Além do Espelho
14 Traidor
Notas iniciais
“Alô”
Fazia cerca de três dias que toda aquela confusão havia começado, mas parecia fazer muito mais tempo. Embora essa fosse a impressão de Charlie, a menina sabia que não esqueceria a voz de seu pai mesmo em cinquenta anos. Seu coração começou a bater mais rápido, e um milhão de perguntas começaram a passear pela sua mente. Ela não fazia ideia de como começar aquela conversa –se é que seu pai teria tempo para isso– , e seus olhos encheram-se de lágrimas por saber que pelo menos um de seus pais estavam bem. Talvez ele estivesse com a sua mãe, e eles tivessem apenas tirado férias e esquecido de avisar. Isso não seria muito legal, mas só em saber que eles estavam bem, ela os perdoaria. Ela sabia que aquilo não era verdade, mas gostaria profundamente que fosse. Estava segurando-se em qualquer esperança, por mais impossível que parecesse. Ela respirou fundo e começou a falar, pois não sabia quanto tempo tinha com seu pai.
— Pai, é você mesmo? –A menina precisava ter certeza absoluta daquilo. –Você está bem? A mamãe está com você? Onde vocês estão? Isso é algum tipo de pegadinha ou qualquer coisa assim? –Charlie estava completamente desesperada.
Do outro lado da linha, Leonardo deu um suspiro profundo.
— Charlotte, eu não tenho muito tempo. Sim, sou eu. Sim, estou bem. Mas eu não poderia estar falando com você nesse momento, espero que entenda. Foi o trato que eu fiz com eles. Preciso que você ouça o que eu vou dizer com atenção agora, tudo bem?
— Quem são eles? O que fizeram com você, pai? Onde está a mamãe?
— Acho que pedir pra você ficar calma não vai funcionar, então eu vou falar tudo que preciso mesmo assim. Tem algumas pessoas atrás da sua mãe, Charlie, mas ela não me disse o porquê. Eu estava saindo para comprar pão no meio da tarde, quando os vi tentando arrombar o portão. Eles me perguntaram onde ela estava, e eu perguntei o porquê. Então um deles me imobilizou e disse que o assunto deles era com Noemi, não comigo, e que eles me deixariam em paz se eu fingisse que nada aconteceu e fosse embora. Eu disse que não poderia fazer isso porque você estava lá dentro também, e eu nunca permitiria que fizessem algo com você, Charlie. Você é o meu bem mais precioso. Então eles disseram que não fariam nada a você se eu fosse embora e não voltasse mais, se eu não desse nenhum sinal de vida. Nunca mais. Então eu voltei em casa, peguei as chaves do carro e meus documentos e fui embora assim como eles disseram. Eu não tinha certeza de que eles não haviam feito nada com você, mas não achei que seria seguro ligar para conferir. Então religuei meu celular, vi todas as suas chamadas e, quando você ligou dessa vez eu resolvi atender. Eu me sinto muito melhor agora, e só peço uma coisa para você, filha. Não tente ir atrás da sua mãe. Ela não é uma pessoa normal como nós, e simplesmente não há nada que poderíamos fazer para ajudá-la. Então tudo que eu te peço é que você se mantenha em segurança. Existe uma conta no banco com o seu nome e...
— Você abandonou a minha mãe.
— Charlie, não havia nada que eu pudesse fazer...
— VOCÊ DEIXOU QUE A LEVASSEM OU FIZESSEM SABE-SE LÁ O QUE COM ELA. –As pessoas no ônibus olharam imediatamente para a menina. Ela escutou alguns cochichos no final do ônibus. As lágrimas desciam pelo rosto da garota como nunca haviam feito antes. Todos os sentimentos ruins que ela havia reprimido por aqueles dias tinha vindo à tona de uma só vez. – VOCÊ NÃO TEM MAIS DIREITO ALGUM DE ME CHAMAR DE FILHA. COMO VOCÊ PÔDE? – Sua voz estava embargada, falhando. –Como você teve coragem de fazer isso? Nós somos uma família. Eu amava tanto você...
— Eu não espero que você entenda, Charlie. Eu nunca esperei que você entendesse, mas eu fiz isso para o seu bem. Eu sei que ela teria feito a mesma coisa por você.
— Não ouse se comparar à minha mãe. Ela nunca teria sido covarde como você foi. Ela faria o que fosse preciso para salvar nós dois, sendo normal ou não. Ela teria ao menos tentado fazer algo. Você não teve coragem de fazer nada além de colocar o rabo entre as pernas e sair correndo.
— Você é tão teimosa quanto sua mãe, sinceramente. Por isso que ela nunca conseguia agregar nada para si mesma. Sempre tentando ajudar as pessoas, sempre abrindo mão das coisas pelos outros. Você não precisa ter o mesmo destino que ela, Charlie. Eu posso ir aí te buscar, e nós podemos rodar o continente de carro, como nós dois sempre quisemos fazer. Não há mais nada que possamos fazer por ela, Charlie. Ela está fora do nosso alcance agora.
— Sabe pra onde a levaram?
— Para algum lugar além de onde nós podemos ir. Além do tempo e do espaço. É muito difícil de explicar, mas acredite em mim, nós não podemos fazer nada sobre isso. Eu sei que pareço insensível falando desse jeito da pessoa com quem fui casado por tanto tempo, mas eu já aceitei. Eu já me perdoei, mesmo que a decisão que eu tomei tenha sido a melhor para todos nós e que, teoricamente, não haja nada pelo que se perdoar. Eu só prefiro não ficar sofrendo por algo que eu sei que não vai mais adiantar. Sua mãe não vai voltar, Charlie. Sinto muito.
— Você está certo sobre apenas uma coisa em tudo que você falou, pai. Você é realmente insensível. Já sobre todo o resto, você está completamente errado.
Agora que sabia que sua mãe havia sido apenas levada, Charlie sentia-se um pouco melhor. Isso significava que havia uma chance, pequena, mas ainda real, de que sua mãe estivesse bem. E seria à essa pequena chance que a menina iria se agarrar o quanto pudesse. Sentia seu corpo tremer de frustração pelo que seu pai fizera, mas não faria nada sobre aquilo enquanto não soubesse o paradeiro de sua mãe. Havia conseguido informações suficientes para que suas esperanças fossem renovadas. Ela tinha certeza de que conseguiria encontrá-la, mesmo que para isso fosse necessário ir contra tudo e todos.
— Eu não sou como você, pai. Eu sou como ela. Não sou uma “pessoa normal” como você descreveu. Sou uma Viajante, uma Atravessadora, ou o nome que você quiser dar, assim como minha mãe. E graças à Deus, não sou covarde como você.
— Isso não é possível. Ela me disse que não havia sentido poder algum em você, e que você não poderia ser como ela. Noemi me garantiu isso. Ela tinha certeza.
— Parece que ela estava enganada. – Não havia mais tristeza alguma na voz de Charlie. Ela se sentia plena. Era o mais próximo de feliz que ela havia experimentado nos últimos dias, e isso significava bastante coisa. – Meu telefone continua o mesmo, se você quiser ligar. Se eu não atender, é porque eu provavelmente estou fazendo o que você não teve coragem de fazer. No caso, salvando minha mãe. Passar bem.
Ao dizer isso, desligou o telefone. Olhou seu reflexo no vidro do ônibus, e percebeu que seus olhos estavam inchados, e seu rosto, vermelho. Ela se levantou do banco e deu sinal para que o ônibus parasse, e então desceu. As pessoas ainda cochichavam sobre ela, mas ela não se importava com isso. Caminhou até sua casa lentamente, pensando sobre tudo que havia acontecido naquele dia. Ela nunca fora uma pessoa corajosa, mas desafiaria qualquer pessoa que atrapalhasse seu caminho até sua mãe. Faria qualquer coisa que estivesse em seu alcance para poder vê-la novamente, principalmente depois do que descobrira sobre seu pai. Charlie estava completamente distraída em seus pensamentos, até perceber que uma pessoa aguardava na frente de seu portão.
Alice.
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