Além das Quadras
40 Arco III – 40. Eu te amo
Notas iniciais
Capítulo 40: Eu te amo
Estavam praticamente contando os dias para que se separassem.
O clima entre os dois era bastante estranho, mas não um estranho ruim. Tão pouco um estranho bom. Só era… Estranho, esquisito. anormal. Eles passavam praticamente todo o momento juntos, como se estivessem aproveitando cada segundo até a partida de Erick, o que de fato estavam.
Poucos dias depois da notícia, quando o namorado foi resolver alguns problemas quanto ao passaporte, Henry ligou para sua mãe, quase aos prantos. Parecia que a ficha caia de vez em quando e eram esses momentos que Henry tinha pequenas crises. Quando estava na presença do namorado, aquilo não parecia importante, mas quando não estava, quando ficava sozinho com seus pensamentos, as coisas mudavam.
— Amor, calma – a voz da mãe soou do outro lado, ela parecia aflita com a ligação. Henry já estava chorando quando a mãe atendeu e não conseguia falar nada enquanto soluçava. – Vamos, meu bem, conte de 1 a 10 com calma, respirando.
Cassandra já estava mais que acostumada com as crises do filho, então obviamente sabia o que fazer para ajudá-lo. E Henry sentia-se completamente abraçado e acalmado pela voz plena e suave da mulher. Por mais que estivesse longe, sua conexão com a mãe era inabalável. Desejava que fosse assim quando Erick fosse embora.
Henry foi acalmando-se aos poucos, seguindo todas as instruções que a mãe dizia. Após ir na cozinha tomar um copo d’água, ele finalmente se acalmou por completo, o coração ainda doendo por conta do aperto e do desespero que lhe atingiu. Desabou na mesa da cozinha, passando uma mão pelo rosto e puxando os cabelos quando os sentiu em seus dedos. A agonia ainda permanecia.
— Agora me conte o que houve – ela pediu após alguns segundos de silêncio.
Henry puxou o ar com força e soltou, fazendo o máximo possível para não desabar enquanto falava. Explicou toda a situação para a mãe, despejou todas as suas inseguranças, seus medos e seus conflitos.
— Ai, Henrique… – o tom dela era de pena e compreensão. – Você tem que pesar na sua balancinha sobre tudo isso. Mas não quero que você se prenda aqui por nossa causa.
— Eu não suportaria estar tão longe assim de vocês – ele disse com firmeza – Foi um parto estar aqui em São Paulo! Quanto mais na Itália!
— Eu sei, meu amor – Cassandra disse antes de parar um segundo para chamar a atenção de Jules – Seu pai, seus irmãos e eu estamos bem, você precisa viver sua vida, Henrique.
— Não é simples assim, mãe – ele resmungou – Eu pesquisei a respeito de cursos e faculdade lá, mas é tudo muito caro! Eu não tenho como bancar, vocês não tem como bancar e não quero que Erick me banque. Isso não tá aberto a discussão.
Henry pode visualizar a mãe assentindo com a cabeça, compreensiva.
— Você pode tentar terminar a faculdade aqui e talvez tentar ir pra lá depois que conseguir um dinheiro, algo assim. – ela sugeriu. – Só não quero que você sofra por causa disso.
— Não adianta muito, eu já to sofrendo pra caralho…
— Olha a boca, mocinho – ela repreendeu, mas não seriamente. – O que ele acha a respeito disso?
— Ele insiste em me sustentar até eu conseguir um emprego lá – Henry respondeu, mordendo o lábio em nervosismo – Mas eu fico pensando se eu não conseguir nada, eu vou ser só um peso morto lá pra ele alimentar. Sem contar que eu teria que parar de vez com o vôlei… Aqui no Brasil pelo menos eu posso ter alguma coisa.
— Estou me referindo ao relacionamento de vocês. – ela disse séria.
Henry engoliu em seco. Lembrava-se perfeitamente o quanto a mãe tinha ficado feliz com a notícia de que tinham finalmente assumido um namoro sério. Cassandra admitiu que sempre quis que os dois ficassem juntos, pois ela via o quanto o amor entre eles era verdadeiro. Ele se sentiu acolhido com aquela declaração. Tivera um pouco de receio do que os pais iriam achar de estar namorando seu melhor amigo, mas isso não importava para eles. Contanto que ele estivesse feliz, Cassandra e Fábio estariam felizes.
— Ele quer continuar… A distância… – Henry fechou os olhos por um segundo e depois abriu, focando num ponto da sala. – Mas eu não sei se aguento…
— Isso me preocupa, meu bem – ela disse – Nós dois sabemos que você sempre foi muito carnal… Ter um relacionamento no mesmo país é uma coisa, agora em países diferentes e nosso país nesse situação econômica de merda… Não é o melhor cenário para isso.
— Eu sei! – ele exclamou – Eu disse isso pra ele, mas Erick é teimoso, ele disse que faria qualquer coisa para me visitar, mas sei que isso é o desejo dele… A realidade é muito diferente.
— Pois é… Mas você precisa convencer ele do que você quer.
Henry assentiu. Talvez ele não tenha sido muito convincente ou incisivo em seus argumentos. Erick tinha a mania de passar por cima dos argumentos de Henry, pensando que as coisas se resolvem de forma mágica. Erick sempre foi bastante positivo, enquanto Henry era bastante negativo. Aquilo podia ser um problema para o relacionamento deles.
— Obrigado, mãe… – agradeceu, com um suspiro – Como estão as coisas?
Cassandra contou como estavam. Seus irmãos já estavam frequentando a escolinha e Rach estava tendo alguns problemas com as outras crianças. A mãe parecia preocupada enquanto falava, mas Henry não conseguiu perguntar o que lhe afligia.
— Júlio! Solta o cabelo da sua irmã! – ela gritou, um pouco distante do telefone, interrompendo o relato – Meu amor, seus irmãos tão brigando aqui e seu pai não tá em casa, eu tenho que ir. Depois conversamos.
Henry se despediu rapidamente e Cassandra desligou. Ele ficou alguns segundos olhando para o nada, até Pudim aparecer correndo no quarto.
— Oi, xuxuzinho – Henry sorriu para o Pug, percebendo então que ele tinha uma cordinha amarrada no pescoço com um papel enrolado.
Ele franziu o cenho, pegou o cachorro e desatou o laço, abrindo o bilhete.
“O-I, meu amorzinho
Tenho uma surpresa pra ti, então esteja mais lindo e cheiroso (talvez não seja possível, já que você é perfeito, mas tenta :D) que vamos sair às 19h. Te encontro na sala daqui a pouco haha
TE AMO DEMAIS CARALHOOOO
Beijos do SEU NAMORADO,
Erick”
Henry soltou uma risada com o bilhete. Nos últimos meses, Erick vinha deixando bilhetes pela casa inteira, como se não se vissem 24 horas por dia, começando sempre com aquele “oi” separando as letras como ele fazia de vez em quando. Era algo que deixava Henry com o coração quentinho e acha extremamente fofo como ele colocava em letra maiúscula os “te amo” e “seu namorado”, mas naquele momento lhe deixou um pouco receoso. Sua mente estava confusa demais para pensar em outras coisas.
Mas Henry fez o que o namorado pediu no bilhete. Pegou sua toalha e se encaminhou para o banheiro, mesmo que Erick estivesse tomando banho.
— Ei! – exclamou o outro – Eu disse pra nos encontrarmos na sala!
— Mas eu quis te encontrar agora uai – replicou Henry, com um sorriso no rosto para a expressão zangada e molhada do namorado, que tinha colocado a cabeça para fora da cortina. – Não que você se importe.
— Claro que me importo! Está estragando meus planos – resmungou Erick.
— Eu não diria dessa forma – Henry disse, tirando a blusa e em seguida os shorts junto da cueca – Acho que to melhorando seus planos.
Erick não teve tempo de pensar, mas Henry viu a expressão chocada e envergonhada, principalmente quando entrou no box. Henry alcançou o rosto do namorado, puxando-o sem problemas em sua direção e selando os lábios de ambos.
A água fria lhe causou arrepios tanto quanto a boca de Erick na sua. Não conseguia entender como conseguia tomar banho gelado, mas aquilo não foi um empecilho para que se pegassem com vontade, fazendo com que a água sequer lhe incomodasse.
Nunca tinha feito algo assim, mas percebeu que a recepção de Erick foi positiva. Na verdade, Erick nunca negava seus beijos e não seria ali que iria fazê-lo. Quando sua boca já estava doendo, ele se desvencilhou do namorado, que tinha uma expressão incrédula.
— O que foi isso? – ele perguntou, encarando Henry com um sorrisinho de lado e a bochecha vermelha de vergonha.
— Um beijo, uai – Henry deu de ombros, pegando o shampoo para lavar o cabelo – Namorados fazem isso com frequência, sabe?
— Ah jura? – Erick devolveu a ironia, mas depois ficou sério – Sério, porque isso?
— Me deu vontade – deu de ombros novamente. – Achei que fosse excitante, apesar de que você tem esse desvio de caráter de tomar banho frio.
— Não julgue meu banho geladinho! Só porque você toma banho com o chuveiro no inferno não significa que eu tenho também.
Henry riu alto. Encarou o namorado de cima abaixo, analisando todos os detalhes, todas as curvas, as definições e imperfeições. Por Deus, como amava aquele homem.
— Eu te amo – Henry soltou após alguns segundos. – Você sabe disso né?
Erick corou mais ainda e Henry suspeitou que estava encarando-o com aquela cara abobalhada e apaixonada que ele comentava de vez em quando. Escondera o sentimento por tanto tempo, queria mesmo era expressá-lo sempre que possível.
— Eu sei – Erick passou a mão pelos cabelos, jogando-os pra trás para tirá-los de seus olhos. – Eu também te amo, amorzinho.
Erick desligou o chuveiro, trocando a temperatura antes de ligá-lo novamente, já que Henry não alcançava. Ele bagunçou o cabelo cheio de shampoo de Henry quando este agradeceu e passou espuma em sua cara com uma risada alta antes de lhe dar um beijo, impedindo que Henry brigasse com ele.
— Nós temos horário – disse Erick após se separar do namorado – Eu já terminei.
Antes que Henry pudesse devolver a espuma na cara, Erick escapuliu para fora do box com uma risada. Henry rogou praga no namorado, que apenas lhe deu língua antes de fechar a cortina.
— Para onde vamos? – ele perguntou após uns segundos, tirando o produto do cabelo.
— Eu disse que era surpresa – respondeu Erick.
— Eu detesto surpresas.
— Detesta não – replicou o namorado – Você gosta, mas elas te deixam ansioso e você não gosta de ficar ansioso.
Henry fez uma careta, mesmo que não pudesse ser visto. Erick de fato lhe conhecia.
— E você me fala que é uma surpresa pra me deixar ansioso. – brigou, mas não irritado de verdade. – Se um dia eu morrer, a culpa vai ser sua.
— Ei, ei – reclamou Erick – É uma ansiedade boa, não fica assim. É algo legal, amorzinho.
— Seeei…
Apesar disso, sentia-se bem. Sua ansiedade estava controlada e o que sentia era algo até bom. Não demorou muito para se arrumarem e descerem para a garagem, onde o carro alugado estava. Erick entrou no banco de carona, colocando o endereço do lugar no GPS e falando para Henry segui-lo.
Foram o caminho todo conversando, Erick falando de como era chata a burocracia para mudar de país e que tinha que conseguir mil documentos para conseguir tirar o passaporte. Henry comentava de vez em quando, dizendo que não fazia ideia de como era o processo, mas que tinha um passaporte por conta de uma viagem que fizera pra Disney quando era criança.
— Burguês safado – brincou Erick, rindo. Henry notou o quanto ele brilhava quase que literalmente, de tanta felicidade. – Queria que minha mãe pudesse resolver isso pra mim, mas né? É um saco ser adulto.
— Com toda certeza – disse Henry de volta, prestando atenção no caminho, pois sentia-se perdido. – Qual é o nome do lugar mesmo?
Erick enrolou a língua pra pronunciar um nome estranho, dizendo que era um restaurante italiano. Henry lhe lançou um olhar suspeito, fazendo o namorado dar de ombros e sorrir gentilmente.
— Você gosta de massa, eu gosto de massa… É o lugar perfeito! – exclamou Erick, logo em seguida olhando para o letreiro bonito e iluminado do restaurante. – Chegamos!
Henry parou na frente do lugar, sendo abordado por um moço de roupas formais que disse que iria estacionar o carro. Com um olhar um pouco desconfiado, Henry saiu do carro dando as chaves ao moço, que entrou no automóvel e o levou para um local atrás do restaurante.
Ele sentiu-se um pouco intimidado com a beleza e riqueza do lugar. Provavelmente só pra respirar lá dentro era um rim, comer então… O que Erick estava pensando quando escolheu um restaurante tão caro?
O namorado tomou a frente, dizendo para a atendente que tinha reservado uma mesa semanas atrás. Henry arqueou as sobrancelhas, então Erick estava planejando isso há muito tempo. Foram levados para uma mesa com dois lugares, a iluminação baixa e o local quase silencioso davam um pouco de agonia em Henry.
Gostava de locais silencioso, mas havia se acostumado um pouco com a muvuca e o barulho. Além de que, o silencio possivelmente era por conta da fineza que o lugar exalava, assim como as poucas pessoas que estavam ali, todas elegantes e com nariz em pé. Henry sentiu-se um pouco mal por estar usando jeans e All Star, mas pelo menos estava com uma camisa social e um blazer.
Eles sentaram à mesa, Erick com um sorriso que parecia que iria rasgar seu rosto.
— Certo, o que está planejando? – Henry perguntou?
— O que? – Erick fingiu estar ofendido – Não posso levar meu namorado pra jantar no nosso aniversário de namoro?
Henry congelou por alguns segundos.
— Não é nosso aniversário de namoro – disse, mas não muito convencido.
— Há! Te peguei – Erick brincou e pegou a mão de Henry sobre a mesa – Relaxa, amorzinho. Só quero ter uma noite agradável com você.
— Qual banco você roubou? – Henry semicerrou os olhos atrás dos óculos. – Isso aqui é caro demais.
— Não se preocupe com isso, eu economizei meu salário antes de sermos demitidos.
— Eu quero ajudar a pagar.
— Não mesmo! Agora fica quieto e vamos aproveitar.
Antes mesmo que Henry pudesse dizer alguma coisa, o garçom apareceu com dois cardápios. Quase pulou da cadeira, arrastando Erick consigo quando viu os preços. Sério, que tipo de pessoa gasta quinhentos reais num prato de comida???
Henry pediu a coisa mais simples e mais barata, uma macarronada ao alho e óleo. Erick pediu uma lasanha e também vinho tinto. Não demorou tanto para os pedidos chegarem, até porque ficaram conversando amenidades enquanto esperavam e bebia vinho, o tempo sempre passando extremamente rápido quando estavam juntos.
— Amor – Erick chamou, quando Henry estava no meio de uma garfada de macarronada. – Pensa rápido.
O leve desespero de Henry se atrapalhando com o garfo, o macarrão e o objeto jogado em cima de si fez Erick soltar uma risada. Ele revirou os olhos, mas então olhou para o objeto preto com textura aveludada em suas mãos. Era uma caixinha. Voltou os olhos para Erick, curioso e ansioso.
— O que é isso? – perguntou.
— Abre – o sorriso de Erick era só o que Henry conseguia ver.
Ele abriu, quase engasgando com a própria saliva quando viu o conteúdo da caixinha.
— Isso é o que eu to pensando? – Henry sentia seu coração disparado.
— Se você tá pensando num casamento na Itália, então a resposta é sim – Erick sorriu, pegando a mão livre de Henry sobre a mesa.
Um silêncio se instalou. Henry não sabia o que pensar a respeito. Analisou as duas alianças em ouro, uma menor e uma maior, com linhas de ouro branco e ouro vermelho, além de serem ambas foscas. Ele estava sendo pedido em casamento pelo amor da sua vida.
Aquilo tinha que deixá-lo feliz, não tinha? Mas porque não se sentia assim?
— Eu não posso – ele sussurrou, depois de um tempo, tirando a mão da mão de Erick. Fechou a caixinha e a colocou em cima da mesa. – Eu não posso aceitar.
Todo o brilho de Erick se apagou naquele segundo. Seu sorriso se transformou numa expressão de pura tristeza e mágoa.
— O que? – a voz do outro falhou, mas Henry entendeu perfeitamente.
Sentia seu coração extremamente apertado, como se estivesse esmagando-o com toda a força. Não queria que as coisas acabassem assim.
— Erick – Henry chamou, pegando as duas mãos do namorado, a voz ofegante por conta da tensão – Eu te amo muito. Mais do que tudo mesmo. Mas eu não posso ir pra Itália com você.
Algo parecia ter se quebrado dentro do outro. Seu olhar para Henry era intenso, mas não continha nenhuma irritação ou raiva. Apenas tristeza.
— Mas eu pensei que… – ele começou, apertando as mãos alheias – Você disse que is pensar!
— Exatamente, eu não disse que iria…
— Mas, Henry…
— Erick – Henry o interrompeu com firmeza. Doía demais falar aquelas coisas, mas ele precisava falar. – Eu sempre cedi tudo pra ti… Fiz tudo por ti. Tudo mesmo. Mas isso eu não posso fazer… Desculpa.
O namorado piscou os olhos alguns segundos, como se tivesse levando um tapa na cara.
— Você disse que me amava… – murmurou.
— Eu te amo! – Henry exclamou – Mais do que tudo nesse mundo. Não duvide disso, mas eu não posso largar minha vida pra depender de você num lugar totalmente desconhecido, longe da minha família e de tudo que me é familiar… Não é isso que eu quero pra mim, pra nós dois...
Erick ficou em silêncio, desviando o olhar para baixo. O silêncio dele era excruciante para Henry.
— Não ache que eu te amo menos por isso – ele começou, calmamente. Nem sabia como tinha falado aquilo tudo sem gaguejar ou simplesmente ceder. – Mas só amor não sustenta um relacionamento…
— Então você vai terminar comigo quando eu for embora? – Erick perguntou, ainda mais triste.
— Eu não quero pensar nisso – ele disse sincero, apertou a mão de Erick, fazendo-o olhá-lo. – Vamos só aproveitar o tempo que temos juntos, okay?
O outro assentiu minimamente, tomando uma postura mais ereta. Ele limpou algumas lágrimas que teimavam em se formar nos cantos dos olhos. Henry viu o quanto ele estava segurando o choro, o nariz e as bochechas adquirindo um tom avermelhado.
— Eu odeio fazer isso com você – Henry comentou sincero – Mas eu realmente não estou pronto pra uma mudança tão radical.
Silêncio.
— E se eu ficar? – Erick perguntou, determinado – Se você não vai comigo, eu fico aqui com você. É só você pedir.
Aquilo deixou Henry entre a cruz e a espada. Seu desejo egoista era pedir, implorar para Erick não deixá-lo. Mas era egoísta, mesquinho pedir algo assim. O futuro era incerto demais, mas ele não queria ser mesmo o gatilho que estragasse toda a vida do amor da sua vida. E não conseguia explicar aquilo pra ele.
— Eu também não posso pedir isso – murmurou Henry. Fechou os olhos, agora sentindo as próprias lágrimas querendo sair. – Eu quero você pra sempre comigo, mas não posso pedir pra você ficar.
— Eu não entendo… – a voz dele estava um tanto quanto amarga. – Você me quer, mas quer que eu vá embora…
— Não quero que você vá embora…
— O que você quer de mim, então Henry?! – exclamou Erick, parecia estar passando pelas 5 fases de luto. – Eu não te entendo.
— Eu quero que você seja feliz! – ele disse firme, o coração martelando contra o peito. – Você sempre sonhou em ser jogador profissional e isso sempre incluiu sair do país… Você conseguiu isso! E eu não quero que você desista do seu sonho pra ficar comigo.
Erick o encarou.
— Henry…
— Eu não quero ser o motivo pra você desistir da sua carreira, do seu sonho – Henry sentia-se péssimo. O ar estava fugindo dos seus pulmões. – Eu não quero ser o gatilho…
O ar já estava quase ausente. Henry tentava respirar, mas não conseguia, seu pulmão parecia estar cheio de líquido ou coisa parecida. Sentia a pressão no coração, o desespero correndo por todo o seu corpo, a sensação de que iria morrer, que estava perto do fim.
Não demorou pra sentir os braços de Erick em volta de si e uma pequena confusão começou a rolar, mas Henry não conseguia entender o que estava acontecendo. As lágrimas saiam em peso e ele só queria gritar, só queria sair correndo. Ou que aquele sentimento todo acabasse ali mesmo.
Ele só queria que as coisas ficassem em paz.
[...]
Erick achava que apanhar fosse a coisa mais dolorosa do mundo, mas certamente ver Henry tendo uma crise era muito pior.
Estava tão triste pelo o que tinha acontecido, mas aquele sentimento simplesmente sumiu quando viu Henry apertando a roupa na altura do peito, a respiração ofegante e as lágrimas querendo sair. Não pensou duas vezes antes de amparar o namorado, a preocupação tomando conta de todos os seus sentidos.
Começou a fazer perguntas aleatórias para Henry, tentando distrair a mente do outro dos sentimentos presos em seu peito. Erick nunca soube como era aquela sensação de crise, mas era desesperador ver o namorado naquela situação. Sempre foi e ele tinha que ter forças para ajudá-lo, tinha que ser forte pelos dois naqueles momentos.
Sabia que Henry estava em tratamento, mas obviamente não era a cura. Fazia muito tempo que crises assim vinham, pelo menos em sua presença.
Aos poucos o namorado foi se acalmando. Tinha rolado uma pequena comoção por conta do grito de agonia de Henry, os garçons ficando sem saber e trazendo um copo d’água porque era a única coisa que podiam fazer.
Erick esperou, sem sair do lado do outro um segundo. Ajudava-o a respirar, olhando no fundo daqueles lindos olhos castanhos que brilhavam por conta das lágrimas.
Ele tinha ciência de que tinha sido, mais uma vez, o motivo da crise. Sabia que toda aquela situação era estressante e o modo como ele próprio estava agindo, pressionando o outro sem perceber… Sentia-se péssimo por aquilo, mas seus sentimentos estavam tão conflitantes que não conseguiu se segurar. E acabou acontecendo o que aconteceu.
— Melhor? – perguntou Erick quando percebeu que a cor voltava ao rosto do outro, a respiração ainda pesada, mas um pouco menos ofegante.
— Sim… – Henry murmurou, olhando pra baixo. – Eu só quero ir embora.
— Consegue dirigir?
Ele respondeu apenas com um menear de cabeça. Erick providenciou o pagamento e o pedido de desculpas para os atendentes, que foram simpáticos o suficiente para dizer que estava tudo bem.
Em poucos minutos estavam no carro, mas dessa vez o caminho se seguiu num doloroso silêncio, o que fez com que o percurso parecesse durar horas. Henry estava concentrado no trânsito e Erick sentia que ele evitava olhá-lo. A culpa lhe doía, mas não sabia o que fazer, não sabia o que falar para o namorado.
Por mais que tivesse demorado para Erick, eles chegaram em casa sem que ele percebesse. Estava imerso demais nos seus pensamentos sobre a situação que só percebeu que haviam chegado quando ouviu a porta do motorista batendo. Levou um susto, então saiu do carro, vendo que Henry esperava não tão pacientemente do lado de fora.
A subida pelo elevador foi a mesma coisa. Erick queria tocá-lo, abraçá-lo, mas de uma forma estranha, não sentia-se confortável para aquilo. Não conseguiu decifrar a expressão do outro, que também mantinha-se calado a todo o momento. O clima estava tão tenso que parecia difícil respirar.
Quando chegaram em casa, sendo recebidos pelos animais, Henry apenas foi pra cozinha, tomando um remédio rapidamente e depois se encaminhando para seu quarto.
— Henry… – Erick murmurou, mas a porta foi batida.
Estava com uma sensação péssima. Ao mesmo tempo que queria ir lá no quarto e insistir para Henry conversar com ele, a frase dita momentos antes vinha em sua mente “Eu sempre cedi tudo pra ti… Fiz tudo por ti. Tudo mesmo.”
Nunca tinha ouvido uma verdade tão grande. Nunca se incomodara por ser chamado de teimoso e insistente, ele sabia que era, mas pela primeira vez percebeu o quanto aquilo podia ser ruim.
Decidiu que daria espaço para o namorado. Quando ele quisesse conversar, ele iria até Erick, não iria?
Tentando não pensar naquilo, Erick se encaminhou para o quarto, com Pudim logo atrás. Largou-se na cama após tirar as peças mais desconfortáveis, olhando para o teto enquanto acariciava a barriga de Pudim.
— Acho que estraguei tudo, amigão – ele murmurou.
[...]
Passara a noite em claro. Os acontecimentos lhe passando pela cabeça a todo momento.
Tentou ler algum livro, mas era impossível se concentrar nas letras à sua frente. Tentou ver alguns vídeos, mas depois de poucos segundos sua atenção voava para outro lugar.
Então finalmente sentou-se à mesa, pegando seu caderno do desabafo e escrevendo tudo o que estava sentindo. Todas as decepções, inseguranças e frustrações naquela situação tinha lhe trago.
Aquilo foi um método que sua primeira psicóloga recomendou e funcionava muito bem. As palavras fluíam para o papel com facilidade, como se estivesse imprimindo seus sentimentos na folha. Às vezes as frases ficavam desconexas e havia apenas palavras sem sentido. Bem, sem sentido para qualquer um que lesse, menos para Erick.
Quando já era de manhã, ele foi pra cozinha, fazendo um café bem forte e se sentando à mesa quando estava pronto. Ficou um tempão ali, na esperança de Henry aparecer e trocar algumas palavras consigo. Mas o garoto não apareceu a manhã inteira.
Para se distrair, Erick se ocupou fazendo comida quando era mais ou menos 10h. Cozinhar ajudava a acalmar. Estava acordado na base de café e de nervosismo, pois se fosse um dia normal, estaria no décimo sono. Resolveu fazer o prato favorito de Henry, sua lasanha de presunto que o namorado tanto amava.
Ele se assustou quando o celular começou a tocar. Franzindo o cenho, ele olhou o visor, vendo que era sua mãe. Eles se falavam bastante por mensgens, mas quase não conversavam por ligação por conta da mãe estar sempre muito ocupada trabalhando.
— Oi, mãe – ele atendeu, usando sua melhor voz animada.
— Bom dia, Erick – ela saudou – Tudo bem?
Queria contar o que tinha acontecido para a mãe, mas se pegou respondendo no automático que estava tudo bem.
— Com essa vozinha, não acredito – disse Adriana, a voz suave e gentil – O que aconteceu, meu bem?
Com um suspiro pesado, Erick acabou contando tudo que estava acontecendo e todas as coisas que passavam em sua cabeça. Ele havia comentado com a mãe e Nathy que queria pedir Henry em casamento e as duas até ajudaram a escolher a aliança, mas agora, contando que o namorado não havia aceitado, parecia uma ideia idiota.
No fundo sabia que o pedido era uma desculpa a mais para Henry ir para a Itália com ele.
— Ai, meu bem – a mãe disse com verdadeiro pesar – Eu sinto muito que as coisas tenham sido assim…
— Eu só não entendo… – ele murmurou – Achei que ele me amava a ponto de ir comigo pra lá....
— Ora, Erick, não seja tão egoísta – o xingamento da mãe lhe surpreendeu – Só porque ele não quer ir, não significa que te ame menos, meu filho.
Foi a mesma coisa que Henry tinha falado e Erick queria de verdade acreditar.
— As pessoas não podem largar mão da vida delas por outra, meu bem – Adriana continuou – Eu entendo ele perfeitamente. Também não queria me mudar quando seu pai me pediu em casamento porque ele iria ser transferido para outro local.
Erick se surpreendeu com aquilo.
— Então porque você foi? – ele perguntou com uma curiosidade genuína
— Pressão da minha mãe – Erick não conseguiu identificar o sentimento na voz da mãe – Eu casaria com um homem com a vida praticamente feita, não passaria necessidade como ela passou e entre outras coisas. Então eu acabei cedendo e não gostaria que o mesmo acontecesse com vocês dois. Não foi uma experiência excelente pra mim e aposto que não vai ser para o Henry.
Erick então pediu para que ela contasse um pouco mais.
— Eu estava terminando a faculdade quando ele me pediu em casamento porque iria mudar pro Rio Grande do Sul. Naquela época, minha mãe não concordava em eu fazer faculdade, mas aceitou porque comecei a trabalhar também.
“Passamos uns 4 meses separados, pois ele foi com Nathália e eu fiquei em BH pra terminar a faculdade. Assim que terminei, fui pra lá. Foram tempos difíceis, ele passava o dia inteiro trabalhando e eu cuidando da casa e de Nathy, que era minha única companhia, não consegui trabalho e ele disse que não era necessário. Também não seria uma boa, já que tínhamos uma filha pequena. Mas eu trabalhei a minha vida inteira e pela primeira vez eu estava parada, me senti mal e vazia”.
“Então depois de um tempo, eu engravidei de você e precisei de ajuda, consegui fazer amizade com algumas vizinhas, que me ensinaram a cozinhar, já que minhas habilidades culinárias eram poucas. Além do frio enorme que eu passava, num lugar estranho, onde eu não conseguia fazer nada além de ficar em casa. Não conseguia nem passear com Nathy, pois tudo era muito longe e eu não dirigia. É horrível ser independente e do nada ter essa independência tirada de mim.”
Ao fim da história, ele se sentiu um pouco mal de ter pressionado o namorado daquela forma. Estava agindo um pouco como o pai, para conseguir o que queria. E ele não queria nem de perto ser parecido com o progenitor. De fato estava sendo extremamente egoísta.
— O que eu faço, mãe? – ele perguntou baixinho, a culpa tomando conta de si. – Eu não quero ir sem ele.
— Erick, meu amor, – ela disse de maneira gentil – Eu sei que você ama ele demais, sei que quer ele com você, mas pensa que vocês são pessoas diferentes e que querem seguir caminhos diferentes. Se o amor de vocês for realmente verdadeiro, o que eu acredito que é, então no futuro vocês vão ter a oportunidade de ficarem juntos pra valer.
Algumas lágrimas escorriam de seus olhos. Era difícil deixar Henry ir agora que estava com ele depois de tanto tempo e de tanto empecilho. Mas também queria continuar com seu sonho. Estava conseguindo alcançar todos os seus sonhos, não queria desistir agora.
— Vocês tem todo o tempo do mundo, meu bem.
Ele assentiu, mesmo que ela não pudesse ver.
— Obrigado, mãe – ele murmurou com um sorriso agradecido. – Eu te amo, obrigado mesmo.
— Eu também te amo, meu anjinho – ela respondeu suavemente – Acredite em mim, o tempo sabe das coisas. Se for pra vocês ficarem juntos, vocês vão ficar.
Aquilo foi tudo o que Erick precisava ouvir, agora precisava ter coragem de encarar o namorado e pedir desculpas por aquilo.
Eles se despediram e ele finalizou a montagem da lasanha, colocando-a no forno no mesmo momento que a figura pequena e embrulhada na coberta de Henry apareceu na porta da cozinha.
— Bom dia – ele cumprimentou, recebendo um murmúrio do outro. – Como você está?
Henry deu de ombros, sem falar nada e abriu a geladeira. Sentia o clima estranho que estava instalado entre os dois. Ele pegou leite na geladeira e despejou num copo.
— Eu fiz lasanha pra você como pedido de desculpas – Erick tentou, como sua última cartada para tentar tirar alguma reação do namorado.
Henry levantou os olhos, ele percebeu imediatamente as olheiras embaixo dos olhos alheios, além do fato de estarem avermelhados, como se tivesse chorado a noite toda. Além disso, a cara de cansaço e tristeza era bem visível.
— De presunto? – ele perguntou baixinho.
Erick abriu um sorriso mínimo, assentindo em resposta.
— Podemos conversar no almoço?
Henry o encarou por alguns segundos antes de assentir. Não falou mais nada, apenas preparou um chocolate quente e se retirou da cozinha. Parecia bastante abalado e Erick sentia uma culpa enorme pesando em seus ombros.
Com um suspiro, deixou que a tensão saísse. Iriam sair daquela e se resolver. Acreditava que tudo ficaria bem.
[...]
Era difícil ficar muito tempo chateado ou irritado com Erick.
Porém aquela crise no meio do restaurante tinha lhe abalado demais e precisava de um tempo sozinho pra conseguir colocar a cabeça no lugar, nem que fosse algumas horas.
Era estranho dormir sem ele. Nos últimos meses, vinham se dividindo entre dormir no quarto um do outro ou na sala quando estava muito calor e podiam abrir o sofá cama com a janela grande do cômodo. Então não ter o corpo quente e grande lhe abraçando foi estranho. Não era como se tivesse conseguido dormir de qualquer forma.
Foi naquela madrugada que percebeu que assim seriam seus próximos meses. Talvez anos, ele não sabia. Tinha ficado longe de Erick por muito tempo. Tinha conseguido o outro de volta e finalmente engataram em algo sério, algo que ele tanto queria. E agora tudo iria desaparecer por um tempo que Henry não fazia ideia de quanto iria durar.
Seus pensamentos egoístas lhe diziam para implorar para Erick ficar. Ele já tinha dito que ficaria se Henry pedisse. Essa vozinha que lhe impregnava a mente era incômoda demais, pois ele sabia que não seria certo prender o namorado por um luxo próprio.
E aqueles pensamentos só pioraram depois que conversaram e Erick aceitou a separação, aceitou que fossem separados por 8.970 quilômetros. Contou que havia conversado com a mãe, que ela lhe abrira os olhos para a situação, que tinha sido egoísta demais em insistir sobre o assunto.
Agora Henry que estava com a sensação egoísta. Os dias pareciam passar correndo, como se tivessem pressa de separá-los. Estavam aproveitando cada segundo que podiam, passeando, cozinhando, assistindo séries juntos e até passaram uma semana em Belo Horizonte na casa de Adriana para que eles pudessem se despedir.
Toda noite Erick se declarava. Desde as formas mais bonitas até as mais bregas, fazendo Henry soltar uma risada e lhe beijar logo em seguida. Poderia congelar o tempo naqueles momentos, onde não havia nada além dos dois e nenhum futuro para se preocuparem.
Entretanto os sonhos vinham para lhe tirar daquela irrealidade. Pesadelos em que eram separados a força e Henry via Erick sendo arrastado e torturado. Pesadelos de Erick simplesmente desaparecendo e Henry não conseguindo achá-lo de forma alguma, a ansiedade e agonia corroendo o peito. Pesadelos de pessoas perseguindo os dois, ameaçando Erick.
Acordava suando e ofegante, contendo ao máximo para não acordar o namorado ao seu lado. A expressão de Erick enquanto dormia era tão serena que nem parecia que tinha carregado tanto peso em seus ombros. Ele parecia finalmente descansar da forma devida, deixando seu passado onde era seu lugar.
Henry chorava baixinho nessas noites, sofrendo e tentando enfiar em sua cabeça que aquela era a decisão correta, que era o melhor para os dois. Porém, só conseguia ter sentimentos negativos, temer pelo outro e lamentar por não terem se resolvido anos antes.
— Então, como cês vão fazer? – Marge perguntara. Estavam em um restaurante, só os três como nos velhos tempos, para a despedida de Erick. Os dois se entreolharam.
— Nós vamos deixar o tempo levar – respondera Erick, de forma tão suave que surpreendera Henry.
Estava com aquilo na mente muito antes de Marge, mas ela tinha praticamente lhe dado o empurrãozinho que ele precisava para que ele tomasse a iniciativa de conversar com Erick a respeito. Tinham que colocar todos os pingos nos i antes da partida.
Porém, desde que voltaram para São Paulo, alguma coisa no olhar de Erick fazia com que ele recuasse. E os dias iam se passando, Henry fazendo o máximo pra que eles tivessem os melhores momentos do mundo. Precisava marcar todas aquelas emoções e sentimentos em seu coração, em sua mente. Queria tirar o melhor daquilo tudo.
Ver as malas tornou aquilo tudo mais real. Observá-lo chorando abraçado com Pudim lhe doía o coração, já que não poderia levá-lo. Erick tinha pedido para que Henry cuidasse de Pudim, pois não queria separá-lo de Cheshire. Mesmo sabendo que estava em boas mãos, Erick expressava aquele olhar de tristeza.
O dia finalmente chegou. Erick estava tomando banho enquanto Henry terminava de se arrumar. Passando pela sala, ele viu a carteira de Erick em cima do rack, ao lado da televisão. Ele encarou o objeto por alguns segundos.
“Pega”, aquela vozinha de merda veio “Os documentos dele”
Os documentos.
Aqueles simples pedaços de papéis eram responsáveis pela separação deles. Sem aquilo, Erick não iria a lugar nenhum, não conseguiria pegar o avião. Não lhe deixaria.
Algo lhe conteve de se aproximar mais. Não era certo pensar aquelas coisas. Não seria certo roubar os documentos do namorado apenas para que ele não fosse embora.
Apesar disso, Henry se aproximou do objeto, analisando-o rapidamente. Abriu a carteira do namorando, pegando sua identidade e dando um sorrisinho de lado para a foto. Erick estava bem mais novo, mas o cabelo loiro cacheado era o mesmo. Os olhos castanhos claros eram os mesmos. Tudo naquele homem era lindo aos olhos de Henry, mesmo as olheiras profundas e a expressão de cansaço.
O ar saiu dos seus pulmões. Se escondesse aquilo, todo seu sofrimento estaria acabado. Continuariam felizes, voltariam para BH e tudo poderia seguir normalmente, era apenas dar sumiço naquilo. Erick nunca saberia, não é?
Mas não estava certo.
Só que aquilo realmente importava se tivesse o amor da sua vida ao seu lado pra sempre?
Queria Erick ao seu lado. Mas também queria que ele seguisse seu sonho. Seria tão egoísta? Tão mesquinho?
Sua cabeça rodava com as possibilidades. Os sentimentos opostos lhe impregnavam, aumentando sua frequência cardíaca. A voz que lhe incentivava a roubar o documento era alta, tomando conta de seus pensamentos, abafando ao máximo a voz racional de si. Tudo seria resolvido tão facilmente com uma simples ação.
Tentador.
“Faça, nada de ruim pode acontecer”
Muito tentador.
Ouviu o chuveiro ser desligado, aquilo sendo o gatilho final para sua escolha.
E com um simples movimento, ele tomou sua decisão.
[...]
Erick detestava ter sentimentos contraditórios.
E aquelas semanas serviram para que tivesse que encarar muitos desses seus altos e baixos emocionais.
Desde a conversa que teve com Henry, as coisas entre eles pareciam mais leves, mas ainda possuiam aquela tensão de separação, de despedida. Podiam fazer qualquer coisa, no final da noite sempre seria a mesma coisa: dali à alguns dias não dormiriam mais juntos. Não estariam mais próximos. Sem beijos, sem carinhos, sem afeto pessoal. Sem toques.
Era sofrido e Erick sabia que não era só pra ele. Via a expressão chateada do namorado a cada boa noite que proferiram. Sentia a necessidade de contato do outro toda vez que se abraçavam, se beijavam ou transavam. Erick percebia tudo aquilo, mas tinha que deixá-lo.
Nathy, Adriana e sua psicóloga lhe ajudaram um pouco a colocar na cabeça que Erick não estava abandonando Henry, mesmo que o sentimento o fosse. Estaria correndo atrás dos seus desejos e sonhos e ele tinha que escolher se era isso que ele queria, se deixar Henry valeria a pena.
Até hoje não soube a resposta, mas tomou a decisão de ir mesmo assim.
No carro, indo em direção ao aeroporto, eles ficaram em silêncio, apenas com as músicas tocando ao fundo. A tensão, a dor da separação e a saudade precoce eram praticamente palpáveis entre os dois. Erick odiava aquele silêncio, mas também não sabia o que falar para que ele fosse quebrado.
Não demorou muito para chegarem, mas pareceu uma eternidade. Henry estacionou o carro e eles saíram, dando as mãos e caminhando lado a lado. As pessoas olhavam, além de serem dois homens, a diferença de altura absurda chamava muita atenção, mas Erick ignorou tudo aquilo.
Eles pararam na fila do check-in, que estava relativamente grande, ficando de frente um pro outro. Erick encarou aqueles olhos cabisbaixos, sentindo o aperto no coração. Acariciou a mão do namorado, que lhe devolveu o olhar com um sorriso triste.
— Está tudo ai? – Henry quebrou o silêncio quando estavam próximos de serem atendidos.
— Acho que sim – respondeu e procurou sua carteira.
Teve um pequeno taquicardia quando não sentiu o objeto em seus bolsos, começando a procurá-lo nos bolsos da mochila.
— Meu Deus, que susto – ele disse, se recuperando ao achá-la dentro da mochila. Abriu-a, conferiu os documentos e fechou. – Achei que tinha esquecido.
Henry assentiu com a cabeça, a expressão séria.
Erick finalmente foi chamado. Fez toda a burocracia necessária e despachou suas malas.
— Ainda temos uns minutos – ele disse após saírem da fila e começarem a andar pelo aeroporto. – Quer comer alguma coisa?
— Podemos – Henry respondeu.
Escolheram comer no Burguer King, fizeram seus pedidos e sentaram à mesa.
— Animado? – Henry perguntou, quebrando o silêncio. Erick agradeceu muito por aquilo. Não queria passar aqueles últimos minutos em silêncio.
— Sim – respondeu sinceramente, terminando de esvaziar um sachê de ketchup no guardanapo – Ansioso e nervoso também.
— Você foi contratado por um motivo – Henry comentou – Você é incrível, vai se dar bem.
Qualquer elogio de Henry sempre deixava seu coração quentinho e saltitante de alegria.
— Agradeço pelo apoio, amor.
Engataram em uma conversa sobre como seria a Itália. Os italianos tomavam banho todos dias ou eram iguais aos franceses? Será que Erick iria aprender italiano? Quais lugares desejava visitar?
E o tempo voou. Sempre acontecia quando estavam juntos e conversando.
Jogaram fora todos os resíduos de papel e embalagens e foram para a sala de embarque. Henry não poderia passar dali, o que significava que era o adeus definitivo.
Eles ficaram frente a frente, se encararam intensamente por alguns segundos.
— Eu te amo – Henry disse, mais convicto que nunca – Podemos dizer que é um até logo, né?
Erick absorveu aquelas palavras. Um até logo. Até mais.
Não tinham o mesmo peso de um adeus. Soava como se eles fossem se encontrar novamente e talvez se encontrassem mesmo, só o tempo diria. Mas abria a possibilidade de não ser algo completamente definitivo.
— Quero que fique com isso – Erick tirou seu caderninho da mochila e entregou a Henry – Escrevi essas coisas quando estava no Rio e quando voltei pra BH… São bem íntimas, mas quero que você leia.
— Não posso aceitar isso, amor – Henry disse, claramente percebendo que se tratava do caderninho que ele bisbilhotou semanas atrás.
— Eu quero, de verdade.
— Tem certeza? – a voz de Henry era incerta, assim como o ato de segurar ou não o objeto.
— Absoluta.
Finalmente Henry aceitou e Erick sorriu.
— Tenho isso aqui também.
Tirou do bolso do casaco uma caixinha. Abriu o objeto e tirou de lá dois colares com um anel em cada um. As alianças que tinha comprado pra fazer o pedido.
— Achei que fosse significativo apesar do fora que levei – ele brincou, tentando trazer leveza pro momento. Henry fez careta, mas riu. – Posso?
Henry assentiu, virando-se de costas para que o namorado pudesse colocar o colar nele. Erick entregou o outro a Henry e repetiu o gesto do outro, tendo que abaixar para que ele conseguisse colocar o colar em si.
Quando voltaram a se encarar, Henry estava com lágrimas nos olhos.
— Isso me lembra quando trocamos isso aqui – ele balançou a pulseira da promessa em seu punho. Nunca haviam tirado desde o dia que se reconciliaram como amigos. – Nossa, isso é muito…
— Estranho?
— Significativo, idiota – Henry riu, lhe dando um soco no braço. –Não sei o que dizer.
— Não precisa dizer nada– Erick abraçou o outro fortemente. – É só um pedacinho de você que vou levar comigo e um pedacinho de mim que vou deixar com você.
Henry assentiu contra o peito de Erick.
— Não importa a distância… Podem ser 8.970km, 10.000 km, 100.000km… Eu sempre vou te amar – Erick deixou seu coração falar. – Onde quer que você esteja, eu vou te amar. Pra sempre.
O choro ficou mais intenso por alguns segundos e eles ficaram abraçados ali, até o último minuto que puderam. Erick apreciou seu cheiro, seu carinho, seu toque, as lágrimas escorrendo dos próprios olhos.
— Não é uma despedida – Henry disse firme após se separarem. – Você tem muito que me aturar ainda.
Ele riu, apertando o namorado mais contra si.
— Vai ser um prazer.
Finalizaram o até logo com um beijo. Aquele beijo cheio de carinho, ternura, afeto, amor, paixão… Tudo. Quando se tratava de Henry, os sentidos de Erick borbulhavam, transbordavam.
Com um suspiro, eles se separaram e Erick se encaminhou para a fila.
— EU TE AMO, ERICK MOREIRA! – Henry gritou quando o namorado entrou no local.
— EU TE AMO, HENRIQUE LIMA!
E assim, iniciaram uma nova caminhada.
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