Além do Espelho
4 Uma vidraçaria qualquer
Notas iniciais
Enquanto estavam no ônibus, Charlie se perguntava como ir à um vidraceiro poderia ajudar. Claramente havia algo de estranho naquele espelho, mas haviam várias coisas em questão. Por exemplo, aquele espelho tinha mais de 50 anos fácil. Como a pessoa que o fez ainda estaria viva após tanto tempo? E, mesmo se tivesse, ela estaria disposta a cooperar? E se tudo que elas pensassem fosse só um delírio, e sua mãe tivesse se perdido para sempre? Muitas perguntas rodavam por sua cabeça, e infelizmente nenhuma delas tinha resposta. Era a situação mais angustiante que Charlie já havia passado na vida. Se tivesse que passar por isso sozinha, ela provavelmente não conseguiria aguentar. Toda vez que lembrava do que havia acontecido com seus pais, a única coisa que ela sentia vontade de fazer era chorar. Alice estava sendo o melhor apoio psicológico que ela poderia ter, e ela estava realmente agradecida. Não era do feitio de Alice demonstrar afeto desse modo. Charlie se sentia imensamente grata por ter sua amiga.
Quando finalmente chegaram ao seu destino, Charlie percebeu que aquela vidraria definitivamente não parecia com as outras. Geralmente, vidrarias eram como lojas comuns, portas de loja daquelas de ferro, que você precisava levantar para abrir, e algumas janelas e portas na frente, como mostruário. O lugar onde elas estavam não parecia com esse tipo de loja. Na verdade, elas só o reconheceram por causa do letreiro azul, gigantesco, que ainda assim era a coisa que menos chamava a atenção no local, que a começar, era enorme. Suas portas eram de um vidro reluzente, que parecia ser cristal. Ele refletia a luz do sol, mas não de um modo incômodo, e mesmo assim, elas conseguiam ver seu reflexo perfeitamente no vidro. Não haviam paredes na fachada do local, era tudo vidro. Elas entraram por uma porta dupla que ficava bem na frente, e parecia com uma porta de shopping. Dentro da loja, havia um balcão extenso feito de tijolos de vidro e tampo de um mármore branquíssimo. As paredes eram cobertas de espelhos de todos os tipos, molduras, formatos e tamanhos diferentes.
Ao chegarem ao balcão, havia um homem que aparentava ter mais ou menos 40 anos. Ele tinha feições agradáveis, parecia uma pessoa gentil e, embora a loja estivesse bem cheia, ele as atendeu de bom grado.
— Boa tarde, em que posso ajudar as jovens senhoritas? – Disse ele.
Alice retirou os cacos de espelho que estavam dentro de sua bolsa, enrolados em um grosso pedaço de tecido e o entregou para Charlie. Ela começou a tentar explicar a situação para o atendente.
— Bem, eu não sei como explicar isso, não acho que o senhor vá acreditar em mim ou algo assim, mas eu acho que devo explicar o máximo possível. – Charlie inspirou fundo, tentando fazer seus olhos não se encherem de água – Esses cacos de espelho pertencem à uma penteadeira que costuma ficar no quarto dos meus pais. Até onde eu sei, ele pertenceu à minha avó, mãe da minha mãe. Acontece que ultimamente eu tenho tido sonhos e visões estranhas com espelhos e reflexos de pessoas que eu conheço em vidros por toda parte, o que por um tempo eu cheguei a pensar que fosse apenas delírios de febre, até que um dia eu cheguei em casa, meus pais haviam desaparecido, e o espelho estava quebrado. E a única pista que eu tenho para encontra-la é a marca dessa loja, que estava no espelho. Eu sei que tudo isso parece loucura mas eu preciso de ajuda para...
— Queiram me acompanhar – Interrompeu o homem. Então, as duas meninas o seguiram por trás do balcão após recolher os pedaços de espelho, até uma porta onde estava escrito somente pessoal autorizado. Aquilo parecia um tanto suspeito, mas a loja estava bem cheia, então se alguma coisa ruim acontecesse à elas, seria muito fácil de alguém ouvi-las gritando. Charlie tentou se tranquilizar, mas sempre mantinha um pé atrás. O homem bateu duas vezes na porta e uma voz que parecia ser de um idoso respondeu um leve “pode entrar”. Então, os três adentraram a sala.
— Achei algo que interessa ao senhor, pai. – Disse o homem. – Acho que essas meninas podem ser Viajantes inexperientes, e acho que o senhor pode ajudar. Elas parecem realmente desesperadas. – Terminou ele. O homem mais velho as fitava intensamente, analisando cada traço das duas, como se procurasse um sinal de que não devia confiar nelas. Por fim, cedeu.
— Pode sair, Heitor. – E o homem que as atendera no balcão se retirou da sala. – Aceitam uma xícara de café? Chá? Biscoitos? – As duas fizeram sinal negativo com a cabeça – Tudo bem , então. Contem-me sua história. – E as meninas desataram a falar.
— Meu nome é Charlotte Alves, se isso o interessar. A minha mãe, Noemi Alves, desapareceu na noite passada, ou, no caso, eu percebi que ela havia desaparecido na noite passada. Meu pai também desapareceu, o nome dele é Leonardo Alves. Eu havia passado o dia todo antes do desaparecimento deles tendo visões de pessoas em reflexos, e, quando eu dormia, eu sonhava com coisas que pareciam ser do passado, além de atravessar espelhos. Quando acordei, descobri que eles haviam desaparecido, e a única pista que restou são os cacos do espelho que foi quebrado no quarto deles, e foi isso que me trouxe até aqui.
— Acho que seria interessante pra você saber que esse espelho que foi quebrado tem mais de 100 anos. – Charlie fez uma expressão surpresa – E que ele pertencia à sua tataravó. Ele foi passado de geração em geração pelas mulheres da sua família, e a próxima da linha de sucessão era você. Creio que a sua mãe estava prestes a te contar sobre o segredo da família. Pelo menos foi assim que eu a aconselhei, porque sua avó infelizmente partiu um pouco cedo demais. – Charlie estava prestando atenção intensamente nas palavras daquele senhor, embora ainda estivesse um tanto desconfiada. Ele falava as coisas como se conhecesse mais sua família que ela mesma. – Antonieta era uma mulher esplêndida. A melhor de sua época. Queria ter podido conhece-la um pouco melhor. – “Ok”, pensou Charlie. Agora, a menina confiava mesmo no senhor.
— Acontece, senhorita Charlotte – Disse o homem, olhando fixamente para ela – Que a senhorita é o que nós chamamos de “Atravessadores” ou apenas “Viajantes”. As pessoas chamadas assim tem a capacidade, herdada de algum dos seus progenitores – no seu caso, da sua mãe – de atravessar espelhos. A senhorita já viu Monstros S.A.? – A menina fez que sim com a cabeça. Adorava assistir àquele filme quando era menor, e ainda sabia todas as falas dele. — Então, os espelhos para os Viajantes são como as portas para os monstros. Eles as abrem num local, entram nelas, e saem em outro. A mecânica por trás dos espelhos é a mesma, porém, sem todo aquele aparato tecnológico pra fazê-los funcionar, e sem criancinhas do outro lado para assustar. – Ele deu uma risada fraca, que Charlie retribuiu – Os espelhos podem te fazer viajar em três sentidos diferentes: No Espaço, no Tempo, e nos dois. Por exemplo, pelo que você me disse sobre seus sonhos, você estava viajando nos dois ao mesmo tempo. Você estava em uma época diferente, que eu diria ser algo próximo à Guerra da Secessão, em mais ou menos 1860, nos Estados Unidos. Você poderia apenas ter voltado no tempo no mesmo lugar onde estava – seu quarto -, ou poderia apenas ter viajado no espaço e acabar parando, por exemplo, em Paris. Existem infinitas possibilidades para os viajantes, mas existem regras também, criadas pela Ordem, para a nossa própria proteção. Todas elas estão listadas nesse pequeno caderno de anotações – O senhor entregou um caderno pequeno com capa de couro para Charlie. – Você pode escrever as coisas que viveu e que presenciou nele, para não se esquecer. Ou novas sugestões de regras. Ou uma lista de compras. Basicamente, o que você quiser. Sugiro que o leia atentamente antes de sairmos em nossa viagem.
— Viagem? – Foi a primeira vez em que Charlie abriu a boca em bastante tempo, o que não é algo muito comum para ela. – Como assim viagem? Eu preciso procurar a minha mãe! – Alice olhou para a amiga e revirou os olhos.
— Ah, eu não cheguei à essa parte, não é mesmo? Como sou descuidado... – Disse o senhor. – Acontece que você sempre precisa entrar num espelho pra poder viajar. Mas, se quebrarem o espelho, você simplesmente não pode voltar para onde estava. Qualquer espelho serve como passagem para você voltar, basta ele ter sido fabricado para isso. Pode ser um retrovisor de carro, um espelho de pó compacto, um espelho de mão, qualquer coisa assim. Mas, se o espelho pelo qual você passou para chegar à algum lugar quebrar, você nunca poderá voltar. A questão é que, aparentemente, alguém estava atrás de sua mãe. Alguém que sabia o segredo dela, e nós não sabemos como eles a encontraram, nem se pretendem fazer algo contra você. A prioridade agora é encontra-la, e perguntar pra ela como tudo ocorreu. A minha maior suspeita é que tenham tentado fazê-la falar sobre algo, e ela acabou optando por fugir pelo espelho. Como represália, eles quebraram o espelho e a prenderam lá.
— E meu pai? – Perguntou Charlie, ansiosa.
— Seu pai com certeza sabia o que sua mãe era, e nunca teve problemas com isso, embora não fosse como ela. Se quem fez isso com sua mãe quisesse feri-lo, teria feito isso sem remorso algum. Vocês viram algum tipo de mancha de sangue pela casa, ou algum indício de que alguém tenha se ferido? – As duas garotas negaram com a cabeça – Então ele provavelmente se encontra em segurança, não há nada com que se preocupar. Quando chegar em casa, tente ligar para o celular dele e conferir se está tudo bem.
— Espero que realmente esteja tudo bem com ele. Mas como eu vou fazer para atravessar espelhos e procurar a minha mãe se não faço a menor ideia de como fazer isso, e a única vez que eu o fiz foi sonhando?
— Bem, eu nunca mandaria uma iniciante como você numa viagem sozinha. Meu filho pode acompanha-la. E eu a ensinarei o que puder antes de vocês irem.
— E Alice?
— Receio que ela infelizmente não tenha o mesmo dom que você – Disse ele, com uma expressão pesarosa. Alice parecia imensamente triste. Ela havia sido a melhor amiga que podia nas ultimas 24 horas, e mesmo assim ficaria de fora simplesmente por não ter o mesmo dom que Charlie. Aquilo parecia realmente injusto. Quem cuidaria de sua amiga como ela fazia?
— Ah – Disse Charlie com uma vozinha mínima. – O homem olhou para ela com uma expressão de pena e empatia, ao mesmo tempo. Parecia que havia passado pela mesma situação algumas vezes ao longo de sua vida.
— Não se preocupe. Há coisas para fazer deste lado também. Alice irá ajuda-la, mesmo não estando presente.
— Tudo bem, então. – Disse Charlie. – Quando podemos começar o meu “treinamento”? – Disse a garota, fazendo aspas com as duas mãos.
— Bem, ainda são três horas da tarde. Como estamos em horário de verão, ainda nos restam mais ou menos quatro horas até o céu começar a escurecer. Que tal agora? – Respondeu o velho.
— Por mim, sem problemas. Quanto antes acharmos minha mãe, melhor.
— Queira me acompanhar então, senhorita. – Disse o senhor, saindo pela porta que entraram e sendo seguido pelas duas jovens.
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