Além do horizonte escuro- Os Lâfrer

10 ​CAPÍTULO 8: Maré de Aproximação




​Richard ficou sozinho sob o guarda-sol por exatos três minutos antes que o tédio e a curiosidade vencessem sua cautela. Ele se levantou, sentindo a areia fofa desafiar seu equilíbrio. Usando o som das ondas como guia e a mancha rosa vibrante que era Hadassa no mar, ele começou a caminhar.

​— Lâfrer? O que você está fazendo? — Hadassa gritou, a água batendo na altura de sua cintura. — Eu disse para ficar na sombra!

​— Eu sou um fuzileiro, Nymerelle, não um vampiro! — Richard rebateu, rindo enquanto a primeira onda gelada batia em seus pés. — E a sua voz é um farol terrível, você sabia? Preciso chegar aí para te calar.

​Ele avançou com cuidado. A falta de percepção de profundidade fazia cada passo parecer um mergulho no escuro, mas ele não parou. Quando a água atingiu seu peito, uma onda um pouco mais forte o desequilibrou.

​Instintivamente, Hadassa nadou até ele e o segurou pelos ombros. Richard, para não cair, envolveu a cintura dela com os braços fortes, trazendo-a para perto. O choque térmico da água fria contra o calor dos corpos fez ambos prenderem a respiração.

​— Viu? — Hadassa disse, a voz subitamente mais baixa, as mãos apoiadas no pescoço dele para mantê-lo estável. — Eu disse que você ia precisar de resgate.

​Richard não a soltou. Ele a manteve ali, a água subindo e descendo entre eles, criando uma pressão que os obrigava a permanecer colados.

​— Resgate? — Ele arqueou a sobrancelha, o rosto a centímetros do dela. — Eu apenas decidi que a enfermeira estava muito longe do paciente. É uma questão de segurança hospitalar, Hadassa. Se eu me afogar, você perde o emprego.

​— Você é um manipulador barato, Capitão — ela ironizou, mas não se afastou. Pelo contrário, ela se aninhou um pouco mais no abraço dele sob o pretexto de uma nova onda que se aproximava. — E está usando a desculpa da água para me manter como boia.

​— Se for para morrer no mar, que seja segurando algo bonito — Richard soltou, com um tom de voz que misturava a antiga malícia com uma vulnerabilidade nova. Ele a apertou um pouco mais, sentindo a pele molhada dela contra a sua. — Além disso, você está tremendo. É frio ou é medo do meu senso de direção?

​Hadassa soltou uma risada curta, sentindo o coração dele batendo contra o seu peito. Era um ritmo firme, forte, de alguém que estava voltando à vida.

​— É irritação por você ser tão teimoso — ela mentiu, dando um empurrão de leve no ombro dele, mas mantendo as mãos ali. — E se você não me soltar, vou ser obrigada a te mergulhar de cabeça para ver se esse seu ego diminui com o sal.

​— Tente a sorte, enfermeira — Richard sorriu, um sorriso largo e desafiador. — Mas aviso que fuzileiros seguram o fôlego por muito tempo.

​Eles ficaram ali por mais alguns instantes, abraçados em meio ao vai e vem do oceano. Não era um beijo, nem uma declaração, mas era a primeira vez que a barreira entre paciente e profissional se dissolvia completamente. Naquele momento, no meio do mar, Richard não era um homem ferido e Hadassa não era sua cuidadora. Eram apenas dois sobreviventes encontrando equilíbrio um no outro.

​— Pronto — Hadassa disse, afastando-se lentamente conforme a maré acalmava. — Já teve sua dose de aventura. Agora, de volta para a areia antes que você vire um camarão cozido.

​— Sim, senhora — Richard respondeu, mas desta vez, ele estendeu a mão para que ela a segurasse. — Mas só se você prometer que o jantar hoje não tem nada verde.

​Hadassa segurou a mão dele, puxando-o em direção à praia com um sorriso irônico.

— Sem promessas, Capitão. Sem promessas.