Além do Olhar

10 O Silêncio dos Corpos


Os meses que se seguiram foram como um inverno rigoroso dentro do ginásio da faculdade. O calor daquela tarde de sábado havia sido substituído por um gelo profissional que machucava mais do que qualquer briga.

​Kyara emagreceu, seus olhos antes brilhantes agora estavam sempre focados no chão ou no caderno. David, por outro lado, tornou-se mais rígido, sua presença ainda era imponente, mas a luz que ele emanava parecia ter se apagado, sobrando apenas a autoridade de um professor que cumpre seu dever.


​Era uma tarde de quarta-feira, final de semestre. O ginásio estava abafado, mas o espaço entre David e Kyara parecia ter uma temperatura negativa. Ela estava entregando o relatório final da disciplina de Fisiologia do Exercício.

​Kyara se aproximou da mesa dele ao final da aula. Beatriz já tinha saído, sentindo o clima pesado. David estava anotando algo em sua caderneta, sem levantar os olhos.

​— Professor... aqui está o meu relatório final — Kyara disse, a voz baixa, mecânica.

​David estendeu a mão, pegou o papel sem que seus dedos encostassem nos dela. Ele deu uma olhada rápida na capa.

​— Obrigado, Stanford. Verificou se a bibliografia segue as normas da ABNT? — A voz dele era fria, despida de qualquer afeto.

​— Sim. Está tudo lá. Como o senhor pediu.

​David finalmente levantou o olhar. Não havia mais o brilho divertido, apenas uma cortina de profissionalismo intransponível.

​— Ótimo. Se as notas baterem com o esperado, você está liberada da prova final.

​Kyara sentiu um nó na garganta. Ela queria gritar que sentia falta dele, que as noites na casa da avó eram preenchidas pelo silêncio da saudade, mas a lembrança da ameaça do pai a mantinha presa.

​— David... — ela começou, mas ele a cortou imediatamente.

​— Professor Sinclair, por favor. Estamos em horário de aula, Kyara. Mais alguma dúvida técnica sobre a matéria?

​Kyara sentiu como se tivesse levado um tapa.

— Não. Nenhuma. Só queria saber se... se as referências que o senhor prometeu no início do semestre ainda estão de pé.

​David soltou uma risada amarga, seca, que não chegou aos olhos. Ele se inclinou para frente.

​— Eu sou um homem de palavra, ao contrário de algumas pessoas. Se você merece pelo seu desempenho acadêmico, eu darei a recomendação. Eu não misturo competência profissional com... decepções pessoais.

​— Eu fiz o que achei que era certo — ela sussurrou, sentindo as lágrimas pinçarem seus olhos.

​— E eu achei que você confiava em mim para lutar minhas próprias batalhas — ele rebateu, a voz perigosamente baixa. — Mas você escolheu o lado do medo. Agora, por favor, o próximo aluno está esperando.

​Kyara deu um passo atrás, sentindo o peito arder.

— O senhor não entende...

​— Eu entendo tudo, Stanford. Entendo que o silêncio é a única coisa que restou. Com licença.

​Ela saiu do ginásio quase correndo. David ficou parado, olhando para o relatório dela. Ele apertou as bordas do papel com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram brancos.

​O "piloto automático" de Kyara a levou até o estacionamento, onde o carro da vovó Adelaide a esperava. Ela entrou e desabou no volante. Do outro lado da vidraça do ginásio, David a observava de longe, o rosto nas sombras, lutando contra a vontade de ir até lá e a vontade de nunca mais vê-la para não sofrer novamente.

​A distância era de poucos metros, mas parecia um oceano de ressentimento e proteção mal compreendida.