Além do Espelho
12 Quase uma viajante do tempo
Notas iniciais
Charlie estava finalmente de volta à vidraçaria, onde em breve recomeçaria seu treinamento. A garota sentia-se muito melhor disposta agora, após toda a conversa que tivera com Jonas. Ainda não estava totalmente pronta para treinar, mas aquilo era necessário, e ela não tinha tempo a perder. Precisava encontrar sua mãe a qualquer custo, mas precisava também cuidar das pessoas que ela tinha para apoiá-la agora. Mas a menina resolveria seus problemas com Alice depois. Agora era hora de esquecer o que havia acontecido e dedicar-se ao treino.
—Estão atrasados. – Disse Marcos, assim que Charlie e Jonas acabaram de subir as escadas do lugar. Ele parecia irritado, mas aparentemente não era nada demais, e o atraso não foi um dos maiores, levando em conta o tempo que a menina pensou que precisaria para digerir toda aquela situação. Jonas pediu desculpas e assumiu a culpa, o que foi algo inteligente a se fazer, levando em conta que era neto de Marcos. Além de tudo, o atraso havia sido de fato culpa do menino, que pediu encarecidamente que Charlie só voltasse para treinar quando estivesse sentindo-se mais disposta. No total, demorou aproximadamente duas horas e cinco sorvetes de variados sabores até que ela estivesse melhor. Tudo por conta de Jonas. O garoto parecia estar sendo um pouco gentil demais, ultimamente.
Dirigiram-se à sala dos espelhos, o recém-visitado local de treino de Charlie e, aparentemente, todos os Viajantes do bairro. Não que fossem muitos, já que aquele lugar estivesse bastante vazio ultimamente. Talvez as outras pessoas tivessem que marcar hora para treinar, ou seus pais as treinassem, como qualquer família normal faria. Ou, nesse caso, anormal. Charlie jogou sua bolsa para um lado, e sentia-se muito pouco animada para aquilo. Embora Alice não pudesse atravessar espelhos junto com a amiga, ela fornecia um apoio psicológico e incentivo formidáveis para Charlie, e aquilo fazia com que seu desempenho fosse melhor em todas as coisas, principalmente na missão provavelmente mortal que sua melhor amiga teria que fazer em breve.
—Hoje, nós vamos treinar a viagem no tempo. –Disse Marcos. –Ela funciona como a viagem espacial, com a diferença de que, quando você atravessar o espelho, sairá no mesmo lugar em que está agora, porém, algum tempo atrás. É importante saber os eventos que estavam acontecendo onde você deseja sair, pois, no caso de uma viagem real, não queremos que os normais vejam uma pessoa aleatória aparecendo na casa deles, ou qualquer coisa assim. Você pode voltar pelo espelho em que entrou nesse caso, mas em qualquer outro também. Lembrando que, se você for apenas um viajante do tempo, vai precisar encontrar um espelho para voltar em algum lugar, e voltará no mesmo lugar onde o espelho está localizado, e não por onde você voltou. É mais fácil de entender do que de explicar, na verdade. Dizendo assim parece que tudo é muito confuso, e...
— Hm, senhor Marcos? –Disse Charlie. O senhor olhou para a garota. – Podemos ir direto para os finalmentes? Acho que já entendi as regras, porque você me deu um livro para entende-las, mas ainda não entendi exatamente como fazer.
—Bem, como eu estava dizendo, é realmente muito simples. Você sabe que horas são? –Perguntou o senhor. Charlie fez que não com a cabeça, e ele olhou em seu relógio – São exatamente onze e cinco da manhã. Você deve colocar a mão no espelho e pensar onde estava no horário para qual deseja voltar. Recomendo que seja algum horário não muito longe, em que você possa estar aqui na vidraçaria. Então, ao atravessá-lo, você estará no mesmo local onde está agora, porém, no horário em que pensou. Ainda deve se lembrar de não entrar em contato direto com sua eu do passado, porque, como dito no livro de regras, isso pode trazer consequências um tanto ruins para você. Para voltar ao tempo atual, você pode apenas esperar o tempo passar, lembrando que, se você voltar meia hora no tempo, por exemplo, e esperar para voltar, nós a veremos em três minutos, já que o tempo que você passa dentro da viagem é dez vezes maior que o que nós passamos aqui fora. Mas você pode também atravessar um espelho qualquer, pensando em onde você estava no momento em que atravessou o espelho para começar a viagem. Então, você aparecerá novamente em frente a esse espelho, porém, no horário somado ao tempo em que você passou viajando. Entendeu bem?
A mente de Charlie flutuava em lembranças sobre como aulas de física eram chatas e maçantes. A menina sentia-se sortuda por não ter que estudar viagens temporais ou o que quer que seja isso na escola. A matéria com certeza se tornaria pelo menos cinco vezes mais insuportável que já era. Charlie não havia capitado muito do que Marcos tinha falado, mas certamente não desejava ouvir tudo aquilo de novo. Muito menos admitir que não havia prestado atenção em muita coisa, fazendo com que Marcos se estressasse mais com a menina. Então ela só concordou com a cabeça, tentando parecer o menos mentirosa possível diante de seu professor.
—Uma coisa que eu esqueci de mencionar – Recomeçou Marcos – Consequências. Assim como a viagem no espaço, a viagem temporal, se feita sem muita atenção – Ele disse isso olhando com uma expressão levemente acusadora, bem nos olhos de Charlie. – Pode trazer consequências ruins. Nesse caso, se o seu pensamento desviar-se enquanto você atravessa o espelho, nenhuma parte do seu corpo será perdida, mas você poderá ficar perdida em qualquer parte do tempo onde já tenha existido. Então, se você tem dezessete anos, poderá ficar perdida em qualquer momento de qualquer dia que viveu até agora. Então, concentre-se.
Charlie estava sinceramente arrependida de deixar sua atenção desviar-se com tanta facilidade. Quando tudo aquilo acabasse, a garota certamente procuraria pela ajuda de um especialista.
—Hã... eu tenho uma pergunta. –Disse a menina. –Do jeito que o senhor falou, parece que os viajantes só poderiam voltar para uma época em que já tivessem nascido, certo? Mas isso não é verdade, não é? Eu mesma já visitei épocas em que nem pensava em existir nos meus sonhos.
—Bem, o mundo dos sonhos é diferente das viagens reais, mas mesmo assim, o que você disse está certo. Para voltar a épocas em que você ainda não havia nascido, basta pensar no ano. Pensar em algumas coisas que aconteceram nele também ajuda, mas apenas pensar no ano já deve bastar. Você já pode tentar viajar, se quiser.
Charlie caminhou até a frente do espelho. Respirou fundo, como fez da última vez. Olhou para trás, mas Alice não estava lá para apoiá-la dessa vez. E ela fazia falta.
“Duas horas atrás” foi o que Charlie pensou antes de atravessar o espelho. Quando saiu do outro lado (que na verdade era o mesmo. Nossa, que confuso), a sala estava em silêncio total. A luz do sol entrava pela janela, mas não com a intensidade que estava entrando na hora em que a menina começou a treinar. À essa hora, devia estar na sala de Marcos, talvez ainda antes da discussão com Alice. A menina abriu a porta e seguiu até o corredor onde ficava a sala. Havia poucos funcionários no estabelecimento àquela hora, mas, se algum deles encontrasse com ela, poderia apenas dizer que estava indo pegar um pouco de água na cozinha. Ela estava caminhando pelo corredor como um ninja (ou pelo menos imaginava que estivesse), quando Heitor abriu a porta da sala repentinamente, quase dando de cara com a garota, que assim que ouviu a porta sendo aberta, correu para se esconder em um vão no corredor. Aparentemente, ser um fantasma nos tempos passados não era algo tão simples quanto ela pensara. A menina suspirou, tentando se acalmar. Voltou a caminhar pelo corredor. Agora, a discussão havia começado.
Charlie estava sentindo-se um pouco pior pelo que havia acontecido, porque percebeu que realmente tinha agido de um modo muito ruim. Realmente tinha agido como se a amiga fosse culpada por tudo que ocorrera à sua família até ali. Mas ao reviver aquele momento, Charlie se deu conta de uma coisa.
Ela poderia voltar no tempo e ver o que havia de fato acontecido com sua mãe.
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