Além do rio
21 Cobras gigantescas
[Cristina]
Quando acordei, percebi que havia chovido muito enquanto dormi. Aos poucos, as lembranças foram esclarecendo o que havia acontecido: a Cuca, usando sua força anormalmente poderosa, fez com que eu apagasse.
Com minha visão voltando ao normal, consegui perceber que a caverna estava vazia novamente. No entanto, já era quase noite. Olhei para os lados e percebi que Wesley e Otto também estavam lá, porém o primeiro ainda permanecia desacordado.
Tentei me mexer e não consegui, pois estava tão bem amarrada que parecia ter entrado em um casulo muito apertado. Além disso, senti tonturas causadas pela posição em que estava e tudo começou a fazer muito mais sentido: nós três estávamos amarrados de cabeça para baixo, feito morcegos. Olhando para o chão, reparei que estava logo acima do caldeirão borbulhante que me deixava enjoada com o cheiro que exalava. Meus cabelos quase o alcançavam. Tentei me sacudir para várias direções, mas sem qualquer sucesso.
—Cadê o meu cachorro?! –Gritei em desespero, porém, fiquei mais tranquila quando notei que ele estava são e salvo dentro de uma jaula improvisada, feita com galhos. Ele latiu quando ouviu minha voz.
Wesley acordou e eu vi que seu rosto estava com uma marca horrível e vermelha das garras da Cuca. Eu também sentia minha pele arder e sabia que precisava de curativos imediatamente. O índio fez a mesma coisa: tentou escapar dali, mas logo percebeu que a bruxa era muito experiente com cordas e nós. Otto, por outro lado, parecia muito tranquilo e observava a entrada da caverna, como se aguardasse por algo. Ele estava muito pensativo.
—Não acredito que estamos presos! –Exclamou Wesley. –Aquela bruxa filha da puta é forte mesmo.
—Mais do que você imagina. –Disse Otto, ainda fitando a paisagem com olhos pesados. –Eu estive pensando enquanto vocês estavam descordados... A Cuca é incrivelmente poderosa por se alimentar de magia negra. Se ela conseguir completar a poção, o que pelo jeito não falta muito, estaremos perdidos. Mas, por agora, ainda temos uma chance.
—Está brincando? –Falei. –Até eu sei que não conseguiremos vencê-la. Olhe o que ela fez conosco em apenas alguns minutos!
—Eu sei. Eu também sou incapaz de fazer algo contra ela e acredito que quase todos os outros também são. Como já falei, ela se nutre usando magia negra, que é muito mais poderosa do que magia normal... Mas, note que eu disse quase todos.
—O que quer dizer?
—Bem, há alguém tão poderoso nesta floresta que acredito fielmente que seja páreo para a Cuca. Uma criatura muito, mas muito mais antiga do que qualquer outra. Chegou antes mesmo de mim, antes do Saci e até do Curupira e Caipora, que já estavam aqui antes da colonização. Ele era um exímio guardião das florestas, mas seu poder é tanto que ele fez uma decisão por si próprio: iria deixar sua função para outra pessoa. Agora, enquanto o velhaco dorme, é o Curupira quem ficou responsável por proteger a mata. E ele está fazendo um ótimo trabalho, diga-se de passagem.
—Tá, entendemos. –Apressou-se Wesley. –Mas como faremos para chamar esse alguém? Não sei você, mas esse nó está quase me esmagando!
—Espere apenas alguns segundos. Tu já vai ver.
Notei que o sol agora estava quase posto por completo, as poucas luzes já sumiam lentamente. Momentos depois, o escuro reinava sobre o local. Voltei-me para Otto e o que vi foi tão impressionante que precisei piscar algumas vezes para saber se não estava delirando com a quantidade de sangue que descera para minha cabeça. Mas não estava.
Otto, de maneira um tanto quanto mística e impressionante, se transformava bem ao meu lado. O corpo humano, cada vez mais verde, marrom e cinza, se moldava e encolhia, até que ele despareceu do enorme “casulo”. Logo depois, algo muito pesado caiu do monte de cordas com um barulho alto. Quando olhei para o chão tudo o que vi foi uma cobra gigantesca e muito assustadora. Porém, depois de um tempo encarando-a, percebi que seus olhos eram bondosos e ela estava muito calma.
—Entendo... –Falei. -Tu se transforma depois que o sol se põe, não é?
O animal mostrou a língua e logo a recolheu novamente, de forma muito rápida e ligeira. Concluí que, mesmo sendo uma criatura mágica e sobrenatural, não conseguia conversar com humanos em seu formato de réptil. Infelizmente Otto não possuía presas, então iríamos perder muito tempo caso ele tentasse nos soltar.
—Não acredito... –Falou Wesley, surpreso. –Tu é uma Sucuri-Verde? Bicho, essa é uma das maiores espécies de cobra do mundo, senão a maior de todas! –Porém, logo algo pareceu percorrer sua mente e ele ficou chocado. –Espere aí... Aquela anaconda que eu peguei quando tinha 11 anos... Ela não me atacou, mesmo sendo muito maior e mais forte do que... Será... Você... –Todavia, sacudiu a cabeça para afastar seus pensamentos. –Mas isso não é importante. Honorato, precisamos que tu encontre ajuda e que seja rápido!
Obediente, a cobra saiu rastejando para fora da caverna. Então, uma lembrança também passou por mim.
—Aquela onça que tentou me atacar só não conseguiu, pois foi morta por um cobra...! –Falei muito baixo comigo mesma, depois, olhei para o animal que já estava quase fora da caverna. –Você...
A cobra olhou para mim e, sem dizer nada, seguiu seu caminho. Demorou até que seu corpo estivesse completamente fora do local.
—Tu acha que a gente pode confiar nele? –Perguntou Wesley.
—Eu não sei. –Falei, pensando em todos os momentos em que Otto e eu passamos juntos. Apesar de ter escondido muita coisa, senti que ele tinha um lado fiel. –Mas ele é nossa única esperança agora.
☀☀☀
[Honorato]
Embora eu estivesse em formato de cobra, meus pensamentos continuavam muito lúcidos. O trajeto foi lento graças à minha maneira de locomoção e, mesmo me apressando ao máximo, tive muito tempo para pensar e refletir. Senti-me agradecido pela Cuca passar tanto tempo dormindo! A bruxa nem ao menos reconhecera que eu também era um ser místico.
Se quisesse, eu poderia abandonar Cristina e Wesley sem problema algum. Já estava livre, afinal de contas. E não precisaria me preocupar com eles, pois a Cuca daria conta de arranjar um bom fim para ambos. Tudo o que eu precisaria fazer era dar o fora dali e continuar minha vida normalmente. Era, de fato, uma opção tentadora.
Em contrapartida, eu sabia que minha consciência não deixaria que eu abandonasse os dois dentro daquela caverna imunda, esperando um fim trágico e doloroso. Principalmente Cristina, com quem eu havia pegado uma afeição inexplicável. Nesse momento, no entanto, um sentimento de tristeza me atingiu. Apesar de gostar muito e verdadeiramente de Cris, eu sabia que havia agido erroneamente com a mesma, aproximando-me da garota com intenções egoístas. Mesmo que com o tempo eu tenha desenvolvido sentimentos mais profundos por ela, estava muito claro que era impossível criar algo a mais entre nós dois (supondo que ela também sentisse algo por mim). Eu pertencia à floresta e a ninguém mais.
Finalmente cheguei às margens do rio. Como animal, eu era lento em território terrestre, porém muito veloz dentro d’água. Assim que mergulhei, era como se um novo mundo houvesse se aberto para mim. Passei por algumas Vitórias Régias no meio do caminho, uma da qual era muito especial, embora não pudesse sair do lugar. Mesmo assim ela parecia ser muito poderosa, por conseguir fazer contato com aqueles com quem desejava. Pensei ter ouvido uma voz mágica e muito encantadora falando comigo.
—Passeando, Norato?
—Não posso falar agora, sinto muito. –Realmente sentia. -Estou com pressa.
Nadando cada vez mais com a intensa luz da lua iluminando o mágico rio, fui para o fundo. Aos poucos, a escuridão aumentava e com ela, o meu medo. O mesmo crescia pelo motivo de a decisão de seguir em frente ser muito mais do que simplesmente não abandonar Cris e Wesley. Eu sabia que, se fosse procurar ajuda, estava pondo em risco minha própria vida.
Como sempre, o espírito generoso e altruísta foi colocado em primeiro lugar. Às vezes sinto que minha verdadeira maldição não estava ligada com a fisionomia reptiliana, mas sim com o terrível espírito bondoso que nascera junto de mim. Talvez minha irmã tenha sido abençoada, morreu e se livrou de todos esses pensamentos ruins que minha mente proporcionava toda vez que eu precisava tomar uma decisão. Mas que inferno!
Já no fundo do rio, deparei-me com criaturinhas um tanto estranhas que trataram de fugir imediatamente. Minha aparência era medonha para qualquer um, seja bicho ou gente, fato que era uma boa vantagem. Desse modo, não precisava me dar ao trabalho de tentar enfrentar alguém, era só deslizar por aí que, assim que notassem minha presença, iriam se sentir completamente ameaçados e fugiriam com medo do que pudesse acontecer. Conforme eu nadava, o local, que ficava incrivelmente ainda mais escuro e sombrio, esvaziava-se. Assim como eu, todas as demais criaturas, mesmo que não-místicas, sabiam por intuição que deveriam manter distância de certa região das profundezas.
Finalmente, fiquei frente a uma caverna colada ao solo do rio. Último momento para desistir, era agora ou nunca. Caso estivesse em minha forma humana, poderia ter dado um longo suspiro, mas em tal momento eu estava embaixo da água e o corpo de cobra não me dava muita liberdade para fazer esse tipo de coisa.
A caverna, muito sombria e escura, estava também silenciosa. Não havia nenhum ruído ou animal qualquer por lá. No entanto, eu sabia que uma criatura tão grande não conseguiria se esconder tão bem assim. Senti que, há apenas alguns metros a minha frente, havia algo muito grande. Nesse momento, soube que estava na hora de agir e contar tudo o que estava acontecendo. De cobra para cobra.
—Com licença. –Mesmo que não estivesse falando de verdade, o fato de sermos criaturas mágicas semelhantes nos dava muito mais conexão do que com quaisquer outros seres da floresta. Eu sabia que minha voz iria surgir em sua mente e acordá-lo. –Eu sinto muitíssimo por estar acordando o senhor, meu ancião. No entanto, o senhor deve ser informado de que estamos passando por um momento de muita tensão. Tanto a floresta, como suas criaturas, animais e até mesmo os humanos comuns estão sendo amaçados. Ela acordou. Tenho em mente que o senhor já deva ter entendido o quão grave a situação é.
Depois de muito tempo em silêncio, senti a caverna e o chão estremecerem. Ele estava despertando de um logo sono. Mesmo que não tenha dito nada, eu sabia que conseguia compreender perfeitamente o que eu dizia. Estar sob sua presença era algo inexplicável e, para mim, muito honroso.
—Ela está envolvida com magia negra. Não seremos capazes, não sem a ajuda do senhor. Curupira tem se esforçado muito para manter tudo em ordem, mas acredito que nem ele seria capaz de competir com mágica desse tipo... Não sem se corromper. –Aguardei durante mais algum tempo de silêncio. –Precisamos do senhor.
Depois do que eu pensei ter sido seu tempo de ponderação, em que ele media se realmente valeria ou não a pena sair de seu cantinho, finalmente senti um tremor ainda maior do que o de outrora. Ele estava saindo.
Aproveitando o fluxo de água que ele criara, subi rapidamente para a superfície e fiquei imensamente agradecido por sua tomada de decisão ter sido rápida, afinal, eu já não aguentava mais ficar sem respirar. Enquanto eu subia, percebi que todo e qualquer animal fugia desesperadamente do que vinha logo atrás de mim. Às vezes não era nem sequer necessário que fugissem, pois apenas os movimentos de natação daquela enorme criatura já eram o suficiente para tirá-los do meio do caminho ou espantá-los.
Finalmente na superfície, respirei fundo durante algum tempo. Tudo estava muito escuro e o único movimento era o da água. Tudo o que eu precisava fazer agora era fugir o mais rápido possível para não correr o risco de ser atacado sem querer. Na margem, eu já havia recuperado meu fôlego e senti-me feliz pelos planos terem ocorrido melhores do que eu imaginava, quando tomei a atitude mais burra e errada possível: olhei para trás. No exato momento em que eu encarei a água, o monstro estava emergindo. Todavia, agora que ele já estava na superfície, tomou a liberdade de abrir seus olhos.
Quando vi o que pareciam ser duas bolas de chamas, senti que as mesmas queimavam meu corpo, mesmo que não tivessem sido arremessadas diretamente em mim, fazendo com que cada parte de mim ardesse de maneira agoniante e impiedosa. Eu nunca sentira tanta dor antes. Senti que meu corpo estava em um estado de choque extremo, transformando-se em cobra e depois em humano alternadamente, em uma velocidade impressionante. Acho que não permanecia nem ao menos um segundo inteiro em apenas uma das formas e já trocava para a outra. Tive a impressão de que meus pulmões estavam sendo rasgados enquanto gritava o mais alto que conseguia, mas não por livre e espontânea vontade. As dores dilacerantes obrigavam-me a fazer tal coisa. No fundo, eu sempre soube que estava correndo esse risco.
Quando finalmente permaneci em uma de minhas formas, que julguei ser a de cobra, estava tão fraco que já não sentia e nem ouvia mais nada. Minha visão estava horrenda e eu sabia que, se fosse uma criatura comum, teria ficado completamente cego. Percebi que um longo corpo deslizava muito lentamente até o centro da floresta. Embora ele também fosse muito lento na terra, assim como eu, fiquei imensamente feliz por saber que a ajuda estava chegando. Mesmo que eu precisasse ter me sacrificado para tal coisa, era muito compensadora aquela sensação de dever cumprido. Eu sorriria se estivesse no formato humano.
Antes de fechar meus olhos, no entanto, algo muito inusitado que eu nunca vira antes apareceu para mim. Uma miragem, talvez? Um delírio daqueles que só surgem antes da morte certa? Não soube dizer. Tudo o que vi antes de fechar meus olhos foi a figura embaçada e confusa de um fogo ardente e muito brilhante, como se me observasse. Parecia estar muito próximo a um cavalo.
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