Albatroz

1 ALBATROZ


A L B A T R O Z

A espiral desenhada pela pele aquecida do dedo indicador dele vagarosamente se transforma em uma estrela. Dessa vez, de cinco pontas, diferente da de ontem, que tinha seis. Ele observa seu desenho silencioso e percebe que dessa vez não demorou muito até que o frio voltasse a congelar sua arte no vidro.

Com um sorriso pesaroso, Jasper acaricia a pele protuberante da cicatriz que tem no pescoço, dá uma última tragada em seu cigarro, deixando a fumaça fluir lentamente antes de apagá-lo contra a beirada da soleira. Passa pela porta de madeira pesada do bar, exalando os últimos vestígios do aroma amargo no ar. O cheiro amadeirado e acolhedor do interior toma seus sentidos enquanto caminha para trás do balcão.

Esponja, detergente, duas toalhas. Ele encara a pilha de louça suja como um oponente, amaldiçoando a si mesmo por ter procrastinado a limpeza da noite anterior. Ainda assim, fiel à própria natureza, encontra algo mais interessante para fazer antes de mergulhar as mãos na água morna.

Como o mestre da procrastinação que sabe ser, abandona a louça — e as ferramentas que usará para lavá-la — na lateral do balcão e segue até a jukebox com a certeza de que uma música para acompanhar sua rotina não faria mal. Ele conversa consigo mesmo — ou talvez com Max, a pelúcia desgastada do cachorro do Grinch que decora o balcão — enquanto escolhe a trilha sonora para seu início de expediente.

— “Stairway to Heaven”? — murmura, olhando para o boneco. — Boa escolha, parceiro. Sempre épica, nunca clichê.

Jasper conecta a máquina na tomada e com um sorriso no rosto suspira ao ver o aparelho tomar vida. As cores, vibrantes e quentes, iluminam aquele canto do bar. O rosto, ora branco, mas agora iluminado pelo laranja da caixa de som, e os olhos azuis, observam pela janela a neve cair. As cores frias do inverno contrastando ao calor daquele bar amadeirado e da caixa de som que não decepciona ao tocar — em um volume alto — os acordes sensuais da guitarra tão tradicional daquela banda de rock.

Os primeiros acordes da guitarra ecoam pelo ambiente, enchendo o vazio do bar. Ele volta ao balcão e mergulha as mãos na espuma do detergente, retomando a rotina metódica e solitária que o acompanha há meses.

— Nada como Led Zeppelin para transformar um bar vazio em um templo.

A voz feminina vem da entrada, baixa e rouca, como se tivesse sido moldada para sussurrar segredos em noites frias. Jasper congela por um momento, mas não vira de imediato. Um sorriso discreto se forma em seu rosto enquanto ele responde sem olhar.

— Ou um cemitério. Ainda estamos fechados, senhora.

— Engraçado — ela continua, se aproximando com passos suaves. — Não dá para negar que “Stairway to Heaven” tem algo de epitáfio. — riu. — Mas, pra mim, tem algo crescente... Como uma subida, não uma queda.

Ele finalmente se vira para encará-la. Pequena e esguia, ela parecia ainda menor dentro do sobretudo grande que a envolvia. Os cabelos curtos, em um curtinho bagunçado, destacavam o contorno delicado do rosto, com alguns fios rebeldes escapando para emoldurar sua pele clara, levemente corada pelo frio. Mesmo envolta na neve agarrada em sua roupa e cabelo, ela exala um magnetismo silencioso, difícil de ignorar. Os olhos castanhos esverdeados fixaram-se nele com uma intensidade que contrastava com sua aparência delicada, carregando uma curiosidade quase desarmante.

— Subida pra onde? — Ele ergue uma sobrancelha, intrigado.

— Para onde a jukebox nos levar, é claro. — Ela sorri, um sorriso que parece guardar mais do que revela. — Sou Alice. E você? O que é?

Jasper reprime um riso. — O que sou?

— Sim, você parece muito mais do que só o cara atrás do balcão. Talvez um escritor disfarçado, colecionando histórias. Ou um espião aposentado que escolheu esse bar como refúgio.

— Só sou o barman.

— Não parece. — Ela o avalia, seus olhos castanhos esverdeados faiscando com curiosidade.

— E você, é o quê?

Alice se inclina ligeiramente, como se prestes a compartilhar um segredo. — Depende do dia. Hoje, estou descobrindo.

Sem esperar por mais perguntas, ela caminha até a jukebox. A luz da máquina reflete em seu rosto enquanto coloca uma moeda, escolhendo a mesma música que já toca. Jasper a observa em silêncio, intrigado. Ela parece cantarolar baixinho, mas não acompanha a letra. Parece mais criar algo novo sobre os acordes familiares.

A cena se repete outras quatro vezes, até que, já finalizando a louça, ele nota Alice vestir o sobretudo novamente e se dirigir à porta. Antes de sair, se vira para ele com um sorriso divertido.

— Até amanhã, barman.

Jasper não responde. Catatônico, apenas a observa desaparecer pela porta, o som dos sinos presos à entrada ecoam pelo bar por um tempo extenso. Quando o silêncio retorna, ele olha para a jukebox apagada e, quase sorrindo, balança a cabeça. Até amanhã, Alice.

~.~

Jasper mastiga o pedacinho de capim retirado do mato próximo de onde estacionou sua caminhonete. Era sempre tedioso ir ao Mercado de Natal de Forks, principalmente porque nessa época se mistura à feira de orgânicos e desconfia que, durante o alto inverno, não teria hortaliça alguma.

Deixa seu olhar passear pelas barracas, pelas pessoas, pelos produtos expostos à sua frente. Peru, frango, frutas — algumas — e não, nenhuma hortaliça. Busca pelo alecrim, manjericão e hortelã para reposição no bar, mas seu olhar encontra tudo menos isso.

Enquanto caminha, evitando pisar nas poças recém-formadas por neve em processo de degelo, escuta crianças rindo e chorando. Escuta adultos rindo e gritando. Escuta vozes masculinas alteradas e femininas com risadas expansivas. Escuta latidos de um cachorro e, bem ao longe, os sinos de alguma igreja. Escuta muito, enxerga muito, mas a verdade é que pouco ouve e vê.

Sua mente o transporta para um passado não tão recente, mas próximo o suficiente para ainda doer. Lá também havia vozes, muitas vozes, porém desprovidas de risos. O ambiente era pesado, dominado por tons de cinza e uma opressão que parecia impregnar até o ar. Não havia o som animado de cachorros latindo, apenas o eco constante de passos ritmados e o clique seco de chaves girando em fechaduras maciças. Apitos cortavam o silêncio, seguidos por comandos diretos que soavam como marteladas, marcando o tempo de maneira mecânica, impessoal. No fim do ano, houve uma tentativa frágil de trazer alguma humanidade ao espaço: decorações improvisadas com papel e fita adesiva surgiram em cantos estratégicos, mas pareciam mais um lembrete cruel de um mundo inalcançável além daquelas celas.

Mas algo interrompe sua linha de pensamento. Um som distinto emerge da cacofonia do mercado. Ele para, tentando identificar a fonte, e é então que percebe a música. Um violão, dedilhado com suavidade, e uma voz feminina que soa familiar e ao mesmo tempo surpreendente. Sua mente volta ao presente, ao momento. Ele segue o som, guiado mais pela curiosidade do que pela necessidade, até que a encontra — Alice, com o violão nas mãos e a melodia preenchendo o ar frio ao redor dela.

Ela está vestida de forma simples, mas há algo magnético na cena. O jeito como fecha os olhos em alguns versos, o pequeno sorriso de canto que escapa quando percebe que capturou a atenção de alguém... Jasper para a uma distância segura, misturado entre os outros espectadores, mas seus olhos não se desviam dela. Ele não percebe que está sorrindo até que Alice abre os olhos e o encara.

— Ei, Jasper! — Ela o chama, como se fosse o mais natural dos encontros, assim que termina a música.

Ele levanta uma mão em cumprimento, meio hesitante, mas é tarde demais para recuar. Alice já está recolhendo o dinheiro e se aproximando.

— Então você é multifuncional? — Ele comenta, gesticulando para o violão.


— Ah, digamos que é uma fonte de renda paralela. — Alice responde, rindo. — Eu não preciso pagar um violonista para me acompanhar — explica, notando a expressão de dúvida por trás daqueles olhos azuis atentos.

Jasper tem uma presença contida, quase cautelosa, marcada por traços bem definidos: um maxilar firme, lábios discretos e desenhados, e a pele pálida que parece nunca ter visto o sol. O cabelo curto, de um loiro acinzentado, é levemente bagunçado, dando um toque casual ao semblante sério. Ele mantém uma postura ereta, mas há algo nos ombros, uma rigidez que denuncia uma prontidão constante. O olhar é direto, mas carregado de algo mais — talvez um cansaço ou uma desconfiança enraizada.

— Se soubesse que viria, teria caprichado mais — brinca Alice, terminando de guardar seus pertences e devolvendo a leveza ao momento.

— Não precisava. Foi bom o suficiente para fazer um barman rabugento parar de andar no frio pra escutar música de Natal.

Ela riu, balançando a cabeça. — Isso foi um elogio?

— Talvez. Não conte pra ninguém. — pisca um de seus olhos, estranhando o próprio gesto. Jasper não se lembrava da última vez que tentou flertar com alguém. O estranhamento é dissipado quando percebe o rosto branco de Alice enrubescer.

— O que faz por aqui? Não combina com mercados de Natal.

— Isso foi um elogio? — pergunta com diversão na voz e ela gargalha. — Suprimentos para o bar, — ele ergue um saco de papel. — E você? Cantando para comprar presentes?

— Hum… Pode-se dizer que sim. — Ela deu de ombros. — Mas já que você está aqui, pode me ajudar?

Antes que ele responda, Alice enfia as moedas no bolso, pendura o violão nas costas e empurra uma sacola nas mãos dele. Lá dentro, uma coleção aleatória de itens: maçãs, nozes, um enfeite de rena dourado e, claro, uma garrafa de rum.

— Está abusando da sorte, sabia? — murmura Jasper, segurando a sacola com uma sobrancelha arqueada.

— Considere que é um pagamento pelos meus elogios. — Ela pisca, um sorriso travesso escapando, antes de se afastar com um gingado despreocupado.

Ele balança a cabeça, rindo baixo, e decide acompanhar. Caminham juntos entre as barracas, e Alice não economiza nas palavras. Ela transforma o silêncio em uma colcha de retalhos de histórias: como aprendeu a tocar violão porque queria impressionar alguém (e falhou miseravelmente), as figuras inusitadas que cruzam seu caminho nas viagens e, finalmente, algo mais sério:

— Você acredita que me pediram pra cantar “Sweet Caroline” em um casamento? — conta, indignada.

Jasper sorri, curioso. — E você?

— Olha, a música é boa, mas eu recusei. Tinha que ser mais autêntica, sabe?

Jasper ri, fazendo uma careta de quem entende. — Dava pra ver o que ia acontecer com você cantando “Sweet Caroline”… um desastre. — Eles riem, mas Alice logo emenda em um outro assunto.

— Eu não ficava muito tempo nos mesmos lugares, sabe? Então a música meio que virou meu chão. — O riso perdido na sua voz só o faz perceber que o assunto é sério quando suspira com a lembrança. — Quando era criança, entre uma casa e outra, o violão era a única coisa que fazia sentido carregar. Sempre cabia na bagagem, por mais que o resto mudasse.

Jasper escuta com atenção e nota que ela menciona uma infância instável. Decide continuar a escutá-la antes de buscar mais respostas. Alice hesita, ela não costuma se abrir tanto de maneira tão rápida, mas continua. Algo em Jasper a acalma.


— Lembro que uma assistente social disse uma vez que música era a única coisa que me fazia parar quieta. Que eu cantei antes mesmo de aprender a falar.

Alice olha para Jasper, como se estivesse esperando alguma reação, e ele assente, genuíno e encorajador.

— Faz sentido. Você tem jeito para a coisa.

É um elogio simples, mas a sinceridade no tom dele a desarma. Ela ri, desta vez com um som mais suave, menos performático. Ele gosta.

— Você foi adotada? — ele questiona após alguns minutos de silêncio. Observa que ela vira a cabeça, reflexiva, e o encara.

— Sim e não.

Os lábios de Jasper, vermelhinhos pelo frio, se curvam em um sorriso. Ele adora como, para Alice, tudo tem nuances. Suas respostas não são evasivas, como alguns poderiam pensar; ela realmente acredita que o mundo é feito de “sim e não”, “muito e pouco”. Ele havia notado isso desde os primeiros encontros no bar.

— Gosto como você nunca é categórica.

— Eu sei. — Responde com aquele tom leve, como se a frase fosse uma verdade autoevidente.

Eles caminham juntos, as sacolas de compras pesando em suas mãos, mas o tempo parece se arrastar ao redor deles. À medida que avançam pela feira, a conversa segue, com Alice contando sobre os lugares por onde passou e os tipos curiosos que conheceu. A pergunta de sua adoção esquecida. Não é uma conversa apenas de palavras, mas de gestos e olhares que se estendem por mais tempo do que o necessário, como se ambos tentassem ler as entrelinhas daquilo que o outro não diz.

Quando finalmente terminam de resolver as compras, Alice interrompe o fluxo da conversa com um sorriso travesso, como se tivesse acabado de se lembrar de algo divertido.

— Você já viu as árvores de Natal? Vamos pegar uma para o bar!

— Não tenho tempo para essas coisas — ele responde, rabugento mas com o riso escondido no cantinho de seus olhos azuis. Alice o puxa antes que proteste mais.

— Claro que tem! Já te vi dormindo no bar no meio de um expediente em que você não tinha nada para fazer — acusa, e ele ri, encolhendo os ombros.

— Talvez não tenha interesse…

— Isso eu não posso negar.

— Então vem, deixa eu te contagiar com um pouco da magia do Natal — convida, estendendo a mão.

Jasper encara aqueles dedos convidativos e, sem pensar muito, entrelaça os seus. A mão dela é áspera e quente, completamente diferente do que ele imaginava. Faz sentido — o violão faz a pele calejar. Alice aperta a dele com firmeza e o puxa em direção à área das árvores, um lugar que ela já frequentava diariamente ao fim de suas apresentações.

Na área das árvores, tudo é um caos organizado: famílias escolhendo pacientemente, crianças correndo, e uma trilha sonora natalina tocando de um alto-falante. Entre as árvores, Alice para diante de uma pequena e rechonchuda, com galhos ainda frágeis. Essa a faz lembrar de uma criança gordinha. Jasper percebe a expressão travessa dela e aperta sua mão, chamando sua atenção.

— Eu não tô exatamente podendo gastar um dólar sequer nisso — ele lamenta.

Alice mantém o sorriso, agora ainda mais cheio de intenções. — Eu também não — admite.

Jasper suspira, sentindo-se obrigado a colocar os dois pés na realidade. — Alice, eu não gasto dinheiro com coisas assim. Desde que saí do Texas, tenho me virado com o básico. Trabalho pra pagar o próximo dia.

— Por que você saiu do Texas? — ela pergunta de repente.

— Pensei em voz alta? — Ele franze a testa, intrigado. Com Alice, isso parecia acontecer o tempo todo: ela fazia com que seus pensamentos fluíssem sem que ele percebesse.

— Foi por causa de uma mulher? — provoca, divertida.

Jasper sorri de lado, mas logo sua expressão se torna mais séria.

— Não foi mulher… — Suspira exageradamente dramático. — Sabe quando você tem tudo, mas sente que não tem nada? Quando todas as pessoas ao seu redor parecem estar ali por obrigação ou interesse e não por você de verdade? E então percebe que não quer mais fazer parte de uma família que te falhou quando você mais precisou?

Alice ouve suas palavras, mas elas provocam o efeito oposto nela.

Para alguém como ela, que nunca teve tudo e sempre soube disso, era difícil compreender. Abandonada ao nascer, pulando de lar em lar, sendo constantemente acusada de não ser o suficiente — ou de ser demais —, Alice jamais experimentou a sensação de escolha. Suas circunstâncias sempre foram impostas.

— Não sei se consigo entender, mas posso te ouvir — oferece.

Os olhos de Jasper evitam os dela, fixando-se em algum ponto no horizonte. Alice percebe que mesmo sendo empática Jasper parece se fechar em si mesmo. Ela sente a mudança no ar, uma tensão silenciosa, como se ele estivesse lutando contra algo que não podia controlar. Alice entende, de algum modo, que o simples ato de oferecer sua escuta, sem prometer mais do que isso, foi suficiente para fazer Jasper hesitar. Ela sabe que ele não está pronto para revelar mais, mas se tranquiliza porque sabe que esse momento virá.

— Árvores? — ele sugere, com um fio de voz.

Alice sorri, e ele acaba sorrindo também. Seus históricos ficam em segundo plano, ofuscados por uma cumplicidade momentânea e olhares divertidos.

— E se a gente… pegasse emprestada? — ela propõe, hesitante.

Ele ri, incrédulo, arqueando uma sobrancelha, mas o sorriso dela é contagiante. Antes que percebam, estão correndo, ela com a árvore nos braços e ele segurando sua mão. Fogem com um riso silencioso para não atrair atenção como cúmplices de um plano absurdo.

Quando finalmente colocam a árvore na caminhonete de Jasper, ele a observa, ainda sorrindo enquanto ajusta o cinto de segurança. Pela primeira vez em muito tempo, ele se sente… leve. Mas o alívio é rapidamente substituído por um pensamento incômodo:

Não há nada no mundo mais perigoso para ela do que eu.

~.~

A noite estava fria, mas dentro do bar a energia era quente. Alice, com seu sorriso contagiante, e Jasper, com o olhar atento e a postura um pouco rígida, estavam lado a lado na tarefa incomum de decorar a árvore de Natal. A árvore, pequena, mas imponente, ocupava o canto do bar, com luzes brilhando em um contraste marcante com o ambiente aconchegante e rústico. Alice era quem decidia onde as decorações iriam, com a liberdade de uma criança em uma loja de doces. Ela parecia flutuar de uma ideia para outra, equilibrando as esferas coloridas com uma leveza que contrasta com o próprio peso que ela carregava por dentro de si.

— Agora, um pouco mais de brilho aqui, e pronto! Vai ficar maravilhosa, — ela disse, ajustando uma estrela dourada no topo da árvore.

Jasper observou o esforço de Alice em fazer algo tão simples parecer mágico. Ele se pegou rindo levemente, uma risada que não ouvia há tempos, sentindo a estranheza de se ver tão à vontade com alguém.

Observa a árvore depois de pronta e nota como agora parecia tão cheia de vida quanto ele, mesmo que em ambos ainda restassem alguns espaços vazios. Quando terminaram, ambos se afastaram para observar o que haviam feito. A árvore, exageradamente brilhante, parecia fora de lugar no Albatroz. O bar era um pouco decadente e escuro, mas algo na árvore dava um brilho que ele não sabia explicar.

— Você acha que alguém vai perceber que estamos tentando fazer isso parecer bonito? — Alice perguntou, com um sorriso travesso, já caminhando para a jukebox do outro lado do bar.

— Só se você cantar músicas natalinas junto, — Jasper respondeu, esboçando um sorriso que não podia mais esconder. — Eu nunca vi alguém dar tanto brilho a uma árvore de Natal quanto você fez hoje.

Alice soltou uma risada abafada, algo que só eles dois poderiam entender. Ela então escolheu uma música, e a melodia familiar preencheu o ambiente. Ela começou a cantarolar suavemente, como se a canção fosse uma extensão dela mesma. A letra fluía sem esforço, como se a jukebox estivesse realmente em sintonia com seus pensamentos. Jasper também fluía no bar sem esforço, enquanto tocava as atribuições que a ele cabiam antes do bar abrir.

Depois que a música encerrou, Alice buscou uma moeda da jarra de gorjetas, arrancando uma gargalhada dele, e colocou novamente na jukebox. A música tem uma melodia estranhamente cativante… As primeiras notas do piano são quase como a neve caindo lá fora… fria, lenta e leve, um eco leve no silêncio do bar. Há algo no ritmo dedilhado do violão que parece se conectar com o movimento de suas próprias mãos limpando o balcão — repetitivo. O som é simples, mas há uma melancolia ali que o faz pensar em lugares que nunca viu e sentimentos que não costuma explorar. É uma música que parece flutuar pelo ambiente.

— Sabe… estive me perguntando… Por que "Albatroz"? O nome, digo. O que ele significa para você? — Alice pergunta, a curiosidade brilhando em seus olhos enquanto observa o nome no cardápio do bar.

Ele faz uma pausa, o pano no vidro da taça criando círculos sem fim enquanto pensa. O sorriso dele é quase automático, como se estivesse buscando uma resposta pronta. Mas a pergunta o pega desprevenido. Ele para de limpar a taça, olhando para o nome do bar no menu plastificado e, por um momento, parece que se perde ali.

— Hm… não sei. Eu só escolhi esse nome na hora. Nunca dei muita atenção ao significado. —

Ele diz, com um sorriso que tenta ser despreocupado, mas logo seus olhos se perdem no vazio, como se estivesse distante, refletindo.

Alice, divertida, balança a cabeça. — Você jura?

— Talvez seja só uma ave bonita…

— Jasper… — ela ri, perdendo até um pouco do controle. — Não é possível que você tenha nomeado o seu bar em homenagem a um pássaro. — Responde incrédula e alarga o sorriso quando ele estreita os olhos. — Eu adoro quando as coisas têm uma história ou um significado oculto, então saiba que agora o nome do seu bar tem um motivo para ser o que é. — afirma categórica e dessa vez é Jasper quem gargalha.

— É mesmo? — pergunta provocativo e ela assente com a cabeça, resoluta. — Então me conta.

— Essa música tocando da Taylor Swift. Já conhecia?

— Olha bem pra mim e veja se eu sou o tipo de pessoa que tem cara de quem ouve isso?

— Pois eu sou completamente viciada nela.

— Mas você tem cara de swiftie.

— O que quer dizer com isso? — pergunta num ultraje exagerado e brincalhão.

— Que você, toda bonita, estilosa e poeta assim… Só pode ser fan da Taytay.

Alice gargalha, jogando a cabeça para trás, a risada dela cheia de leveza. O som preenche o ambiente, suave e contagiante, fazendo com que Jasper se deixe levar, seu próprio sorriso se alargando sem esforço. Ele a observa com os olhos mais focados, como se estivesse tentando guardar cada detalhe da expressão: os olhos brilhando, as bochechas levemente coradas, a maneira como ela se entrega ao riso. Algo nela, tão livre e genuína, mexe com algo dentro dele.

Por um instante, ele se perde no brilho dos olhos castanhos esverdeados, agora com um reflexo que ele reconhece, um olhar cheio de algo mais profundo. Ele ri com ela, mais relaxado do que imaginava ser possível, e, por um momento, toda a rigidez que carrega parece desvanecer.

— Não é possível que você não tenha pensado direito em como nomear seu bar! — Ela retoma com naturalidade, como se não tivesse acabado de ser a protagonista de uma cena linda. — Eu sou do tipo que adora entender o que há por trás das coisas. E não é possível que esse bar não tenha um tico de inspiração na música da Taylor Swift…

— Que? — Ele está tão confuso que até para de secar a louça que acabou de lavar.

— Essa música se chama "The Albatross". Já ouviu?

— A Taylor tem uma música com o nome do meu bar?

— Você tem um bar com o nome da música dela! — provoca e ele ri.

— Nunca tinha ouvido antes…

Alice sorri, animada, como se fosse uma revelação compartilhar aquilo com ele.

— Ah, deixa eu voltar porque você precisa prestar atenção na letra! A música é tão boa, fala sobre carregar um peso, sabe? Algo do passado que fica te perseguindo… — Ela sorri, absorvendo o momento. — Ah, e tem uma poesia também. A Taylor inspirou a música nela… Tem o mesmo nome. Já leu?

Jasper olha para ela, envergonhado com um sorriso suave. Seus olhos não disfarçam o desconforto. Ele balança a cabeça, se recostando na gaveta, enquanto segura os talheres que esperam ser guardados.

— Também não sou muito de poesia, Alice, mas… você tá dizendo que o albatroz é o peso do passado? Eu já ouvi algo parecido... talvez na escola tenha lido a poesia, não sei. Algo sobre um pássaro que você não pode livrar de si, porque está sempre preso a ele? — ela assente. — Aí sim… essa coisa de carregar um peso do passado... disso eu entendo. — Ri com sua própria tragédia. — Canta pra mim? Acho que vai ser melhor pra prestar atenção na letra se for você cantando.

Ela mexe no celular dando play novamente na canção. Acompanha a música com sua própria voz. Baixinha, como se estivesse tentando ser delicada com a redoma que os envolve.

Ele a observa, em transe e com o sorriso brincando nos lábios. A música segue e ele endireita a postura, desconfortável com as palavras cantadas, como se a letra o tivesse tocado de uma forma mais pessoal do que ele gostaria de admitir.

— Caramba... Sua voz é realmente linda — Elogia enquanto a sua é baixa e carregada de emoção. Alice sorri e percebe que ele se afasta um pouco da conversa, tentando focar nos talheres que precisam ser guardados. — Então, você realmente acha que o nome do bar tem a ver com o pássaro? — ele pergunta depois de alguns instantes.

Alice sorri com uma leveza que só ela consegue ter, olhando para ele com os olhos brilhando.

— Acho que sim. O albatroz, sabe? É um pássaro solitário, que voa longas distâncias e é grande. Fico pensando que voa muito, sempre sozinho e carregando o peso de seu próprio voo. Ele leva um peso que ninguém vê, mas que sempre está lá… É parte de quem ele é. Acho que faz sentido no final das contas, porque ele voa buscando um lugar para pousar – um porto seguro. E vejo o bar como um lugar assim… Com sua própria carga, seus próprios desafios, mas é um lugar onde as pessoas vão para encontrar algo, mesmo sem saber o que procuram. Uma espécie de porto seguro também, né? Quantas pessoas te buscam por conforto?

— Conforto? — Ele levanta uma sobrancelha provocativa e ela ri.

— Um desabafo, um ombro amigo! Eu sei que tem esse módulo no curso de mixologia que vocês fazem.

— Ah, ufa! — solta uma risada e empurra o ombro dela de levinho, a fazendo girar na banqueta alta em que estava sentada

— Achou que era putaria né? — Gargalha quando ele arregala os olhos. — Eu sou uma profundeza de reflexões malucas, posso continuar eternamente se quiser. — Alice olha em volta e fixa o olhar na caixa de música brilhante. — Ela, por exemplo… posso fazer mil metáforas sobre como ela é o brilho do farol que o albatroz encontra como repouso durante o seu longo voo.

O sorriso era brilhante, mas morre quando nota que Jasper franze a testa. — E você acha que isso tem a ver com o nome?

Alice balança a cabeça com um sorriso travesso, como se estivesse compartilhando um segredo.

— Sim! O nome do bar tem esse peso, esse significado, mesmo que não seja óbvio. Como o albatroz, o bar carrega sua própria história, suas próprias cicatrizes e, às vezes, é exatamente isso que atrai as pessoas. O fato de que o peso do bar é indissociável do conforto que ele oferece.

Jasper fica em silêncio por um momento, refletindo. Então, ele solta um riso suave.

— Nunca pensei nisso dessa forma. Acho que, para mim, o nome sempre foi só uma escolha aleatória, sabe? Algo que soou certo na hora. Mas agora, ouvindo você, acho que faz sentido com o que eu estava passando quando comprei o espaço.

Ele olha para o fundo do bar, olhando o espaço em busca de uma resposta que até poucos minutos, nunca achou que precisaria formular.

— Talvez seja mais do que apenas um nome. Talvez seja… seja o peso de manter esse lugar de pé, mesmo quando é difícil.

Alice sorri, satisfeita com a conclusão dele.

— Exatamente. Às vezes, as coisas que a gente escolhe carregar, as que ninguém vê, acabam definindo a gente.

— Às vezes não é uma escolha.

— A decisão de carregar o peso é sempre uma escolha.

— É, talvez… — Ele sorri, mas é um sorriso triste, forçado. — E esse nome... Albatroz... eu nunca pensei muito sobre isso. Só queria algo diferente, algo que me distanciasse do resto. Algo que fosse só meu, entende?

Alice o encara, esperando que ele continue, mas ele não diz mais nada. O sorriso em seu rosto se desfaz um pouco, dando lugar a um olhar mais sério.

— Talvez o nome tenha mais a ver com você do que você imagina. — Alice sugere, suavemente. — Às vezes, quando tentamos fugir de algo, é porque aquilo tem algo a nos ensinar.

Jasper dá um suspiro profundo, e então se senta na banqueta ao lado dela, os olhos fixos no vazio por um momento, como se tentasse encaixar as palavras dela com algo que ele já sentia, mas nunca tinha colocado em palavras.

— Eu... comprei o bar no começo desse ano — ele diz, como se estivesse se abrindo sem querer, e depois, com um sorriso irônico, completa: — Isso me deixa com pouco tempo para pensar em muita coisa. Mas, talvez, o nome tenha mais a ver com a minha própria tentativa de me afastar de tudo o que ficou para trás.

Alice o observa, notando a mudança na sua postura. Algo nele parece se abrir, mas com cuidado.

— Então, o bar é um lugar para tentar começar de novo? — ela pergunta, com um sorriso sutil, mas acolhedor.

Jasper a olha e balança a cabeça lentamente. — Não sei. Talvez. Mas acho que, agora, depois de ouvir você falar sobre o pássaro e a poesia, talvez eu precise parar de fugir do que está aqui... dentro. — Ele a encara, como se finalmente estivesse começando a entender o peso de suas próprias palavras.

Alice sorri, tocando o braço dele com leveza.

— Talvez o bar seja mais do que você pensava. Quem sabe ele pode ser o lugar onde você se liberta desse peso, em vez de carregar ele junto.

Jasper olha para ela, pensativo, e então, com um pequeno sorriso, responde. — Pode ser… Jesus, nunca achei que Taylor Swift me deixaria tão pra baixo.

— Bem vindo ao nosso mundo, Swiftie! Agora, vou te contar uma história. Algo que se encaixa com o que você falou. Algo que vai dar mais profundidade a esse lugar.

Alice se junta a ele para terminar de limpar o bar antes de abri-lo. As horas se passam até que começam a entrar os clientes fiéis de sempre. Jasper, com as mãos ainda sujas de glitter, começa a servir uma rodada para alguns clientes que chegam. Mas, à medida que o som da música se espalha pelo bar, ele sente algo estranho. Involuntariamente, começa a cantarolar baixinho a melodia da música da Taylor Swift, quase sem perceber.

Ele se interrompe abruptamente, sentindo uma onda de pânico se formar dentro de si. Como isso está acontecendo? Ele nunca se sentiu tão... em casa. O que está acontecendo? Alice, com sua presença expansiva e brilhante, parece tomar conta de tudo. Não é assim que as coisas devem ser.

Jasper olha para ela, ali na jukebox, perdida na melodia e em seus próprios pensamentos, sempre tão vivos e artísticos. Pela maneira como estala os dedos e bate o pé no chão com uma cadência peculiar, ele julga que ela, provavelmente, esteja compondo. Ele começa a se acostumar com a presença dela, quase como se pudesse prever suas ações ou antecipar seus pensamentos — e isso o assusta. Assusta porque Alice é como uma tempestade: poderosa, imprevisível. E ele não.

O medo de se abrir para ela, de confiar novamente, cresce no mesmo ritmo da vontade de fazê-lo. Ele já foi quebrado tantas vezes, por aqueles que deveriam amá-lo, que escolheram fazê-lo.

Jasper observa Alice dançar com um dos clientes fiéis do bar, e quando seus olhares se encontram ele estremece.

Olha em volta e nota o Albatroz vivo. Pela primeira vez em muito tempo conta com a presença de famílias. Tem luzes, cheiros, sons e alegria. O bar decadente e frio toma forma, toma corpo e vive. E é justamente isso que o faz estremecer — a dependência de Alice para estar vivo. Como o bar, ora decadente e frio, Jasper também se sente vivo, e sabe que tal como o Albatroz, é pela musicista que se impôs na sua vida, desafiando-o a ser maior, melhor e vivo.

Mas poderia Alice também ser a mesma ameaça que sua família foi? Poderia ela ser a pessoa que ele se abriria para confiar, apenas para ser abandonado quando estiver mais fragilizado? Alice já deixou claro em diversas ocasiões o quanto detesta se prender em um só lugar, como sua vida é andarilha e como logo deixaria Forks em breve.

O som da jukebox era agora uma trilha sonora para sua crise interna. As lembranças da prisão, das suas ligações ao seu irmão, Edward, nunca atendidas se misturavam de maneira dolorosa com uma projeção de futuro em que ela também o deixava.

Ele se afasta um pouco do salão, ajeitando uma garrafa em cima do balcão com as mãos trêmulas. Ela é diferente. Ela não tem o que ele precisa. Ele sabia que, se se deixasse levar por Alice, ficaria mais uma vez vulnerável.

Mas, ao mesmo tempo, havia algo nela que o desarmava. Algo genuíno, uma fragilidade disfarçada sob sua ousadia. Jasper não sabia se era ela quem o fazia querer confiar ou se era apenas ele se permitindo acreditar em algo que parecia tão improvável.

— Jasper, você está bem? — Alice perguntou, interrompendo seus pensamentos. Ela o olhava com um olhar suave, mas atento. Ele podia ver que ela percebia o peso que ele tentava esconder.

— Sim, só... distraído, — ele respondeu, tentando afastar a tensão. Mas dentro dele, um medo crescente se formava. Ele sabia que ela estava começando a entrar em sua vida de uma maneira que não sabia como lidar.

Ele suspirou, virando-se para dar atenção às duas jovens que acabaram de se aproximar do bar.

Sua mente girava. Eu deveria ficar distante. Isso é o que é melhor para ela... para mim... Mas no fundo, ele sabia que estava mentindo para si mesmo. Algo que ele não podia explicar dizia que Alice era mais do que ele poderia desejar. E ele não sabia se estava pronto para arriscar arriscar descobrir o que isso realmente significa.

Alice, se afasta dando espaço para que ele trabalhe, mas do outro lado do bar observa a hesitação de Jasper, sentindo um súbito silêncio entre eles crescer. Ela não sabia o que era, mas pressentia que ele estava se fechando novamente, afastando-se, e isso a fazia querer entender mais, tentar mais.

Jasper olha para ela mais uma vez antes de voltar à sua rotina. Os olhos esverdeados da cantora se fixam nos dele com a mesma intensidade, como se ambos buscassem no olhar do outro a segurança que tanto desejam, mas que nenhum pode garantir. É Alice quem cede primeiro. Um sorriso tímido surge em seus lábios, onde toca com os próprios dedos, os beijando e apontando na direção dele.

O gesto é pequeno, quase imperceptível, mas o atravessa completamente. A coqueteleira fica suspensa no ar, esquecida, enquanto ele sente o peso daquele beijo imaginário pousando sobre si.

— Até amanhã. — Ela murmura sem som e vai embora.

A súbita ausência de Alice serve para que, mais uma vez, ele tente se convencer de que a segurança de sua solidão era mais forte do que qualquer desejo que sentia por ela. Mas a verdade era que, com cada risada, cada olhar trocado, ele sentia suas fortalezas começarem a ceder.

E ambos sabiam que o que começava entre eles poderia ser mais profundo do que qualquer um dos dois poderia controlar.

~.~

Jasper ficou ali, parado, ouvindo a porta do bar se fechar atrás de Alice. O gesto dela, um beijo lançado ao ar, ficou suspenso entre eles, como uma promessa não dita e muito antecipada.

O olhar dela o desnudou de um jeito que ele ainda tentava entender, mas o desejo era claro: ele batalhou muito por aquele beijo, e o merecia. Queria ceder ao impulso de sentir a suavidade daquela boca, de sentir o calor dos lábios e da língua. De sentir o aroma mentolado que sempre sentia quando ela murmurava ou sussurrava algo em seu ouvido. De quebrar o silêncio que os separava com o som de um gemido que ele sabia que ela provocaria nele.

Jasper não sabia como um gesto tão singelo quanto um beijo lançado no ar poderia despertar um tesão tão forte. A lembrança do cheiro de sabonete tão característico dela, do hálito refrescante, do toque da sua mão áspera contra a sua… Era claro que independente de todas as inseguranças, ele não conseguia se convencer de que poderia deixar aquilo escapar.

— Mike, já volto — gritou ele para o colega de trabalho, antes de deixar o bar com pressa, os passos rápidos ressoando no corredor escuro que levava até a entrada.

Lá fora, o ar frio o atingiu, e ele viu Alice encostada na parede externa do bar, com os olhos fechados e a respiração forte, como se estivesse tentando se controlar.

Por dentro, Alice se sentia perdida, como se não soubesse o que fazer com os sentimentos que a consumiam. O beijo lançado ao ar parecia puxá-la com uma força maior do que a gravidade. Ela queria, precisava beijá-lo, cada centímetro de seu corpo antecipando aquele toque. Mas algo a continha, uma voz silenciosa dizendo que ele se protegia demais, com armaduras invisíveis demais para ela quebrar. A distância entre eles parecia impossível de suportar, e, ao mesmo tempo, parecia um abismo difícil de encurtar.

Decidida, Alice falou, sua voz baixa, mas clara, sem virar-se para ele.

— Eu sei que você está atrás de mim, Jasper. Eu sei... — A última palavra ficou no ar, cheia de algo mais, algo que ela não ousava dizer.

Jasper se aproximou sem hesitação e parou a poucos passos dela, seu coração batendo rápido, seus pensamentos tão confusos quanto às palavras que ele ainda não tinha coragem de pronunciar. Ele sabia apenas o que sentia, e isso o consumia.

Sua resposta foi muda, apenas se aproximando dela, a respiração se misturando no ar frio da noite criando um enlace de vapor entre suas bocas. O mundo parecia ter desaparecido em torno deles, deixando apenas o som de suas respirações entrecortadas. Alice, quando sentiu os corpos se encontrando, levantou o queixo, convidativa. Jasper se viu latejando ao encarar os olhos dela, que brilhavam sob as luzes de Natal que iluminavam a rua.

E, num impulso, suas bocas se encontram. Não havia palavras. Apenas o toque de seus lábios, cauteloso, quase tímido, como se ambos temessem que, se fosse mais rápido, tudo desmoronaria. Mas logo o beijo se aprofunda, como se a tensão entre eles estivesse, finalmente, sendo liberada. Era um beijo terno, mas com algo mais — algo que ambos estavam tentando esconder, uma necessidade que os engolia.

Jasper sente o calor de Alice, a suavidade de seus lábios, o jeito como ela se entrega com uma confiança inesperada. O desejo ali, não disfarçado, mas contido em cada movimento, em cada suspiro que escapa deles.

Alice o puxa um pouco mais para perto, seus dedos roçam a nuca, e ele reage. Como se o corpo tivesse vontade própria, se aproxima ainda mais, conquistando mais. Seu cheiro fresco era viciante.

O beijo se torna mais urgente, mas ainda assim, cuidadoso. Inseguros, temendo se perder um no outro, deixam que o desejo os guie. Quando se separam, seus lábios ainda tremem, como se o gosto um do outro estivesse gravado, inapagável.

Alice permanece perto dele, sentindo-o por todo seu corpo, a respiração irregular, mas um sorriso tímido formando em seu rosto.

Jasper olha para ela, os olhos ainda carregados com a intensidade do momento, e sente a necessidade de dizer algo, mas as palavras parecem inadequadas, desnecessárias. A resposta estava ali, nos gestos, no toque sutil de suas mãos, na forma como ele a olhava. Ele não precisava de mais nada. Nada, exceto ela.

Por um momento até esquece de seus medos, das dúvidas, de tudo o que o havia feito se fechar. Tudo o que restava era a sensação do beijo, e o desejo, agora impossível de ser negado.

Alice, ainda com o sorriso tímido, olhou para ele e, quase em um sussurro, disse: — Eu sabia... que a gente ia acabar aqui.

Jasper não responde, mas não precisa. O beijo ainda ardia em sua boca, e a presença dela o consome de uma forma que ele não conseguiria mais controlar. A intensidade do que acontecia entre eles era palpável, como se o espaço entre seus corpos fosse uma linha tênue que se romperia a qualquer momento.

Foi então que ele avançou. Sem mais palavras, sem mais hesitação. Suas mãos, antes tímidas, agora se movem com urgência, deslizando pelo corpo dela com uma confiança crescente. Ele a puxa para si, sentindo a suavidade de sua pele sob o sobretudo, e o calor de seus corpos se misturando.

O beijo, agora mais voraz, se aprofunda com um desejo tão súbito quanto imenso.

Ele a beija como se quisesse se perder nela, como se aquele fosse o único momento que importasse.

Alice geme, um som profundo que atravessa a noite, e Jasper, insaciável, desabotoa o sobretudo e a toca por baixo da roupa. O frio da noite não parecia afetá-los — o calor entre eles era insuportável. Jasper beija seu pescoço e, ao sentir o corpo dela se contorcendo contra o dele, agarra os seios com firmeza. Alice abre as pernas e enrosca uma delas em seu quadril. Jasper não hesita, roçando seu sexo contra o dela com uma necessidade desesperada.

O calor parece insano.

Alice retira uma das mãos do cabelo dele e a desce até suas nádegas, apertando-o contra ela, unindo-se mais, mas não tanto quando poderiam fazer caso estivessem sem roupa. O gemido que ela solta é melhor do que qualquer melodia.

— Porra, que vontade de você — geme quando sente o roçar do pau duro dele contra si.

Ele a puxa ainda mais para perto, os corpos se encontrando com a força de um desejo reprimido por tempo demais.

As mãos de Jasper exploram seu corpo com pressa, tocando, sentindo, sem se importar com mais nada. Ele a ergue, encaixando-a perfeitamente entre o muro do bar e seu próprio corpo. Alice, sem conseguir se segurar, se entrega ao beijo, sua mão indo para a nuca dele, puxando-o mais forte, mais perto. A urgência cresce, impossível de ser contida.

O contato entre eles é frenético, a respiração de ambos descompassada. Jasper não quer mais pensar, não quer parar, não pode mais resistir.

Alice geme novamente, mais alto, mais descontrolada. A melodia da sua voz, suave e transbordando de prazer, faz com que ele se dê conta de onde estão. O som do bar, as vozes e a música ainda tocando ao fundo, o faz parar por um segundo.

Foi como se o lugar, com sua energia crua e viva, fosse agora o cenário proibido para o que estava acontecendo entre eles. Jasper olha nos olhos dela e percebe um brilho de desejo profundo e incontrolável, possivelmente espelhado.

Ele não conseguia mais afastar a ideia de que precisava dela, precisava mais e precisava agora.

Ele sorri, ofegante, e, com a voz rouca, — Vamos pro escritório. A entrada é externa ao bar. — Arrepia-se quando Alice o arranha na barriga.

— Escritório? Não é proibido transar lá? — riu, provocativa.

— Se meu chefe não gostar, que me mande embora — brinca e a puxa para mais um beijo.

Eles se afastaram do bar, as mãos de Jasper enlaçadas às dela, enquanto o desejo que os une cresce ainda mais forte.

O resto do mundo já não importa mais.

~.~

A noite está fria e silenciosa, o vento faz a estrutura de madeira ranger. Jasper está sozinho no bar, o lugar vazio e escuro, exceto pela luz suave da lâmpada acima do balcão e pela jukebox que toca uma música melancólica, um blues que parece refletir a angústia que ele sente.

Ele limpa os copos, absorto em seus próprios pensamentos, mas com uma ansiedade crescente no peito. Ela não aparece mais. Ele tenta não deixar a paranoia tomar conta de sua mente, mas refaz todos os minutos das últimas horas com ela, tentando descobrir onde errou.

A porta do bar se abre com um rangido baixo quando Alice entra silenciosamente, seu olhar fixo em Jasper, que está ocupado limpando os copos. O som da jukebox preenche o ambiente e seus sentidos, a música suave e pesada criando uma atmosfera única. Ele se vira, sem esperar mais uma visita dela. O coração dá um salto, mas a razão o impede de demonstrar muita emoção.

— Você voltou — diz, tentando esconder a surpresa na voz. — Achei que tivesse ido embora.


Ela olha para ele com um pequeno sorriso e um olhar penetrante.


— Eu disse que ia embora, mas a vida nunca faz o que a gente espera, né? — Ela caminha até o balcão, suas mãos descansando sobre o tampo de madeira polida, como se estivesse buscando algo mais ali.

Jasper a observa, um misto de alívio e apreensão. Ela tem algo de enigmático, e isso o incomoda tanto quanto o atrai.


— Você me deixou sem notícias. Pensei que tivesse ido para a Costa Leste.


Alice cruza os braços, seu sorriso agora mais suave, quase envergonhado.


— Fui chamada para substituir uma cantora em um pub de Seattle. Foi tudo muito rápido. Não tive como te avisar. E você não tem WhatsApp, nem redes sociais... Não tinha jeito. Quer dizer, até tinha, mas eu não ia te mandar uma carta, né?

Jasper não consegue evitar um sorriso cínico.


— Acho que fiz bem em não me envolver com isso. Gosto de não ser mais um obcecado pela internet. Anota aí no seu caderninho: às vezes, uma carta faz bem — diz com um sorriso implicante, surpreendendo a si mesmo com a facilidade com que esquece toda a angústia dos últimos dias.

Ela o olha, uma faísca de curiosidade nos olhos.


— Por que você faz isso, Jasper? Por que prefere estar fora do radar? Qual é a razão?

Jasper suspira, seus dedos tocando o copo, mas não o levantando. Ele olha para o balcão, em busca de palavras que não costuma dizer.


— Meu irmão... Ele não entendeu quando decidi ir embora do Texas depois de solto. Ficou me ligando o tempo todo, mandando mensagens, tentando me encontrar... Ele fez da minha vida um inferno tentando contato, mas... eu não queria nada disso, então... eu só reagi.

A explicação dele cai no silêncio entre os dois, pesado, mas real. Alice permanece calada por um momento, como se estivesse digerindo suas palavras. Então ela fala, sua voz mais suave, mais vulnerável.


— Eu entendo você mais do que imagina. Nunca soube o que é ficar em um lugar. Nunca soube o que é criar raízes. Quando você perde tudo muito cedo, o que te resta é sair correndo, buscando sempre o próximo lugar, a próxima cidade, o próximo rosto. Não dá para confiar em nada. Nem nas pessoas, nem nos lugares. Não sei se sou capaz de fazer isso... Enraizar.

Jasper a observa atentamente, o peso das palavras dela ressoando dentro dele. Ele sente a verdade no que ela diz. Alice fala como alguém que carrega o peso de muitas despedidas, de muitas perdas, que talvez nem sejam visíveis para o mundo. Alice é uma pessoa que não se permite ficar, que não acredita em estabilidade.

Ele inclina a cabeça ligeiramente, seus olhos fixos nela.


— Eu... não quero que pense que evito as coisas por medo. Só que, às vezes, o que parece ser uma escolha não é bem assim. Às vezes, a gente se afasta porque não sabe se consegue suportar mais uma perda.

Ela balança a cabeça, compreendendo o que ele quer dizer.


— Não sei como é viver com a certeza de que um lugar, uma pessoa, vai estar ali sempre. Fujo disso, sabe? É mais fácil estar em movimento. Você nunca é forçado a lidar com as coisas que te doem porque elas nunca estão... ali.

O silêncio entre eles se torna denso por um momento, enquanto ambos absorvem tudo o que compartilham. Então Alice deixa uma fração de sua dor transparecer.


— Fui entregue a um abrigo com meses de idade. Minha mãe biológica era adicta, e uma das consequências disso foi que, com menos de um ano, fui diagnosticada com SAF, — assente e continua explicando quando nota a dúvida na expressão dele: — Síndrome Alcoólica Fetal. É cruel e pode desencadear várias questões graves. Por sorte, desenvolvi só o Transtorno de Hiperatividade. Sorte pra mim, mas azar para as quatro famílias que decidiram me adotar e devolver meses depois.

— Sinto muito — ele diz, alcançando a mão dela por trás do balcão. Beija seus dedos e posiciona a palma de sua mão em seu rosto.


— Eu sei que sente. Obrigada. — Diz, de maneira genuína. O olhar tão cheio de empatia a faz continuar: — Fato é que nos abrigos tinham muitas regras e ouvir “não” era rotina... Eles tentaram me moldar de um jeito que eu não conseguia ser. E o que eu fazia? Fugia. E talvez eu tenha me acostumado tanto com isso que... não sei mais o que é ser outra coisa.

Jasper sente um aperto no peito ao ouvir isso. A dor dela estava ali, exposta, de uma forma que ele não esperava, mas que, ao mesmo tempo, o tocava de uma maneira que ele nunca imaginou. Ele se aproxima mais dela, suas palavras saindo com mais urgência.

— Eu não sei o que a vida te fez, Alice. Mas eu te enxergo... Eu sinto essa batalha interna que te divide entre querer muito algo, mas temer sua perda.

Ela assente e recolhe sua mão para enxugar uma lágrima recém liberta. Jasper dá a volta no balcão e para na frente da mulher que o fez sentir mais do que sentiu nos últimos anos. Vira a banqueta alta em que ela está sentada, deixando-a de frente para ele. Beija as bochechas vermelhas pelo choro silencioso e a abraça contra seu peito. Alice estremece e permite que seu choro saia de maneira mais verdadeira. Ele a abraça ainda mais forte, e a forma como ela ainda se enrijece ao seu toque o leva a crer que talvez essa seja a primeira vez em muito tempo que ela se permitia ser cuidada.

Ele beija o topo da cabeça dela e acaricia a nuca. A pele de Alice ainda está gelada, mas as mãos quentes de Jasper lhe trazem um conforto que ela não sabe explicar.

— Sabe… — ele murmura contra os cabelos dela — Às vezes não é só sobre não conseguir ficar… É também sobre não saber se é seguro tentar.

Ela o olha, um pouco surpresa com a intensidade das palavras, como se ele tivesse tocado em algo muito profundo. Seus olhares se prendem por um tempo impossível de contar. Alice beija seus lábios como um carinho suave em agradecimento.

— E você, Jasper? — Ela pergunta, a voz mais baixa agora. — Você confia nas pessoas? Você acha que é seguro tentar?

Ele dá uma risada curta, quase amarga, mas sem rancor.

— Faça o que digo, mas não faça o que eu faço. É o que dizem, não é? — Alice ri baixo e concorda. — É difícil confiar, confesso. Eu... bem, eu também fui adotado. Vivi muitos anos rodeado de amor, mas, recentemente, alguns problemas fizeram com que a gente seguisse caminhos opostos.

Ele faz uma pausa, respira fundo, e então continua.

— Mas isso não é sobre mim. Cada história é única, e a minha não muda a sua. — Ele sorri ligeiramente e se inclina mais para ela, como se quisesse suavizar sua dor. — A verdade é… quando você confia em alguém, você se coloca em uma posição vulnerável.

— E ser vulnerável é uma fraqueza que você não se dá ao luxo de ter?

— E estou errado?

Alice não responde de imediato. Parece refletir sobre o que ele disse, um sorriso triste toma o lugar do choro.

— Eu também já fui decepcionada. Muitos disseram que ficariam. E nunca ficaram. Eu não sou boa em fazer promessas. Eu não sei o que o futuro reserva. Mas talvez seja isso... O medo de planejar, de pensar em algo que vá durar. Eu nunca tive isso. Nunca soube o que é confiar em alguém para o futuro. Ou melhor, eu sempre confiei, mas junto da confiança sempre veio a decepção. Até um ponto que eu decidi só não me importar.

— Mas você se importa? — A pergunta é retórica. Ele sabe que ela se importa, porque é exatamente assim que ele se sente. Fingir que não o faz não anula o fato de que acontece.

Jasper olha para ela, agora sentindo uma conexão mais profunda entre os dois. O medo, a desconfiança, a dor — tudo está ali, em um espaço que os une, ao invés de os separar. Ele a aperta contra si em um abraço longo e suspira contra sua cabeça.

— Eu não sei onde isso vai nos levar, Alice. Mas eu não vou me afastar. Não dessa vez.

Ela olha para ele, os olhos brilhando, mas com uma faísca de algo mais: uma decisão silenciosa.

— Talvez... seja hora de tentar, mesmo sem saber se estamos em segurança. — sussurra.

A música da jukebox toca mais forte agora, a melodia refletindo a intensidade que cresce entre os dois.

Alice aperta sua cintura e deixa sua mão subir pela barriga, peito e parar no pescoço. Ela roça a ponta dos dedos na cicatriz que ele tem no pescoço, quase na nuca, que fica escondida pelo cabelo. Parece uma estrela, ela percebeu quando o viu nu no banho pela primeira vez. Quando perguntou sobre a cicatriz, ele a fez esquecer da pergunta com um beijo que ela tem certeza que nunca mais esqueceria.

— Vamos dançar — convida com uma voz rouca, mas cheia de algo novo.

Alice assente, a respiração mais pesada agora. Ele a puxa para si, e os dois começam a dançar, movendo-se com a música, cada passo os aproximando mais, como se o ritmo da música os chamasse para algo além. As mãos de Alice roçam o peito dele, e ele sente seu corpo reagir instantaneamente. Ela está tão perto que ele pode sentir seu calor, e o mundo ao redor desaparece por completo.

— Eu não quero que você vá — ele diz, a voz rouca, quase um pedido.

Alice levanta os olhos para ele, a expressão suave, mas com algo mais profundo.

— Eu não estou indo a lugar nenhum, Jasper — ela murmura, e ele não sabe dizer se o “não agora” foi dito ou imaginado. Ele não pergunta. Não quer saber.

A respiração deles está entrecortada, e é então que a beija, de novo. Mas agora não há mais hesitação, apenas a certeza de que eles estão se entregando a algo que não podem mais evitar. Alice sabe que ele não contou sua verdade, talvez não esteja confortável para tal, mas ela tem certeza de que esse momento chegará em breve.

Ela se permite ser levada por ele por mais aquela noite, por aquele beijo e por aquele homem. Respira o cheiro de suor, misturado com algo cítrico e alcoólico, e se permite esperar pelo amanhã. Pela primeira vez em muito tempo, ela anseia pelo futuro. Com ele, por ele.

Jasper a acaricia suavemente enquanto a beija. Respira, a toca, a sente. A teme.

O bar vazio ao redor deles, a jukebox silenciosa, o cheiro do álcool e da madeira, tudo se funde à paixão que os consome. Eles se deixam levar, talvez de maneira imprudente e sem pudores, mas permitem que sem mais palavras, apenas o som de seus corpos se unindo, intensos, desesperados, se façam ouvir.

~.~

O inverno se estende frio e implacável em Forks, mas dentro do apartamento de Jasper, o calor é palpável. Alice se muda para lá algumas semanas antes, fazendo uma escolha que, à primeira vista, parece prática, mas que, com o tempo, se transforma em algo muito mais significativo. Não faz sentido pagar um aluguel, ela diz, quando passa todo o seu tempo livre em sua companhia. No começo, a mudança parece simples: um quarto com apenas um colchão, um sofá surrado, e a presença constante de um ao outro. Mas logo se tornam uma rotina, uma dança silenciosa que ambos sabem que não querem interromper.

Os dias se preenchem com pequenas coisas que parecem carregar uma importância absurda, mas que para eles são simplesmente o que faz com que estejam vivos e juntos. De manhã, quando Alice acorda primeiro, o cheiro de café fresco invade a cozinha. Jasper costuma dormir mais tarde, os músculos tensos depois das longas noites de trabalho no bar. Mas não importa a hora que ele se levante; ela sempre o acompanha sorrindo e com um olhar que diz mais do que qualquer palavra poderia expressar. Nesses dias, os dois se encontram, em algum ponto entre a cozinha e o sofá, onde a conversa flui fácil, sem pressa. Ele pega seu café, ela o seu chá, e passam algum tempo em silêncio, saboreando o que parece ser o melhor momento do dia.

A rotina era simples, mas tinha algo de inusitado e apaixonante, como se, mesmo no meio de uma cidade pequena e uma vida simples, tudo fosse feito de forma especial, apenas porque estavam juntos. As noites se seguiam com risos fáceis, conversas que se estendiam até tarde, a vitrola tocando de fundo enquanto eles se aninhavam no sofá ou dançavam pela sala sem motivo algum, exceto o prazer de estarem na presença um do outro.

O Natal foi como um sonho: simples e cheio de afeto. Alice e Jasper passaram a noite em casa, o calor do pequeno apartamento contrastando com o frio cortante lá fora. Não havia grandes festas, nem a pressão de reunir amigos ou familiares — a verdade é que nenhum dos dois tinha grandes amizades em Forks. Aquele dia foi apenas entre os dois, o brilho suave das luzes de Natal, e a troca silenciosa de presentes que, mesmo modestos, estavam carregados de significado.

Alice deu-lhe um caderno de viagens que ela desenvolveu à mão. Nele continha a sugestão de roteiros de viagens nos 53 estados norte-americanos. O caderno era robusto e com um conteúdo que se estendia desde os pontos turísticos tradicionais, passando pelos melhores bares e os principais pubs para escutar música boa. Alice percebeu quando Jasper chegou no Texas e fechou o livro, mas deixou que ele vivesse seu luto por mais um tempo.

Jasper, por sua vez, lhe deu uma coleção de vinis antigos com músicas que ela adorava cantar quando estava sozinha. Nos dias que antecederam o Natal, anotou todas as que ela colocou para tocar na jukebox – ou no vinil em casa – e o chamou para dançar. Ao invés de gravar em um pendrive, comprou os discos originais de onde estavam essas músicas que seriam ouvidas pelos próximos dias na casa deles.

O Ano Novo chegou, e com ele, mais promessas silenciosas, trocadas sem palavras, apenas com olhares. Promessas de "para sempre", ditas no calor de um beijo à meia-noite, enquanto a cidade de Forks parecia ser tomada pela neve, como se o tempo tivesse desacelerado para que pudessem aproveitar aquele momento juntos.

Eles estavam sozinhos, e não havia qualquer som de fogos de artifício. Nem precisava, a única queima que eles precisavam era a que existia entre eles. O mundo lá fora não parecia importar porque naquele instante, porque mesmo o futuro sendo um território desconhecido, ela tinha certeza que juntos poderiam desbravá-lo.

No entanto, por mais que ele tentasse esconder, Jasper não conseguia escapar de seu próprio medo. À medida que o tempo passa, ele se vê mais envolvido, mais próximo de Alice, e, no fundo, sabe que ela também sente o mesmo. Mas algo dentro dele o mantém em constante alerta, uma sirene constante e insuportável o avisando sobre o inevitável. Ele queria acreditar que não seria assim, mas as palavras de Alice ecoam em sua mente…

Era um dia comum de janeiro, daqueles em que o mundo parecia suspenso entre a monotonia do presente e as lembranças das festas de final de ano. Não havia planos específicos, e Jasper não poderia estar mais satisfeito com isso. Desde que Alice invadiu sua rotina, os dias vazios tornaram-se seus favoritos. Eles os preenchiam com um tipo de mágica imprevisível que só ela parecia saber conjurar. Às vezes era um silêncio confortável, cada um mergulhado em sua própria cabeça, e outras vezes era uma explosão de risadas resultante de ideia absurda.

Naquele dia, estavam largados no sofá, um cobertor velho jogado por cima dos dois, assistindo a um reality show incrivelmente terrível. O programa, chamado Reencontro dos Desajustados, consistia em reunir pessoas que haviam cortado relações com suas famílias por conta de brigas épicas. A promessa era de reconciliação, mas a realidade era um desfile de gritos, acusações e lágrimas — um prato cheio para quem gostava de tragédias alheias disfarçadas de entretenimento.

No episódio daquela noite, uma mulher confrontava a filha por ter desaparecido durante anos, abandonando a família sem explicações — um prato cheio para ativar memórias péssimas em duas pessoas que foram adotadas e não têm uma boa relação familiar.

“Não é justo! Eu estava lá para você, mas você sempre correu. Sempre foi você quem ia embora!”, gritava a mãe, as palavras reverberando pela sala.

Jasper riu, balançando a cabeça. — Deus, que drama. Você acha que alguém realmente volta depois de um espetáculo desses? Parece mais um incentivo pra fugir de novo.

Alice, até então rindo junto com ele, silenciou. Seus olhos estavam fixos na tela, mas era evidente que ela não via mais o programa.

Depois de um momento, ela murmurou, mais para si mesma do que para ele: — Não sei, eu sou sempre a que vai embora.

O tom grave das palavras fez Jasper virar o rosto para ela. — O quê?

Ela puxou as pernas para junto do corpo, abraçando-as. — É o que eu sempre faço. Eu vou embora. De lugares, de pessoas. Não é porque eu quero, não exatamente. É porque parece mais fácil do que ficar.

Jasper sentiu o estômago revirar. Ele conhecia esse lado de Alice, mesmo que ela raramente falasse sobre isso. Era a sombra por trás da luz que ela trazia, a parte de trás da árvore de Natal que não ganha o pisca-pisca porque ninguém a vê. Ele não sabia o que dizer, então ficou em silêncio, esperando que ela continuasse.

Alice suspirou, virando o rosto para ele. — Não me leva a mal… Com você... É diferente. É assustador porque, pela primeira vez, não quero ir. E eu… merda eu não consigo mentir pra você, — riu, escondendo o rosto nos joelhos. — Eu odeio isso. — Ela riu sem humor, o som leve mas carregado de algo mais profundo. — Você tem ideia de como é estranho querer ficar? Todo dia eu fico apavorada de fazer uma merda só pra te ouvir dizer que me quer fora daqui.

Ele não respondeu imediatamente. O reality show seguia em segundo plano, mas nenhum deles prestava mais atenção.

— Acho que tenho alguma ideia… Talvez seja estranho porque nunca tive algo ou alguém que valesse a pena antes, — ele admitiu, a voz mais rouca do que pretendia.

Ela o olhou por um longo momento, como se estivesse tentando decifrá-lo.

Depois, com um pequeno sorriso, Alice deixou a cabeça cair no ombro dele. — Talvez.

Por um instante, eles ficaram ali, envoltos pelo som abafado da televisão e pelo peso das palavras que não precisavam mais ser ditas.

Mesmo depois de Alice estabelecer que queria tentar com ele, tudo o que conseguia lembrar era do fato de que ela sempre é a quem vai embora, e a insegurança o consumia.

Ele sabe que não pode ficar. A carta que recebeu no bar, dias depois do episódio do reality show, indica que seu irmão já o havia localizado e que por isso teria que ir embora de Forks. Ele até pensou eu chamá-la para ir embora com ele, mas ele não poderia pedir que ela largasse os seus planos para segui-lo sendo que ele sequer tinha para onde ir. Era arriscado e egoico demais, e Alice merece uma versão melhor dele.

Sendo totalmente honesto com seus sentimentos, Jasper sabe que ela também vai embora, já havia estabelecido isso. Nesse sentido, talvez fosse melhor partir antes de Alice ficar tão apegada quanto ele, assim a despedida seria mais doloroso para ele, e não para ela. O problema é que havia uma parte de si que se recusava a se afastar, uma parte que desejava mais do que qualquer coisa ter coragem de ficar.

Enquanto Jasper lutava contra seus próprios demônios, Alice, com a persistência de sempre, se fortalecia do que vivia com ele. Essa sua versão – até então desconhecida – a fazia se sentir viva. Embora temerosa, viva.

Essa percepção de algumas mudanças sutis no comportamento de Jasper é recente. Nota as mãos mais trêmulas ao sair para o trabalho, o olhar distante que às vezes toma conta dele quando estão sentados em silêncio. Alice sabe o que está acontecendo, e não está disposta a deixá-lo fugir novamente. Ela quer estar ali com ele, não importa o que o futuro traga. Se for preciso enfrentar seus próprios medos, ela fará. Sente que, ao lado dele, o impossível se torna possível. Não quer mais fugir, não quer mais correr. E, com um impulso que ela não sabe explicar, decide que enfrentará o medo de enraizar-se.

Por ele, o risco vale a pena.

Parece que o teto de vidro sob o qual ela vive com ele rui no momento em que encontra a carta. É quase noite quando Alice a vê. Ela está revirando uma pilha de papéis largada no balcão da cozinha, procurando por um recibo perdido, quando seus olhos captam as primeiras palavras, escritas à mão em uma caligrafia firme, mas carregada de urgência:

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“Jasper, sei que você provavelmente nunca vai me perdoar, mas por favor, me escute...”

O nome ao final da página a faz parar de respirar por um instante: Edward.

Ela lê a carta uma, duas, três vezes, tentando absorver cada linha. Edward implora a Jasper por uma chance de se explicar. Fala sobre erros, arrependimentos e um amor que parece ter ficado suspenso no tempo, incapaz de se resolver. As palavras estão carregadas de um peso que Alice não consegue ignorar. Ela sabe que se refere ao fato de que Jasper foi preso injustamente e não teve o apoio de sua família pelo ano que esteve encarcerado, mas não consegue refletir de maneira coerente sobre o que fazer, porque Jasper nunca conta a história de maneira íntegra.

Desde que se conheceram, ele menciona fragmentos do ocorrido, e Alice nunca o pressiona porque entende que ele precisa superar aquele trauma por ele mesmo. Mas a carta de seu irmão tem um peso tão grande…

Quando Jasper chega naquela noite, Alice está sentada no sofá, a carta dobrada sobre suas mãos. Ela o olha com uma expressão indecifrável — um misto de hesitação e algo próximo à determinação.

— Eu encontrei isso — diz, estendendo a carta.

Jasper para na porta, o olhar preso no papel como se fosse algo que pudesse explodir a qualquer momento. Por um longo instante, ele não se mexe. Então, devagar, pega a carta, mas não a abre.

— Você leu? — pergunta, a voz baixa e tensa.

— Li.

Ele suspira, passando a mão pelo rosto. Seu corpo parece encolher sob o peso de algo invisível.

— E o que você acha disso? — murmura, sem olhar para ela.

Alice morde o lábio, hesitando. Quer escolher as palavras certas, mas sabe que não há como suavizar o impacto.

— Eu acho... acho que talvez você devesse falar com ele. Ele claramente se importa com você, Jasper. Não acha que devia, sei lá, ouvir o que ele tem a dizer?

A risada que Jasper solta é curta, amarga, quase cruel.

— Você não entende, Alice. Não é tão simples assim. Algumas feridas não precisam ser remexidas.

— Mas talvez essa precise — insiste ela, suavemente. — Você já carrega isso há tanto tempo... Não acha que é hora de deixar ir?

Ele balança a cabeça, como se quisesse afastar a ideia, e desvia o olhar para a janela.

— Não é tão simples — repete, quase para si mesmo.

Alice sente um nó se formar na garganta. Sabe que está tocando em algo delicado, mas não consegue evitar.

— Jasper, eu só... só não quero que isso fique entre a gente.

Ele finalmente a olha, mas seus olhos estão diferentes. Mais frios, mais distantes.

— Isso não é sobre você, Alice. É entre mim e ele.

Aquelas palavras cortam como uma lâmina, embora ela saiba que ele não pretende feri-la. Antes que possa dizer mais alguma coisa, Jasper se levanta e vai para a varanda, deixando a carta sobre a mesa de centro.

Nos dias seguintes, algo entre eles muda. Jasper continua gentil, mas há uma distância invisível que Alice não sabe como superar. Sempre que tenta falar sobre a carta novamente, ele desvia o assunto ou simplesmente se fecha.

Então, numa manhã gelada de janeiro, Alice acorda e percebe que o apartamento está vazio. O cobertor que Jasper costuma deixar jogado no sofá não está mais lá, nem a jaqueta de couro que ele nunca sai sem. Sente o coração gelar quando percebe que a mala dele não está no canto habitual.

Sobre o balcão da cozinha, onde antes estava a pilha de papéis, agora há apenas um bilhete, escrito com a mesma caligrafia apressada de sempre:

“Eu não sou parte do seu passado para tentar consertar. Se precisar falar com ele, faça, mas não espere por mim.”

O bilhete treme nas mãos de Alice, e cada palavra parece ter um peso insuportável, atravessando seu peito com uma força que ela não consegue impedir.

Ela lê e relê, como se esperando que as palavras se transformem, como se pudesse apagar a dor delas com o simples esforço de entender o que, no fundo, já sabe: Jasper a deixou.

Mas não por algo que ela tenha feito. Não por algo que ela tenha visto ou dito. Ele vai embora porque, apesar de tudo, o passado dele — aquele que ele não quer mais revisitar — é mais forte do que qualquer coisa que eles possam construir.

Alice percebe que está realmente apaixonada quando nota que mais dói não é o abandono, mas o que ele carrega consigo. A ferida que Jasper ainda não sabe curar e que ela, sem querer, acaba de abrir. Ela se sente culpada, o peso da culpa apertando sua garganta.

Sabe que cruzou uma linha que não poderia ser cruzada quando passou os últimos dias insistindo para que Jasper reatasse com sua família.

A verdade é que o que Alice vê no Instagram de Esme, a mãe de Jasper, dói de uma maneira inacreditável. Anos depois de ele ter partido, a mãe ainda publica mensagens pedindo pela volta dele. Na noite em que encontra a rede social dela, passa horas lendo suas palavras.

Em uma espécie de diário aberto, @esmecullen1439 discorre sobre a culpa de ter errado com uma das pessoas que mais ama, da falta que sente do cheiro de graxa tão típico de Jasper, ou do Aperol que só ele sabia fazer. Ressente a ausência da sua presença, que acalma qualquer ambiente, e do som da sua gargalhada. Ela diz que ele ria de uma maneira tão espontânea que parecia não temer nada — e essa risada ele nunca mostrou para Alice...

Aquela noite a faz sentir a dor que a família dele sente e, então, ela decide tentar fazer algo ajudar, afinal de contas, não é certo que uma família que se ama tanto — e ela sabe que Jasper também os ama — não possa viver juntos esse sentimento.

Ela nunca pôde, mas ele pode.

Depois de ler o bilhete naquela manhã, ainda tão silenciosa, ainda tão incerta, Alice percebe algo aterrador. Ela invadiu um território que não era seu.

Não foi apenas bisbilhotando o Instagram de Esme que cometeu seu erro. Foi ao roubar de Jasper uma história que era apenas dele. Foi ver, nas fotos, o reflexo da dor que ele carrega, o olhar de uma mãe que ainda o procura, que ainda o espera… Era Jasper quem devia ter decidido dividir, mas aquela espera era de uma angústia insuportável.

Refletindo, Alice tem a sensação de que invadiu um espaço sagrado — algo que ele não pode, ou não quer, dividir com ela. Ela se sente menor, como se tivesse dado um passo em falso e caído dentro de algo do qual nunca deveria ter feito parte.

Ela sabe, no fundo, que ele vai embora porque a dor do passado ainda é maior que qualquer amor que possam oferecer um ao outro.

Alice se sente pequena e inútil. Mais uma vez, ela erra, e mais uma vez não é o suficiente para outra pessoa. É um tipo de vazio, aquele, que ela conhece bem, mas nunca quis imaginar se sentindo por alguém que ama de verdade. A sensação de ser deixada para trás, de não ser capaz de preencher o espaço de alguém que carrega dentro de si a dor de uma vida inteira, é uma das piores que já sentiu.

Com um suspiro pesado, ela olha para o bilhete caído no chão. E naquele momento, algo cortante a atinge — é ela quem vai embora. Com isso ela sabe lidar, porque é ela quem sempre parte.

É uma ironia amarga. O eco do que temia. Mas, ao mesmo tempo, é o que sempre soube que aconteceria: dessa vez é ela quem fica.

~.~

Alice percebe que a partida dele é recente ao notar a xícara de café ainda morna. Em um impulso, veste o casaco, liga para seu vizinho que tem carro e sai de casa. Sabe que já perdeu pessoas demais na sua vida e não está disposta a passar por esse luto quando sabe que não precisa.

A neve cai pesada, cobrindo tudo ao redor com um manto branco, suave, mas que esconde a dureza da realidade sob ele. O vento é de um frio cortante, fazendo as árvores ao redor balançarem levemente. A estrada à sua frente, normalmente movimentada, está deserta, exceto pelo carro parado de Jasper.

O veículo está bloqueado pela enorme árvore caída, que se estende de forma quase imponente, interrompendo o caminho com sua força silenciosa. Alice para alguns metros atrás e desce do carro, indicando que seu vizinho pode ir embora. Sente o silêncio ao seu redor ecoar o vazio da paisagem transformada pela neve. O som da natureza, normalmente barulhento, agora parece abafado, como se o mundo inteiro estivesse congelado em um momento de espera.

Ela o observa, imóvel, como se a árvore caída não estivesse apenas sobre a estrada, mas também sobre ele, aprisionando-o naquilo que ele, provavelmente, mais teme: a impossibilidade de ir embora.

O vento cortante se infiltra pela roupa, congelando suas mãos e dificultando a respiração, enquanto afunda os pés ao andar em direção a ele. Seus dedos gelados sentem a rigidez do mundo ao seu redor, mas ela não se importa. Só quer alcançá-lo. Aproxima-se devagar, até que sua voz interrompe o silêncio da paisagem. Jasper permanece imóvel, encarando a estrada. As árvores agora fazem barulho com a ventania cortante, possivelmente impedindo que ele tivesse notado a sua chegada antes.

— Jasper — diz ela, com uma firmeza que nem ela esperava. — Pare de tentar fugir. Você não precisa correr dessa cidade.

Ele levanta a cabeça, os olhos vermelhos, carregados de uma tensão que ele não tenta mais esconder. Seu rosto está marcado pela dor, mas também por uma resistência silenciosa. A expressão dele diz tudo, mas as palavras soam ainda mais pesadas.

— Não entendo porquê veio atrás de mim. Você sabe que, mais cedo ou mais tarde, vai embora também. Vai para o próximo bar, vai procurar a próxima plateia. Isso é o que você faz, Alice. Se desobriga de fingir que se importa.

As palavras dele ecoam no ar, e ela as sente como uma faca que corta algo muito profundo dentro de si. Ainda assim, a fala dele provoca dúvidas, porque não parece responder ao problema que ela acredita estar entre eles.

Apesar da confusão que as palavras de Jasper trazem, há uma chama crescente dentro dela, uma força que a impulsiona a não recuar. Ele pode não acreditar, mas ela não vai embora. Não dessa vez. Ela o encara com firmeza, aproximando-se ainda mais, até estar ao lado dele. O vento cortante parece não importar mais, e o frio não a toca.

— Não sou eu quem está indo embora dessa vez — diz ela, com uma convicção que não é só dela, mas que brota diretamente do peito. — Eu vou ficar. E você vai ficar também. Se você tá inseguro com a gente ou com o seu irmão, vai continuar assim longe. Então você vai ficar e a gente vai conversar sobre isso.

Ele a olha com uma expressão confusa, como se quisesse dizer algo, mas as palavras simplesmente não saem. A angústia se reflete em seus olhos, e ela sabe o que ele está pensando: que não merece aquilo, que não pode confiar em ninguém. Alice toma sua mão, apertando-a com firmeza.

— Jasper, eu sei que você tem medo, — diz com uma suavidade na voz que contrasta com a força que usa para segurar as mãos dele nas suas. — mas... você não está sozinho. Eu não vou embora se você me deixar ficar.

Ele não responde imediatamente. Mas, olhando nos olhos dela, sabe que não pode continuar tentando fugir de algo que já está ali. Ela o está pedindo para ficar, mas mais do que isso, está desafiando-o a acreditar que o futuro deles pode ser mais do que apenas uma promessa vazia. Ela o desafia a confiar. A deixar-se ser amado, cuidado.

Ela continua, com um sorriso suave, sereno. Quase como se ela soubesse que sairiam dali da exata maneira que esperava.

— Vamos pra casa. Vamos conversar sobre o quão escrota eu fui em ter lido sua carta e fuxicado sua família. Vamos brigar pela madrugada por causa daquele bilhete cruel que você me deixou. Vamos falar daquele ano na cadeia que tanto te machucou, e eu te conto da pior experiência que eu tive em um dos lares adotivos que tive… Mas vamos falar. Não é razoável que você decida sozinho ir embora, não depois de tudo o que a gente já passou juntos. Ou até se decidir ir, famos conversar sobre isso, porra! — exaspera nessa última parte, deixando a emoção tirar o controle de si por um instante.

As palavras dela ficam suspensas no ar, mesclando-se ao som suave da neve que cai.

No meio do frio intenso e da imobilidade da paisagem coberta de branco, algo começa a se deslocar dentro dele. A tensão que ele carrega parece se dissolver aos poucos, como a neve que cai sem pressa, transformando tudo ao redor. Pela primeira vez, ele se vê diante de uma possibilidade que até então evita: o amor.

Tão temido e incompreendido, mas tão desejado…

~.~

Semanas passam desde que Alice e Jasper começam a se entender, mas o que existe entre eles ainda não tem nome, apenas se manifesta nas pequenas ações e na rotina compartilhada.

Viajar juntos, como ela planejou no Natal, se torna uma rotina prazerosa, uma fuga do mundo, onde o tempo parece mais maleável. Já fizeram três das viagens que Alice incluiu no livro que deu a ele de presente. Cada destino parece uma metáfora silenciosa para os dois: um novo começo, uma nova chance. A neve, as estradas, as montanhas e as pequenas cidades formam o cenário perfeito para o que cresce silenciosamente entre eles, ainda que não tenham se declarado em palavras.

O assunto da família de Jasper fica para trás, escondido nas sombras do passado, longe dos olhares deles. Ele não toca no assunto, e ela também não. Alice respeita o silêncio dele, como se fosse um território sagrado, até o dia em que o cenário muda.

Em uma noite mais fria do que o normal, enquanto o fogo na lareira crepita suavemente, Jasper, já com algumas doses a mais de whisky, rompe o silêncio. O brilho nos olhos de Alice, tão constante e tranquilo, parece ser o único ponto de estabilidade naquele momento. Eles estão em um quarto de hotel barato, em uma das viagens que fazem juntos, e ela percebe nele uma tensão crescente.

— Você sabe, Alice — ele começa, a voz embargada, mas sem esconder o tom sério — que as coisas nem sempre são o que parecem.

Estão deitados na cama, lado a lado. Ela, por instinto, sente a mudança na energia do ambiente, se aproxima dele e vira o corpo para observá-lo.

— O que você quer dizer? — Alice pergunta com suavidade.

Jasper fecha os olhos por um instante, como se tentasse reunir coragem. Quando ele fala, as palavras são lentas, mas carregadas de peso.

— Fui preso, você sabe. A questão é que fui emboscado, enganado, para ser preso no lugar de outra pessoa, e ninguém acreditou na minha verdade.

O ar parece se tornar mais denso, o termostato estala, e o vento sibila nas janelas. Alice não sabe o que dizer de imediato, então apenas fica ali, ouvindo atentamente, inclinando o corpo para frente, como se quisesse absorver cada palavra.

— Morávamos em Austin, no Texas. Eu trabalhava em uma oficina mecânica. Trabalhava muito, Li. Estava há anos sem conseguir ter uma folga decente. Então, um dia, saí mais cedo para um final de semana prolongado porque decidi que acamparia. Quando voltei para a cidade, fui quase que imediatamente preso. Aparentemente, encontraram provas substanciais de que eu matei alguém na oficina no dia em que saí mais cedo, e alegaram que eu fugi, quando, na verdade, só estava acampando em uma região sem sinal. — Ele faz uma pausa, a dor evidente em seu tom. — Claro que não fui eu, mas não importou. Ninguém acreditou em mim. Nem os policiais, nem minha família, nem Edward… — ele enfatiza o nome do irmão e vira o corpo na cama, ficando de frente para Alice.

Jasper dá uma risada seca, com um toque de amargura.

— Minha ex, Maria, me convenceu a mentir. Ela disse que, se eu não fizesse isso, ela poderia ser presa também e que não tinha como eu ser responsabilizado porque, afinal de contas, eu nem estava na oficina… Me fez acreditar que, de alguma forma, era a única opção. Mentir. E eu menti na audiência preliminar… E eu acho que você já notou que sou um péssimo mentiroso, certo? Pois eles notaram também… O processo correu e, bom, as minhas provas, os meus álibis, não batiam com a investigação e, no fim... fui preso.

Alice o observa, tentando absorver a magnitude do que ele diz. Mas as palavras que ele continua a soltar parecem um peso que ele não consegue mais carregar sozinho.

— Fui preso, Alice. Dei sorte de me aproximar de um camarada na cadeia que estava sendo defendido por uma advogada que topou pegar meu caso pro bono. — Ele coça a nuca, acima da cicatriz e deixa escapar um sorriso. — Não sei se é exatamente sorte, eu quase perdi a minha cabeça, literalmente, pra defender aquele maluco numa briga dentro da cadeia… — Diz, rindo de maneira genuína, e Alice se percebe sorrindo também. Não porque a história é engraçada, mas porque gosta de vê-lo achando conforto no meio de uma história tão dolorosa.

— E foi graças à Dra. Rosalie que conseguimos provar a minha inocência… A minha família... minha família se recusou a me ajudar durante todo o processo. Realmente acreditaram que eu poderia ter matado uma pessoa. E, quando finalmente fui solto — ele faz uma pausa, a raiva evidente agora — quando as provas mostraram que o amante de Maria era o verdadeiro assassino... — suspira exasperado e Alice notou que o rosto dele fica vermelho, o lábio treme e a jugular pulsa forte no seu pescoço. Cai uma lágrima do olho azul dele logo antes dele fitar os seus.

— Confrontei minha família… Meu pai, meus irmãos Emmett e o Edward... Ele foi até a cadeia quando fui solto e achei que era para me recepcionar. Eu estava tão magoado, li… tão magoado pelo silêncio que recebi da minha família que esperava um pedido de desculpas, ou mais… Nem sei… Estava com tanta raiva, era tanta mágoa contida. Ele não se desculpou. Falou de como o Emmett só estava fazendo merda, numa espécie de adolescência tardia… De como nossa mãe adoeceu com depressão porque eu me recusei a atender seus telefonemas. Mas como pude? Depois de tudo aquilo que fui forçado a viver, sozinho, como poderia me obrigar a consolar a dor de uma família que se recusou a acreditar em mim?

A pergunta, retórica, foi respondida com um beijo. Alice colocou todo amor que sentia naquele gesto, e a maneira que as lágrimas dele se misturaram com as suas, a fazia crer que ele tinha entendido.

Ele olha para Alice, os olhos turvos pela dor e pela bebida. — Eu não sei se me arrependo de ter ido embora naquele dia…

Confessa, com muito pesar na sua voz rouca, mas o que ressoa nela é o “não sei se”. Permite-se nutrir um pouco de esperança por uma conversa, uma possível reconciliação, mas decide que esse passo, se for dado, será dele.

O silêncio que se segue é pesado, mas não incomoda Alice. Ela não sabe o que dizer. A história de Jasper é dolorosa, mas o que mais a atinge é perceber que ele carrega tudo isso sozinho. Ela sente o quanto isso o marca, como se as feridas ainda estivessem abertas, sangrando.

Ela se inclina para frente, sem pensar, e o abraça com força. Ele hesita no começo, mas logo seus braços a envolvem, apertando-a como se fosse a única coisa que ainda faz sentido.

— Eu acredito em você, Jasper — ela sussurra, a voz firme, mas suave, como um alicerce. — Eu confio em você e sinto muito, sinto tanto…

Ele não responde, mas algo dentro dele parece quebrar com aquele abraço. Ele não sabe o que o futuro trará, mas sente que, naquele momento, Alice não é apenas uma viagem, nem um refúgio temporário. Ela é uma constante, uma escolha, uma parte dele que ele não sabia que ainda podia encontrar.

Jasper acaricia o rosto da mulher à sua frente e se permite chorar. Quando sente a mão dela em seu cabelo fecha os olhos, seguro. Permitir ser visto vulnerável era algo impensável, mas Alice é, de fato, o farol do albatroz. A ilha no meio de um vôo exaustivo em que a ave pode apenas pousar e… ser. É o repouso para as asas cansadas, o lugar onde ele se sente inteiro, sem medo de ser visto cansado, fragil… Em sua essência.

— Eu te amo, Lili — sussurra, e suas palavras caem no ar como uma melodia antiga, finalmente tocada.

— Eu sei — ela responde, a voz quebrando, como se aquelas palavras a atingisse em um lugar profundo e desconhecido. — Obrigada por me amar — ela murmura, e ao dizer isso, sente que o peso de sua própria alma flutua, como o albatroz, pesado, mas gracioso.

No fundo, ela compreende que nunca soube o que era ser verdadeiramente amada até aquele instante e apesar de sentir muito, sentir tudo, não entende como agir diante de tanto. Sua boca emudece, mas seus olhos gritam, e Jasper entende.

~.~

Os meses continuam a passar e a relação deles se aprofunda de uma maneira serena e cheia de afeto. Alice, com sua presença constante, se torna uma figura cada vez mais reconhecida na região. Desde que ganhou um concurso de artistas independentes de new indie em Seattle, seus shows, antes esporádicos, agora são frequentes, e ela viaja constantemente para cidades vizinhas, onde a sua música ressoa com mais força. O talento dela não passa despercebido, e as pessoas começam a perceber o brilho em seus olhos sempre que ela se apresenta. Alice, em sua musicalidade, transmite uma autenticidade que hoje é rara. Mesmo com toda a agitação de sua agenda, ela sempre encontra tempo para estar com ele, e juntos, eles criam um pequeno mundo só deles, onde a paixão e o carinho se entrelaçam a cada dia.

No aniversário dele, comemorado no Albatroz, o bar que agora tem ganhado força com o investimento de um novo parceiro, Alice se declara de forma simples e tocante. Ela compôs uma música especialmente para aquele momento, uma canção que fala de sentimentos guardados, de encontros inesperados e de um amor que ela sentia ser único. A letra, cheia de doçura, reverbera no ambiente enquanto ela canta, e ele, com o coração apertado, percebe que aquele momento é um marco. Ela sempre foi impulsiva, imediatista e autêntica, mas nunca imaginou que suas palavras pudessem se transformar em algo tão intenso e definitivo.

Eles vivem de forma tranquila, imersos em um carinho que se revela todos os dias. O bar, que antes era apenas um refúgio para ele, agora é um lugar de encontros, risadas e novas possibilidades. O investidor tem dado o suporte que o bar precisava, e ele começa a se sentir cada vez mais confortável com a ideia de estar ali, naquele ambiente, que se mistura com as memórias do passado, mas também com os novos sonhos do presente. A carta de Edward, no entanto, ainda está lá, na sombra, e embora ele sinta o peso dessa presença, prefere não pensar demais sobre isso. Afinal, seu coração já está em outro lugar, com Alice.

Mas mesmo nas pequenas ações cotidianas, ele sente as marcas da solidão. Uma noite, depois de beber demais, ele sente uma saudade imensa de casa, da sua mãe, das conversas que nunca teve e das experiências que deixou de viver nesses anos distantes. Ele pega o telefone e, num impulso, liga para ela. Só queria ouvir sua voz, sentir um pouco de conforto. Mas assim que ela atende, algo dentro dele hesita, e desliga. O alívio vem não em palavras, mas no silêncio que segue. Ele sabe que, por mais que tente, a distância de casa nunca será completamente superada, mas, por algum motivo, ele sente que ali, com Alice, ele está mais perto de encontrar uma nova definição para o que sempre entendeu por "casa".

Enquanto isso, Alice mergulha mais fundo nas suas composições. A música que ela começou a desenvolver no piano, um presente dele, ganha forma aos poucos, e ela se perde em suas notas, buscando dar vida ao que sente em seu coração. A melodia é suave, começa como uma brisa leve, como o mar sereno de uma manhã de verão, mas à medida que avança, cresce, tomando novos rumos e ritmos, como se estivesse indo em direção a algo mais vasto. Ele, que às vezes se senta para observá-la enquanto toca, sente uma paz indescritível ao ouvir as notas que cria, mas também algo a mais. Algo que ele ainda não sabe nomear, mas que vai crescendo em seu peito, talvez como o voo silencioso do albatroz – uma metáfora que se repete em suas vidas desde a primeira vez que falaram sobre isso no bar. Alice nunca revelou a ele o que a canção representa, mas ele sente que, por algum motivo, a música é sobre eles. A melodia, como a própria relação deles, está em constante evolução, e tal como faz com a canção, ele ainda está descobrindo o seu significado.

~.~

Alice está sentada na varanda do chalé, o céu começa a se tingir de dourado conforme o sol se põe. Ela observa, distraída, a tela de seu celular, onde uma proposta de projeto musical brilha diante de seus olhos. É uma chance única: uma produtora renomada quer sua música para a trilha sonora de um filme que está fazendo sucesso no cenário musical. A oferta é irrecusável, tanto financeiramente quanto pelas portas que pode abrir para sua carreira.

A decisão parece clara. Ela precisa ir. O projeto está alinhado com tudo o que ela sempre quis, mas, ao mesmo tempo, uma dúvida a invade. O que acontecerá com Jasper? Ele tem se dedicado tanto ao bar, à vida que construiu ali. Ela gostaria que ele estivesse ao seu lado, como sempre esteve, mas sabe que isso significaria abrir mão de algo importante para ele.

Ela olha para Jasper, que está sentado à mesa, absorto nos papéis que trouxe consigo, sempre tão meticuloso com a gestão do bar. O som suave da brisa no lago preenche o ambiente, até que ela quebra o silêncio.

— Eu recebi uma proposta para um projeto, — ela diz, esperando uma reação dele.

Ele levanta os olhos e a observa com curiosidade.

— Composição de uma trilha sonora, com base no Texas. Eles querem minha música, amor… Querem que eu vá trabalhar com eles.

Jasper sorri, visivelmente empolgado por ela, e se levanta para a abraçar.

— Isso é incrível, Lili. Você tem que ir. — Ele a envolve com força, beijando-a de maneira intensa, como se a saudade já estivesse presente entre eles. — Você trabalhou tanto por isso… Claro que tem que ir.

Mas algo na sua resposta não parece corresponder à empolgação dela. Alice sente uma pontada no peito. Ele se afasta um pouco e começa a andar pela sala, buscando ar fresco, sem dar mais detalhes.

— Eu pensei que seria bom se você fosse comigo. O bar... o Mike pode cuidar da gerência. E você pode coordenar tudo à distância. O bar está bem, está mais estável agora. Eu sei que você tem seus planos, mas isso seria uma nova chance para nós dois.

Jasper para no meio da sala. A expressão dele muda. Ele desvia o olhar e se afasta dela. Alice percebe a tensão no corpo dele e sente que algo não está certo. Quando ele fala, sua voz soa firme, mas distante.

— Não posso ir. — Ele diz, e ela sente a frieza nas palavras. — Tenho mil obrigações com o bar, Alice. Não posso simplesmente abandonar tudo e te seguir.

Alice não consegue esconder a confusão. O bar, ela pensa, nunca foi o sonho dele, apenas um reflexo de uma fase, uma necessidade. Ela se aproxima dele, tentando entender, mas a raiva começa a tomar conta.

— Quando o bar virou o seu sonho, Jasper? — Ela pergunta, a voz tremendo. — Quando ele passou a ser mais importante do que nós dois?

Ele a encara, mas não responde imediatamente. O espaço entre eles cresce a cada segundo, e a conexão que antes parecia tão forte começa a se desfazer. O que antes era uma parceria sólida agora parece uma falha irreparável.

— Não é sobre o bar. — Ele responde finalmente, a frustração em seu tom. — É sobre o que eu construí aqui, Alice. O que eu comecei e o que ainda quero fazer. Eu não posso largar tudo e ir com você para o Sul. Isso não é o meu sonho.

Alice sente o peso das palavras, e o silêncio entre eles se estende, denso e insuportável. Ela respira fundo, tentando conter a raiva e a tristeza, mas é impossível. Ela olha para ele com um olhar desolado.

— Então, você não vai? — Sua voz treme, mas ela mantém a firmeza.

Jasper hesita. A expressão no rosto dele muda, mas ela vê que ele já tomou sua decisão. Ele balança a cabeça, sem palavras, mas com a certeza de quem já não pode voltar atrás.

— Não, Alice. Eu não vou. Eu não posso.

Ela sente um nó na garganta, o último fio de esperança se desfazendo. A dor é insuportável, e a pergunta final sai de seus lábios como um sussurro.

— Então, é isso? Acabou?

Jasper não responde, e o silêncio é o único som entre eles. Alice sente o gosto amargo da rejeição, o vazio se expandindo entre eles. Ela se levanta lentamente, sem palavras, e sai da sala. O que um dia foi um sonho a dois agora está dissolvido, e ela não sabe se conseguirá seguir sozinha.

O bar, as composições, o Texas... tudo parece agora um caminho que se apaga diante de seus olhos. Ela respira fundo e olha para a porta, com a certeza de que o futuro será diferente. Mas a incerteza do que vem a seguir a assola.

~.~

A madrugada ainda não havia dado espaço para o amanhecer quando Jasper, com a cabeça pesada e o corpo exausto, se senta à mesa do bar, agora vazio. O álcool corre pelo seu sangue como um lembrete constante de que ele está perdido. Não há outro jeito de explicar. Nos últimos dias, se afundou em um mar de pensamentos e arrependimentos, tentando lidar com a ausência de Alice, mas a saudade só parece crescer.

A vida segue ao seu redor, mas ele está preso em um limbo, como se sua essência tivesse ficado estagnada em algum lugar entre o antes e o depois dela. Ele nunca se sentiu tão perdido, talvez apenas equiparado à sensação de desespero que tomou conta de si quando foi colocado na prisão.

Foi durante uma noite de bebedeira, tentando se afogar nas lembranças e nos copos vazios, que uma fagulha de lucidez, o levou a algo que ele jurou nunca fazer: TikTok. Ele havia sempre dito que seria uma perda de tempo, uma distração superficial. Mas agora, com a mente em frangalhos e o coração apertado de saudade, a necessidade de encontrá-la, de ver qualquer sinal dela, o fez ir contra todos os seus princípios.

Naquela noite, estava ali, com a tela do celular iluminando seu rosto, vasculhando o que parecia ser uma eternidade de postagens sem fim. E então, uma conversa chamou sua atenção. Duas jovens estavam sentadas no balcão, com os olhos fixos no celular. Falavam baixinho, mas suas palavras chegaram até ele.

— Você viu o vídeo da Alice? Está viralizadíssimo no TikTok! Que orgulho!

Jasper congela. Alice. A saudade aperta sua garganta, mas a curiosidade o arrasta. Ele escuta um pouco mais, tentando absorver tudo o que conseguem dizer. Pelo que entendeu, ela estava em um bar. Um bem redneck. Cantando. As palavras se embaralham em sua mente, mas uma coisa ele sabe: era o sinal que ele estava esperando. Mesmo que não soubesse por que, ele precisava ver aquele vídeo. Precisava ouvir a voz dela, mesmo que fosse distante, mesmo que fosse a imagem de uma Alice que não era mais dele.

Jasper abre o aplicativo, a tela brilha em seus olhos cansados, e depois de tentar colocar algumas palavras-chave, o vídeo aparece. Ele pressiona o play, e então, a imagem de Alice surge na tela, com um sorriso tímido e olhos que parecem não reconhecer mais nada, exceto a plateia à sua frente. Ela está em um bar. Ele reconhece o ambiente. Já estivera ali antes?

A música começa suave, uma melodia que ele reconhece, que acompanhou todo o processo de composição. Uma de suas músicas. Mas há algo novo, uma letra.

“Ao meu albatroz, que não pode voar

Por que prende suas asas, ao invés de sonhar?

Se impede de viver, na dor a persistir

E o futuro se perde, enquanto espera existir”

As palavras ecoam na sua cabeça, fazendo-o apertar os olhos. A canção é para ele. Ele sente o estômago virar ao perceber que Alice, com sua sensibilidade tão única, compoe outra música para ele. Mesmo depois de se recusar a segui-la, mesmo depois de ter ferido tanto quanto sabia ter feito…

O vídeo segue, as letras embaralhadas em sua mente embriagada, mas Alice pára de cantar. O final da música não vem, e ele fica ali, olhando para a tela, esperando que ela continue. Mas não há mais nada, exceto um vídeo promocional de algum destilado novo. A gravação termina antes que ele ouça o que ela tem a dizer. O vazio que sente agora é mais profundo, mais doloroso. A música deles, aquela que ele reconhecia a melodia, a que ela compôs no teclado que comprou para ela, agora se transformava em um abismo de saudade.

A madrugada avança, e a incerteza o consome. Ele passa horas buscando no TikTok, procurando pela continuação da canção. Nada. Nenhuma pista. O que ele sentia no peito era um misto de raiva, desespero e uma curiosidade doentia. Ela estava tão perto, mas ao mesmo tempo, parecia tão distante. O celular pisca em sua mão, ainda na busca incessante. E, bêbado, ele faz algo que sabia que nunca deveria fazer: começa a procurar por sua família. O fundo do poço nunca é fundo o suficiente. Ele deixa os dedos deslizando pela tela, em busca de algo que o conecte ao que ficou para trás. E lá está. Eles ainda o procuram. Meses depois de tudo, ainda estão tentando encontrá-lo.

A saudade aperta. Mas algo dentro dele começa a se firmar. Ele lembra-se do bar. De Alice. De Austin. Ele vira as páginas do livro de viagens que ela lhe deu no Natal. A foto dele, com o nome do bar, “The Lady’s Diner”, aparece nas páginas amassadas pelo excesso de folheio. Ele sente o peso da história daquelas paredes, o lugar onde Alice estava agora. Ele se lembra da conversa que tiveram sobre isso.

Ela sempre sonhou em ir até lá, viver a experiência de estar naquele lugar cheio de música, mulheres incríveis que fizeram história. Ela estava lá. Ela estava cantando no palco onde ela sempre quis estar. E ele… ele estava em algum lugar distante, trabalhando com algo que nunca desejou, perdido em um passado que não conseguia deixar para trás.

Ele olha para o celular, ainda com a tela iluminada. O impulso é forte. Ele sabe o que precisa fazer, então sai da rede social e disca o número que sabe de cabeça. O ligação chama, chama por várias vezes até cair na caixa postal. Com as mãos tremendo, repousa o celular na mesa e decide que é melhor assim.

Ele não consegue terminar de se convencer antes do celular tocar. O visor mostrando o número que acabou de discar.

Pigarreia, respira fundo e atende: — Edward. — Ele diz, a voz rouca e cheia de tensão. — Precisamos conversar.

~.~

Jasper entra no bar esbaforido pela curta corrida para tentar chegar a tempo. O som da porta se fechando suavemente ecoa pela sala ainda abafada pelo calor da noite sulista. Ele hesita por um momento, seus olhos se ajustando à luz tênue do local, e logo suas orelhas captam o que ele mais temia, e ao mesmo tempo, mais desejava ouvir: as primeiras notas de uma das músicas dele que ele conhece tão bem. Elas fluem, suaves, mas carregadas de uma intensidade que só Alice é capaz de transmitir. Ele para no canto, observando-a sem que ela o perceba. O olhar dela brilha, os dedos deslizam com confiança pelas teclas do piano, e o espaço entre eles parece se estreitar, mas ela ainda não o vê.

O bar está tranquilo, mas a atmosfera é carregada, como uma promessa que vai se cumprindo. O cheiro de fritura se mistura ao aroma do álcool, criando uma sensação de nostalgia. As paredes, com suas cores suaves e imagens emolduradas de outras épocas, parecem se curvar em volta da melodia, enquanto a voz de Alice começa a tomar conta do espaço. Cada acorde ressoa em seu peito, como se as palavras tivessem sido feitas para ele, como se o som da música o puxasse para dentro de algo maior do que ele mesmo.

Ela continua a cantar, completamente absorta, e o mundo parece desaparecer ao seu redor. Jasper tenta chamar sua atenção com um aceno de mão, uma tentativa sutil de quebrar a barreira invisível que os separa, mas ela não o nota. Os olhos dela estão fechados, o rosto iluminado pela luz suave do palco improvisado, e o sorriso em seus lábios é um reflexo de algo profundo, algo que só ele poderia entender. Ele decide não atrapalhar.

Alice termina a última nota, mas a melodia ainda ecoa em seu corpo. Seus olhos se voltam para ele e não conseguem conter a emoção que transborda. Ela sabia que aquele momento aconteceria, sabia que ele voltaria, mas não imaginava que seu coração bateria tão rápido, ou que seu corpo pareceria ter se incandescido ao vê-lo. Um nó aperta sua garganta e ela tenta não deixar a emoção ser traduzida na sua voz. Tenta não deixar transparecer o quanto está tocada, mas é impossível. A música naturalmente a tira do eixo, dessa vez, com ele ali, sente que a invade de uma maneira que ela não controla mais.

O bar, antes silencioso, se transforma em uma mudez curiosa. Alguns olhares começam a se dividir entre o palco e Jasper, e o burburinho suave de conversas interrompidas se espalha pela sala. Mas Alice não se importa. Jasper tampouco. Seus olhos estão fixos nele, e a letra da música começa a fazer sentido de um jeito que ela não poderia prever. Ela olha para o homem que não ousou piscar os olhos para não perder um milissegundo da visão que ela é. Sua garganta está apertada, sente que vai chorar, mas, mesmo assim diz com uma suavidade quase inaudível:

— Essa é pro meu albatroz, que eu sabia que voltaria a voar.

As palavras vêm carregadas de um significado muito mais profundo do que ela poderia expressar. O albatroz, essa criatura solitária, que passa grande parte de sua vida voando sozinho, contra o vento, em busca de seu lugar no mundo. Ela canta agora como se as palavras fossem um desabafo, uma verdade que só agora ela consegue compreender plenamente. Ela sente que, assim como o albatroz, ela também enfrentou tempestades, momentos de solidão, mas sempre soubera que ele voltaria, que ele voltaria a voar.

E, como se a música estivesse tomando vida própria, ela canta com um fervor inesperado. Cada palavra carrega uma força renovada, como se ela estivesse dizendo tudo o que não soubera antes, como se fosse a última chance de expressar o que sempre guardou para si. A letra fala sobre encontrar a força dentro de si, sobre a dor do voo solitário, mas também sobre o desejo de encontrar abrigo no outro, um porto seguro que, no final, é construído na jornada. Não importa o quão forte o vento sopre, a música revela que o voo nunca é em vão.

Jasper escuta a música, seu corpo imóvel, mas a mente turbilhonando. O coração bate forte em seu peito, descompassado, como se tentasse acompanhar as batidas intensas da canção. Ele percebe que aquelas palavras não são apenas para ele, mas também para ela, uma metáfora do que ambos viveram, do que ambos estavam tentando encontrar. Ela não está mais cantando apenas sobre o passado, mas sobre o que está por vir. Ele entende, pela primeira vez, que não se trata de fugir ou se esconder, mas de aceitar o próprio caminho, de escolher um novo começo.

Enquanto a música vai chegando ao fim, o espaço entre eles parece se encolher. Alice termina a canção, mas seu olhar permanece fixo em Jasper. O silêncio que se segue é quase palpável, como se a música tivesse criado uma ponte que os une de um jeito que nenhuma palavra poderia fazer. Ela segue sem dizer nada enquanto o observa, seu olhar profundamente sereno, mas com uma intensidade que ele nunca mais vai esquecer.

Jasper, com os olhos marejados e o peito cheio, sorri. Não um sorriso de tristeza ou arrependimento, mas de uma aceitação silenciosa. Ele sabe, com a mesma certeza com que sente o peso da ausência dela, que o que o trouxe até ali foi o mesmo que o fará seguir em frente. Ele percebe que, talvez, o verdadeiro porto seguro que ele buscava sempre esteve bem mais perto do que imaginava.

No canto escuro do bar, com a última nota ainda vibrando no ar, e aplausos explodindo ao redor deles, o mundo parece desacelerar, e ele se sente, pela primeira vez em muito tempo, inteiro. Um novo voo está à frente.


Notas finais
Oi, posolovers! Eu sei, faz tempo que não dou as caras por aqui… A dobradiça da porta estava até enferrujada, acreditam?! Já peço desculpas por qualquer coisa, como a porta, tô meio enferrujada. Mas, de coração, adoraria saber o que acharam dessa onezinha. Comentem aí! E, como sempre, as portas da minha casa (twitter) estão sempre abertas: @lou5858_ Aproveitando meus últimos segundos com vocês pra desejar um fim de ano leve cheio de afetos e um ano que se inicie com novos ciclos e as melhores energias. Ah, não esquece de ler as outras fics da POSO 2024. Até breve! Até breve? Até breve! rs
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!