Além do Horizonte
2 Capítulo 2 - O dia depois de amanhã.
Notas iniciais
Dois dias depois.
O efeito do leite finalmente havia passado e eu levantei cedo para procurar emprego. Enquanto descia as escadas ouvia o choro baixo da minha mãe, vindo da cozinha.
– Oi filha, melhorou da virose? – ela disse secando os olhos e disfarçando o choro.
– Melhorei sim, mas por que a senhora estava chorando? Aconteceu alguma coisa? – nem havia percebido a presença do meu pai até então.
– Aconteceu sim. – ele disse do fundo da cozinha. – Você que não ajuda em nada nessa casa. Isso já está se tornando um problema para nós.
– Eu vou arrumar um emprego e...
– A hipoteca da casa venceu e nós não temos dinheiro para pagar. Nós seremos despejados dentro de três semanas. Se você conseguisse um emprego e ajudasse com as contas seria diferente, mas nem isso você faz. Você já tem dezenove anos Julie! Se tivesse cursado Direito na faculdade como nós havíamos planejado...
– Nós, pai? Você planejou tudo sozinho! Eu já disse que quero fazer faculdade de música.
– Quero ver você cursar música quando estivermos debaixo da ponte. Agora vou trabalhar, porque alguém precisa colocar comida na mesa. – ele disse saindo da cozinha.
Minha mãe ainda fungava, enquanto tirava a mesa do café da manhã.
– Filha não se irrite com seu pai. Ele só está assim porque o chefe dele faleceu e os filhos do chefe herdarão a empresa. Há boatos de que eles demitirão os funcionários mais velhos, como o seu pai, ele está preocupado.
– Eu não fazia ideia mãe! – disse boquiaberta. – Se meu pai for demitido estaremos perdidos...
Depois da cena da cozinha, saí para procurar emprego. Passei a tarde toda indo a cada uma das agências da cidade e recebendo um não de todas. Uma delas chegou a dizer que eu era “um pouco gordinha”. Minha auto-estima estava no chão. Entrei na primeira farmácia que encontrei e corri para a balança. Ela daquelas que media a altura também. Coloquei uma moeda e esperei. Alguns segundos depois saíram os resultados. Em vermelho vibrante estavam os números 1,75 metros e 52,5 kg. Havia emagrecido 1,5 kg desde o último episódio do leite. Senti vergonha e saí rapidamente da farmácia. Como eu era gorda! Podia até sentir as banhas pesando na minha barriga.
Estava exausta. Queria apenas poder dormir um pouco. Andei lentamente até o ponto de ônibus e esperei. A noite caiu e o ônibus ainda não havia passado. Resolvi ir a pé. Eram um pouco menos que trinta minutos de caminhada. Ventava forte e meus cabelos voavam como pássaros acastanhados fugindo da tempestade que se aproximava.
Sentia-me inútil. Nem com a possibilidade de sermos despejados, eu havia conseguido um emprego. Queria ter outro lugar para ir que não fosse minha casa, mas todos os meus amigos estavam na faculdade, enquanto eu pulava de emprego em emprego e ainda morava com meus pais, tentando juntar dinheiro para a faculdade de música.
Cheguei em casa esperando encontrar minha mãe chorando e meu pai gritando, mas a cena que encontrei foi completamente diferente. Meu pai estava sentado à mesa, rindo e contando piadas, enquanto minha mãe sorria ao servir o café, após o jantar.
– O meu é sem leite, por favor. – disse a terceira pessoa à mesa.
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