Além do Horizonte
3 Capítulo 3 - Surpresa!
– Boa noite. – eu disse, entrando na cozinha.
– Boa noite filha. – meu pai disse, recebendo-me com um grande sorriso.
– Essa é a famosa Julie James? – reconheci o homem assim que o vi. Era o mesmo da cafeteria, que era intolerante a lactose como eu.
– Sou eu sim, muito prazer. – disse sorrindo e tentando ser simpática. – E você seria o...
– Filha, esse é o novo patrão do seu pai... – disse minha mãe.
– Meu nome é Jonh Smith, mas pode me chamar de Jonh. – ele disse com um sorriso tímido, mostrando os belos dentes brancos e perfeitamente alinhados que possuía.
Então, finalmente parei para prestar atenção nele. Era jovem, tinha entre 20 e 25 anos. Era mais alto que eu, pelo menos uns dez centímetros. Definitivamente era muito bonito. Tinha olhos desenhados e azuis, cabelos lisos e castanhos, quase negros e era branco. Não pálido como eu, era como se não pegasse sol com regularidade. Ele estendeu a mão para mim e eu o cumprimentei, tentando ao máximo ser educada, afinal, ele podia demitir meu pai a qualquer momento.
O resto da noite foi tranquila. Nós quatro ficamos conversando sobre assuntos aleatórios, sem tocar no tópico ‘demissão’ nunca. Como era de se esperar. Estava exausta de caminhar até em casa, então pedi para me recolher, antes mesmo que o Sr. Smith – era muito estranho chamá-lo de senhor, quando ele tinha quase a minha idade – fosse embora. Despedi-me deles e fui para o meu quarto. Tomei um longo banho quente para relaxar, enquanto tentava entender o que aquele homem fazia em minha casa. Será que ele queria conhecer a família de quem queria demitir? Por quê? Ele devia ser um ser humano horrível então. Ele era tão bonito, tão simpático... Seria terrível a ponto de demitir todas aquelas pessoas? Inclusive meu próprio pai, que trabalhava naquela empresa desde antes de eu nascer? Não podia acreditar nisso.
Adormeci com aquele assunto na cabeça. Tive sonhos ruins. Pesadelos nos quais perdíamos a casa e ficávamos ao relento. Minha frágil mãe morria de frio após uma intensa tempestade e todos nós pedíamos esmola nas esquinas. Acordei suando muito, meu pijama estava ensopado e eu tremia com todos aqueles pensamentos rodeando minha mente. Tomei banho e arrumei-me, preparando-me para mais um dia a procura de emprego. Desci as escadas lentamente enquanto ouvia a conversa dos meus pais.
– Isso vai nos salvar. – meu pai disse – Nunca mais precisaremos nos preocupar com dinheiro.
– Ele nunca vai concordar com isso. – sussurrou minha mãe e com a voz embarga continuou:
– Ela é nossa única filha, como pode sequer propor que...
Cheguei à cozinha e a conversa terminou.
– Propor o que pai? – perguntei receosa.
– Bom dia, minha filha. – ele recebeu-me com um abraço.
Achei estranha em demasia aquela atitude. Meu pai nunca foi do tipo de pessoa que abraçava quem ele, supostamente, amava. Acho que ele não havia me abraçado mais que duas ou três vezes em toda a minha vida e eu seriamente desconfiava de que ele amasse alguém além de ele mesmo.
– Propor o que, pai? – repeti sem dar muita atenção aquele gesto de ‘carinho’.
– Lembra que eu sempre reclamei de que você nunca seria ninguém na vida? Que nunca teria um futuro? – perguntou calmamente, como se aquilo não me magoasse nem um pouco. Assenti lentamente tentando entender onde ele queria chegar.
– Você nunca mais precisará se preocupar...
– Eu não me preocupo! Diferente de você, eu sei que terei um futuro grandioso como musicista e...
– Que seja! – ele interrompeu, ficando vermelho de raiva, mas logo voltando a estampar aquele sorriso presunçoso no rosto. – Você está noiva.
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