Além dos Muros

15 Saudades, preocupação e fogo - Parte 2


Notas iniciais
Oi amores, sei que sumi, mas lembra quando eu disse que meu pc não estava cooperando? Pois é.. ele continua assim, hoje ele resolveu me ajudar e deu pra postar. Não prometo seguir minha regrinha de postar as terças e quintas por esse motivo, então irei postar quando der. É isso, boa leitura

Vitor se virou e abriu a porta, olhou para trás e deu um sorriso para Veronica que já estava começando a caminhar pelo corredor. Quando a freira já estava fora do seu campo de visão, Vitor entrou no quarto e fechou a porta, Michael, seu companheiro de quarto, estava deitado lendo uma revista sobre máquinas turbinadas, Michael era fascinado por máquinas desse tipo e vivia falando que quando completasse 18 anos e fosse embora do orfanato, construiria uma para ele mesmo. Vitor tirou os sapatos e a jaqueta, se jogou na cama e ficou encarando o teto.

– Como vai a loirinha?

– Hm? — disse Vitor sentando na cama

– Bárbara, como ela está? — disse Michael sem tirar os olhos da revista

– Melhor, teve mais uma daquelas febres autas, mas já está melhor

– Bom

Vitor concordou com a cabeça e ficou encarando a janela

– Vitor — disse Michael

– Sim?

– Aquele homem... que falou com você outro dia..

– O que tem ele? — Vitor agora encarava Michael com atenção, o garoto que outrora estava lendo sua revista de máquinas, agora encarava o parceiro de quarto

– Ele esteve aqui hoje de manhã, estava perambulando pelo orfanato, acho que estava atrás de você

– A que horas foi isso?

– Umas 8:00 ou 9:00hrs não me lembro muito bem

– E ele foi embora?

– Foi sim, mas antes ele foi conversar com uma das freiras, não deu para ver qual era, ela estava de costas. Mas eu os segui, achei que ele estava a sua procura e pensei em ajudar, até que escutei um pedaço da conversa

– E oque foi que ele disse?

– Disse que passaria mais tarde para uma conversar com uma tal de Camille e que deixasse as portas do fundo aberta.

– Camille?

– Sim, você sabe de alguma Camille aqui no orfanato? Vasculhei na minha mente e não me lembro de nenhuma

– Também não me recordo de nenhuma Camille

– Bom, se existe alguma Camille aqui, espero que seja muito bonita

Vitor ignorou o último comentário de Michael, ele não podia acreditar no que acabara de ouvir, porque ele esteve aqui hoje? E porque viria mais tarde? E quem era Camille?

– Oque mais ele disse? — perguntou Vitor atento

– Nada, chutei uma pedra sem querer e ele percebeu meu movimento, então eu corri para o meio dos outros tentando disfarçar. Quando olhei de relance, ele estava me encarando e depois desviou o olhar para outras crianças.

Vitor absorveu tudo oque pôde daquela conversa, não consiguia compreender aquela situação, mas ele iria descobrir de um jeito ou de outro

– Hã... Vitor oque irá fazer? — disse Michael encarando o amigo

– Nada, oque eu poderia fazer?

– Se eu não te conhecesse diria que você iria dormir, mas como eu conheço, digo que está planejando alguma coisa

Vitor suspirou

– Bom, agora está tarde, acho que devemos dormir — disse Vitor

– Verdade, estou morrendo de sono — concordou Michael

Vitor deitou-se em sua cama e se cobriu, voltou a encarar o teto e ficou pensando sobre tudo oque acontecerá e principalmente sobre o que Michael lhe contou, era realmente preocupante, mas oque ele poderia fazer?

No momento nada, pensou, mas iria fazer e logo. No meio de seus pensamentos Vitor acabou adormecendo por uns 20 minutos, mas acordou repentinamente sentindo uma sensação estranha. Ele sentou-se na cama e viu que Michael estava dormindo profundamente, ele se levantou e abriu a porta do quarto devagar e espiou para ver se havia alguém no corredor, por sorte o mesmo estava vazio.

Vitor suspirou e caminhou pelo corredor como se estivesse pisando em ovos, ele desceu as escadas sem emitir um som e foi para a cozinha. Ele ficou feliz em vê-la vazia, bebeu um pouco d'água e caminhou até a sala de música. Vitor abriu a porta devagar e com calma para que ninguém acordasse.

Ele fiscalizou o ambiente e viu que o mesmo estava vazio, apenas ele, os instrumentos e a escuridão. Vitor se aproximou do seu instrumento preferido, o violoncelo, ele sabia tocar violino, piano, violão, guitarra e flauta, mas em sua opinião o cello era um dos melhores. Ele sentou-se em sua cadeira próxima, apanhou o estojo onde o seu lindo instrumento estava guardado e o restirou, posicionou-o no chão e ajeitou o arco.

Vitor fechou os olhos e passou o arco na primeira corda e um dó rouco saiu calmamente, o arco deslizou sobre as corda e logo ele estava tocando uma de suas composições.

Em seus pensamentos veio Mabela, uma garotinha de longos cabelos negros com apenas 6 anos, seu rosto lambuzado de chocolate e Vitor ao seu lado no mesmo estado. Foi naquele dia em que ele percebeu em que tinha que ficar junto dela, que não poderia se afastar, teria que proteje-la, e então ele se lembrou de outra cena, de uma garotinha com os cabelos amarelos saltitando, ela havia acabado de ganhar uma boneca e estava mostrando-a Mabela. Vitor se lembrou também quando sorriu para a garotinha loira e que retribuiu com uma gargalhada por ver Mabela e ele lambuzados de chocolate, ele a convidou a sentar-se ao seu lado e assim a fez, depois daquele dia eles passaram a comer chocolate todos os finais de semanas, naquele mesmo lugar e da mesma forma, sempre lambuzados.

As lágrimas de Vitor começaram a rolar, a cada nota que saia do violoncelo era uma dor, Mabela não estava mais lá e Bárbara estava doente, ambas não comia chocolate com ele, eles não ficavam mais lambuzados, ele não poderia mais proteger Mabela e não conversava mais sobre músicas com Bárbara. Tudo havia mudado, estava tudo acabado e então um grito ecoou e seu primeiro pensamento foi..

– Bárbara!

Vitor se levantou colocando o instrumento de lado correu para a porta e a mesma estava trancada e bateu e gritou o nome de sua amiga, outro som, o som do disparo de uma arma, isso foi o suficiente para Vitor entrar em pânico. O garoto sentiu um calor imenso e tirou a camisa, tentou arrombar a porta chutando-a, mas não conseguiu, correu para a janela e a mesma também estava trancada. Vitor correu para perto do armário que havia perto da janela, puxou uma cadeira e subiu em cima dela

– Cadê, tem que estar aqui — disse o garoto em desespero

Sempre havia um molho de chave guardado ali, mas justo naquele momento ela não estava, o calor estava almentando e um cheiro de queimado também, só para piorar o pavor de Vitor. Ele pegou uma das caixas de som, tomou impulso e correu.

Tudo aconteceu muito rápido, a caixa de som se chocou com a porta e a mesma se abriu, uma labareda tomou conta do lugar e a caixa que Vitor ainda segurava estava pegando fogo, ele imediatamente a soltou e caiu para trás, as chamas estava tomando conta da sala de música em poucos segundos.

Vitor não conseguia ver nada além de fogo, ele pegou sua camiseta do chão e a molhou no bebedouro que havia na sala de música e colocou no rosto. Ele ouviu gritos de crianças, gritos de seus colegas, gritos de freiras e muito choros de bebês. Bateu uma angústia em seu coração por saber que seu lar e sua família estava no meio de chamas e ele não podia fazer nada, absolutamente nada.