Albus

1 E o problema das palavras


Notas iniciais
Olá. Essa história é completamente diferente de "Scorpius".

Dificultoso, emaranhado, embaraçado, confuso, difícil, complicado, incompreensível; seu pai costumava expandir o vocabulário nas férias de verão, quando passava dias trancado no seu quarto, com o som barulhento de alguma banda trouxa alternativa e travesseiros rasgados, devido às suas unhas mal cortadas e a seus ataques de raiva.

Caloroso, extremoso, afável, afetuoso, gentil; sua mãe costumava lhe dar doces escondida de si mesma, os colocava atrás de um jarro de plantas (extremamente mal escondido) e afirmava que Albus sempre fora bom em achar coisas, quando ela mesma mal sabia escondê-las.

Soturno, taciturno, desalegre, angustiante; Scorpius não poupava palavras. Nunca fora bom com comunicação cara a cara, por isso, Scorpius escrevia cartas; a letra disforme era quase um quebra-cabeça impossível de ser feito, mas no final eram as palavras que mais o chocavam.

Repulsivo, desonesto, infame, sujo, canalha, mau caráter; Rose sempre se mostrou honesta com seus defeitos incontáveis, e ele lhe dava razão. Era ignorante, egoísta e muitas vezes hipócrita.

Talentoso, perspicaz, sagaz, esperto, brilhante, engenhoso; Prof. Mcgonagall não demonstrava inteiramente o quão orgulhosa era por ter um aluno com Albus (apesar de desleixado, algumas vezes, era tão inteligente quanto a mãe), mas algumas palavras saíam de sua boca vez ou outra, deixando um sorriso no rosto do garoto.

Entretanto, ainda sim, palavras não sufocavam sentimentos e nem mesmo os faziam ir embora; eram intrusos muito desconfortáveis, mas não havia nada que os fizesse morrer.

Havia dias que apresentava níveis grandes de energia, com necessidade de sono reduzida. Enquanto em outras semanas os olhos mantinham-se sempre inchados, parecia impossível parar de chorar. A irritabilidade o acompanhava quase que sempre, era sua terceira melhor amiga, depois de Scorpius e a ansiedade.

Seu pai acreditava ser uma fase; sua mãe dizia que era a adolescência e os hormônios à flor da pele; Rose acreditava que Albus apenas não era um ser humano muito bom; já Scorpius garantia que ele tinha dois polos diferentes.

— Você é instável, Albus. Num momento você sente apatia, ansiedade, culpa, euforia, desesperança. Noutro, você está tão energético que Rose não o suporta. — a voz de Scorpius era cuidadosa de natureza, e também muito carinhosa, porém o barulho dos dedos estalando mostrava que ficava nervoso ao falar assim de Albus, sempre tivera medo de magoá-lo.

E, bem, ele estava certo em ter cuidado, já que palavras não curam doenças e nem mesmo mandam sentimentos embora, mas podem trazer novos deles; pesar, mágoa e tristeza, por exemplo.

— E o que eu deveria fazer? — os olhos opacos fitavam o céu nublado, enquanto a grama fazia cócegas em sua nuca.

Aquele momento era anormal, quase que nunca corriqueiro. Afinal, era Albus quem aconselhava Scorpius e não o contrário. Normalmente, era Potter que passava os braços em torno do Malfoy e o acalmava com palavras sentimentalistas.

— E se a gente procurasse ajuda? Você sabe… adultos — a ideia era boa, mas Albus os detestava.

Sempre acreditou que adultos tinham visões diferentes do que crianças e adolescentes; eles pareciam colher algum tipo de maturidade que os deixavam cegos para os detalhes a sua volta.

— Meus pais dizem que é bobagem.

— Seus pais não te compreendem, eu acho. Mas talvez haja alguém por aí que o consiga fazer. Nem todos os adultos são de todo ruim.

Scorpius tinha razão. Era incompreendido, desamparado e ignorado. E, claro, nem todos os adultos eram ruins.

— Você vai estar comigo? — Scorpius assentiu imediatamente, apontando para o pólen que flutuava.

— Sempre.

Foi quando descobriu que possuía transtorno bipolar de humor. Uma doença não só de trouxas (que levavam a doença na brincadeira e na ignorância, uma grande maioria), mas também adoecia bruxos e bruxas de grande importância.

“Doenças não escolhem pessoas ou traços e ninguém merece tê-las, por isso seja cuidadosa com suas palavras, pois a repulsiva e mau caráter passará a ser você”, disse Hermione à Rose, após a garota afirmar que Potter merecia ter uma doença que lhe ensinasse a ser menos arrogante.

Albus não aprendeu a conviver com as palavras duras de Rose, mas Rose aprendeu a lidar consigo mesma e Harry aprendeu a enxergar a dor alheia como real e não falta de atenção. Já Ginny nunca deixou de esconder mal os doces e nem mesmo parou de acreditar que Albus era uma pessoa amável e afortunada. Scorpius nunca deixou de estar com ele e, aliás, sentia que devia tudo à Albus, porque ele sempre o ajudara com o seu problema, e assim Albus também se sentia — era recíproco.

Apesar de seus dois polos, suas extremidades diferentes, com alternância entre euforia e depressão e um humor instável, Harry e Ginny nunca deixariam de amá-lo e Scorpius nunca deixaria de entendê-lo. Afinal, não só de palavras Albus era feito.

Notas finais
Me desculpem por pegar um pouco pesado com a Rose, é que eu fiquei com certo nojo dela após alguns comentários de amigos sobre a personalidade dela em Cursed Child.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!