Além do Espelho
13 Telefonema
Notas iniciais
A menina ainda estava parada atrás da porta, ouvindo a discussão que logo findaria. Sentia-se um tanto desatentapor não ter percebido que poderia fazer aquilo antes, e culpada por ter perdido tanto tempo, embora fizesse cerca de três dias que seus pais haviam desaparecido. Parecia fazer muito mais tempo que apenas três dias que tudo aquilo havia começado. Três dias que ela havia descobrido não ser normal como os outros, três dias que a aflição e a angústia a atormentavam. E seu maior problema não era o tempo que já havia se passado, mas sim o fato de não saber quanto tempo ainda tinha.
Charlie ainda tinha cerca de uma hora e meia até voltar ao seu tempo do jeito normal, mas ela poderia apenas descer até a sala dos espelhos e atravessá-lo de volta para o momento em que voltaria. A menina desceu as escadas e, tomando cuidado para não ser vista, entrou na sala. Posicionou-se em frente a um dos espelhos e fez o mesmo que antes. Enquanto fazia isso, se deu conta de que havia um pequeno erro de coerência no Livro de Regras, porque nele dizia que "não é possível viajar para o futuro", sendo que o presente dela era o futuro em relação ao seu passado, que era onde a menina se encontrava no momento. Física é algo realmente muito confuso. Tocou o espelho, mentalizou uma hora e trinta e três minutos à frente e entrou no espelho.
A sensação foi a mesma de quando tinha feito aquilo pela primeira vez. Charlie chegou a achar que nunca se acostumaria com aquilo. Saiu do espelho com as pessoas olhando para o lugar por onde ela havia entrado, sendo que ela havia usado um espelho diferente na volta, que estava exatamente de frente ao espelho pelo qual ela havia entrado, então estava vendo as costas das pessoas que esperavam por ela. A primeira coisa que fez quando saiu do espelho foi contar o seu plano.
—Eu sei como posso fazer pra descobrir o que aconteceu com a minha mãe. Eu posso simplesmente voltar no tempo e assistir a tudo que aconteceu como se estivesse vendo um filme. Desde que eu esteja bem escondida, não vai ter problema nenhum, e eu vou saber exatamente o que aconteceu e como aconteceu. É perfeito!
—Ah, você já está de volta! -Disse Marcos. — Aparentemente sua viagem foi bem proveitosa. Bem, essa é uma ideia muito boa, mas implica riscos demais.
—Eu estou disposta a lidar com os riscos, mesmo que sejam altos. Eu preciso dar um jeito de descobrir o que aconteceu com os meus pais, e fazer isso não pode ser tão difícil assim.
—Bem, primeiramente você teria que voltar no tempo como fez hoje, sem ser notada por ninguém. Isso é complicado por vários motivos, porque você não sabe onde seus pais estavam quando tudo aconteceu, não sabe por onde os possíveis sequestradores entraram, não sabe como agiram, nem quando, nem exatamente onde. Se eles virem você por lá, seu eu do presente e do passado estarão correndo perigo. Fazer isso está totalmente fora de questão.
—Então porque o senhor não pode ir lá? Ou mesmo mandar alguém fazer isso? Essa é a melhor chance que nós temos e eu não vou deixar ela ir embora assim tão fácil. Nós temos que tentar!
—Seria igualmente perigoso, pois não sabemos praticamente nada sobre o que aconteceu. Se alguém visse, seria muito difícil de contornar a situação, e não sabemos quais seriam as consequências no futuro.
—Vocês poderiam simplesmente inventar uma história ou sei lá! Essa é a melhor chance que temos e não podemos nos dar ao luxo de desperdiçá-la.
—Charlotte, não vamos fazer isso. Nós podemos encontrar outro meio de descobrir o que aconteceu com a sua mãe, e nós vamos. Eu não sei como você se sente mas eu posso imaginar. Nós só precisamos de tempo.
—O problema é que nós não sabemos quanto tempo temos. E podemos não ter tempo algum.
—Charlie, é sério. Eu proíbo você de fazer isso.
—E quem você acha que é pra me proibir de fazer algo, Marcos? Agradeço toda a sua ajuda até aqui, mas eu não posso ficar parada esperando a resposta cair do céu, porque isso não vai acontecer. Não temos tempo. Eu preciso saber o que aconteceu com os meus pais.
Tendo dito isso, Charlie pegou sua bolsa que estava jogada no chão e saiu da sala batendo a porta. Jonas chegou a chamá-la, mas ela o ignorou. Desceu as escadas com passos firmes, e ao sair da loja, pegou o celular e verificou se Alice havia respondido sua mensagem. "Ok" era o que estava escrito na tela. Não parecia uma resposta muito amigável. Charlie digitou outra mensagem enquanto caminhava até o ponto de ônibus, esbarrando em algumas pessoas pelo caminho. Não que ela estivesse se importando. "Estou indo para casa agora. Devo chegar em 40 minutos. Me encontra lá?"
Charlie subiu no ônibus, pagou a passagem e foi sentar em um lugar bem no fundo. Ligou para o número de seu pai novamente, mas sem muita esperança que ele fosse atender. Após cinco toques, ouviu uma voz masculina dizendo "Alô?"
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