e riu – Não é como se ele pudesse ficar bêbado.

Eu paralisei em choque. Não podia ser verdade.

— Ele... Não fica bêbado? Nunca mesmo?

— Hm, elfos como o Ez são imunes à certas substâncias nocivas. Álcool é uma delas, pelo que eu sei. O Valkyon, por outro lado. – ele começou a rir baixinho, como se lembrasse de algo engraçado, mas parou subitamente – Hey, tudo bem? Parece que viu um fantasma.

— Ah? A-Ah, tudo bem! Só estava tentando imaginar como seria um Ezarel bêbado. Foi um pouco assustador, ahahah...

— Não é pra tanto.

Não demorou muito e eu acabei sendo dispensada daquela tarefa por ter perdido completamente o foco depois da revelação chocante sobre o elfo. Eu precisava falar com Ezarel e entender porque ele mentiu— Espera, ele não mentiu, ele estava sempre dizendo que não estava bêbado. Aaaaaaah, mas o que foi aquilo então!? Preciso tirar essa história à limpo!

Muito determinada, eu marchei até o laboratório, mas foi só ver ele da passagem que senti toda a minha coragem se esvair. Como eu posso falar com ele...?

— Ei você. – Ele chamou e eu quase dei um pulo.

— S-sim!

— Não era pra você estar ajudando o Nevra agora?

— A-ah, já terminei a minha parte.

— Sei – ele revirou os olhos – Aposto que estava mais atrapalhando que ajudando e ele te mandou embora. – e riu debochado.

Ezarel parecia agir normalmente, como se nada tivesse acontecido. Eu não entendo. Isso... faz parte da piada? Não quero acreditar que ele é tão cretino à este ponto. Precisa ter um motivo, e eu preciso saber.

Entrei no laboratório e parei de pé ao lado dele, que fazia anotações diante de uma prateleira de frascos.

— Então... Eu fiquei sabendo que você tomou uma garrafa de hidromel sozinho ontem.

— Meu trabalho não é um mar de rosas, sabia? Com membros desastrados como você e Alajéa na minha guarda, mesmo eu preciso de um porre às vezes.

“Mesmo que você não possa ficar bêbado?” eu quis perguntar, mas as palavras ficaram entaladas na minha garganta. Eu sentia que se dissesse algo estragaria tudo.

— Hm... Sabe, eu trabalho com você e você me estressa. Talvez eu precise de um porre também.

— Por acaso está se convidado para beber comigo, pequena ex-humana?

— Talvez. Se você ficar tão bêbado ao ponto de não saber onde é o seu quarto... – foi uma indireta estúpida, mas é o melhor que eu posso fazer sem dar muito na cara.

Eu vi que ele me encarou com uma sobrancelha erguida, desconfiado, e segundos depois relaxou com o típico sorriso sacana. Eu esperava que ele confessasse e dissesse “impossível, eu não fico bêbado.” Entretanto...

— Pode ser útil. Eu não gostaria de acabar no quarto imundo de um certo lobinho.

Antes que eu pudesse continuar, Ewelein apareceu e o chamou, encerrando abruptamente nossa conversa. Eu o vi caminhar para fora do laboratório, e antes de sumir no corredor ele sorriu e acenou para mim.

— Nos vemos mais tarde – ele disse.

Então eu entendi o que aquelas mentiras descaradas significavam, e como poderia ser daqui em diante. Ezarel não era a melhor pessoa do mundo quando se tratava de expressar seus sentimentos, e se ele precisa dessa pequena mentira para ser honesto (por mais irônico que isso seja), por mim tudo bem desde que eu saiba a verdade por trás. Quem sabe eu possa usar isso contra ele um dia.

O que quer que aconteça nesse “nos vemos mais tarde”, entre amor e mentiras, culpemos o álcool.

Notas finais
Vamos lembrar que essa é uma ONESHOT. Então, NÃO VAI TER CONTINUAÇÃO. Então, NÃO ADIANTA PEDIR CONTINUAÇÃO. Eu não sei trabalhar com séries, quem me acompanha sabe disso.

Sobre o "elfos não podem ficar bêbados", pelo que eu sei de RPG de fantasia, eles realmente não podem. Não sei se é o caso do Ezarel, mas isso é uma fic então vamos fingir que sim. Não é a primeira vez que trabalho com essa mesma base, confesso. MAS.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!