Além dos Mortais
23 O Mito
Notas iniciais
Drake estava em perigo?
Enquanto Sierra a puxava para o lado oposto ao que a batalha, Brianna tentava conter as centenas de perguntas que se formulavam em sua mente. E, claro, todas giravam em torno do fato de Drake não estar ali, com a irmã, e, aparentemente, correndo perigo.
– O que aconteceu com ele? – a murmurou, alto o suficiente para que a irmã ouvisse.
– Pandora... A culpa é dela... – Sierra arfava. Suor escorria de todo o seu corpo e chegava a ensopar as mãos de Brianna.
– É claro que a culpa é dela! Tudo isso – ela apontou para as construções destruídas, os corpos mortos no chão, os gritos desesperados – é culpa dela.
Sierra assentiu, com o olhar distante. Mais uma vez, Brianna notou que a irmã chorava. Ela mordeu o lábio. Sierra era a diplomática, aquela que inspirava multidões á seguirem a sua causa, Brianna era a durona, aquela que manejava qualquer arma com facilidade, que era durona, conseguia suportar qualquer coisa sem expressar nada.
Mas, claro, ela sentia.
Brianna se lembrava da dor que sentiu quando soube que seus pais haviam morrido, quando soube que teriam que abandonar o planeta, quando descobriu que os mercurianos haviam sido massacrados pelo exército de Pandora, que tomara o planeta como o seu quartel-general.
Lembrava-se das noites em que passava deitada no chão frio, limpando as lágrimas da irmã e contendo as suas. Ela não podia ser fraca, em momento algum. Ela precisava salvar a irmã.
O que parecia irônico, já que forra Sierra que salvara a sua vida há somente alguns minutos.
Sierra suspirou, esfregando os olhos com a mão que não tocava a irmã.
– Eu preciso te contar uma história, Brianna.
Θ
Pela primeira vez, a voz de Pandora parecia demonstrar qualquer sinal de emoção.
– Eu poderia ter dado tudo o que ele queria. Mulheres, dinheiro, terras, poder, o segredo por trás da vida– sua voz estava cheia de amargura — Eu ia fazer isso. Mas, então, ele me apunhalou pelas costas. Me traiu.E eu fiz com que ele pagasse por isso.
Foi assim que a deusa começou a contar a história, mesmo que, logo pelo começo, deixasse Dean cheio de dúvidas. Ela estava falando de Drake? Ela poderia ter dado tudo a ele? Mas ele se negara a oferecer algo a ela? Por que ela faria aquilo para um mortal?
– Estou falando de Anton Mason, é claro – ela parecia não estar realmente se importando se Dean estava escutando ou não – Ele era um bom menino. Inteligente. Era dono de muitas cabeças de gado. Sabia falar em público... E influenciar. Impressionava todas as garotas. Todos os meninos queriam ser como ele. Era um líder nato.
– Você era uma dessas garotas que se impressionaram com ele? – era quase uma piada, Dean sabia. Mas, de qualquer modo, não acreditava que pudesse viver muito tempo a partir daquele momento, mesmo se saísse daquele lugar.
– Eu? Eu não sou uma garota mortal. Eu sou uma deusa – ás vezes Dean estranhava o fato de como, em alguns momentos, Pandora não se parecia realmente com uma deusa. Não que aquilo fosse necessariamente bom.
Dean abriu a boca para falar algo, mas, antes que ele fizesse isso, ela voltou a contar a sua história.
– Mas mesmo uma deusa é capaz de admirar sua obra. E, admito, eu admirava Anton.
Pandora dizia as palavras com desprezo, quase cuspindo-as. O corpo de Jake, enquanto expelia aqueles sons, erguia-se em uma postura ereta e imponente que, por vezes, era interrompida por um espasmo, fazendo com que todos os pelos de seu corpo se eriçassem.
– Admirava Anton? – Dean perguntou, embora aquilo fosse óbvio. Fora o que ela havia acabado de dizer.
– Ele era admirável. Reunira o maior exército de todos os tempos. Humanos e alienígenas, juntos. Claro, na época dele, eles ainda agiam em harmonia, todos sob o mesmo solo, o solo de Pandora...
Por um momento, ele imaginou que ela estava se referindo a ela. Mas não estava. Referia-se ao planeta sob sua regência, a capital do império da deusa. De onde toda a criação surgira. Onde o Templo da Memória se localizava. Onde Drake estava.
Ele sentiu um arrepio passar pelo seu corpo ao notar isso. Ele estava em Pandora... com Pandora.
Θ
– Eles viviam juntos? – Brianna perguntara. Seus olhos arregalados, surpresos, como se aquilo parecesse uma ideia completamente... absurda.
A irmã contava a mesma história que Pandora contava a Dean. Falava sobre Anton Mason, o ancestral de Drake (o que era óbvio), que simplesmente mudara o rumo de todo o universo... E trouxera sofrimento á sua linhagem como conseqüência de seus atos.
– É claro que nós vivíamos juntos – Sierra revirou os olhos, como se aquilo fosse óbvio – Pandora era o melhor planeta para si viver, naquela época. Toda a criação da deusa se mantinha ali, em total harmonia, sem desentendimentos ou guerras. Era a Era de Ouro da Criação.
Sierra suspirou. Sempre gostara de história, de conhecer mais do passado de todas as civilizações, conhecer como agiam e como aquilo influenciara o mundo de hoje.
Anton era um bom exemplo disso. De como uma única pessoa podia mudar o curso da história.
– E, como que por recompensa por tudo o que Anton fizera – Sierra continuou. Ambas sabiam que as contribuições do humano eram quase que infinitas. Um dos exemplos era a criação de uma linguagem padrão de comunicação entre todas as raças -, Pandora ofereceu-o qualquer coisa que ele pudesse querer.
– Qualquer coisa? – Brianna franziu o cenho.
– De mulheres á imortalidade – a ideia parecia assombrosa até mesmo para a garota que a contava – Pra falar a verdade, esta proposta de Pandora fez com que vários historiadores, ao longo do tempo, acreditassem que a deusa e Anton, bem, mantinham relações...
– E o que isso tem a ver com Drake? – a garota fora ríspida.
– Bem... Ele pediu por liberdade.
– Liberdade? – Brianna não conteve um sorriso, sem esconder sua incredulidade.
– Ele era um pacifista, um amante de tudo e de todos. Sensibilizava-se pela situação de cada criatura pensante no universo... E, claro, conhecia a insatisfação dos mesmos para com Pandora.
– E, claro, ela não deixou barato – Sierra acrescentou.
– Exato – Brianna sorriu, embora, no instante seguinte, tivesse limpado suas lágrimas novamente – Ela não podia simplesmente se afastar das criaturas que tanto amava... Não podia abdicar de sua condição divina...
– Eu entendi isso. Pandora puniu Anton por isso, não é?
– Não só Anton – Sierra disse rapidamente – Toda a Criação pagaria pelo seu pedido. Porque Pandora sabia que o desejo não era somente de Anton, mas de todos...
Sierra coçou a nuca, antes de continuar.
– Como punição, Pandora dividiu a sua criação em classes distintas... Se antes todos eram capazes de manipular a magia em geral a bel prazer, como hoje fazem os cidadãos da Lua, seus dons foram divididos.
– E, cada uma delas, habitaria um planeta, certo?
– Isso. Ela os enfraqueceu infinitamente com isso. Ela acreditava que a união deles era que causara aquilo. Por isso, logo tratou de separá-los... E, claro, Anton também possuiria algumas, ah, punições especiais.
Sierra fez uma pausa. Brianna não disse nada, já imaginando como a história poderia acabar.
– Os alienígenas, por muito tempo, também tornaram-se incapazes de estabelecer contato com os humanos... Mas os humanos sofreram mais com isso, acredite, todos eles, foram rebaixados. Esqueceram-se dos alienígenas e da própria magia. Tudo o que restou disso, foram vestígios de um passado...
– Vestígios?
– É. Raros humanos, todos eles descendentes de Mason, tornaram-se capazes de ver os alienígenas, ao contrário de todos os outros. De suas visões, acabaram surgindo todas as teorias conspiratórias da existência de aliens que queriam escravizá-los e que seriam civilizações superiores...
– O que não era completamente mentira – Sierra sorriu com o comentário da irmã.
– Consegue imaginar o que aconteceu depois?
– Drake. Drake nos vira.
– Certíssima...
– Mas... Se vários humanos haviam visto os alienígenas antes, por que justamente agora houve tudo isso? – a alienígena franziu o cenho.
– Porque era isso que Pandora desejava. Com uma revolução se aproximando, ela acreditava que os humanos poderiam...
– Unir os alienígenas novamente? – a irmã a interrompeu – Porque foi exatamente isso que eles fizeram.
– É claro – Sierra prendeu os cabelos em um rabo de cavalo, sorrindo, entusiasmada – Mas, agora, nós estamos preparados para uma guerra contra a deusa. A história não se repetirá. Nós exilaremos Pandora da Criação, de uma vez por todas.
Θ
Aquilo explicava tudo para Dean.
O dom da Visão, que surgira como uma maneira de fazer com que os Mason sentissem-se culpados pelo que fizeram (afinal, eles veriam os alienígenas, embora jamais pudessem encontrá-los novamente), permitira que Drake visse os alienígenas. Os alienígenas, surpresos com aquilo, pediram uma audiência, onde Pandora deveria decidir o futuro de Drake... Mas, claro, ela já fazia aquilo há muito tempo.
Por isso ela não o matara imediatamente, o concedeu um amuleto com parte de seus próprios poderes (o dom da gravidade) e pediu para que Savanna cuidasse dele. Era a primeira vez que um humano, desde a época de Anton, interagia com os alienígenas (e, aquilo, claro, por interferência de Pandora). Se infiltrando no meio dos líderes da revolução, ele poderia acabar com ela de uma vez por todas.
Drake era um Mason. Drake seria o Soldado de Pandora. Ele levaria toda a Criação à submissão e a derrota, novamente.
Mas haviam coisas com que Pandora não havia contado.
Drake, que nunca soubera que seu destino já estava traçado pela deusa, se apaixonara por Savanna e decidiu que iria ajudá-la na revolução. Mesmo que a grande maioria o odiasse, ele conseguira unir os alienígenas para um objetivo comum.
Com aquele pensamento, Dean se levantou de repente. Os punhos estavam cerrados, em posição de ataque. Todo o seu corpo tremia. Mas, se Drake, que fora destinado a se tornar um Soldado de Pandora, havia conseguido encontrar um jeito de lutar contra a deusa, por que Drake não tentaria?
– Pandora, eu sinto muito – sua voz soava forte e objetiva. Naquele momento, ele se sentia um verdadeiro guerreiro. Um guerreiro destinado à vitória – mas eu vou acabar com você.
Mas, novamente, acontecera algo que Dean não pudera prever. Após se contorcer em espasmos novamente (Jake estaria lutando contra a possessão de Pandora?), tudo ao seu redor se desfez em névoa negra como a morte. De novo.
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