Além dos Mortais
18 Família
Notas iniciais
Eles lutavam juntos.
Savanna dava socos, liberando bolas de fogo em seus oponentes, vários deles já desaparecendo em pilhas de puro pó, enquanto seu pai movia-se de maneira ágil com a espada, movendo-se com uma velocidade que a filha jamais vira antes. Ao contrário dela, o rei não era capaz de controlar o fogo, mas Savanna estava impressionada como ele conseguia se sair ainda melhor do que ela própria em meio ao calor da batalha.
Ora, dilacerando seus adversários com golpes cuidadosamente pensados com a espada, ora pulverizando-os com feixes de luz que eram lançados tanto de seus olhos quanto de suas mãos cobertas por luvas de esgrima.
Antes que suas divagações continuassem, um dos soldados adversários se aproximou dela. Ela deu uma cambalhota no ar, pousando acima dele, sentada sobre os seus ombros. Ali, impulsionou-se para trás, fazendo com que ele caísse. Porém, para a sua surpresa, antes que atingissem o chão, o Guarda de Pandora a segurou por um dos pés e a girou acima de seu corpo, como se ela fosse um bicho de pelúcia e a jogou pelo ar, acima de seu pai.
Os dois caíram no chão, a espada de seu pai parando a alguns centímetros de distância, longe o bastante para que ele precisasse se arrastar para conseguir alcança-la.
Isso foi o que Hélio tentou fazer, claro. Mas, antes que pudesse tocar a espada que um dia pertencera a seu pai e um dia pertenceria a Savanna, gritou de dor quando um dos guardas de Pandora pisou sobre sua mão.
Por um rápido momento, ele se perguntou, não pela primeira vez, como surgiam os Guardas de Pandora, como os alienígenas costumavam chama-los. Eles não eram como os outros. Pareciam ter suas habilidades aumentadas, não sangravam, não tinham qualquer empatia com qualquer criatura. Ele tinha certeza que Pandora os transformava naqueles... naqueles monstros robóticos... Mas como? E, pior, por que aquelas pessoas se submetiam aquilo? Por que queriam se unir à Pandora?
Não se atreveria a perguntar.
– Vocês são sujos. Merecem isso. A morte. A destruição de tudo o que amam. – a voz daquela criatura era como vidro se quebrando. Savanna mordeu o lábio inferior, claramente incomodada. Imaginou se seria por causa daquele som ou das palavras que ele dizia.
O rei ignorou aquelas palavras, mas, antes que pudesse agir, Savanna se levantou, com um pulo, materializou uma faca e a pressionou contra o guarda de pandora, o empurrando contra a parede de uma casa em ruínas. Havia momentos em que Hélio simplesmente se esquecia o quanto sua filha era poderosa.
– Você é um monstro, não nós! – ela vociferou. Aproximou a adaga perigosamente do pescoço do alienígena – Vocês estão destruindo tudo. A ruína de um Império que os criou, que os alimentou...
O guarda cuspiu na cara da princesa. Pega de surpresa, Savanna se afastou, com a adaga ainda em sua mão. Para sua sorte, naquele momento o pai já havia se levantado e pego a espada. Antes que o Guarda pudesse fazer outro movimento, uma espada atravessou seu abdome.
Savanna fechou os olhos com força, esforçando-se para não gritar. Hélio, mais pragmático, limitou-se a tirar a espada dali, antes que a criatura se desintegrasse.
Olhou ao redor. Arqueou as sobrancelhas.
– Onde... Onde estão os outros? – ele perguntou. A voz rouca, áspera e preocupada.
Lentamente, Savanna abriu os olhos. Realmente não havia nenhum pandoriano por perto deles. Sentiu que devia estar preocupada mas, naquele momento, limitou-se a atirar-se no pai com os braços estendidos em um abraço.
– Está tudo bem, filha – ele disse, beijando-lhe a testa. Savanna sentia as lágrimas ardendo-lhe as bochechas, mas não tentou enxuga-las. Queria chorar.
– Eu... Eu estava tão preocupada, pai... – a voz dela estava embargada. Mais uma vez, ela se tornou uma menina que precisava de ajuda. Agradeceu aos céus por Luki ou Loki não estarem por perto. Não quis se perguntar onde eles estavam.
Ergueu os olhos para o pai, esperando que ele dissesse algo. E então, pôde ver algo. Seus olhos pareciam revirar e suor escorria pelo seu rosto. Ele tinha os dentes cerrados, como se tentasse reprimir sua dor. Savanna se afastou com um grito.
– Pai?
E então, as coisas ficaram ainda mais estranhas.
...
O Rei ainda segurava a espada. Se agarrava a ela como se sua vida dependesse daquilo. Savanna o balançava de um lado para o outro, esperando que aquilo parasse, mas ele não parou.
– Pai! Pai! Por favor! – ela sussurrava.
E, em um momento que a pegou completamente de surpresa, mais uma vez, Hélio a empurrou para trás com uma das mãos, como se lhe desse um tapa. Savanna a observou, boquiaberta, por alguns segundos, incapaz de acreditar que seu pai realmente havia feito aquilo.
E então, ele começou a voar envolvido por uma aura de luz.
Quer dizer, voar não era bem a palavra certa. Era algo como levitar. Seus olhos brilhavam de maneira opaca, em um tom dourado. Seus cabelos alaranjados pareciam quase vivos. Ele emanava poder. A luz do ambiente parecia tremular à sua volta. Com certo pesar, Savanna notou que ele se parecia com um deus... Como Pandora.
– Pai? – sua voz voltou a ficar embargada. Os cabelos ruivos presos em um rabo-de-cavalo esvoaçavam pelo seu rosto. Naquele momento, tudo a sua volta realmente pareceu perder o foco. Enquanto todos lutavam pelas suas vidas, tudo o que Savanna podia ver, e com quem podia se preocupar, era o seu pai.
Os últimos momentos, em que a atenção de todos fora levada para o topo do castelo onde ela viveu grande parte de sua vida, pareceu ter durado bastante tempo. E, para Savanna, realmente parecia ter durado muito tempo. Era como se ela tivesse visto toda a sua vida diante de seus olhos, mesmo que não fosse ela que estivesse em total perigo.
E o que ela havia feito de importante por todo esse tempo?
Nada, obviamente.
Desistira de seus treinamentos com a mãe, em Marte, depois de uma única falha. Se deixara mimar pelos criados de seu pai. Por muito tempo, ela tentara liderar uma revolução, mas nunca conseguira. Ela não era a peça principal de nada daquilo. Nunca fora. E, naquele momento, ela acreditou que nunca seria.
Tudo o que ela fez, foi cair no chão, de joelhos, cobrindo o rosto com as mãos. Lágrimas escorriam pelo seu rosto. Pelo olhar, ela sabia que aquele não era o seu pai. Não era Hélio, o rei mais sábio que o Sol já teve, era somente um... Um fantoche.
E, como se quisesse confirmar os seus pensamentos, quando Hélio falou, sua voz era poderosamente... Feminina.
– Chegou a sua hora, Savanna.
Ele ergueu o braço em direção á Savanna. E, então, foi aí que as coisas começaram a explodir de verdade.
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