Além do Caos
4 Capítulo 4 - Camouflage.
— Dia (2)
Uma noite se passou desde que contei tudo que havia ocorrido para Layla. Não sei dizer se tudo se saiu bem na conversa, mas sabia que não poderia sair de lá sangrando mais do que já estava por ter acertado a parede de sua casa com a bicicleta após meu terceiro pulo, então valeu arriscar.
Hoje é domingo, quase final de tarde e não fiz nada de especial até agora. Fiquei quase a tarde toda cogitando qual poderiam ser os possíveis riscos de pular no tempo. Primeiro, é notável que mesmo que eu alterei o passado não indo para Paris nada aconteceu comigo. Logo, isso me leva a pensar que é como se pulando eu tivesse criado uma linha paralela de tempo que é independente da outra.
Se isso que pensei for real, pular será muito mais seguro. Isso com uma condição, de que eu não pule ao passado, altere-o e depois pule para o futuro. Não sei nem se isso é alcançável pelos meus poderes e nem planejo tentar. O futuro que eu poderia encontrar ao pular pode ser muito diferente do esperado.
Além de estabelecer minhas “regras” em relação ao pulo, pensei sobre as outras pessoas que poderiam ter sido afetadas. No meu grupo de excursão, que no momento era o único da fabrica, haviam quatorze alunos, dois professores e um guia.
Atualmente tenho informações coletadas somente sobre Layla que aparentemente tem o poder de ver o futuro. Aliás, não pude deixar de pensar quando ela me descrevia como usava seu poder que ele parecia tão... Simples. Layla simplesmente sente o que vai acontecer, sem preço a se pagar. Foi inevitável comparar suas visões aos meus pulos, parece muito mais fácil não ter que pedalar em direção a um carro toda vez que quiser usar seu poder... Sinto até um pouco de inveja.
Falando em inveja, até agora não tinha parado para pensar o quão incrível essa situação é. Sempre sonhei em ter poderes, mas agora que eu tenho me sinto tão... Preocupado.
Esse pensamento levou-me a pensar que talvez eu devesse aproveitar esse final de tarde testando meus poderes. Coloquei roupas esportivas e sai para a parte da frente da casa. Entretanto, percebi faltar algo de suma importância para um viajante como eu, um relógio! Apurei-me para dentro buscando por um relógio de pulso e o único que achei foi o de meu pai. Normalmente não gosto de usar coisas que me lembram dele, mas agora esse teria de servir.
Apertei o relógio envolta de meu pulso e fui novamente para fora de casa. Enquanto fazia uma sequencia de alongamentos, senti algo estranho. Sentia como se alguém estivesse me observando, mas olhei em volta e não vi ninguém.
Comecei então a correr o mais rápido possível para tentar acumular adrenalina. Enquanto corria percebi que havia outro corredor atrás de mim então parei por um segundo para deixar a outra pessoa passar. Afinal, deveria estar sozinho para pular. Aguardei um momento recuperando o folego para continuar, mas reparei que ninguém havia passado. Não havia ninguém nem na minha frente e nem atrás, a rua estava deserta.
Apesar de não ver ninguém eu conseguia ainda sentir uma respiração, ofegante por correr e tentando se camuflar. Tinha alguém comigo, definitivamente alguém com algum poder de camuflagem. Fingi não perceber nada e comecei a calmamente caminhar, pensando no que fazer.
Cogitei que a pessoa podia se revelar, mas nada aconteceu. Quem quer que fosse estava ali foi para coletar informações, ver se eu também tenho poderes. Não podia me mostrar, então voltei para casa.
Entrei em casa e sentei-me para assistir televisão enquanto descansava um pouco. Após cerca de meia hora caminhei para meu quarto para arrumar minha mochila para a aula amanhã. Haveriam exames médicos nos quatorze alunos envolvidos no acidente então eles pediram para levar roupas esportivas e uma toalha.
Caminhei para o banheiro para pegar a toalha e decidi tomar um banho. Já estava tarde e logo iria dormir. Antes, porém, caminhei para a porta da frente e tranquei a porta, precauções que se tem quando se mora sozinho.
Voltei ao banheiro, fechei a porta e comecei a despir-me. Entretanto, no momento em que tirei minha camisa eu ouvi uma pequena risada. Congelei, não estava sozinho e quem quer que fosse seguiu-me até minha casa. Estava vulnerável e fingir não ter percebido não servia mais. Antes de fazer qualquer movimento percebi que não me faltava adrenalina, então fugir era uma possibilidade. Mas não era isso que eu queria, não podia ficar para sempre nas sombras então perguntei em um alto tom de voz:
—Quem está ai? Apareça! O que quer?
Senti um par de mãos frias tocarem meu peitoral, mãos femininas, mas esse fato não diminuiu o susto. Recuei e bati minha cabeça na parede, desmaiando.
Acordei pouco tempo depois, estava completamente despido embaixo das cobertas e ao meu lado estava minha amiga de escola, Mary. Ela carregava em seu rosto seu clássico sorriso diabólico. Se eu não a conhecesse, assumiria que é uma ameaça, mas Mary é inofensiva.
Assim que ela percebeu que acordei com um tom de voz suave, disse:
—Olá, bela adormecida! Como esta se sentindo? Você bateu bem forte na parede.
Rapidamente, respondi:
—Acho que no mínimo mereço um pedido de desculpas, não é?
Olhando dentro dos meus olhos e com a voz mais suave que nunca ela disse:
—Você merece o mundo.
—Se importa em começar me dando uma explicação do porque estou nu?
—Estava indo tomar banho, esqueceu? Você estava pelado quando bateu a cabeça, eu só te trouxe até a cama.
—Mary, eu não bati a cabeça tão forte assim, eu...
Ela me cortou e disse:
—Enfim, deixando isso de lado, me diga! Qual o seu poder?
O modo como ela falou me leva a pensar que ela sabe o poder de outros. Como pensei, eu e Layla não fomos os únicos afetados. Não duvidaria que toda a turma tenha ganhado poderes. Demorei tempo demais pensando então ela passou a mão na frente de meu rosto. Logo, então, em resposta eu disse:
—Quantas pessoas foram afetadas?
—Heeey! Vai com calma, gracinha. Gosto de você, mas perguntei primeiro.
—Eu não preciso saber aquilo que perguntei. Já você, por ter se incomodado de vir a minha casa, deve querer saber se tenho algum poder.
—Não preciso saber se tem algum poder, quero saber qual o seu poder. Contando comigo, todos os doze que vi demonstraram o mesmo tipo de comportamento. Agora, só falta você.
Então todos nós fomos afetados? Isso é pior do que eu imaginava. Mas agora, não é tempo para teorizar. Afinal, tenho uma fonte de informações bem na minha frente!
—E os professores e o guia? Eles foram afetados?
—Fofo, eu gosto de você mas agora é sua vez de responder.
—Me responda isso e eu te direi meu poder.
—Okay, okay. Nem os professores nem o guia foram afetados, somente nós alunos. Satisfeito?
—Teletransporte, esse é o meu poder.
Percebo que eu, teoricamente... Menti, mas não posso arriscar contar tudo de uma vez. Não sei se posso confiar nela.
Mary olhou bem dentro dos meus olhos e só então percebi a feição assassina que seu rosto portava. Ela lambia seus lábios como um leão que vê sua presa. Desviei o olhar, mas Mary colocou seus dedos em meu queixo e me fez olhar para ela. Em seguida ela disse:
—Excitante! Excitante! Excitante! Ah Alb, só você pra me deixar desse jeito... Louquinha.
Respondi:
—Mary, confiei em você, agora confie em mim! Conte-me os poderes dos outros!
—Nada é de graça, benzinho...
—O que você quer?
—Hm... O máximo que eu contarei hoje serão dois poderes e para isso eu quero um... Um... BE-I-JO.
Disse ela, soletrando cada silaba da palavra para não haver mal-entendidos. Então pensei, dois poderes, hm? Até agora já sei meu poder, o de Layla e o de Mary que aparentemente é invisibilidade. Sabendo mais dois estaria próximo de saber quase metade dos poderes. Ia aceitar a oferta, mas lembrei-me de Layla. Seu sorriso entrou em meu caminho e não havia outra escolha... Tinha de negar a oferta.
—Deixa pra lá...
Disse e desviei o olhar. Mary novamente tocou em meu queixo e virou meu rosto. Entretanto, não era Mary, mas sim Layla! Olhando-a, sorri e em resposta ela me beijou. Ao momento não parei para pensar nas consequências, correspondi ao beijo deitando-a sobre a cama. Foi então que ela me empurrou. Abri os olhos e vi que era Mary, fiquei confuso mas tudo assim fazia mais sentido... Isso fazia parte de seus poderes.
—Esse é meu poder. Chamo de “Camouflage”, consigo me transformar no que eu quiser, até no ambiente a minha volta. O segundo poder que vou contar é o seu. Alby não tem o poder não é teletransporte. Seu poder é pular. Tempo, espaço... Após dizer isso Mary se levantou, passou um dedo em seus lábios como se estivesse saboreando seu próprio batom vermelho e rindo do meu rosto de surpresa disse: -Não se preocupe, fofucho. Não esperava que confiasse em mim, sem magoas. Só passei para dizer para se preparar, o mundo real vai se abrir à você!
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