Alas
1 Prólogo
Notas iniciais
Paraíso,
Alas
2016
"RAFAEL O ESTÁ CONVOCANDO", aquela frase martelou a cabeça do Anjo nos últimos dez minutos, quando um anjo menor o avisara que seu superior o chamava.
Agora, tamborilando os dedos no sofá de couro da sala de espera, sentia sua garganta coçar. Não literalmente, pois anjos não sentiam. Era um modo de dizer que estava nervoso.
A sala de espera do Aconselhamento era branca, como a maioria das coisas no Paraíso, tinha um formato oval e vidraças de igrejas com imagens santas, viradas para os campos de colheita. As portas duplas do escritório de Direcionamento foram abertas e ele viu o chefe.
— Entre.
Rafael era o atual responsável pelos anjos menores. Dos Arcanjos grandes, era com quem Alas mais simpatizava. Eles eram similares, inclusive fisicamente.
Rafael tinha os cabelos longos, lisos e louros, como os de Alas. E as feições finas, apesar de parecer – e de fato – ser mais velho. Fora o primeiro que conversara com Alas após o acontecimento de sua Ascenção, o Anjo da Guarda nunca se esqueceria o quanto Rafael o havia ajudado nas primeiras tarefas como Anjo Menor, departamento que pertencera por longos duzentos anos.
Com a promoção a Anjo da Guarda, Alas somente havia Guardado um rapaz, Helon, que fora transferido há dois dias para um Anjo menor. Ele não estava esperando por uma substituição tão breve.
— Como vai, Alas?
— Ótimo, Rafael. Obrigado. – como sempre, ele fez uma leve reverência, mostrando total respeito — você me chamou...
— Sente-se, sente-se. – Alas o obedeceu, encarando curioso a prancheta na mão do mais velho — o nome dela é Michele. Ela tem 18 anos e estava sendo Guardada por um Anjo Menor. Nos últimos meses, vem se envolvendo com uma das Sacerdotisas, recentemente expandindo o dom da Visão. Precisamos de um Anjo mais competente para ficar de olho nela, então papai indicou você.
O anjo estava surpreso. Não por humanos mexendo com bruxaria, claro, isso já era clichê no paraíso. Mas por ter sido indicado para o trabalho pelo próprio Deus. Ainda mais para Guardar uma garota com o dom da visão, significando que ela podia vê-lo, diferente da maioria dos humanos. Ele rezaria para ela ser uma maga natural e não resolver mexer com o lado negro da força.
Ao aceitar ser o Anjo da Guarda de Michele, Alas estava pondo em risco sua vida, toda sua segurança, seu trabalho e, acima de tudo isso, sua Graça. Mas, é claro, ele ainda não sabia disso.
Rafael sorriu, um sorriso sabido, como se soubesse o que iria acontecer a seguir.
O riso de alguém que alertara ao vizinho sobre a parede com mofo, e agora o via sofrendo com a encanação vazando. De alguém que alertara o perigo de se envolver com uma humana, e veria o Anjo se encrencar.
O mais velho ergueu e encostou o dedo indicador na testa do subordinado, e aquele sorriso foi a última coisa que Alas viu antes de ser atirado novamente para a Terra.
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