Além do rio

16 A criatura do rio


[Cristina]

Depois da negociação com o Saci, Wesley e eu voltamos para o rio. No entanto, estávamos em uma área diferente da qual costumávamos frequentar; uma parte diferente do rio. Aquela margem era desconhecida para mim, mas, aparentemente, não havia nada de mais. A única coisa que estava faltando era a canoa.

—Tu acha que está no fundo do rio? –Perguntei.

—Provavelmente. –Wesley estudava com atenção as águas. –Esse rio é incrivelmente fundo. Eu posso ir pegar o cachimbo sozinho e tu fica aqui.

—Queridinho, eu não fiz aulas de natação durante toda a minha infância à toa. Eu vou entrar nesse rio e é agora! Além disso, aposto que encontro o cachimbo primeiro que tu.

Animada com a ideia, tirei meus sapatos, deixando-os ao lado da mochila, que agora estava no chão, perto das raízes de uma árvore. Pensei em retirar meu vestido para nadar sem que a roupa atrapalhasse, afinal, não havia ninguém lá para tirar fotos e espalhar pela internet. Contudo, quando agarrei a barra do vestido e estava preparada para levantá-la e tirar a vestimenta, deparei com o índio em frente a mim, que também se preparava para entrar na água. Vê-lo sem camisa fez minhas bochechas arderem com tamanha intensidade que parecia que alguém havia esfregado pimentas em meu rosto. Eu não iria ficar seminua perto daquele homem nem que a vaca tussa!
Wesley percebeu que eu o encarava e retribuiu o olhar, curioso. Só então notei que eu o estive fitando por tempo demais e senti vontade de esconder meu rosto dentro de um buraco no chão.

—O que é que você está olhando aí? –Disfarcei, caminhando para o rio. –Vamos logo.

Encarando meus pés, senti a gélida água os tocarem enquanto os mesmos afundavam na lama. Embora estivesse na frente, esperei que Wesley chegasse até mim para que pudéssemos decidir em qual direção iríamos procurar, afinal, iria ser muito mais rápido se procurássemos em lugares diferentes. Porém, ele não veio.

—Wesley, o que está fazendo? Vem logo! –Falei olhando para a água que cobria meus pés, verificando se não havia nenhum bicho estranho por perto. –O sol já vai se pôr. Não teremos chance alguma de encontrar o cachimbo no escuro. Wesley, tu está me ouvindo?

Zangada por não receber respostas, virei-me para o Índio e estranhei seu comportamento. Ele estava completamente parado, como se algo houvesse petrificado o homem. Contudo, seu olhar não era o de uma pessoa que foi petrificada, mas sim de alguém que sonhava acordado. Seus olhos, vidrados, pareciam estar no mundo da lua.

—Wesley! –Aproximei-me furiosa e balancei minha mão na frente de seu rosto, tentando atrair a atenção do índio. Porém não obtive resposta e fui obrigada a dar um estalo com os dedos, bem perto de seus olhos. Mas ele não despertou. Era como se nem sequer piscasse. –Wesley, não é hora de viajar para outro planeta. Estamos em uma missão importante!

Desistindo de força-lo a acordar, virei-me para a direção que ele incansavelmente admirava com tanto fervor. E foi nesse momento que tive uma grande surpresa.

Dentro do rio, com apenas alguns metros de distância entre nós, estava a mulher mais bonita que eu já havia visto em toda a minha vida. Mais bonita até do que as atrizes e modelos das quais eu era tão fã e seguia nas redes sociais. A tal moça era jovem, porém já adulta e parecia uma índia. Mergulhada na água até o tronco e apoiada a um enorme galho de árvore, penteava seus cabelos muito escuros que emanavam uma espécie de brilho esverdeado, lisos e compridíssimos de forma graciosa e delicada, com a prática de quem fazia isso há anos. Até mesmo eu poderia observá-la fazendo aquilo por horas e, quando me dei conta, meu queixo estava caído e os olhos não desgrudavam daquela imagem. Demorei um pouco para notar que a moça estava nua e, só então comecei a entender o comportamento estranho de Wesley.

Depois de muito admirar a aparência impecável da mulher misteriosa, sacudi a cabeça para voltar ao normal. Agora que eu já estava acostumada com tamanha beleza radiando em torno do local, pude pensar mais claramente e uma onda de raiva me envolveu. Eu a encarava com ódio e, principalmente, inveja. Como era possível uma mulher ser tão bonita? Quisera eu ser ao menos 1% daquilo; Já poderia ganhar a vida como modelo internacional.

Foi então que um sentimento muito mais intenso do que a inveja pareceu correr meu corpo e eu não sabia exatamente do que se tratava. Ou talvez apenas não quisesse admitir. Só sei que desejei profundamente afundar a mulher de vez na água quando olhei para Wesley e percebi que o mesmo não tirava os olhos da vaca aquática. Quem ele pensava que era, com aquela cara ridícula de bobão abestalhado? Deveria estar olhando para mim! Se eu descobrisse que ela era alguma blogueira ou coisa do tipo, eu faria questão de deixar muitos comentários negativos em suas publicações.

—Wesley, vamos procurar logo o maldito cachimbo. –Falei, puxando seu braço que estava duro como uma pedra. Ele nem se mexeu. –Se tu quiser ver mulheres nuas eu posso até te indicar alguns sites, mas agora precisamos ir.

Fiquei realmente preocupada com o estado do índio. Estava começando a pensar em hipóteses para chamar a atenção de Wesley, como jogar um sapo venenoso em seu rosto, por exemplo, mas não foi necessário. Ele logo começou a andar, mesmo que muito lentamente em direção ao rio.

—Ah, finalmente! –Exclamei. –Achei que íamos ficar uma semana inteira parados aqui. O que há de errado contigo?

Wesley não respondeu. Mesmo que estivesse andando em direção ao rio, era como se fosse um sonâmbulo de olho aberto ou algum tipo de zumbi muito estranho.

Ouvi uma música suave e virei-me para o rio, onde a moça cantava de um jeito extraordinário. Sua voz era belíssima de uma forma que eu nunca vira antes, contudo eu também não queria admitir isso.

—Querendo se exibir, hein? –Coloquei minhas mãos na cintura, admirando a cena. -Deveria guardar o show para quando estiver no chuveiro. Tu parece algo que nasceu do cruzamento entre um pato e uma cabra, só que pior. Como tu pode gostar de uma coisa dessas, Wesley?

Mal acabara de falar e minha expressão mudou completamente. Quando a mulher apoiou seus braços no galho e se sentou no mesmo, fiquei completamente paralisada e um arrepio percorreu cada centímetro do meu corpo. Ela não possuía pernas e muito menos pés, mas sim, uma enorme cauda de peixe. Eu estava estranhamente maravilhada e continuaria assim por muito tempo, até que me lembrei de um detalhe muito importante: Se ela era de fato a Iara, então isso significava que Wesley estava em perigo.

Quando virei-me para o índio, ele havia sumido. Desesperada, olhei para frente e percebi que ele já estava dentro do rio, com a água na altura de seu peito e muito próximo de onde a sereia cantava sua canção que parecia ecoar pela floresta inteira, adormecendo a mesma.

—Wesley! –Corri para a água e tentei nadar o mais rápido possível. – Não escute o que ela está cantando! É uma armadilha!

Tarde demais. Wesley já estava frente a frente com Iara, que se curvou para baixo e, delicadamente, porém mantendo firmeza nas mãos, segurou o rosto do índio muito próximo ao seu. Ela deu um sorriso pequeno e travesso, logo depois de me encarar com aqueles olhos sobrenaturais e brilhantes. Em seguida, afundou no rio e, para o meu desespero, agarrou o pescoço do índio e o levou consigo.

—Não! –Parei de nadar e fiquei boiando nas águas.

Eu estava ofegante e não sabia o que fazer. Tudo o que pensava é que não podia perder Wesley para aquela piranha-de-barriga-vermelha. Inspirei o máximo que pude, até encher completamente meus pulmões de ar e mergulhei.

O pouco sol que ainda brilhava no céu refletia seus raios pelo rio. A paisagem aquática era completamente diferente de qualquer coisa que eu já vira antes. Imaginei que aquele rio não fosse grande coisa, no entanto, era como se fosse mágico. Parecia cenário daquelas ilhas paradisíacas em que turistas ricaços passam as férias mergulhando e tirando fotos subaquáticas de dar inveja. No entanto, eu não podia perder tempo. Precisava continuar indo em direção ao fundo, esforçando-me ao máximo para seguir a sereia ladra de Wesleys, mas ela era incrivelmente rápida. Tudo o que eu queria nesse momento era uma cauda igual a dela para ganhar velocidade.

Como se esquecesse da minha presença, ela finalmente parou e encarou o índio com aquele olhar sedutor e demoníaco. Os cabelos dançando na água com elegância.

Eu, que sofria para continuar prendendo a respiração, tive inveja de Wesley. Ele parecia tão relaxado e tranquilo... Até que finalmente as coisas começaram a se encaixar e tive vontade de dar um peteleco na cabeça daquele homem. Por conta do feitiço lançado pela bruxa d’água, ele havia esquecido completamente de que precisava prender sua respiração. Seus pulmões estavam se enchendo de água.

Seu burro!” Pensei. E foi então que me toquei de mais um pequeno detalhe. A sereia estava querendo, afinal de contas, esfregar na minha cara que Wesley estava prestes e morrer e por isso o exibia bem a minha frente. A diversão era visível por trás de seu sorriso brincalhão e meu corpo foi se enchendo de raiva, enquanto ainda não se enchia de água.

Enquanto Iara estava distraída demais fazendo Wesley acreditar que ela estava prestes a beijá-lo (apenas para fazer com que ele abrisse a boca e engolisse mais água), aproximei-me dos dois. Eu lutava para nadar rápido, já que na água meus movimentos pareciam muito mais lentos e era difícil alcançar uma boa velocidade.

Quando finalmente cheguei ao local em que estava o casal nojento, agarrei com todas as minhas forças os longos cabelos de Iara, que não pareceu nada feliz com isso. Em contrapartida, senti suas unhas que pareciam verdadeiras garras rasgarem minha pele. Gostei da ideia. Afundei meus polegares em seus olhos enquanto segurava firmemente seu rosto.

Enquanto a piranha se contorcia de dor, passei meus braços em torno de Wesley, que estava quase inconsciente e nadei em direção à superfície. Já estava impossível prender a respiração e acabei engolindo um pouco de água no meio do caminho. Quando finalmente cheguei, percebi que respirar era a melhor sensação que existia e não economizei em sugar oxigênio para os meus pulmões.

Fui até a margem e arrastei o corpo de Wesley até que seu tronco ficasse fora da água. Não consegui fazer mais do que isso. Ele era um índio muito mais pesado do que aparentava ser. Wesley estava virado de lado e não se mexia. Respirei fundo mais algumas vezes e pensei que aquele não era o melhor momento para entrar em pânico. Eu precisava fazer alguma coisa, não iria perdê-lo para um peixe metido a ser humano com cabelo hidratado.

—Vamos, resista! Tu não pode me abandonar desse jeito, seu inútil!

Massageei suas costas e bati nas mesmas, com esperança de que a água saísse, mas aquilo não adiantou. Ele havia engolido líquido demais e uma simples massagem não seria capaz de reverter a situação.

—Espero que todos aqueles filmes com salva-vidas tenham servido para alguma coisa. –Falei para mim mesma.

Sem melhores alternativas, abaixei-me e apertei o nariz do índio com uma de minhas mãos. A outra utilizei para abrir a boca do mesmo, até que finalmente aproximei nossos lábios. Poderia ter parecido uma cena romântica de longe, mas o intenso tremor de minhas mãos e o sentimento ruim que tomava conta de mim não deixavam a situação ser nada além de desesperadora.

Depois de alguns segundos concluindo o procedimento, afastei-me para observá-lo. Seu rosto estava com uma cor esquisita e ele permanecia inconsciente.

Senti meus olhos marejarem e uma sensação de angústia correr por minha garganta quando levei um susto. Era uma tosse.

—Tu está vivo! –Gritei.

Ajudei Wesley a se virar e ele vomitou mais água do que eu achei que fosse possível caber em um ser humano. Ele estava a salvo. Pensei que tudo estava finalmente bem até que ouvi uma voz vinda do rio.

—Tu não podes salvá-lo. –Iara nos observava. Não parecia nem um pouco satisfeita com o ocorrido e notava-se o tom de raiva em sua voz. –Ninguém que voltou à superfície após ouvir meu canto sobreviveu por muito tempo. Ele ficará louco.

—Isso não é verdade! –Ataquei.

Wesley, que agora já parecia um tanto recuperado, levantou-se e eu fiz o mesmo. Estava disposta a ajuda-lo a andar, porém, ele não estava seguindo a mesma direção que eu. Ainda hipnotizado, ele voltou a caminhar na margem do rio, em direção à água.

—O que pensa que está fazendo? Eu acabei de salvar a sua vida!

Mas ele não me escutava. Em vez disso, preferia seguir a voz amaldiçoada daquele sushi falante de peruca que o persuadia a continuar o trajeto em direção à morte. Antes que ele pudesse ir mais adiante, corri e fiquei em frente ao índio com os braços estendidos para frente, de modo que ele foi obrigado a parar. Por um momento aquilo funcionou, mas ele era mais forte do que eu e senti que meu corpo estava sendo empurrado aos poucos para trás, conforme ele prosseguia.

—Venha até mim, valente guerreiro.

—Será que dá pra calar essa boca de peixe? Deixe Wesley em paz!

—Tu só estás com ciúmes, garotinha tola. –Aquele bagre em forma de mulher riu. Até sua voz de deboche era encantadora. –Qual é o problema de eu ter um namorado?

—Namorado uma ova. Você quer mata-lo!

—É assim que terminam os melhores relacionamentos, não?

Ignorando seu sorriso sombrio e perverso, concentrei minhas energias no índio.

—Wesley, tu não pode dar ouvidos a essa mulher! Ela está querendo te matar, entendeu? –Segurei firme seu rosto e o virei para mim, mas seus olhos continuavam vidrados na sereia. –Tu não pode fazer isso comigo, Wesley. Eu preciso de você aqui. –A água em meu rosto agora se fundia com as lágrimas que embasavam minha visão. Aquilo era uma verdadeira tortura. –Sou eu, a Cris. A Cristina que nunca teria vindo para cá se soubesse o que estava prestes a acontecer. A Cristina que se arrepende de tê-lo arrastado junto comigo pra esse lugar. A Cristina que não disse nada sobre isso, mas que achou que os momentos que passou ao seu lado, embora simples, foram os melhores que ela já teve na vida.

Como se tais palavras tivessem surtido efeito na hipnose, os olhos de Wesley encararam os meus e uma alegria inexplicável fez com que ainda mais lágrimas caíssem.

—Cristina? –Falou como se estivesse acordando. Parou de fazer força para me tirar do caminho.

—O que está acontecendo?

—Impossível! –Gritou a Iara, agora tremendo de raiva. –Ele não sairá daqui tão facilmente.

Com uma velocidade impressionante, Iara levantou-se na água e pude perceber que, no lugar de cauda, ela agora possuía um par de pernas humanas. Por um momento eu havia me esquecido de que ela perde seus poderes ao sair da água e utiliza esse recurso para ir até locais mais distantes e atrair homens. No entanto, senti que não era isso o que ela estava planejando fazer agora.

Iara gritou tão alto que precisei tampar meus ouvidos imediatamente. Seus olhos faiscavam e a terra tremeu sob meus pés. Até mesmo o rio pareceu ficar com uma ondulação em suas águas. Quando ela parou e pude retirar minhas mãos do rosto, percebi que meus ouvidos sangravam levemente.

Iara avançou diretamente contra mim e senti uma pancada fazer meu estômago revirar, como se meus órgãos internos estivessem preparados para sair. Logo em seguida, uma bofetada em meu rosto fez-me cambalear para trás e senti um peso me fazer cair no chão. Iara me prensava contra o solo e estava preparada para disparar mais alguns golpes. Talvez pelo fato de ter sido uma exímia guerreira, ela era extraordinariamente forte. Enraivecida, eu queria me livrar da mulher e lhe devolver tudo o que fizera contra mim de forma ainda pior, mas a fadiga que consumia meu corpo após a natação não deixava com que eu fizesse muita coisa.

De repente, senti um alívio quando o peso saiu de cima de mim e percebi que Wesley havia puxado ela para cima.

—Não toque nela! –Wesley empurrava Iara para a água.

—Não! –Gritava ela, um tanto histérica. –O que está fazendo?

Tremendo pela dor, cansaço e medo, observei as pernas de Iara se transformarem em cauda, agora que estavam em contato com a água novamente. Em alguns segundos, ela e Wesley estavam completamente cobertos pela água e tudo o que eu conseguia ver eram algumas bolhas na superfície. Fiz força para me levantar e, mantendo meus braços pressionados contra o estômago que doía, procurei por algum sinal dos dois.

Os segundos passavam como horas. Eu estava aflita e minha preocupação não me deixava pensar em coisas boas. Tudo o que conseguia imaginar era na figura de Wesley se afogando enquanto a sereia ria e comemorava sua vitória. Minha respiração começou a ficar ofegante de tanta preocupação quando as bolhas sumiram, até que finalmente vi a água se movendo.

Wesley, sugando o máximo de ar que podia, emergiu e nadou em direção à margem. Senti meu coração se aquecer novamente, embora o mesmo estivesse tão acelerado que poderia explodir.

—Eu... Eu prendi a cauda dela... Entre algumas pedras... Que... Estavam no fundo do rio. –Falou ele, ainda desesperado por oxigênio. Dobrou as pernas e apoiou as mãos nas mesmas. –Mas ela é forte, vai escapar a qualquer momento. Vamos sair daqui!

Pegamos nossos pertences apressadamente e segui Wesley para a mata. Esforçávamo-nos para caminhar rápido.

—Precisa de ajuda? –Perguntou.

—Não, eu estou bem.

—Ah. –Diminuiu o ritmo, parecia ter se lembrado de algo importante. –Tenho um presentinho pra ti.

Wesley mostrou um cachimbo e eu imediatamente sabia do que se tratava. Peguei o objeto desgastado e logo exibi um enorme sorriso para o índio. Ele encontrara o cachimbo do Saci.