Alas
2 Capítulo Primeiro
São Paulo,
Michele,
3 dias depois.
EU SABIA QUE AQUELE DIA seria diferente mesmo antes de levantar da cama. Para começar, estava atrasada. Eu nunca acordava atrasada, afinal, meu relógio biológico era uma das poucas coisas em mim que funcionava. Tomei uma ducha, vestindo uma calça saruel florida, uma regata branca e meu par de tênis keds da mesma cor. Não era o tipo de cacheada que me frustrava para domar meu cabelo. Joguei os longos cachos e fiz um rabo lateral, deixando-os naturais e rebeldes como eram. Pendurei minha bolsa lateral e saí de casa, montando minha bicicleta.
O caminho de casa até a escola não era longo, mas como estava atrasada, dei uma apressada nas pedaladas, que resultou em uma dor incomoda nos músculos internos das coxas. Ao descer da bicicleta para estacioná-la no pátio, algo no alto me chamou atenção.
Eu podia dizer que já havia visto um número considerável de coisas caírem do céu, pois sou uma observadora por hobby. Estrelas cadentes, objetos não identificados, pedaços de aviões, meteoritos e satélites. E assim como a maioria das pessoas, podia afirmar que: pessoas voando em direção a terra não era algo que se via todos os dias.
Encarei a porta da escola fechada, pensei nos olhares acusadores de todos ao verem que estava atrasada, em suas ótimas notas e poucas faltas no boletim, não restando dúvidas. Montei na bicicleta e segui na direção da visão.
Era os fundos de uma fábrica, estava vazio. Me aproximei e vi um circulo queimado no chão, como se tivessem acendido uma fogueira perfeitamente geométrica de uns 15 pés. Encarei a esquisitice, um arrepio subiu em minha nuca e senti estar sendo observada.
— Posso contar nos dedos o número de pessoas na historia que testemunhou um Anjo caindo do Paraíso.
Olhei em volta, pairando os olhos na figura que era dona da voz. Ele tinha cabelos loiros e longos, os olhos acinzentados e as feições magrelas. Tinha um quê de Sebastian Bach, passando facilmente por andrógeno. Era lindo.
Algo em meu peito formigou, incômodo. Abri um sorriso presunçoso, pronta para fazer uma piada espertinha, mas a voz não saiu. Sabia que era verdade, podia sentir. Quer dizer, se a magia antiga que estudava e praticava era real — por que não eram os Anjos, certo?
— Como se chama?
— Sou Alas, Michele.
— Como sabe meu nome?
— Sou seu Anjo da Guarda — ele fez uma leve reverência para ela, mantendo o sorriso cordial nos lábios.
— Eu não havia sido informada da... Existência dos anjos.
— Seus amigos de Avalon não te contaram? – há, ponto pra ele.
— Uau — ela riu, se perguntando se o sarcasmo do Anjo era algo recorrente — não, talvez eles não tenham previsto que eu veria um caindo do céu.
— Melhor comprar pilhas para as bolas de cristal, então.
Ela deixou um riso escapar de seus lábios, agradando ao Anjo. Ela gostava de sarcasmo, mesmo não o utilizando muito.
— Você sempre foi meu Anjo? Eu não me lembro de te ver...
— Não, eu acabei de ser Designado a você, por causa do seu envolvimento com a bruxaria, preciso ficar de olho. Você sabe, garantir que não vá causar a terceira guerra mundial.
— Claro, porque eu sou assim tão poderosa — ela riu novamente.
— Nunca se sabe.
— Então, você tem asas?
— Claro que tenho asas. Que tipo de pergunta é essa?
— Bom, eu não as vejo.
— Nenhum humano vê, a não ser que os confiamos.
— Mas se você içar voo, eu verei, certo? – ele assentiu.
— Você não deveria estar na escola?
— Sim e não. Sou uma ótima aluna, já passei de ano – eu dei de ombros – posso matar aula. Não resisti quando vi você... Caindo do céu. Tive que vir presenciar.
Eles começaram a andar, Michele empurrando a bicicleta com as mãos.
— Então, pelas minhas contas, você está no último ano — ela balançou a cabeça — e a faculdade?
Eu fechei a expressão, não era um assunto que eu gostava de discutir.
— Eu adivinharia que vocês pudessem ler mentes – tentei escapar da pergunta.
— Podemos. Mas eu acho mais delicado perguntar. Leitura de mentes é um tanto evasivo. E cansativo, prefiro deixar para emergências.
— Ética, gosto. – algo no olhar que ele me lançou me deu certeza que ele ainda aguardava a resposta sobre o Ensino Superior — Eu ainda não consegui me decidir. O sonho é me formar artista plástica na USP, mas não dá dinheiro. Então penso em fazer algo mais produtivo e deixar a arte como hobby, infelizmente.
— É, realmente triste. Desenho? – Eu assenti – é uma arte peculiar. Quase sempre bastante sensível.
É, eu poderia me considerar uma pessoa sensível. Lancei-lhe um olhar de soslaio, não me encarava mais, tinha os olhos focados na rua, de vez em quando desviando para estudar alguma das poucas pessoas que cruzaram por nós no caminho. Após guardar a bicicleta na garagem, abri a porta de casa e o convidei para entrar. Sabia que minha mãe já havia saído para o trabalho, e dessa vez, ela só voltaria em quatro dias.
Alas me seguiu até a cozinha. Eu morava em um sobrado antigo, não muito grande, na zona Sul da cidade.
— Você come? – o olhei, curiosa.
— Não. Definitivamente não – ele sentou-se no banquinho alto a frente da bancada da cozinha americana – meu corpo não é humano, eu não ingiro comida.
— Certo. Um ovo.
Eu sorri, abrindo a porta da geladeira e começando a preparar um ovo poche. Coloquei uma fatia de pão na torradeira e fiquei em silencio até ela pular, anunciando que estava pronta. Fiquei em pé na frente de Alas e comi, levemente incomodada com sua observação.
— Que tipo de música você gosta? Meu antigo humano era viciado em rock, chegava a ser irritante.
— Gosto de músicas mais calmas. Quer dizer, ouço rock, mas clássico.
— Legal. Gosto de músicas mais clássicas também.
— Quantos anos você tem?
Alas jogou a cabeça para trás e riu.
— Não acho que você queira realmente saber quantos anos seu anjo da guarda tem – eu mantive a expressão dura – ok... Bom, eu morri em 1776.
— Onde você vivia?
— Inglaterra.
— Nossa, você presenciou a época dos Reis Jorge II e III – ele assentiu, rindo, como se lembranças invadissem sua mente – deve ter sido maravilhoso.
— Mais ou menos. Eu prefiro o agora. Ser humano não é assim tão... Glorioso.
— E Ele existe? – ele me olhou, desconcertado, como se quisesse que eu firmasse a pergunta para ter certeza do que estava falando, eu o fiz – Deus?
— Sim, existe – ele parecia nervoso agora – claro que existe.
— Você conheceu mais algum?
— Não. Se os outros Deuses existem, como os Wiccanos, se é o que você quer dizer... Isso não é discutido no Paraíso.
— Que besteira – murmurei – deveria ser. Se as Entidades e Deuses fossem mais unidos... – eu deixei o assunto morrer, talvez ele não fosse a “pessoa” certa para eu conversar sobre isso.
Ele percebera que eu o perguntara se Deus existia, mas não houvera dúvida sobre os outros. Podia sentir seu olhar acusador em mim enquanto finalizava minha torrada. Anjos não deviam julgar as pessoas, pensei.
— Você vai ficar de olho em mim vinte e quatro horas por dia?
— Não se você não quiser. Sim, se você desejar.
Entendi sua resposta. Ele ficaria de olho em mim, só não precisava aparecer.
Lavei a louça e saí pelas portas dos fundos. A casa onde morávamos não tinha muito valor, era velha, mas aconchegante. O que realmente valia a pena era o jardim. Tínhamos cerca de 30 metros de mato atrás da casa, e era minha responsabilidade cuidar. A grama era baixa e recém cortada, eu fizera isso no dia anterior. Tínhamos três árvores frutíferas: uma macieira, uma jabuticabeira e um pé de maracujá. Alguns arbustos de flores do campo sortidas e coloridas, e para completar, uma parede de rosas. No fundo do jardim, dois bancos antigos e uma mesinha de madeira davam o toque final no local.
— Paisagismo – Alas murmurou.
— O quê?
— Paisagismo. Dá dinheiro, você gosta, claramente. E é arte.
Eu considerei.
— Não é uma faculdade, eu acho. Mas tem cursos. É uma opção, obrigada, Alas.
Já estava se fazendo útil. Retirei meus tênis e andei descalça até o banco, sentindo a grama em meus pés, agradecendo mentalmente os gnomos pelo contato. Me sentei no banco, observando Alas fazer o mesmo. Ele dizia gírias, tinha linguagem atual, mas tinha algo antigo nele. Sua postura, sua educação eram diferenciadas.
— Seu antigo humano era brasileiro?
— Não — ele riu — Cubano.
— Ah, wow. Então como você aprendeu português?
— Quando você Ascende de alma humana para Ser Angelical, você ganha alguns bônus. Sei falar todas as línguas atualmente usadas, mais a língua dos anjos, latim e hebraico.
— Sensacional! — exclamei, animada — talvez você possa me ensinar um pouco de italiano, então.
Ele riu, eu o acompanhei. Sua risada era bonita, puxava os lábios finos, marcando as maçãs do rosto, e abrindo uma única covinha na bochecha direita. Ele pegou meu olhar e me estudou, seus olhos cinzentos sobre mim me fizeram corar.
— Acabou a interrogação?
— Claro que não. Você é um Anjo de quase trezentos anos, tenho infinitas perguntas. Mas não preciso fazer todas agora, certo?
— Claro que não — ele riu — temos bastante tempo.
— Seu nome não era Alas.
— Não — ele parecia pensativo — mas eu não me lembro. Alas foi o nome que eu recebi quando Ascendi. Significa asas, em espanhol.
— Criativo — murmurei, irônica.
Ele pareceu refletir sobre. Meu celular vibrou no bolso, e eu não precisei olhar para saber que era a Malu.
— Oi, vaca — ela disse, assim que eu atendi.
— Oi, cachorra.
— O que você ta fazendo?
— Nada — eu olhei Alas.
— Abriu aquela expo da Fridinha no Tomie Ohtakie, vamos?
— Pra já.
— Ok, te pego em dez minutos.
Ela desligou e eu olhei Alas.
— Pode ir, não se preocupe comigo.
— Ok — eu sorri, correndo pro quarto.
Passei uma maquiagem leve no rosto, borrifei perfume e peguei meu dinheiro no armário. Tomei um copo d'água e tirei o capacete do armário da sala.
Ela chegou em quinze minutos, mas me dando uma carona, quem era eu para reclamar? Subi na garupa de sua Honda Biz vermelha.
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