Alchemya

1 Capítulo 1


Notas iniciais
primeira história postada, espero que goste!

Finalmente consegui!

Um sorriso estonteante surgiu em seu rosto. Era sempre assim que ela se sentia quando descobria algo novo. Seus olhos se estreitaram, mostrando que ela estava realmente estava imersa em suas pesquisas. Ela tirou os pequenos cristais violetas formados no frasco de vidro que usara. Observou-os por, no mínimo, uma hora. Fez anotações em seus papéis, esboçando delicadamente os cristais brilhantes outrora formados, mas, infelizmente, fora interrompida por três batidas na porta, com os nós dos dedos, em intervalos regulares.

Calixta se arrastou até a pesada porta de carvalho.

— Desculpe incomodar, mas a senhorita viu nessas últimas horas este sujeito? — um homem com o uniforme da Guarda Real, loiro, olhos claros e um sorriso brilhante mostra um panfleto com um rosto desenhado. Provavelmente procurando algum ladrão. Não prestou muita atenção no desenho, apenas percebeu uma cicatriz cortando o olho do indigente.

— Não... não. — respondeu, aérea — não saí de casa hoje. Desculpe não poder ajudar.

—Sem problemas, senhorita, se vir qualquer suspeito, nos avise. Estamos num acampamento por perto — ele apontou com a cabeça a direção — qual o seu nome, apenas para guardar a informação?

Aqueles olhos brilhantes e um sorriso de lado foram o suficiente.

— Calixta. Prazer.

— O prazer é meu, Calixta. Meu nome é Joseph. — ele olhou para cima, observando a posição do Sol, que estava em pico. — o dever me chama.

Ele se virou e foi pela floresta, enquanto ela fechava a porta.

Deu um longo suspiro e voltou ao trabalho. Após terminar todas as suas atividades, saiu de casa e foi à horta que mantinha atrás da mesma. O vento gelado a saudou bagunçando seus cabelos acobreados e fazendo as saias de seu vestido dançarem. Ela cantarolava uma canção antiga de um idioma esquecido enquanto colhia folhas e frutos de diversas plantas, e guardava-os numa cesta. Voltando à casa, jogou tudo em água fervente e deixou descansar. Já estava na hora.

Colocou sua melhor roupa e seguiu a trilha que apenas ela conhecia no meio da floresta. O vilarejo estava logo ali. O castelo, mais a frente. Cumprimentou alguns camponeses que suavam com o esforço brutal que faziam ao trabalhar de graça.

Agora, o caminho era mais curto.

Logo avistou um grande castelo, com suas muralhas de pedra, rodeado por guardas. Todos os empregados a conheciam por ali, porém, ninguém sabia o que ela fazia ali dentro.

Calixta, após passar pelos guardas reais, enfim entra no Grande Salão. Um lugar gigante, espaçoso e iluminado. Pesadas cortinas se estendiam escondendo alguns vitrais. Era ali onde os bailes ocorriam, assim como os julgamentos dos condenados. Ela sente duas mãos em seus ombros, leves e pequenas, e vira para trás fazendo uma reverência.

— Achei que não viria! Olá, Calixta.

— Olá princesa. Como está?

— Estou bem, obrigada — ela sorriu timidamente — trouxe o chá para meu pai?

— Sim. Onde posso encontrá-lo?

— Me acompanhe.

Enquanto a princesa andava, o véu sobre seu rosto trepidava e se esvoaçava, assim como a saia de seu vestido. Seus cabelos estavam perfeitamente presos num coque junto à algumas flores brancas.
Passaram por grandes portas de madeira e chegaram ao aposento do Rei. Calixta fez novamente uma reverência, e tirou da cesta um vidro com o chá.

— Majestade, beba de manhã e a noite, vai se sentir melhor em poucos dias. Se quiser, pode colocar mais mel. — ela disse, enquanto o observava com um olhar de preocupação.

— Obrigada, Calixta, eu melhorei bastante nos últimos dias. Siggy te entregará o pagamento.

O Rei era viúvo. Sua esposa havia morrido quando deu a luz à Siggy. Seu rosto era sereno e sulcos se formavam embaixo dos olhos, como se fossem canaletas para as lágrimas. Estava seriamente doente e se esforçava ao máximo para agradar sua única filha, que herdaria o seu trono após a sua morte.

Deixaram o aposento e foram em direção ao da princesa.

— Siggy, a situação de seu pai me preocupa. Não acha que deve chamar algum médico mais experiente que eu?

—Eu sei, Calixta, eu sei. — disse ela, entregando uma bolsa com algumas moedas — ele tosse o dia inteiro, e às vezes perde o ar... Estou muito preocupada. Mas meu pai não quer outra pessoa para tratá-lo, não confia em mais ninguém.

— Tente convencê-lo. Enquanto isso, vamos tratar de seus machucados.
Siggy levanta o véu cabisbaixa, e olha para Calixta.

—Eles se estabilizaram.
Sua pele tinha muitos ferimentos. Uma doença rara que a princesa possuía. Bolhas e inchaços cobriam sua face por inteiro, deformando pouco a pouco seu rosto. Tentava se esconder usando um véu de um tecido ligeiramente transparente, na qual só era possível enxergar os contornos de seu rosto.

Calixta tirou uma pasta da cesta e passou delicadamente sobre a pele de Siggy. Feita de várias ervas, tirava a coceira e assim, fazia com que a princesa não tocasse tanto o rosto.

— Meu pai disse que vai me apresentar a um rapaz amanhã. Ele disse que já é hora de eu herdar seu trono. Mas como? Olhe minha situação, Cali, como ele vai saber como eu sou sendo que cubro meu rosto inteiro para ninguém me ver? E se eu tiro o véu, bem... — ela soluçava enquanto dizia isto. Sentia vergonha por ser assim. Quando saía do castelo, não faltavam teorias na boca dos camponeses. A grande maioria acreditava que ela havia sido amaldiçoada pelas deusas quando sua mãe morreu para dar vida à ela.

— Você tem as feições lindas, porém, precisa de um pouco mais de cuidado. — murmurou Calixta, enquanto limpava suas mãos — e falando em casamento... sabe quem é Joseph, da Guarda Real?

— Cali, eu possuo mais de três centenas de homens só no Castelo. Eu não conheço eles pelo nome.

Calixta bufou e se levantou.

— Eu preciso ir. Já está escurecendo. Faça seu pai beber o chá. Amanhã eu volto com algo a mais para disfarçar os ferimentos para você ficar radiante, prometo.

Ela acenou e saiu. Antes do anoitecer, ela já estava em casa.
***

Quando chegou em casa, foi para seu quarto e vasculhou todos os seus armários à procura de algo para a princesa. Algo que disfarçasse pelo menos as cicatrizes. Abriu um baú e encontrou pó de arroz. Ela conseguiu comprar de alguns viajantes do Oriente há um tempo, e ninguém conhecia tal coisa. Testou em sua própria pele, e teve a certeza que melhoraria o aspecto da princesa.

O quarto de Calixta era humilde, assim como sua casa. Paredes de madeira clara, um leito baixo e algumas prateleiras cheias de livros. Atrás de uma pintura de sua autoria, pendurada acima da cama, havia uma alavanca. Puxando-a, a porta de um alçapão se abria. Uma escada de curtos degraus serpenteava até o subsolo, onde sua sala secreta se localizava. Antes de ir para lá, Calixta se assegurou de que sua casa estava fechada e as velas todas apagadas.

Desceu as escadas rapidamente com uma vela iluminando seu caminho. O ar lá embaixo era frio e úmido, e o aspecto era tenebroso: esqueletos de animais e seus humores, substâncias tóxicas, caldeirões empoeirados e dezenas de livros velhos. Em uma estante, vidros de várias substâncias químicas e seus nomes, alguns cheios, outros sem sequer uma gota.

Era neste local que Calixta podia fazer o que quisesse sem o risco de ser vista. Lá ela podia praticar alquimia sem ser julgada como feiticeira. Sem que ninguém a queimasse em praça pública. Ela pegou um pedaço de pergaminho e esboçou uma pedra, pedra que daria a ela tudo o que ela sempre quis: a Pedra Filosofal. Mas Calixta preferia manter os pés no chão. Ela estudaria tudo sobre a pedra antes de se empolgar. Voltou para seu quarto e pegou no sono.

No outro dia, de manhã, arrumou suas coisas e foi ao vilarejo. Todos estavam alvoroçados, afinal, era aquele o dia em que o Príncipe viria visitar Siggy. O castelo estava enfeitado com tecidos e flores, camponeses carregavam carriolas cheias de frutas maduras e apetitosas que deixavam o ar frio com um cheiro adocicado, e algumas mulheres passavam com cestas repletas de pães quentes.

Ao entrar no castelo, tudo estava brilhando. Pessoas trabalhavam incansavelmente para deixar tudo limpo e em ordem. O Rei logo veio dar-lhe as boas-vindas.

— Calixta, não a esperava tão cedo. O chá que você fez me ajudou muito esta noite. Agradeço-a.

— Não há de que, Majestade. Onde encontro Siggy?

— Em seus aposentos. Ela está se arrumando. Nosso convidado chegará provavelmente daqui algumas horas.

Subiu as escadarias de pedra e logo a encontrou. Com uma reverência, entrou em seu aposento. Ela estava deslumbrante: seus vestidos adequavam-se a seu corpo perfeitamente e uma coroa de flores de variados tipos adornava sua cabeça.
Entregou a ela o pó de arroz. A Princesa olhou para Calixta com um rosto abatido, e devolveu-o.

— Não vou fazer isso. Não posso.

— Seu pai ficaria chateado – comentou Calixta, abrindo o recipiente que continha a maquilagem — Se eu fosse você, pelo menos tentaria. Às vezes, não é tão ruim quanto você imagina.

Ela abaixou sua cabeça e levantou o véu. Calixta então a ajudou com o produto. As cicatrizes foram facilmente encobertas. Siggy se olhou no espelho de cobre, espantada.

— Esta... esta não sou eu. — sussurrou, admirada com seu próprio reflexo.

Um sorriso singelo surgiu em sua face. Ela estava pronta. Pediu para Calixta esperar no quarto e saiu ao encontro de seu pai. Calixta então começou a olhar em seu redor. O quarto possuía paredes de pedra, tapeçarias extremamente detalhadas cobriam o cômodo. Em uma delas, especialmente, havia o desenho de animais silvestres correndo em um campo aberto, localizado ao lado de um rio, que ficava ao pé de duas montanhas. Era Warct, o lugar abençoado das lendas antigas. Alguns afirmavam a existência do local, porém, não possuíam provas. Warct pertencia à antiga fé, sustentada pelas 3 deusas criadoras. Um barulho alto surgiu do salão do andar de baixo do castelo. Calixta esgueirou-se até as portas do quarto e tentou escutar alguma coisa. Nada. Começou a descer as escadas lentamente. Todos os guardas estavam enfileirados, fazendo continência. O convidado da família real caminhou com passos leves até onde o Rei e Siggy se encontravam, e se cumprimentaram com reverências. O Príncipe tinha a pele cor de avelã, olhos claros e brilhantes e o cabelo encaracolado. Ele olhou Calixta de soslaio, e seus olhos brilharam. Mas não de admiração ou paixão. Os olhos brilharam de uma maneira sobrenatural. O marrom claro de antes foi substituído por dourado, como ouro exposto à luz. Não durou por mais de alguns segundos. Assustada, ela olhou à sua volta à procura de alguém que tivesse notado o mesmo que ela. Sem sucesso, tentou não chamar mais a atenção, fez um sinal para a princesa avisando que já estava de saída e correu até as pesadas portas escoltadas por mais guardas.

Em seu caminho de volta, se assustou com um vulto correndo em direção à floresta. Se recuperando do susto, voltou a andar. Segundos depois, o Capitão da Guarda Real correu para lá, gritando ordens a seus subordinados, que vinham logo atrás dele. Calixta entrou na floresta, afinal, a trilha para sua casa era por ali. Começou a ficar apreensiva com a perseguição, eles estavam indo em direção à sua casa. E ninguém podia saber do...
Ela o deixara aberto. O alçapão estava à vista de qualquer pessoa caso invadissem sua casa. E então ela correu. O ar frio entrava em seus pulmões como se ela respirasse estilhaços de vidro. A adrenalina invadiu seu corpo, fazendo-a, de alguma forma, correr mais rápido do que já estava. Avistou sua casa a alguns passos de distância, e ao ver que os guardas haviam passado direto, entrou correndo. Fechou a porta atrás de si com o pé, e sentindo suas pernas perderem a força pela corrida, escorregou no batente da porta até sentar no chão. Normalizou sua respiração e olhou à sua volta. Tudo parecia em ordem. Se levantou e foi em direção à uma estante que também abrigava alguns de seus livros. Ao se apoiar nela, teve a impressão de ouvir passos. Tentou olhar para trás , porém, algo havia sido mais rápido que ela.

Em instantes, ela sentiu algo gelado em sua garganta, e braços fortes a segurando pela cintura e ombros, de modo que ficasse imobilizada. Uma dor irradiou de seu pescoço, que agora se coloria com um filete de sangue quente que descia até a gola de seu vestido.

Calixta tentava ao máximo não derramar nenhuma lágrima. De repente, a pessoa a largou. Caiu no chão gelado sem cerimônias, batendo a cabeça com força. Sua visão se duplicou e ficou turva, e precisou aguardar antes de se levantar, para não acabar desmaiando com um intruso em sua casa. Quando finalmente teve força o suficiente nas pernas, correu até o quarto, onde conseguiu pegar um pano para estancar o sangue, que, agora com o fluxo diminuído, estava seco em seu pescoço. Seus sentidos estavam aguçados, e ouviu ao longe o barulho da faca que a pessoa havia usado arranhando a parede, indo em sua direção.

Notas finais
espero que goste, likes e comentários são muito bem-vindos ahahah
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.