Além das Palavras

2 To a Stranger


— Desculpa te fazer esperar tanto, Beth. Vamos lá. Eu pago o seu almoço — afirma Jimmy, enquanto caminhava pelo corredor da universidade com a garota ao seu lado.

O corpo de Beth se retém ao entender o que estava acontecendo. Jimmy havia mentido para ela. O brilho nos olhos e o sorriso extrovertido estampado em seu rosto mostrava que não havia nada de errado com ele.

— É por isso que você estava tão apressado e insistiu que eu não fosse embora? Por que gostaria de almoçar comigo? — indaga Beth, desconfortável.

— Sim. Eu queria muito almoçar com você — confessa Jimmy, dando uma risada nervosa.

— Eu estava preocupada, já que você disse que tinha algo importante para me dizer — comenta a garota, encarando o rapaz com repreensão. — Pensei que algo sério tivesse acontecido com você.

— Você nunca aceitaria almoçar comigo se não falasse que tinha algo de importante para te dizer.

Beth nada responde, porque sabia que era verdade. Ela evitava contato com outros rapazes desde o término de seu namoro. Se envolver novamente com alguém não é algo que está em seus planos e nem deseja que aconteça tão cedo.

Jimmy a conhecia há pelo menos dez anos, então ele estava ciente de seu desejo de não se aproximar de nenhum rapaz, mesmo que ele fosse seu colega de escola. Ainda assim, ela não conseguia deixar de se sentir chateada pela mentira. Aquilo já havia afetado seu humor drasticamente.

De longe, Daryl observa o casal se afastar, seguindo em direção ao restaurante da universidade. Por algum motivo, observá-los o trazia de volta ao seu tempo de juventude, quando a vida parecia ser muito mais fácil.

“Jimmy McCune... Pobre garoto. Engolido por uma paixão juvenil” — pensa Daryl, notando a falta de interesse de Beth, enquanto o rapaz faltava beijar seus pés.

— Como é bom ser jovem.

Daryl se vira e encontra o professor de Tradução do curso de Letras da universidade. Theodore Sullivan sorria de forma amável, exatamente como fazia quando Daryl ainda era um jovem e inexperiente aluno universitário, sonhando em se tornar um professor tão bom quanto Theodore.

— Professor Theodore — cumprimenta Daryl, suavizando sua expressão.

O homem assente, enquanto encara os jovens que se afastavam. Seus olhos exibiam um brilho nostálgico, relembrando os anos que não voltariam mais.

— O tempo voa, não é mesmo? Ainda me lembro de você andando pelo campus como aqueles dois — comenta Theodore, encarando o ex-pupilo com humor.

— Bem, eu não sei. Não me lembro de sair pela universidade dessa maneira — responde Daryl, fazendo referência ao casal que eles observavam.

— Ah, claro. Eu sou a testemunha ocular de todas as suas aventuras românticas pelo campus. Você era popular — relembra Theodore.

— Isso pode ser verdade, mas nunca fui um jovem desesperado por uma paixão unilateral. Eu era ocupado demais para conhecer todas as garotas que gostavam de mim quando era mais novo.

Theodore gargalha, relembrando como era divertido observar as garotas se jogando para Daryl na juventude. O rapaz sempre foi muito sério e nunca dava atenção a sua popularidade para a frustração das inúmeras jovens com os hormônios à flor da pele.

— Verdade. Eu achei que a essa altura, você estaria me enviando convites de casamento. É um mistério que ainda esteja solteiro. Falando nisso, aquela sobrinha da minha esposa, a violinista, sabe? Ela é bem bonita e gentil. E tem uma ótima família. Acho que vocês formariam um ótimo casal.

A expressão gentil que Daryl dava ao professor muda levemente, mas é o suficiente para saber que o seu ex-aluno não estava interessado em conhecer a jovem. Theodore ri e suspira.

— Tirando pela sua expressão, é óbvio que você não está interessado. Você deveria se casar e acalmar o coração de seu pai, Daryl. Não me diga que você pretende ficar solteiro até o fim de sua vida?

— De modo algum — nega Daryl, dando um discreto sorriso. — Eu acho que se casar é melhor do que ser solteiro.

— E mesmo assim, você recusa qualquer mulher que te chame para sair. Não é como se você estivesse saindo com alguém, então quando você vai começar a namorar? Por acaso estar interessado em alguma mulher impossível?

— Não. No momento, não tenho interesse em ninguém. Mas quando eu achar uma mulher de quem eu goste e eu sentir que posso vê-la e me apaixonar perdidamente todos os dias, eu enviarei os convites de casamento a você, professor Theodore. Então pode relaxar — garante Daryl, sorrindo levemente.

— Ora, ora, Daryl. Você não acha que isso é uma fantasia feita para homens mais jovens? – brinca Theodore.

— Eu sou um professor de Literatura e de poesia. Acho que posso ser um pouco romântico. Isso é pelo bem dos meus alunos – retruca Daryl com humor, fazendo Theodore gargalhar.

— Certo, certo. Você venceu — concorda Theodore, sabendo que não poderia ir contra o argumento que ele sempre usava com Daryl quando ele era mais jovem para explicar o motivo de suas ações. — Irei para o restaurante. Gostaria de almoçar comigo?

— Terei que recusar o convite de hoje. Eu preciso terminar o meu texto para o artigo do jornal. Mas prometo que almoçaremos juntos no futuro — garante Daryl e o outro professor assente.

— Tudo bem. Nos vemos depois — despede-se Theodore, dando um sorriso amável.

Daryl acena para o professor e segue para o seu escritório na universidade, cumprimentando alguns alunos e colegas de trabalho.

Com sua xícara de chá cheia, ele passa a escrever em seu notebook, fazendo a crítica do último livro que leu. Ele tinha até o fim do dia para enviar o texto à editora, para ela analisar e publicar no dia seguinte. No entanto, Daryl não conseguia se concentrar.

— O prazo de entrega da coluna já está bem em cima, mas eu não tenho qualquer inspiração — sussurra para si mesmo.

Daryl suspira e joga seu corpo para trás, encarando a lâmpada da sala. Sua mente viaja sem controle até a conversa que teve com Beth mais cedo. Instigado pela curiosidade, ele acessa o site de pesquisa e procura por informações sobre as tamareiras.

“Por que será que eu estou curioso sobre isso logo agora?” — pensa, dando-se conta do que estava fazendo. — “De qualquer forma, eu já pesquisei. Não custa nada dar uma olhada.”

O professor passa a ler os textos sobre a palmeira, surpreendendo-se com as informações que obtinha. Era interessante ver que a tamareira estava envolvida em muitas histórias e ditados populares.

— Quem planta tamareiras não colhe tâmaras? — sussurra para si mesmo, descobrindo mais uma informação sobre a palmeira. — Então se levava cerca de cem anos para produzir frutos antes dos avanços da engenharia genérica? Mesmo assim, ainda leva quase dez anos para se colher os frutos. Não deve ser fácil cultivar tâmaras.

Daryl passa a observar as fotos, surpreso com o tamanho e a beleza da palmeira. Ela era tão colorida e intrigante. Surpreendentemente, ela poderia chegar até trinta metros de altura. Se assemelhava aos coqueiros, mas havia suas diferenças. Suas folhas eram nem mais compridas e possuíam espinhos.

— Então isso é uma tamareira? É muito maior do que eu pensava — comenta Daryl consigo, dando uma leve risada ao se lembrar de Beth. — Ela é do tamanho de um arbusto, mas tem o nome de uma grande palmeira.

...

Envolvida com o conteúdo das aulas, o dia passa rapidamente para Beth, que se surpreende ao ser liberada da última aula do dia. Ela deixa a sala com um sentimento de animação por ver que ainda era capaz de acompanhar as aulas mesmo tendo se afastado por tanto tempo.

Beth segue para seu armário e sorri levemente ao guardar seus livros, relembrando da breve conversa que teve com Daryl. Ele era muito mais divertido do que demonstrava com toda aquela pode séria. Mesmo com sua dificuldade para conversar com as pessoas, em especial, com o sexo masculino, Daryl a deixou à vontade e ela até mesmo havia tido a coragem de rir do professor.

Ela o admirava desde a época em que entrou na universidade. Essa era a primeira vez que teria aula com ele e estava animada. Sentia uma ligação estranha com o professor desde que começou a ler seus textos nos jornais quando ainda estava na escola.

Sua visão crítica dos livros que lia era impressionante e madura. Sempre a instigava a ler os mesmos livros e descobrir sobre as sensações descritas na coluna do jornal. Por isso, sentia que aprenderia muito com ele durante o semestre.

— Beth!

A loira se vira e encontra uma garota de curtos cabelos negros e olhos cor de mel. Ela lhe parecia familiar, mas não conseguia lembrar com clareza quem era aquela garota.

— Desculpa, você é a...?

— Não se lembra de mim, Beth? Sou eu! Ashley! — fala a garota, sorrindo animada por reencontrar Beth.

Beth a observa por um tempo e logo sua mente traz as lembranças de quando entrou na universidade pela primeira vez. Aquela garota havia sido uma das colegas de classe com quem ela mais conversava, apesar de não serem tão próximas.

— Ah, sim. Ashley Paulsen, certo? — relembra Beth, feliz por reencontrar sua antiga colega de sala.

— Sim. Vejo que você voltou nesse semestre. Por que não me ligou para contar que estava de volta? — questiona Ashley, aproximando-se de Beth com curiosidade.

— Eu fiquei com vergonha de sair contando que eu tinha retornado para a universidade. Esse é seu último semestre?

— Sim e você?

— Ainda tenho mais quatro semestres — conta, dando um sorriso sem graça. — Eu vou acabar me graduando depois de quem entrou depois de mim.

— Ah, então você ainda tem mais dois anos? Boa sorte! Não vejo a hora de terminar — confessa Ashley, suspirando. Beth ri, entendendo o desespero da colega.

Elas começam a andar pelos corredores da universidade, assim como faziam antes de Beth trancar o curso repentinamente e desaparecer. Estava feliz que as coisas não haviam ficado estranhas entre ela e Ashley.

— Ah, sim. E como está o Zach?

A pergunta inocente de Ashley abala Beth, que paralisa e aperta o livro que segurava, tentando controlar as emoções. Ainda era difícil falar sobre seu ex. Ouvir seu nome sempre fazia seu corpo reagir de maneira negativa.

Beth sabia que não poderia evitar o nome de Zach para sempre. Ainda mais estando de volta a universidade que eles frequentaram juntos, era normal que algumas pessoas ainda se lembrassem de seu relacionamento. E as pessoas também não sabiam de seu término, então não era tão estranho assim que tivessem curiosidade sobre seu paradeiro.

— Ele... provavelmente está bem — responde Beth, dando um sorriso desconfortável.

Ashley parece notar que não deveria ter perguntado sobre o rapaz. A reação de Beth e sua resposta deixava claro que eles não estavam mais juntos.

— Ah, eu... eu achei que vocês obviamente ainda seriam... desculpa, Beth. Eu realmente não imaginava que vocês tivessem terminado — lamenta Ashley e Beth nega, sorrindo compreensiva.

— Está tudo bem, Ashley. Não tinha como você saber.

Beth tranquiliza a garota, que ainda parecia envergonhada pela situação. O celular de Ashley começa a tocar e ela solta o ar, que nem mesmo havia notado que prendia. A garota de cabelos curtos sorri sem graça e pega o aparelho no bolso da calça, mostrando que precisava atender.

— Eu preciso ir agora. A gente se vê depois, Beth — despede-se Ashley, sorrindo amigável.

— Claro. Até mais, Ashley.

Beth permanece com o sorriso e acenando para Ashley, até que ela desaparece de seu campo de visão com o celular no ouvido. A loira sente seu coração pulsar dolorosamente no peito e um nó se forma em sua garganta. Sua única reação é correr para o lugar que era seu abrigo na universidade em seus dias tenebrosos.

Ela se repreendia por não ser capaz de controlar suas emoções. Havia dito a si mesma que enfrentaria qualquer questionamento sobre seu antigo relacionamento com a cabeça erguida, mas mesmo após dois anos, ela ainda era uma tola que entra em pânico apenas com a simples menção do nome de seu ex.

Beth sobre as escadas e assim que alcança a cobertura do prédio de humanas, ela fecha a porta. Respirando diversas vezes para recuperar o fôlego, ela se joga contra a porta e fecha os olhos, tentando recuperar a razão.

Ao abri-los novamente, ela se surpreende ao encontrar seu professor de Literatura Inglesa, fumando com uma postura muito mais relaxada do que ela um dia já o viu ter, enquanto a observava pelo canto do olho. Beth arfa e encara o homem sem saber o que dizer ou como se explicar.

— Boa tarde, professor Daryl — cumprimenta Beth, dando um sorriso sem graça.

Daryl assente e se vira por completo para Beth. Um silêncio estranho se faz presente entre eles. Ambos queriam dizer algo, mas nem mesmo sabiam o que dizer. Era confuso e desconfortável.

— Ah, bem, eu vou... vou deixar o senhor fumar em paz. Com licença...

— Beth Greene — chama Daryl, impedindo que ela continuasse a falar.

Beth para de andar e se vira para o professor, interessada em saber o que ele diria. Estava preocupada que ele questionasse se ela estava bem ou perguntasse o motivo de ter aparecido de forma tão desesperada naquela área que era de funcionários que era proibida para alunos. Não sabia se estava preparada para responder a essas perguntas.

— Sim, senhor?

— Você já fez um esboço da sua apresentação? — questiona Daryl, surpreendendo Beth.

— Ah, sim. Eu já tenho algo pronto — concorda a loira, surpresa.

— Então vamos combinar uma data para que eu possa analisar — responde o homem, fazendo Beth o encara ainda mais atordoada.

Ela sabia que o professor dificilmente dava esse tipo de apoio sem que o aluno o procurasse primeiro. Sentia-se verdadeiramente agradecida por não ser questionada sobre seu estado e ainda ter outro assunto para ocupar sua mente caótica.

— Se você me disser qual o melhor dia para você, eu passo no seu escritório — responde a garotam dando um leve sorriso.

— Sério? — questiona Daryl e Beth assente. Ele desliza a manga de sua blusa social e encara as horas em seu relógio. — Então vamos fazer isso agora.

— Agora? — indaga Beth, surpresa.

— Por quê? Você tem alguma aula ou compromisso agora? — pergunta o professor e Beth nega.

— Não. Não é isso. É que eu ainda não imprimi o texto — responde com sinceridade.

— Você pode imprimir agora.

— Certo. Eu vou imprimir no computador do laboratório...

— Meu escritório também tem impressora. Você pode imprimir lá — responde Daryl, apagando seu cigarro no cinzeiro que havia na lixeira. Após soltar a fumaça que prendia, ele faz sinal para que ela o seguisse. — Vamos.

Beth encara as costas largas do professor e sente uma brisa suave agitar seus cabelos. De repente, ela já não se sentia mais agitada. O sentimento de raiva e impotência desapareceu. Sua mente se tornou clara e calma. Até mesmo seus batimentos descontrolados encontraram o ritmo certo.

Ela respira fundo e sorri. Não sabia dizer se o professor percebeu que ela estava enfrentando um de seus fantasmas do passado naquele e propositalmente sugeriu que ela focasse no trabalho que deveria ser apresentado em alguns dias ou se tudo não passou de uma coincidência.

Mas o que Beth sabia é que se sentia extremamente grata ao professor pelo choque dado com suas ações inesperadas, que a fizeram despertar para realidade e relembrar que ela estava seguindo em frente agora. Não havia tempo a perder com as lembranças desagradáveis de seu ex. Em breve ela realizaria seu sonho de ser cantora e não seria seu passado que a atrapalharia. Não mais.

Notas finais
Família Cupcake 2.0: https://chat.whatsapp.com/DQH6eBvDIKuGz921wxomJC Cupcakes da Lara: https://www.facebook.com/groups/677328449023646 Instagram: @_cupcakesdalara