Além do Espelho
11 Abraços e segredos
Notas iniciais
Sorvete de morango era um sorvete realmente muito bom. Pelo menos era o que Jonas achava. Não era o sabor de sorvete que ele mais gostava, mas ainda assim era muito bom. Ele não teria problema algum em dividir um sorvete de morango com Charlie. A garota havia acabado de brigar com a melhor amiga e, aparentemente, ele era a única pessoa com quem ela poderia contar/desabafar/conversar por enquanto. Ou pelo menos ele esperava que fosse, pois uma amizade como aquela se desfazer por tão pouco seria realmente uma lástima. Mas ele teria que tentar deixar Charlie ciente da besteira que ela tinha feito em relação à Alice, pois era inegável que toda aquela situação surgira por conta de uma crise de raiva totalmente sem sentido. E isso não seria muito fácil.
Charlie não chegou a perguntar sobre qual era o sabor de sorvete preferido de Jonas, pois tudo que queria fazer era correr até Alice e pedir desculpas até ela finalmente a perdoar, mas sabia que a menina precisava de um tempo. Ela quase chorou na frente de todos que estavam naquela sala, e isso significava que, basicamente, ela nunca estivera pior. Pelo menos em público. A menina ainda não sabia o que havia acontecido, mas imaginava que tinha sido toda a pressão que vinha sofrendo ultimamente. A escola, cada vez mais difícil. Seus pais nunca deram muito apoio à ela, mas ainda assim, sempre haviam feito o possível; ultimamente, nem isso faziam. A menina só via a mãe nos poucos dias em que ela passava em casa, após retornar de viagem. Ela passava mais tempo na escola que em casa, então só via o pai por mais ou menos duas horas por dia. Só conversavam sobre coisas bobas, como memes das redes sociais ou notícias sobre a política do país. Ela só não se sentia sozinha quando estava com Charlie, que ultimamente era sua única companhia, e agora não tinha nem mesmo a melhor amiga.
Os dois atravessavam a rua, mantendo uma pequena distância entre eles, até que Jonas puxou Charlie para perto de si no exato momento em que um carro ia atropelar a menina. Ela caiu de bunda no chão, enquanto a mão de Jonas continuava segurando seu braço. Ela o usou para se levantar, e olhou pra ele grata, mas logo depois abaixou o olhar e voltou à expressão triste que permeava seu rosto desde aquele infeliz incidente, que, como fazia questão de se lembrar, havia sido totalmente sua culpa. Não que a menina estivesse querendo se suicidar por causa disso. Não que isso não fosse deixar tudo mais fácil. Num segundo, não teria mais responsabilidade alguma, sobre o que quer que seja. Não teria que pedir desculpas. Mas então morreria também sem saber o que poderia ter acontecido, quem poderia ter se tornado. Não viveria pra ver seus filhos ou netos, ou os filhos e netos dos seus amigos. Nunca viajaria para conhecer todos os lugares incríveis com os quais sonhara. Nunca saberia como usar seu maravilhoso poder, nem mesmo usufruiria dele. Tudo acabaria ali, e então ela só existiria na lembrança das pessoas.
—Eu sei que você acabou de brigar com a sua melhor amiga, perdeu toda a sua família e agora está teoricamente sozinha –Charlie o olhou com uma expressão um tanto irritada –Mas isso não é motivo pra você tentar suicídio, tudo bem?
—Não que essa fosse minha intenção, eu só estava pensando sobre tudo isso. Tudo que está acontecendo. É coisa demais pra mim. Eu juro que eu não queria ter feito aquilo com Alice, Jonas. Juro. –A menina tinha a voz embargada, e havia começado a chorar –Eu nunca teria feito aquilo de propósito. Eu só não aguento mais toda essa pressão, toda essa incerteza do que pode ou não acontecer amanhã; se a minha mãe está viva ou não, se o meu pai está bem ou não, se eu posso ter a mínima chance de salvar a minha mãe, onde quer que ela esteja. –As lágrimas faziam caminhos que cintilavam com a luz do sol pelas bochechas da garota, agora. – Eu só odeio a incerteza. Eu odeio não saber. Eu odeio não ter em quem me apoiar ou quem me ajudar. É horrível estar sozinha e desamparada.
Jonas abraçou a menina. Um abraço que nunca tinha dado em ninguém antes, pois geralmente era tímido demais para fazer esse tipo de coisa. Mas ali estava ele, envolvendo a garota em seus braços, que só começou a chorar mais (ele sinceramente achava que isso era impossível), mas não retribuiu seu abraço. Ele a estava abraçando no meio da calçada, que estava um tanto movimentada para aquele horário, mas os dois continuaram ali, por pelo menos mais dois minutos.
—Eu sei que não sou tão bom quanto a Alice, sabe. Sei que não sou tão íntimo de você como ela, mas eu não gosto de te ver triste, porque você é minha amiga, e mesmo que não nos falemos tanto, eu me importo com você, então vou tentar ser o melhor amigo possível enquanto Alice não pode fazer isso por você. Nós podemos passar o tempo que você quiser fora, pois eu sei que você precisa disso. Qualquer coisa, eu converso com meu avô depois. Mas por enquanto, eu quero que você acredite que vai ficar tudo bem, que você vai conseguir acertar as coisas com a Alice, e que você vai conseguir encontrar seus pais sãos e salvos. Você pode tentar fazer isso, por favor? Eu sei que não é fácil, mas é a melhor coisa que nós podemos fazer no momento além de treinar.
—Obrigada por estar aqui, mesmo que você não seja nem um terço do que a Alice é quando eu estou mal. Admiro seu esforço.
—Eu vou pagar seu sorvete. Alice pagaria um sorvete pra você? Heim???
—Alice compraria a sorveteria inteira pra mim, se pudesse. Eu realmente preciso pedir desculpas à ela.
—É o que você deveria fazer, mas só depois do nosso sorvete.
Charlie estava rindo um pouco, agora. Ainda se sentia muito mal, mas ela ainda podia fazer as coisas darem certo. Ela ainda podia ir até sua melhor amiga e pedir desculpas por ter agido de modo tão errado. E ela faria isso.
Do outro lado da cidade, Alice encontrava-se sozinha em seu quarto, com um buraco no peito, pois nunca pensou que sua melhor amiga pudesse trata-la assim, ainda mais quando tudo que ela tentava fazer era ajudar. Tudo aquilo era muito injusto, mas ela não sabia como se sentir. Devia ter abandonado a amiga num momento desses, quando ela mais precisava, mesmo tendo ela agido de maneira completamente estúpida? Será que Charlie havia descoberto seu segredo por conta da proximidade das duas nos últimos dias, e por isso estava tentando se distanciar?
Seu celular vibrou. Era uma mensagem de Charlie. Dizia que queria encontrar com a garota mais tarde, em sua casa.
Alice não sentia-se tão mal agora.
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