Além das Palavras

15 Poems on Several Occasions


Eles permanecem se encarando em estado de choque por alguns instantes. Em suas mentes passava o pensamento de aquele encontro ser apenas uma ilusão criada em suas cabeças para suprir o desejo de se ver para explicar o que acontecia.

Para eles, simplesmente não fazia sentido que existisse uma coincidência tão grande quanto a deles se encontrarem justamente naquela livraria. Ainda assim, seus corações apertados pela saudade, sentem uma imensa felicidade por finalmente estarem diante um do outro.

Beth se dá conta de que continuava agachada no meio do corredor e se levanta imediatamente, sentindo-se envergonhada. Ela ajeita as roupas que usava e encara o homem com um leve sorriso.

— Olá, professor!

— Que surpresa te ver aqui — comenta Daryl, dando um sorriso discreto. — Já faz algum tempo desde que nos vimos.

Nesse momento, Daryl nota que Beth abraçava um livro de capa bastante familiar. O livro “Por Quem os Sinos Dobram” se encontrava em suas mãos e ela o apertava como se fosse um bem precioso.

“Será que ela leu o meu artigo?”, pensa Daryl, observando o livro com curiosidade. “Eu realmente quero perguntar, mas não quero parecer cheio de mim. Eu não deveria mencionar, certo?”

Ao notar o olhar de Daryl sobre o livro, Beth percebe que o homem provavelmente havia reconhecido o título. As bochechas geralmente alvas se tornam extremamente vermelhas.

— Ah, eu... eu li o seu artigo e fiquei curiosa para ler esse livro — explica Beth, encarando o livro em suas mãos. — Foi uma matéria muito boa. A forma como fez a crítica me deu curiosidade de ler a história.

— Oh, certo. Fico feliz que a minha crítica tenha inspirado você a ler esse livro — conta Daryl, sorrindo. — Uma curiosidade é que foi a partir de um belíssimo texto de John Donne, que o escritor Ernest Hemingway, encontrou inspiração para o título do seu romance “Por Quem os Sinos Dobram”. O texto faz parte de “Meditações”, de onde foi extraído o trecho que abre o romance de Hemingway, eternizando-o e o fazendo ser um dos textos literários mais conhecidos da atualidade.

Beth se sente bem ao ver a animação de Daryl ao contar sobre os livros. No momento em que estava entretido com o assunto, o homem mais se assemelhava a uma criança, diante da felicidade em compartilhar curiosidades sobre o hobbie que ele tem maior amor.

Era incrível como os olhos azuis de Daryl brilhavam ao falar sobre as histórias que leu. Em nada parecia com o homem sério e distante, que Daryl se tornava quando estava em aula. E mesmo admirando a postura madura do professor, Beth se sentia ainda mais atraída com esse outro lado do homem.

— Eu me lembro que o senhor fez uma crítica sobre “Meditações”. Foi um livro realmente incrível — conta Beth, sorrindo.

— Você leu? — repete Daryl, surpreso. A loira assente. — De fato, “Meditações” é um texto de uma beleza rara, que transporta o homem em um universo que o coloca no centro de um oceano, mas que o revela que a grandiosidade da saga humana está na quebra da solidão, porque somos os nossos amigos, o rompimento da nossa solidão. Somos o gênero humano, exaltado pela vida e diminuído apenas pela morte. E... desculpa. Estou falando demais.

— Está tudo bem — garante Beth, alargando o seu sorriso. — É divertido e fascinante ouvir sua visão das obras clássicas. Além de me inspirar a ler, também me faz entender a profundidade dos textos.

— É um alívio que não fique entediada com a minha falação exagerada — comenta Daryl, dando um sorriso sem graça.

— De forma alguma. Eu realmente acho interessante. Inclusive, se não for pedir muito, poderia me recomendar mais alguns livros? — pede Beth, ansiosa para ouvir e ver a animação do professor ao recomendar algum livro novo.

— Claro. Será um prazer — garante o professor, soando mais animado do que ele gostaria.

E assim como sempre aconteciam quando começavam a conversar, enquanto trocavam experiências e recomendações de livros, Beth e Daryl nem mesmo notaram o tempo passar. Era divertido como eles se interessavam pelos mesmos assuntos e tinha tanto em comum para conversar.

Ao terminarem as compras de livros, eles deixam a livraria em um clima estranho. Não queriam se despedir, mas ambos tinham compromisso e estavam envergonhados demais para revelar que estavam se divertindo com a presença do outro.

Daryl confere as horas e se assusta com o horário. Não esperava que tivesse se passado tanto tempo na livraria. Seu plano inicial era dar uma rápida passada na livraria, comprar o livro de seu professor, ir para casa descansar um pouco e depois ir para o shopping, mas tudo mudou ao notar que ele passou cinco horas conversando com Beth sem nem mesmo perceber.

“Ah, o que eu faço agora? Não tem muito tempo até o filme começar”, reflete Daryl, encarando Beth. “Eu preciso ir, mas não parece certo deixá-la ir assim”.

Beth também confere as horas e assim como Daryl se surpreende ao ver que já era tão tarde. Sua reação não passa despercebida por pelo professor que a observa com curiosidade.

— Parece que você tem planos para agora — comenta Daryl, atraindo a atenção de Beth. — Vai se encontrar com alguém?

— Ah, não. Não é isso. É só que está quase na hora de começar a sessão do filme que eu comprei para assistir hoje — revela Beth, surpreendendo Daryl.

— Um filme? — murmura Daryl, pensativo.

Mais uma vez, Daryl e Beth são surpreendidos com o fato de que haviam comprado ingressos para o mesmo filme e cinema. Era tão absurda a coincidência, que eles se questionavam como isso era possível. Quais eram as chances disso acontecer em uma cidade com inúmeros cinemas e com vários filmes em cartaz?

E o mais impressionante disso tudo é que mesmo sendo sábado, o movimento do cinema estava fraco. Tudo porque se tratava de um cinema com filmes alternativos geralmente baseados em obras literárias clássicas que quase não atraia a atenção do público, que acabava se interessando mais por filmes com atores mais famosos e enredos mais comuns.

— Aqui. A água que você pediu.

Daryl estende a garrafa de água para Beth, que a pega de forma tímida. Estava envergonhada pela situação e mais ainda por estar tão animada em estar em uma espécie de encontro com Daryl.

Tudo bem que não era um encontro de verdade. Não foi proposital. Ela jamais esperava encontrar o homem naquele dia e menos ainda que passariam tantas horas juntos em uma livraria para encerrarem aquele dia em uma sessão de cinema.

— Ah, obrigada — Beth agradece, pegando a carteira para pagar. — Quanto foi?

— Não se preocupe. É apenas água. Pode ficar — responde Daryl, sorrindo gentil.

O silêncio se faz presente enquanto os dois esperavam a sala do cinema ser liberada. Os dois sentiam uma certa inquietação para continuar a conversa, mas estavam envergonhados demais para terem qualquer ideia de assunto.

— Você gosta desse cinema? — arrisca Daryl, desconfortável com o silêncio.

— Ah, sim. Eu gosto muito — responde Beth, dando um pequeno sorriso. — Você... também gosta, suponho.

— Sim. Eu gosto muito também — concorda o professor, pensativo. — Eu gosto de como é quieto e que só permitem água. Graças a isso, eu não preciso me preocupar com o cheiro de pipoca ou com a bagunça ou barulho que as pessoas costumam fazer durante o filme.

A explicação de Daryl não surpreende Beth. Ela havia notado que o professor era bastante organizado e não era muito tolerante a barulho.

— Mas, você gosta de ver filmes sozinha? — indaga o professor, curioso.

— Eu também vou ao cinema com os meus amigos, mas eles não parecem gostar dos mesmos filmes que eu. Por não querer arrastar eles comigo, então geralmente assisto sozinha — explica Beth, pensativa.

— Eu suponho que as pessoas da sua idade preferem um cinema mais comum com diversas opções de filmes do que um cinema com filmes alternativos como esse.

— É... — responde Beth, hesitante. — Por que você gosta de ver filmes sozinho, professor? Não tem ninguém o acompanhe?

A expressão séria de Daryl faz Beth se arrepender da forma como ela havia o questionado e isso a faz ficar nervosa.

“Ah, estou sendo intrometida?”, pensa com preocupação.

Daryl reflete a pergunta, em busca de uma resposta que não o fizesse parecer um antissocial chato. Não é que ele não tivesse com quem ir. Não queria se gabar, mas muitas mulheres se ofereciam para acompanhá-lo em suas saídas culturais, no entanto, ele preferia a tranquilidade de estar sozinho.

— Eu prefiro assistir sozinho porque é conveniente — responde o homem com sinceridade. — Sendo sincero, eu não gosto muito quando falam comigo durante o filme. Eu perco facilmente a concentração.

“Exatamente a resposta que o ‘Senhor Orgulhoso’ daria...”, reflete Beth, sorrindo por sentir que realmente conhecia o professor.

— Então, você nunca encontrou um aluno aqui antes? — pergunta Beth, curiosa. — Esse cinema já exibiu diversos filmes que precisávamos assistir para suas tarefas durante o semestre.

— Acho que não. Eu não me lembro de ver nenhum estudante de nossa universidade aqui — responde Daryl, tentando lembrar se tinha encontrado algum conhecido nesse cinema. — Mas, senhorita...

— Atenção, as portas da sala estão abertas. O filme começa em cinco minutos — anuncia um funcionário do cinema, surpreendendo o casal.

Os dois se levantam, mas Beth ainda permanecia curiosa sobre o que o professor gostaria de dizer. Gostava quando a conversa entre eles fluía naturalmente e mais ainda quando ele demonstrava ter curiosidade sobre algo relacionado a ela.

— O que você ia dizer, professor? — indaga Beth, encarando o professor enquanto se encaminhavam para a sala.

— Apenas estava curioso para saber o motivo de você gosta desse tipo de filme, já que os jovens da sua idade dificilmente se atraem por filmes e documentários inspirados em livros clássicos, fora as produções baseadas em William Shakespeare.

— Eu não sei explicar. Sempre me vi atraída pelos detalhes singelos dessas obras que fazem uma grande diferença ao assistir. É claro que eu também gosto das grandes produções, mas eu me divirto também com filmes alternativos e nos baseados nos clássicos da Literatura — responde Beth, sorrindo com sinceridade.

Daryl sorri, satisfeito com a resposta da garota. Por algum motivo, se sentia feliz por ela compartilhar de mais um hobbie dele.

Ao entrarem na sala, surpreendem-se ao ver que eles seriam os únicos a assistirem ao filme. De repente, o clima se torna estranho novamente. Mesmo que seus lugares fossem marcados, não havia problemas se sentarem juntos, já que havia tantas opções e ninguém faria realmente questão de brigar com eles.

Ainda assim, Daryl sentia que estava ficando cada vez mais ganancioso. Ele era o ex-professor de Beth e bem mais velho que a garota. Se continuasse a entrar em seu mundo dessa maneira, poderia ser perigoso demais a seu coração.

— Meu lugar é um pouco mais lá embaixo, professor. E o seu? — indaga Beth com ansiedade.

Ela queria se sentar com ele na sala completamente vazia e assistir ao filme juntos. Torcia para que mais uma vez o destino colaborasse com eles. Seria uma chance única de saírem juntos quando o filme acabasse e surgir a oportunidade de jantarem juntos. Beth sabia que estava agindo como uma adolescente imatura diante do “crush”, mas não conseguia evitar esse sentimento.

— Meu lugar é nessa fileira. Espero que você aproveite bem o filme — responde Daryl, surpreendendo a garota.

— Quê?! Ah, sim! Você também, professor — deseja Beth, forçando um sorriso.

Ela observa o homem se dirigir ao lugar que ficava a cinco fileiras acima da dela, sem deixar de sentir a decepção pelo evidente muro erguido pelo professor. Sabia que não poderia esperar que ele correspondesse aos seus sentimentos, mas como uma tola apaixonada, Beth tinha esperanças.

“O que está acontecendo? Eu achei que ele gostaria de sentar junto comigo, já que passamos tanto tempo juntos. Não tem como ele ter feito isso só para bagunçar a minha cabeça e mexer com o meu coração”, pensa Beth. Ela encara o professor e suspira. “Eu devia ter pedido para que ele se sentasse do meu lado? Eu teria sentado atrás dele se soubesse que as coisas terminariam assim.”

Daryl conseguia ver como Beth parecia incomodada e o encarava diversas vezes. Suas expressões pareciam tão adoráveis aos olhos do professor que ele não consegue não sorrir. De repente, ele se sente arrependido de sua decisão. Vê-la tão ansiosa o fazia questionar se não deveria ter se sentado ao lado da garota e ter ignorado todos os alertas racionais de sua mente.

Ele já não tinha mais certeza se conseguiria prestar atenção na sessão e se preocupava em também ter atrapalhado a garota. Mas no instante em que Daryl se preparava para se levantar e se sentar ao lado de Beth, as luzes da sala se apagam e a tela passa a exibir os trailers do filme.

O professor decide acreditar que aquele é um sinal para que ele se mantivesse longe e desiste da ideia de se sentar ao lado de Beth. Precisava aprender a se controlar. Criar sentimentos além de amizade pela garota poderia ser perigoso para os dois lados. Ele precisava evitar se envolver demais com sua ex-aluna, antes que suas emoções acabassem confundindo a admiração da garota por algo mais e ele criasse sentimentos desnecessários.

Felizmente, em poucos minutos, Beth já parecia ter esquecido da situação e era possível ver que estava focada na trama, ao contrário de Daryl, que não conseguiu tirar os olhos da garota nem por um minuto.

“Parece que você está bem concentrada, Beth. É tão adorável como seus olhos brilham diante de algo que chama a sua atenção”, reflete Daryl, sentindo seu coração se agitar. Ele se dá conta de que estava agindo de forma irracional. “E o que eu estou fazendo? Por que não estou prestando atenção ao filme?”

Ele leva a mão aos olhos e os pressiona, tentando colocar algum juízo em sua mente. Daryl não conseguia entender o problema com seu coração, que se agitava tão estupidamente por Beth. Tudo bem que ele a admirava, mas não fazia qualquer sentido suas ações desde que ele a conheceu.

Em algum momento, Beth se vira para encarar o professor novamente. Seus olhos se encontram. Há uma emoção que é difícil de se explicar. Ambos sentiam que seus corações estavam abalados e ansiavam pela presença do outro. E naquele momento, Daryl soube que era tarde demais para ignorar os apelos de seu tolo e irracional coração.

“Não me diga que eu, que já tenho quase quarenta anos, comecei a gostar de uma aluna que tem a idade da minha sobrinha?”, constata atordoado.

Ele se sentia estúpido. Condenava sua mente e seu coração por serem tão irracionais e sem qualquer noção. Ainda assim, todos os sinais sempre estiveram brilhando em sua face, mas como um idiota, ele resolveu ignorar. Sim. Ele estava irremediavelmente apaixonado por Beth Greene.

Notas finais
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