Além do Espelho
2 Um sonho qualquer
Notas iniciais
Charlie estava em frente a um espelho. Usava um vestido longo, pérolas rodeavam seu pescoço e seu cabelo estava muito bem arrumado. Ela cheirava a rosas, e seu rosto parecia excessivamente branco. À primeira vista, quase não se reconheceu; não fazia ideia de onde estava, até que uma mulher bateu na porta do quarto em que estava.
— MARY! VOCÊ JÁ ESTÁ ATRASADA! SAIA DESSE QUARTO AGORA, OU NENHUM HOMEM EM TODO O SUL VAI DESEJÁ-LA.
Enquanto a mulher falava, batendo tão apressadamente na porta que parecia que iria cair a qualquer momento, Charlie vasculhava o quarto, procurando algum indício de onde estava, mas não conseguiu encontrar muita coisa. Suas roupas pareciam muito antiquadas, de 1800, ela diria. Abriu a porta e saiu pelo corredor, para dar de cara com a mulher que estava gritando com ela. A moça parecia ter seus quarenta e tantos anos, e estava vestida do mesmo modo. Agarrou seu braço com força e a puxou escada abaixo. Enquanto era arrastada, Charlie começou a reparar na casa. Tinha paredes e escadas de madeira maciça, com muitas pessoas no primeiro andar vestidas com roupas muito estranhas e parecidas com as dela. Além disso, todas essas pessoas olhavam intensamente para ela. Quando chegaram ao final da escada, a mulher começou a falar.
— Muito obrigado pela presença de todos, espero que perdoem a minha filha pelo atraso, mas acho que vocês sabem como é pra uma mulher se arrumar – Alguns homens riram – Vamos começar a festa!
Várias pessoas se aglomeraram ao redor de Charlie (ou Mary, como estava sendo chamada) e começaram a conversar com ela, que não fazia ideia do que estava acontecendo. Tentou se esquivar, mas haviam muitas pessoas no local. Então, de repente, em um canto da sala, uma pequena orquestra começou a tocar valsa. Então, um homem que parecia ter mais ou menos a sua idade tomou sua mão e começou a dançar com ela. Charlie tentou ao máximo não fazer uma cara de assustada, já que a mulher que estava em seu quarto olhava fixamente para ela com uma expressão muito ameaçadora. Então ela só continuou a dançar o melhor que podia, tentando não pisar nos próprios pés nem nos do seu parceiro de dança.
— Meus pais estão muito felizes com o anúncio do nosso casamento – disse ele. —E eu também estou imensamente feliz em poder passar o resto da minha vida em tão nobre companhia. Por que essa cara? Eu disse algo que a desagradou?
Aparentemente, o homem havia percebido a expressão de surpresa/ desgosto/ raiva. “Casamento?” pensou Charlie. “Eu não posso casar, eu tenho 17 anos! E quem é esse homem e porque ele age como se me conhecesse perfeitamente?”. Ela estava realmente assustada com toda essa situação. Quando a música acabou, ela fez uma reverência, como as outras mulheres estavam fazendo, e saiu correndo, subindo as escadas. A música parou imediatamente, e a mulher (que pelo visto era sua “mãe” naquele lugar)voltou a encará-la com aquela expressão doentia e ameaçadora de antes, mas Charlie não ligou. Entrou no quarto e trancou a porta, pensando num jeito de sair daquele lugar.
— O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO, MARY? —Gritou sua “mãe” de fora do quarto – VOLTE PARA AQUELE SALÃO IMEDIATAMENTE!
— Ah, eu já estou indo, mãe... —Gritou Charlie em réplica —... Meu vestido está me incomodando, eu já desço!
Então ela vasculhou o quarto. Havia porta de vidro que dava em uma sacada no lado contrário ao da porta de entrada. Uma penteadeira com espelho à direita, que foi onde tudo começou, e uma cama com dossel à esquerda. Charlie foi até a porta da sacada e viu que ela estava trancada. Como ia sair dali agora? Então ela se concentrou no espelho. Olhou fixamente para ele por alguns minutos, examinando cada detalhe do seu reflexo. Olhou no fundo dos seus próprios olhos, e então entendeu o que deveria fazer. Jogou todas as coisas que estavam sobre a penteadeira no chão, fazendo muito barulho, apoiou um joelho sobre ela e tocou no espelho, que ondulou imediatamente ao seu toque, como se tivesse encostado em uma superfície líquida. Respirou profundamente e forçou sua mão contra o espelho, que, ao invés de se partir, a abraçou como se fossem as águas de um lago. Um membro de cada vez, Charlie adentrou o espelho.
Ela acordou assustada, gritando. Seu corpo estava molhado de suor, embora o ar condicionado estivesse ligado. Pegou seu celular sobre a mesinha de cabeceira e checou as horas. Quatro da manhã, um dia depois do que ela havia ido dormir. O ano ainda era o mesmo de que se lembrava que estava, graças a Deus. Dormira por quase doze horas seguidas. Ela realmente gostava muito de dormir, mas nunca havia passado tanto tempo dormindo como nesse dia. Levantou, foi até o banheiro e deixou a água gelada do chuveiro varrer seus pensamentos.
Algum tempo depois de recuperada da sua “experiência”, que havia parecido muitíssimo real pra Charlie, ela resolveu ligar para Alice e contar tudo que havia ocorrido.
—Alice? – disse ela.
—Porque você está me ligando a essa hora? Aconteceu alguma coisa?
—Você já teve algum sonho que parecia extremamente real e você percebia todas as coisas do local com os seus sentidos, como o cheiro e o toque das pessoas, e parece que você realmente viveu aquilo?
—Bem, sim. A maioria dos sonhos das pessoas normais é desse jeito, eu acho. Agora me explica o que aconteceu. Você já me acordou mesmo.. – Então Charlie contou toda a história para ela – E você acordou suando, não é? Provavelmente estava delirando por causa da febre de mais cedo. Claro que ela não deveria ter durado até uma hora dessas, então é melhor você falar com os seus pais mas são quatro horas da manhã então vai dormir e amanhã você fala com eles. Agora eu vou voltar a dormir ok? Até mais tarde. – E desligou o telefone sem dar chance de resposta.
Então, Charlie levantou da cama e foi comer algo, pois já estava a doze horas sem comer e acordou com muita fome. Fez seu sanduíche o mais silenciosamente possível —Sua mãe pilotava aviões, estava sempre fora de casa, e voltara de viagem naquele dia –Então, voltou para o quarto. Checou sua temperatura —36,5 —E percebeu que não estava mais com febre, e pensou na possibilidade de ela ter passado durante seu sono e aquele sonho não ter sido apenas um delírio, pois tudo parecia muito mais real e vívido que um sonho comum, e ela sabia disso porque vivia tendo sonhos de todos os tipos, sempre muito estranhos e sem sentido, mas nenhum havia sido como esse. E ainda havia a questão dos “espíritos” que a assombraram pela manhã na escola. Tudo andava muito estranho, e talvez ela realmente estivesse ficando um pouquinho louca por conta da escola, que sempre exigiu muito dela. Mas ela sempre havia lidado muito bem com a escola (exceto com os deveres de casa, mas isso não é muito importante). Por que isso estaria acontecendo agora?
Logo ela já estava acessando o meio internacionalmente conhecido de como adquirir conhecimento: o Google. Sentou em sua cama com o notebook no colo, e pesquisou sobre “aparição de espíritos”, mas não achou nada interessante. Um monte de textos sobre espiritismo, mas não havia nada que parecesse com o que ela havia presenciado, pois os espíritas geralmente ouviam vozes (que eram dos espíritos), mas raramente os viam de fato. Ou seja, era exatamente o contrário do que havia acontecido com Charlie. Então, ela resolveu procurar por “fantasmas”, e descobriu que eram a mesma coisa que espírito ou alma. Ótimo.
Nenhuma das explicações estava em concordância com o que ela havia vivido. Principalmente porque Charlie só via essas imagens em reflexos, que deveriam ser dela. A mulher que aparecia nos reflexos não parecia muito com ela. Charlie tinha a pele escura, e olhos cor de mel. Seu cabelo era cacheado, negro como obsidiana. A mulher que viu no espelho era quase o inverso completo de si, exceto pelos cabelos, que também eram cacheados e negros. Sua pele parecia muito branca, e seus olhos, castanhos. Os traços de seu rosto eram finos e delicados, embora pareciam haver algumas rugas no canto de seus olhos, e sua expressão era de terror profundo, mas não dava para enxergar muito bem os detalhes, pois seu rosto estava envolto em névoa. Charlie sentia profundamente que precisava salvá-la, pois ela estava claramente correndo perigo. Exceto pelo fato de que tudo isso era apenas coisa da sua cabeça.
Mas algo sobre aquela mulher a estava incomodando profundamente, pois seus traços, mesmo que relativamente enevoado, lembravam a Charlie alguém. Pensou sobre de quem herdara seus cabelos negros, e a resposta a acertou como um tiro no meio da testa. A mulher em seus sonhos – ou delírios, que seja – Era sua mãe. Mas isso era impossível. Sua mãe era uma importante piloto, não havia como ela estar em perigo. Se o avião em que ela estava houvesse caído, a notícia chegaria rapidamente até ela. As notícias ruins sempre chegam rapidamente. Mesmo assim, Charlie usou mais uma vez a sabedoria do Google a seu favor. Pesquisou “Acidente de avião” com seus dedos tremendo, com medo do pior, mas nenhuma das quedas recentemente notificadas tinha a ver com os voos de sua mãe, que nunca eram internacionais.
Depois dessa descoberta muito bem vinda, Charlie resolveu tentar voltar a dormir, pois teria aula logo cedo novamente, e, mesmo tendo dormido por doze horas, sentia seu corpo cansado como se tivesse acabado de correr uma maratona. Apagou a luz, ligou o abajur e se deitou, pensando sobre como seu dia havia sido estranho, e logo caíra no sono novamente. Mas, pouco tempo depois, acordara novamente, como algum tempo atrás: assustada e suando. Dessa vez, o sonho foi diferente.
Charlie estava correndo por uma floresta, com a mesma roupa do sonho anterior, mas agora rasgada e suja de lama. Estava fugindo de algo, mas não sabia ao certo de quê. Olhou para o céu e viu as estrelas, brilhando intensamente como nunca havia visto antes, mas também uma densa coluna de fumaça, em conjunto com uma claridade alaranjada, que vinham da mesma direção de onde ela, aparentemente, estava fugindo. Então, resolveu voltar e ir em direção à claridade. Após alguns minutos correndo com dificuldade, por conta do peso e do tamanho da saia de seu vestido, chegou ao local.
Havia um casarão de três andares, que estava em chamas. Parecia prestes a desabar, e havia gritos soando lá de dentro. Charlie queria fazer algo para ajudar, mas não sabia o que fazer, e se viu paralisada pelo medo e pela impotência. Era a casa onde ela havia tido seu sonho anterior, que agora estava completamente destruída. E dentro da janela onde ela presumira ser “seu quarto”, havia uma mulher. Era a mesma mulher que aparecia nos reflexos. Era sua mãe.
Após acordar, um pouco relutante, Charlie foi correndo até o quarto de seus pais. Precisava saber se sua mãe estava bem, mesmo que acabasse acordando ela no processo. Isso seria o de menos. Chegou à frente da porta, respirou fundo e tentou abri-la. Estava trancada por dentro. Sentindo seu desespero aumentar, ela lançou seu próprio corpo sobre a porta. Seu ombro doeu com o impacto, mas ela não ligou. Encostou a orelha na porta, e não ouviu som algum. Se lançou contra a porta mais duas vezes, obtendo resultado na última. Aquilo custaria uma boa quantia de sua mesada. Ao entrar no quarto, ela viu o que mais temia.
Não havia ninguém no quarto. Nenhum sinal de vida além do dela. No primeiro passo que deu para o quarto, sentiu uma dor aguda bem no meio de seu pé, dando um grito de dor. Um pedaço de espelho a havia cortado. Ao olhar para o canto do quarto, viu o motivo.
O espelho da penteadeira de sua mãe, que havia pertencido à sua avó, estava partido em pedaços.
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