Além do que se vê

2 Capítulo 1 - It begins where started


Notas iniciais
Boa leitura =)

PDV – Giulia

Olhei-me no espelho antes de sair de casa: estava apropriadamente vestida. Espero que não encrenquem com minha roupa, uma saia azul mullet, de cintura alta, com um cropped branco de mangas 3/4, com um discreto decote em "v", e uma rasteira dourada. É, acho que vai ser tranquilo.

Eram, aproximadamente umas 9:25 da manhã.

Peguei as chaves do meu Volkswagen preto, minha pequena bolsa preta de lado, os dois bolos recém-feitos e fui para a garagem.

Tenho que admitir que foi quase um malabarismo para chegar ao meu carro novo – um presente de meu querido pai, por eu ter passado na UFC. Minhas aulas, em breve, começariam. Enquanto isso, eu curtia minhas férias.

Coloquei os bolos devidamente embalados no chão do carro, e segui rumo para meu antigo colégio, que não era longe da minha casa. Demorei cerca de quinze minutos, devido ao trânsito de leve no caminho... Maldita obra, espero que, quando ela esteja concluída, o trânsito flua melhor.

Eu escutava “Arabella”, do Arctic Monkeys num volume alto, durante o trajeto.

Eu me sentia a própria Arabella, tamanha era minha animação.

Hoje, eu concluía uma sofrida etapa na minha vida: o Ensino Médio.

Que venha a UFC!

“Era uma quinta-feira, que professores estariam aqui hoje?” – refleti, silenciosa.

Peguei os bolos, minha bolsa, e saí do carro.

O simpático porteiro me reconheceu, e liberou minha entrada. Agradeci de bom grado.

Segui caminho, o intervalo estava próximo, segundo o horário. Faltavam apenas dez minutos. Decidi passar na Oficina de Redação, agradecer o apoio das minhas professoras, Carolina, uma mulher pequena, branquinha, dos cabelos negros e simpática, Ana, uma loira cujo sex appeal era invejável, exatamente como seu bonito corpo e seu ar de dominadora, e Raquel, uma gordinha loira e simpática.

Elas foram muito gentis, agradeceram pelo meu mimo, foi como chamaram. Umas fofas. Raquel, com seu delicado sotaque cantado de Pernambuco, percebeu que eu lembrara da preferência delas por bolo de chocolate, sem calda.

Agradeceram mais uma vez.

Eu disse que era besteira, qualquer um lembraria desse detalhe.

–Claro que não, Giulia... São poucas as pessoas que reparam nos detalhes. – Disse Ana. – Isso é uma habilidade demasiadamente útil, independente da área do Direito que você vai seguir. – eu havia falado da minha aprovação no curso, quando cheguei. – Independente da área da vida, também.

E o comentário de Ana perdurou na minha mente pelo resto do dia.

Quando tocou o sino, o anúncio para o intervalo, saí da Oficina, com um sorriso no rosto, a bolsa no braço e um bolo branco na mão.

Meu último sorriso de menina do dia.

Dirigi-me a sala dos professores, no mesmo andar.

Bati na porta, pedi licença ao entrar.

Alguns rostos surpresos, outros ainda não haviam me visto.

Coloquei o bolo na mesa da sala.

A maioria deles estava lá, inclusive Victor, o professor que era o protagonista das minhas fantasias... Elas voltaram junto à minha imaginação fértil, perturbando-me com nuances de uma noite quente de sexo, com direito a hematomas causados pelas suas mãos grandes, mordidas, roupas rasgadas, costas arranhadas pelas minhas unhas afiadas, gritos, gemidos...

Ao vê-lo, um frio subiu pela minha espinha, mas contive minha expressão.

Ele me encarou por um breve momento, antes de começar a mexer no celular furiosamente.

Fiz um breve discurso sobre o quanto eles haviam sido importantes durante meu trajeto escolar, o quanto eu devia minha matrícula no curso de Direito na UFC a eles, semelhante ao que fiz na Oficina de Redação.

Eles me aplaudiram, disseram que era por causa de alunas como eu que eles ainda eram professores de ensino médio.

Pouco tempo depois, meu ex-coordenador me deu um aperto de mão, me parabenizou e pediu que eu ficasse um pouco mais, para que eu pudesse discursar nas turmas de terceiro ano sobre como havia sido quando eu estava no lugar deles.

Aceitei o convite de bom grado, e me retirei da sala, pois meu celular estava tocando.

Era o meu ex-namorado, querendo marcar um encontro para a gente “se entender”.

Harder to Breathe — Maroon 5

Ele era um verdadeiro filho da puta.

Sim, um verdadeiro filho da puta – nós terminamos durante o meu terceiro ano, o ano em que eu só iria sair de casa depois do ENEM e agora que eu estou livre, com 18 anos, podendo sair como bem quisesse, finalmente podendo curtir minha solteirice, ele quer voltar?

Desculpem-me a expressão, mas ele que vá para a puta que pariu.

Suspirei com força e atendi:

–O que você quer?

–Numa visão mais ampla, você.

–E agora, além de tomar meu tempo com tentativas frustradas e inúteis?

–Conversar para a gente poder se resolver. – respondeu, sincero.

–Qual é o seu problema? Você não consegue ouvir um “não”?

–Você sabe que sou insistente, Giulia.

–Foda-se, não quero saber o que você é ou deixa de ser. Isso parou de ser meu problema faz quase um ano. Me deixe em paz, por Deus! – vociferei.

–Que mulher mansa. – disse com desdém. Ele estava me provocando, isso é perigoso, se ele não lembra. – Me dê uma chance... A pior coisa que pode acontecer é voltarmos a ficar juntos.

Suspirei fundo. Eu estava muito puta de raiva. Se ele estivesse na minha frente, voltaria para casa respirando por um tubo.

–Ô babaca, presta atenção: você perdeu. Eu falei para você ter paciência. Agora chora. – minha voz saía entredentes.

Senti um par de olhos em mim. Mais especificamente, na minha bunda. Revirei os olhos, não estava com humor para lidar com babacas naquele momento. O próximo que viesse, levaria umas boas porradas.

Quem era o idiota da vez agora?

Não me virei.

–Mas eu só... – ele tentou falar.

–“Mas meu amor, o que você está passando é, apenas, a Lei do Retorno. Ontem, você me deixou caindo aos pedaços. Hoje é sua vez.” – recitei "Indomada". – Então, esse seu “Mas eu só...” é o cacete. Volte para sua faculdadezinha particular e procura uma patricinha do Direito ou do curso que você quiser. Tô pouco me fodendo para você, na boa. Me deixe em paz. – respondi, e desliguei o telefone antes que ele respondesse qualquer coisa.

Resolvi checar minhas mensagens, quando uma voz grave e ligeiramente rouca me chama:

–Giulia?

Virei-me e ergui o olhar. Era Victor.

Sua postura estava visivelmente relaxada, mas seu rosto abrigava um sorriso de menino travesso. Ele poderia passar por um cara comum. Mais ou menos 1,75 de altura, porte normal, pele ligeiramente morena. Usava óculos. Não usava barba, para minha tristeza. Ele tinha uma verdadeira cara de santo... Se você olhasse de um jeito desatento. Se o fizesse de forma só um pouquinho mais cautelosa, veria o leão que pulsava dentro dele.

O clima que se estabeleceu parecia pesado, denso, apelativo em termos sexuais.

Ele fitou meus olhos com tamanha ferocidade que minha pulsação acelerou... E o pior de tudo: não consegui desviar de seu olhar... Eram olhos quase negros, como seus cabelos. Profundos. Tive medo de encarar demais e me perder por lá. Eu podia sentir minha artéria do pescoço pulsando com a mesma velocidade de um carro de Fórmula 1.

Aquele minuto pareceu durar uma eternidade.

Ele me analisou dos pés a cabeça, demorando-se um pouco no decote do meu cropped e nas minhas pernas ligeiramente expostas – isso me lembrou suas aulas de física um ano antes, no qual ele sempre explicava determinados conteúdos olhando em meus olhos. Ou em meu decote. Ou minhas pernas – lembrei do curso de férias, cujo uniforme era dispensado e podíamos usar vestidos, shorts, saias e afins.

Intimidador, às vezes.

Sedutor, nas outras.

Dependia muito de sua motivação.

–Oi, professor – consegui responder, entre um gaguejo e outro.

–Não sou mais seu professor.

Ele conseguia exercer esse controle quando ficávamos sozinhos – assustador como ele fazia isso num piscar de olhos.

–E o que isso implica? – minha pulsação continuava a acelerar, não achei que fosse possível.

–Significa muita coisa. Acho que podíamos sair para jantar um dia desses. Posso pegar seu telefone?

Ele sempre fora direto assim? Talvez.

Olhei para a mão esquerda de Victor, e a aliança ainda estava lá, no dedo anelar, parecia estar deixando marca na sua pele morena clara.

Lembrei-me das histórias a respeito de seu casamento: uma mulher muito mais nova, formada em medicina, trabalhava demais, paqueras – ora discretas ora indiscretas – com algumas alunas...

–Você deveria ter tirado sua aliança, primeiro, não? – respondi com atrevimento.

–E ela estar no meu dedo é algum impedimento? – ele devolveu, com o cenho franzido.

Naquele momento, vi que Victor era um homem cujas atitudes eram guiadas pelo seu instinto, quando se tratava de sexo. Ele não parecia que estava jogando seu casamento no lixo – isso é um verdadeiro desprezo por um casamento... Era intrigante, para dizer o mínimo.

–Por um lado, sim: vai contra a moral e os bons costumes, mas... Por outro lado, deixa tudo mais divertido e excitante, não acha? – provoquei.

Ele abriu um sorriso sacana, sacou o telefone do bolso e trocamos telefones.

–Te ligo mais tarde, meu anjo. Pode ter certeza. – ele me puxou pela cintura, num abraço apertado.

Perdi o controle sobre os meus pulmões por um instante e acabei ficando sem fôlego, e ele percebeu.

–Isso não é nem metade do que eu sou capaz de fazer com você.

Victor vai tentar me matar de tesão, oh céus.

Minha intuição me diz que estou pior que um trem desgovernado. Que eu deveria parar de brincar com fogo. Que eu deveria ter cuidado.

Não a escutei, pela primeira vez em anos. Eu queria saber qual seria o desenrolar dessa brincadeira de gente grande.

Notas finais
E aí, o que acharam? =) Novidades sobre PDV no próximo capítulo!