Além do horizonte escuro- Os Lâfrer

12 ​CAPÍTULO 10: O Preço da Luz




​O jantar estava sendo servido sob uma luz suave. Hadassa, mantendo sua ironia habitual, insistia que Richard comesse os aspargos, enquanto ele tentava, de forma brincalhona, "escondê-los" sob o guardanapo. O clima de cumplicidade, porém, foi interrompido pelo toque insistente da campainha.

​Claire apareceu à porta da sala de jantar acompanhada por um homem de jaleco branco por baixo de um sobretudo militar. Era o Dr. Aris, o cirurgião-chefe que cuidou de Richard na base.

​— Richard, perdoe a intrusão — disse o Dr. Aris, ignorando o protocolo de jantar. — Mas eu não podia esperar até amanhã. Recebi a aprovação final para o protocolo experimental de bio-implante ocular.

​Richard largou o garfo. O tilintar do metal contra a porcelana soou como um tiro. Hadassa sentiu o estômago revirar.

​— Do que você está falando, doutor? — Richard perguntou, o sarcasmo morrendo na garganta.

​— Uma tecnologia nova, financiada diretamente pelo comando do General Vance — o médico explicou, entusiasmado. — Podemos devolver a sua visão, Richard. Quase 90% de funcionalidade. A cirurgia está marcada para daqui a três dias. Só precisamos que você assine um termo de "confidencialidade mútua" sobre o incidente de Kandahar, como parte do acordo de financiamento.

​Hadassa soltou uma risada amarga e aguda, que atraiu todos os olhares para ela.

​— "Confidencialidade mútua"? — ela repetiu, a ironia agora tingida de puro veneno. — Que nome elegante para um suborno, doutor. O General não está oferecendo uma cirurgia; ele está tentando comprar o silêncio do único homem que pode colocá-lo na cadeia.

​— Hadassa, por favor — Claire interveio, com os olhos brilhando de esperança. — É a visão dele! É a vida dele de volta!

​Richard permanecia imóvel. O silêncio dele era denso, quase palpável. Ele olhou na direção onde sabia que Hadassa estava.

​— E então, enfermeira? — a voz de Richard era um sussurro rouco. — Qual é o diagnóstico? Eu aceito a luz de um criminoso ou continuo no escuro com a minha verdade?

​Hadassa se levantou lentamente, caminhando até ele. Ela colocou a mão no ombro de Richard, ignorando a presença do médico e da mãe.

​— O diagnóstico é simples, Capitão — ela disse, inclinando-se para que apenas ele ouvisse, a voz firme e sem hesitação. — Se você aceitar esse acordo, Vance vai ser o dono dos seus olhos para sempre. Você vai enxergar o mundo, mas nunca mais vai conseguir olhar no espelho.

​Richard deu um sorriso triste e torto, voltando seu rosto para o Dr. Aris.

​— Diga ao General que eu agradeço a oferta — Richard disse, sua voz ganhando a força do antigo comando militar. — Mas eu aprendi uma coisa com a minha enfermeira sarcástica: é melhor enxergar a verdade com um olho só do que viver uma mentira com os dois.

​O Dr. Aris empalideceu.

— Richard, você está jogando fora a sua única chance!

​— Não, doutor — Richard rebateu, levantando-se da mesa com uma imponência que fez o médico recuar. — Eu estou apenas escolhendo em qual campo de batalha eu vou lutar. E aviso: eu não pretendo fazer prisioneiros.

​Quando o médico saiu, frustrado, Richard se virou para Hadassa na penumbra da sala.

​— Você percebeu que acabou de me convencer a recusar um milagre, não é? — ele brincou, embora o brilho em seu olho fosse de uma seriedade absoluta.

​— Eu não acredito em milagres comprados, Lâfrer — ela respondeu, cruzando os braços e retomando sua máscara irônica para esconder o quanto estava orgulhosa dele. — Além disso, se você recuperasse a visão agora, ia perceber que eu não sou tão paciente quanto pareço.

​Richard riu, puxando-a para perto por um breve momento.

— Tarde demais, Hadassa. Eu já percebi isso no escuro.