​Richard encarava o próprio reflexo no espelho com um desdém renovado. Ele usava uma camisa de linho aberta e bermuda, mas os óculos escuros eram sua armadura inegociável.

​— Uma praia, Hadassa? Sério? — ele gritou para o corredor. — Eu tropeço em tapetes planos, o que você acha que vai acontecer em uma superfície feita de areia movediça e crianças gritando?

​Hadassa apareceu na porta, segurando uma bolsa de palha e usando um chapéu de abas largas.

​— O que vai acontecer é que você vai parar de cheirar a mofo e escritório. Além disso, a areia é excelente para o seu equilíbrio proprioceptivo. Ou, em termos que você entende: se cair, o chão é fofo. Vamos, Capitão.

​A praia estava tranquila, mas para Richard, cada som era amplificado. O quebrar das ondas, as gaivotas, o vento. Ele caminhava segurando o braço de Hadassa com uma firmeza que beirava a possessividade, tentando ignorar a sensação de que todos olhavam para sua cicatriz.

​— Estão todos olhando, não estão? — ele sussurrou, o sarcasmo voltando como defesa. — "Vejam o pobre fuzileiro, o monumento à guerra de um olho só".

​— Na verdade, estão todos olhando para o meu chapéu, que é maravilhoso — Hadassa ironizou, parando perto de uma área mais reservada. — E se alguém olhar para você, é porque você é um homem de um metro e noventa com ombros de carvalho. Pare de ser narcisista, Lâfrer. Ninguém se importa tanto assim com a sua beleza trágica.

​Richard soltou uma risada curta.

— Você é impossível.

​— E você está precisando de vitamina D. Sente-se aqui.

​Ela o ajudou a se acomodar em uma cadeira de praia sob um guarda-sol. Richard suspirou, sentindo o calor do sol na pele pela primeira vez em meses. O silêncio durou alguns segundos até que ele ouviu o som de um zíper e o tecido sendo deixado de lado.

​— O que você está fazendo? — ele perguntou, ajeitando os óculos.

​— Tirando o excesso de roupa. Estamos na praia, caso você não tenha notado pelo cheiro de sal.

​Hadassa ficou de pé, revelando um biquíni rosa que contrastava perfeitamente com sua pele. Richard, embora tivesse a visão limitada e borrada de um lado, focou o olho bom nela. O mundo pareceu entrar em câmera lenta. Ele não esperava que a enfermeira séria e irônica escondesse curvas tão... perturbadoras.

​Ele engoliu em seco, o sarcasmo falhando miseravelmente.

​— Você... hã... o rosa é uma escolha tática, enfermeira? Para eu não te perder de vista caso eu tente fugir nadando?

​Hadassa percebeu o olhar dele e, pela primeira vez, sentiu um calor que não vinha do sol. Ela colocou as mãos nos quadris, sustentando a postura irônica para disfarçar o próprio nervosismo.

​— É para combinar com o seu rosto quando você fica com vergonha, Capitão. E pelo que estou vendo, o tom está quase idêntico.

​Richard recuperou o fôlego e deu um sorriso torto, aquele lado brincalhão assumindo o controle para esconder o fato de que seu coração estava batendo como se estivesse em combate.

​— Vergonha? Eu sou um fuzileiro, Nymerelle. Já vi coisas muito mais perigosas que uma enfermeira de biquíni. Embora eu deva admitir... você é um risco à saúde pública desse jeito. Alguém pode ter um ataque cardíaco.

​— Guarde o galanteio de quartel para as suas ex-namoradas — ela rebateu, embora estivesse sorrindo. — Vou dar um mergulho. Se você se mover e se perder, eu te deixo aqui para ser resgatado pelas gaivotas.

​— Eu não me moveria nem se o General Vance aparecesse aqui com uma bandeira branca — Richard murmurou, observando-a caminhar em direção ao mar. — A vista daqui finalmente ficou interessante.

​Ele ficou ali, observando a silhueta dela se perder nas ondas. Pela primeira vez, a escuridão do seu horizonte parecia menos importante do que a claridade daquela mulher que, ironicamente, estava lhe ensinando a enxergar a vida com um olho só.