Além das Palavras
8 The Clod and the Pebble

Ainda que estivesse preparada para revelar seu passado conturbado a Daryl, Beth não conseguia deixar de ficar nervosa. Relembrar algo tão doloroso quanto sua caótica adolescência que a levou a se tornar a pessoa cheia de traumas que se tornou, era preocupante e a deixava insegura.
Temia a reação de seu professor. Sentia cada célula de seu corpo tensa com a possibilidade de Daryl a desprezar ou, pior ainda, lançar o mesmo olhar de pena que recebeu de sua irmã e de sua mãe quando, aos prantos, revelou os motivos de desejar terminar seu noivado tão repentinamente.
Daryl permanece em silêncio, observando as mudanças de expressão de Beth, enquanto a garota parecia organizar seus pensamentos. De certa forma, depois de ver o hematoma de Annette, ele já conseguia imaginar o tipo de ambiente que a garota deveria ter crescido.
Era por isso que ele sabia a importância de ser paciente em momentos como esse. Beth precisava de um tempo para se sentir segura e expor os sentimentos que parece guardar há tanto tempo.
— Antes de tudo, eu queria te agradecer, professor.
— Me agradecer? Pelo quê? — questiona Daryl, confuso.
— Por não ter comentado nada e ainda ter agido com naturalidade mesmo depois de ter visto o hematoma de minha mãe — explica Beth, dando um fraco sorriso. — Eu normalmente não levo ninguém em casa, mas caso precise, eu sempre aviso minha mãe para que ela tenha tempo de se... ajustar.
— Isso não é algo que deveria agradecer. Na verdade, eu deveria me desculpar por propor a viagem tão repentinamente e ainda ir à sua casa — responde Daryl, olhando brevemente para Beth, antes de voltar sua atenção para o trânsito.
— Não se desculpe, por favor. Fui eu quem insistiu para que entrasse e eu realmente fiquei feliz pelo convite — garante a garota, encarando o professor com sinceridade.
— É bom saber que meu convite estranho não te assustou — comenta Daryl, tentando amenizar o clima pesado que se formou entre eles.
A loira dá um uma fraca risada e suspira, encarando a paisagem invernal pela janela do carro, enquanto eles se aproximavam da rodovia que os levaria até Atlanta. Nem mesmo a música alegre que tocava no carro em volume agradável parecia ser o bastante para suavizar o clima.
— Não se preocupe. Eu não contarei nada do que vi a ninguém — afirma o professor com sinceridade.
— Eu sei que não. Não é da sua índole sair espalhando fofoca de artistas pela internet ou com pessoas que não são de sua confiança — responde Beth, sorrindo mais confiante. — Quer dizer, eu sei que não nos conhecemos muito bem, mas pelo pouco que observei durante esse semestre em que tive a oportunidade de ser sua aluna, é que você é um homem muito discreto e reservado, professor. A única pessoa com quem o vejo conversando mais intimamente na faculdade é com o professor Theodore. Geralmente, o senhor está sempre evitando lugares e esboçando uma expressão de poucos amigos na tentativa de afastar a todos.
— Apenas não vejo razão para ficar interagindo com as pessoas que não são de minha importância — retruca o homem.
Beth o encara incrédula por alguns instantes, mas não demora a se entregar as risadas. Era hilário como Daryl poderia dar uma resposta tão infantil de uma forma tão séria e confiante. Sua falta de habilidades sociais naquele momento parecia adorável pelo ponto de vista da garota.
— Isso mais se assemelha a algo que um adolescente antissocial diria — comenta Beth, limpando as lágrimas de risos que desciam pelo canto de seus olhos.
— Desculpa. É que eu apenas não sei como lidar com as pessoas fora da sala de aula — confessa Daryl, sentindo-se um pouco envergonhado.
Beth ri mais uma pouco e suspira, sentindo-se mais calma. Sabia que o professor não tinha feito de propósito, mas seu comentário havia sido o bastante para trazer um pouco de consolo a seu coração apreensivo. De repente, ela já não se sentia mais tão nervosa em mostrar suas fraquezas ao homem que tanto admirava.
Ela respira fundo e encara o professor com uma expressão mais suave. As memórias de seu passado retornam a sua mente. Sentia que estava pronta para revelar tudo a Daryl. Lidaria com as consequências depois, ainda que desconfiasse que seu professor jamais a trataria como uma pobre coitada, assim como sua mãe e irmã fizeram.
— Sabe, professor, Hershel Greene e Annette são grandes mentirosos — começa Beth, atraindo a atenção de Daryl. — O grande cineasta está longe de ser um marido amoroso e admirável que coloca a família em primeiro lugar. Na verdade, ele é um alcóolatra violento, controlador, narcisista e possessivo. A melhor definição de homem tóxico, que é incapaz de lidar com suas inseguras e acredita que um pedido de desculpas vazio é o suficiente para consertar um ataque descontrolado de ciúmes que deixa marcas físicas e emocionais em sua esposa.
— Seu pai também batia em você? — questiona Daryl com preocupação.
— Não. Apesar de rigoroso e insensível, ele jamais encostou em um único fio de cabelo meu ou de meus irmãos. Ele é um péssimo marido, mas um bom pai. Acho que minha mãe nem mesmo permitiria que algo assim acontecesse. Na única vez que ele ameaçou se aproximar de mim quando estava bêbado, ela quase o esfaqueou — conta Beth, dando uma risada amargurada. — Também foi a única vez que vi minha mãe reagir as agressões de meu pai.
— Sinto muito por isso — lamenta Daryl, sem saber como consolar sua aluna naquele momento.
— Obrigada — Beth agradece, suspirando. — Mas nem sempre foi assim. Até os meus quinze anos, meus pais possuíam um casamento relativamente normal. Meu pai era muito ciumento, mas não era agressivo e bebia com bem menos frequência.
— O que aconteceu para que ele mudasse?
— Minha irmã mais velha se casou e saiu de casa. Não muito tempo depois, meu irmão engravidou a namorada e foi morar com a família dela. Assim que minha sobrinha nasceu, eles se casaram. A esposa de Shawn não gosta do meu pai e por isso passou a impedir que ele encontrasse a Kim mais do que uma vez a cada seis meses. Acho que isso o deixou frustrado e ele passou a descontar na bebida — supõe Beth, dando de ombros. — E acho que tudo piorou quando eu conheci Zach.
— Seu ex-noivo? — questiona a loira, um pouco surpresa pelo professor conhecer Zach. — Desculpa. Eu não queria me intrometer em sua vida, mas durante a festa, depois do show dado por Oscar, o professor Theodore me contou um pouco sobre seu relacionamento com um dos melhores alunos dele.
— Tudo bem. Meu noivado com Zach não era exatamente um segredo — garante Beth, tentando tranquilizar o professor que parecia se sentir culpado. — Eu conheci Zach quando eu tinha quinze anos. Ele era quatro anos mais velho e filho do diretor da minha escola. Frequentemente era visto andando pelos corredores, conversando com os alunos. Ele era tão brilhante quanto o Sol e tão reluzente quanto ouro.
— Ouro? — murmura Daryl e Beth dá uma risada anasalada, concordando.
— Assim como todos os alunos da escola, eu me encantei por ele. Sendo a garota tímida e sem qualquer característica que chamasse a atenção das pessoas, eu era praticamente invisível na escola, mas Zach fez com que eu me tornasse alguém. E eu achei tão incrível ter me tornado uma existência importante na escola por causa dele, que foi inevitável me apaixonar por ele — conta a loira e Daryl a encara com incredulidade.
— Está me dizendo que você se apaixonou por um homem de dezenove anos por causa dele ter tornado você alguém interessante para um bando de adolescentes idiotas e cheios de hormônios? — questiona o professor em descrença, fazendo a garota ri mais uma vez.
— Hoje eu sei o quanto isso foi idiotice, mas na época, eu era uma adolescente ingênua, encantada com a ideia de me tornar popular e ter inúmeros amigos, assim como via nos filmes que assistia. E ele se aproveitou disso para se aproximar mais de mim e me conquistar por completo.
A expressão de Beth se torna sombria e Daryl sente que não gostaria muito do que estava por vir de sua narrativa.
— Foi com ele que eu dei o meu primeiro beijo e a partir daí, eu comecei a me prender em suas teias, quase como uma presa. Zach era manipulador e controlador. Aos poucos, minha opinião passou a não existir mais. Ele não aceitava as minhas decisões e como eu era ingênua, nem mesmo notava que gradativamente eu comecei a me perder. Com suas palavras bonitas e sorriso gentil, Zach me mantinha a rédeas curtas. Ao contrário do meu pai, ele era doce, gentil e inteligente.
Uma nova risada amargurada escapa dos lábios de Beth ao relembrar como pateticamente ela havia se deixado enganar pela pose de bom moço que Zach. Quanto mais a loira pensava no assunto, mais se odiava por ter sido tão cega.
— A maldade de Zach era mascarada por palavras de afeto e gentileza. Ele controlava o que eu vestia com a desculpa de que temia pela minha segurança e conforto. Manipulava a minha mente para acreditar que o fato de não ter outros amigos além dele, ter o meu celular monitorado o tempo todo e até mesmo me manter presa em casa era a sua forma de garantir que ninguém nunca me machucaria. Até mesmo as músicas que eu ouvia e os livros que eu lia era ele quem escolhia — revela Beth, surpreendendo o professor.
— O quê? — balbucia Daryl, atônito. — Como ele foi capaz de chegar a tal ponto de controle?
— Ainda que me pergunte, eu também não sei explicar como isso aconteceu — afirma Beth, suspirando. — Ele fez com que eu me tornasse dependente dele. E tudo piorou quando minha mãe passou a apanhar do meu pai. Eu tinha apenas quinze anos e estava assustada. Não sabia o que fazer. Me agarrei a Zach como meu último fio de esperança e ele se aproveitou disso.
Beth encara a paisagem pela janela do carro, procurando acalmar suas emoções. Seu coração pesava, doía. Cada vez mais se aproximava da pior parte da sua história. Era sufocante relembrar, mas pior ainda guardar tudo dentro de si.
— E durante um dia de fragilidade, após ser repreendia pela minha mãe ao tentar protegê-la do meu pai, Zach me fez dormir com ele. Eu não estava pronta. Foi desconfortável e eu fiquei apavorada. Tentei me convencer de que isso era normal, mas esse foi o pior erro da minha vida. Ele era um homem de vinte anos e eu uma menina que faria dezesseis anos com a cabeça cheia de incertezas e medos — revela Beth, expondo toda a sua amargura. — Não que ele tivesse me machucado fisicamente, mas não era o momento certo e eu me arrependi muito da forma como aconteceu. Isso afetou a minha autoestima de inúmeras formas.
— Desgraçado — sussurra Daryl, indignado com a situação. — Eu sinto muito por isso, Beth. Você nunca pensou em denunciá-lo?
— Não. Naquela época, eu nem mesmo parei para pensar que o errado era ele. E eu tinha certeza de que era eu quem estava exagerando. Além disso, quem acreditaria em mim? Zach era amado por todos. Todos o defendiam. Sendo tão jovem e inexperiente, eu não seria capaz de lidar com as consequências por “prejudicar” a imagem dele — explica Beth, enfatizando o prejudicar. — Isso foi apenas o começo do meu inferno.
— O que mais ele te fez? — indaga Daryl, apertando com ainda mais intensidade o volante.
O professor se sentia frustrado e irritado. Sentia uma fúria dentro de si que não sentia desde a adolescência. Saber que Beth sofreu tão nova por causa de um homem maldito como seu ex-noivo que todos ainda continuavam a defender o deixava com o sangue fervendo.
— Como eu disse, a relação dos meus pais piorou ainda mais quando eu comecei a namorar com Zach. Meu pai se tornou mais violento. Ao ver minha mãe sofrendo tanto sem eu conseguir fazer nada, Zach se tornou o meu refúgio. Ele sabia como me consolar e me manipular. Foi nesse momento em que eu passei a me perder. Pouco a pouco, fui deixando de ter opinião. Zach foi quem passou a decidir a minha vida, inclusive o curso que eu iria fazer e a minha profissão — esclarece a loira, relembrando a pergunta de Daryl.
— Então você decidiu fazer Letras por causa dele?
— Sim. Quando eu estava no último ano do ensino médio, eu comecei a imaginar como seria seguir os passos da minha mãe. Eu amava escrever músicas e cantar. Era a única coisa que eu tinha certeza que eu queria depois de três anos de um relacionamento, onde eu não sabia mais o que eu queria. Mas eu cometi o erro de contar a Zach e ele obviamente recusou — Beth suspira, amargurada.
— Por quê? Qual era o problema de você seguir seus sonhos? — questiona o professor, sem entender a mente doentia do ex-noivo da garota.
— Ele dizia que se eu me tornasse cantora, eu não seria capaz de lidar com a fama. Que eu não era forte para lidar com as críticas e que ainda corria o risco de nunca conseguir me sustentar, porque eu poderia não fazer o sucesso que esperava. Para Zach, eu precisava de uma profissão de verdade. Então, ele decidiu que eu faria Letras, assim como ele. Assim, no final da faculdade, Zach a escola do pai dele e eu ainda trabalharia para ele — revela Beth, dando uma risada amargurada.
— O professor Theodore me contou que ele planejava estudar no exterior quando ele te pediu em casamento. Por acaso ele mudou de ideia depois que você começou a cursar Letras? — pergunta Daryl, relembrando as palavras de seu professor.
— Sim. Por causa da pressão que ele me fez, eu concordei em estudar Letras. Nós ainda estudamos um ano juntos antes dele se formar. Em seu último semestre, ele conheceu a professora Regina McGee, que o ofereceu a chance de trabalhar com ela em Massachusetts no MIT — conta a garota.
— Isso é bem a cara de Regina — ironiza Daryl com uma careta. — Simpatizar com pessoas tão mau-caráter quanto ela.
— Conheceu a professora McGee? — pergunta Beth, surpresa.
— Estudamos juntos com o professor Theodore na faculdade. Nós não nos dávamos bem. Ela não aceitou muito bem quando eu a rejeitei no início do curso e passou a me caluniar durante a faculdade. Ironicamente, ela decidiu se tornar professor da Belmont University, quando eu contei ao professor Theodore sobre meus planos de seguir seus passos e me tornar professor universitário. E durante o tempo em que trabalhamos juntos, foi um verdadeiro tormento — conta Daryl, visivelmente insatisfeito ao relembrar da mulher.
— Ela era mesmo uma pessoa... difícil de lidar. De qualquer forma, Zach ficou fascinado com a ideia de trabalhar no MIT e decidiu que nosso futuro seria em Massachusetts. Claro que eu não gostei da ideia, mas depois de quase cinco anos sendo manipulada, eu já havia me acostumado a fazer o que ele queria. Nisso, eu já estava há dois semestres na faculdade cursando Letras.
— Você estudou Letras por um ano sendo obrigada? — pergunta Daryl, um pouco desanimado por imaginar que a garota não era tão apaixonada assim pelo seu curso quanto ele imaginava.
— Não! Eu me apaixonei de verdade por Letras. Eu já gostava de ler antes. Era apaixonada por livros e poemas, em especial por Annabel Lee, mas nunca pensei que poderia ser minha profissão. Zach disse que eu levava jeito. Ironicamente, eu realmente me apaixonei pelo curso. Acho que foi a única coisa boa que eu pude tirar de nosso relacionamento. É por isso que mesmo depois que terminamos e passei tanto tempo afastada, eu resolvi voltar para o curso de Letras — garante Beth, dando um sorriso sincero que tranquiliza o professor.
— Fico feliz em saber disso. Estava um pouco preocupado ao imaginar que você continuava a fazer o curso contra a sua vontade — confessa o homem, arrancando uma risada doce de Beth.
— Não. Eu amo o curso. E sendo sincera, foi assistindo a um de seus seminários que eu me dei conta disso e resolvi terminar o curso de Letras. Ouvir o seu amor pelos poemas e o quanto você havia se encontrado na Literatura me fez perceber que eu também me sentia assim. A Literatura foi o meu refúgio mais saudável quando o meu mundo estava tão caótico — relembra a loira, dando um sorriso doce ao se lembrar do seminário que assistiu do professor. — Você me inspirou, professor.
— Eu te inspirei? — repete Daryl, surpreso.
— Sim. Eu já o admirava desde a época que entrei na universidade, mas por causa de Zach, não tive muita oportunidade de participar de seus seminários e palestras. Ele não gostava de você. Parece que em algum momento, ele experimentou o demônio Dixon e passou a ter aversão a você, professor.
— Olha só. Quem diria que meu apelido viria tanto a calhar? Não pensei que isso aconteceria, mas Zach e eu temos algo em comum. Eu também não gosto e tenho aversão a ele — ironiza Daryl e Beth gargalha, divertindo-se com a expressão satisfeita do professor com a informação. — Vocês permaneceram noivos por muito tempo?
— Cerca de cinco meses. Cada dia que nos aproximávamos da viagem para Massachusetts e do casamento, que ocorreria em alguns meses após nos mudarmos, eu sentia que não conseguiria viver daquela forma. E foi então que eu li um livro. Entre Quatro Paredes da B. A. Paris.
Um fraco sorriso se forma nos lábios de Beth e ela encara as próprias mãos. Estava começando a ficar difícil narrar sua vida. Mas ela não voltaria atrás. Tinha ido longe demais para se calar por causa da dor e do medo.
— Eu li esse livro. Foi uma das primeiras críticas que fiz para o jornal — relembra Daryl e Beth assente, concordando.
— Foi por causa da sua recomendação que eu li esse livro, professor — confessa Beth, forçando um sorriso. — Eu fiquei curiosa e decidi que leria. Agora, mesmo depois de anos, ainda está me recordo daqueles sentimentos de empatia e desespero ao me ver como a Grace, de conseguir enxergar toda aquela perfeição de Jack em Zach.
— Entendo. Vocês eram vistos como um casal perfeito, assim como Grace e Jack, no entanto, ninguém esperava pelo terror que você vivia em seu relacionamento — constata Daryl e Beth assente. — E pelo que você me contou, assim como Jack, Zach era um vilão desgraçado que usava a inteligência dele para manter seu jogo cruel, além de manipular todos a sua volta para mostrar a aparência de perfeição que ele confere à sua vida, causando ciúmes e admiração nos amigos. E por detrás disso tudo estava você, sozinha, tentando manter a sanidade em busca de uma saída nada fácil para o amaranhado de teias onde estava presa.
— Como era de se esperar de você, professor, o senhor fez uma interpretação perfeita da minha vida ao lado de Zach — afirma Beth com um tom amargo. — Mas ao contrário de Jack, o final de meu relacionamento com Zach não foi tão extremo.
— Infelizmente — comenta Daryl e Beth ri. — Como fez para se desfazer do noivado? Se ele era tão obcecado quanto Jack, duvido muito que ele te soltaria tão fácil assim.
— Eu tive a ajuda da minha mãe e da minha irmã — explica Beth, surpreendendo o professor. — Após ler o livro, eu comecei a pensar que eu estava no caminho de me tornar a Grace. Eu não queria aquilo para a minha vida. Tive uma crise de choro ao imaginar viver como uma prisioneira literal e me desesperei. Maggie e minha mãe estavam em casa. Não tive escolhas além de contar o que estava acontecendo. Depois de saberem de tudo, elas queriam denunciar Zach a polícia, mas eu sabia que não daria em nada e isso me prejudicaria.
— Então o que fizeram?
— Um dia antes de nossa viagem para Massachusetts, onde seria o nosso novo lar e o lugar onde nos casaríamos, eu fiz questão de termos uma briga. Contei a Zach que não queria ir para Massachusetts. Filmei toda a sua ação violenta, seu jogo de manipulação, a maneira como ele se transformava quando estávamos sozinhos entre quatro paredes. E como sempre, ao fim, concordei com ele de viajar. Já tinha as provas que eu precisava. No dia da viagem, eu fugi com minha irmã e mãe para a casa vazia de Sasha para que ele não reconhecesse onde eu estava. Sasha era melhor amiga de Maggie e Zach não a conhecia. Ele me procurou como um louco e quando deu o horário da viagem, eu atendi sua chamada de vídeo. Mostrei as provas que eu tinha contra ele e ameacei enviar para sua família e a mídia — revela Beth.
— Isso foi muito corajoso da sua parte — comenta Daryl, encarando a garota com admiração. — Sendo alguém tão preocupado com a própria imagem, aposto que ele enlouqueceu quando descobriu que você tinha provas contra ele que destruiria sua falsa imagem de bom moço.
— Sim. Minha irmã e minha mãe foram quem negociaram com ele. Eu não tinha forças para lidar com essa situação. E então, depois de longas duas horas, ele finalmente concordou em ir para Massachusetts sozinho e me esquecer. Em contrapartida, eu jamais revelaria sobre quem ele era para ninguém — narra Beth, suspirando cansada.
— E o que aconteceu com você depois? Soube que seus colegas não tiveram contato com você por mais de dois anos — relembra Daryl de ouvir sobre os formandos comentado do desaparecimento da garota.
— Como eu já tinha trancado a faculdade, resolvi me afastar. Troquei de celular, apaguei todas as minhas redes sociais e mudei de cidade. Passei dois anos fazendo um intercâmbio em Londres, compondo músicas e me recuperando. Minha mãe me mandava dinheiro mensalmente e eu a ajudava com a suas músicas. Depois de assistir a um seminário seu aleatório na internet, decidi retornar para Nashville e recomeçar minha vida de onde eu tinha parado, mas dessa vez, seguindo pelo caminho que eu realmente desejava seguir.
Beth finaliza sua narrativa, exibindo um sorriso orgulhoso em seu rosto.
Daryl observa sua aluna por alguns instantes e sorri, assentindo. Mesmo que seu coração estivesse furioso por imaginar o quanto aquela doce e energética garota sofreu nas mãos do ex-namorado, ele também estava orgulhoso de como ela foi capaz de superar seu passado, lutar para se redescobrir e trilhar o seu próprio destino.
— Você fez bem. Mesmo não sendo fácil, você se esforçou e trabalhou mais do que ninguém para se tornar essa mulher inspiradora, que foi capaz de se reencontrar e seguir atrás de seus sonhos. Estou orgulhoso de você, Beth — afirma Daryl.
Ele dá um sorriso sincero que faz o coração de Beth se agitar e as lágrimas caírem sem que tivesse qualquer controle.
Ele não havia a desprezado. Daryl não a olhou com pena. Ele ficou furioso por ela. Seu professor a ouviu e ficou ao seu lado sem julgamentos. E ele estava orgulhoso. Daryl reconheceu seus esforços como ninguém antes o fez.
Pela primeira vez em sua vida, ela ouviu as palavras que sempre desejou ouvir ao contar sua história. Beth não desejava a pena das pessoas. Tampouco o desprezo e o olhar de julgamento delas. Ela queria que se orgulhassem por ela ter sido capaz de se reerguer e reconhecer que ela se esforçou para seguir em frente.
E ali estava Daryl, dando o seu melhor sorriso e afirmando que ela se saiu bem. Sem julgamentos ou opiniões de como teriam agido se estivessem em seu lugar. Então, tudo o que ela conseguia fazer era se entregar ao choro de alívio. Feliz, por finalmente se ver livre do peso que carregava em seu coração.
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