Além do horizonte escuro- Os Lâfrer
2 CAPÍTULO 1: O Intruso de Branco
A manhã na mansão Lâfrer tinha o cheiro sufocante de lustra-móveis caro e silêncio. Richard estava em seu refúgio — o escritório de carvalho escuro — onde a luz do sol era filtrada por cortinas pesadas, deixando o ambiente em uma penumbra confortável para o seu único olho são.
O som da porta abrindo sem bater foi como um tiro de advertência.
— Eu não pedi café, e certamente não pedi companhia — Richard disparou, sem tirar o foco do livro em braile que ele ainda se recusava a aprender direito.
— Que bom, porque eu não trouxe café. Trouxe o seu cronograma de reabilitação e uma dose cavalar de realidade — a voz de Hadassa soou perto, firme e terrivelmente nítida.
Richard girou a cadeira lentamente. O lado direito do rosto, marcado pela cicatriz que subia até a têmpora, estava voltado para a sombra. Ele soltou um riso anasalado, carregado de escárnio.
— Um cronograma? Que eficiente. Deixe-me adivinhar: às nove temos "sentir pena do ex-fuzileiro" e às dez "tentar convencê-lo de que a vida é bela"?
Hadassa caminhou até a janela e, com um movimento seco, abriu as cortinas. A luz inundou o quarto, fazendo Richard sibilara e cobrir o rosto com a mão.
— Às nove temos exercícios de mobilidade e às dez eu verifico se o seu sarcasmo é um sintoma de trauma ou apenas falta de educação crônica — ela respondeu, sem se abalar. — Aposto na segunda opção.
Richard baixou a mão, o olho esquerdo faiscando de irritação.
— Você é sempre tão encantadora ou fez um curso intensivo para irritar pacientes terminais?
— Eu não trato pacientes terminais, Lâfrer. Trato soldados que esqueceram como marchar — ela se aproximou da mesa, apoiando as mãos na madeira polida e encarando-o de frente. — E, ironicamente, o seu prontuário dizia que você era um líder. Pelos últimos cinco minutos, parece apenas um adolescente de trinta anos emburrado no escuro.
Richard inclinou-se para frente, invadindo o espaço pessoal dela. O perfume dela — algo que lembrava lavanda e antisséptico — era uma invasão indesejada em seu mundo de fumaça e couro.
— Escute bem, enfermeira... Hadassa, certo? — Ele saboreou o nome com ironia. — Minha mãe te contratou para ser um anjo da guarda. Mas eu não acredito em anjos. Eu acredito em causas perdidas. E eu sou a maior delas.
Hadassa não recuou um milímetro. Ela sustentou o olhar dele com uma frieza profissional que o desarmou por um segundo.
— Engraçado. Eu também não acredito em anjos. Acredito em fisioterapia, disciplina e em não perder tempo com quem gosta de se afogar em um copo d’água — ela se afastou, pegando a prancheta. — Vamos começar. Tire o paletó.
Richard arqueou uma sobrancelha, um sorriso torto e sombrio surgindo nos lábios.
— Já quer que eu me despaça? Mal nos conhecemos, enfermeira. Pelo menos me pague um jantar antes de tentar ver o que sobrou de mim.
Hadassa soltou um suspiro curto, o primeiro sinal de que ele estava testando sua paciência, mas sua resposta veio afiada como um bisturi:
— Guarde o charme de cassino para as suas visitas, capitão. Para mim, você é apenas um conjunto de músculos atrofiados e um ego ferido que precisa de manutenção. O paletó. Agora.
Richard bufou, mas começou a desabotoar a peça com movimentos lentos e deliberadamente provocativos.
— Você deve ser muito popular nas festas da base militar, Hadassa.
— Sou ótima em primeiros socorros — ela respondeu, puxando uma cadeira para perto dele. — O que é útil, já que sinto que vou ter que ressuscitar o seu bom senso várias vezes ao dia.
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