Além das Palavras
13 Never Seek to Tell Thy Love
Notas iniciais

Daryl e Beth permaneceram nos fundos da propriedade dos avós do professor até o amanhecer. Mesmo em meio ao frio intenso, eles se sentiam aquecidos, enquanto conversavam sobre sua infância e momentos felizes de suas vidas que estavam relacionados a literatura.
Ao lado do outro, eles nem mesmo notaram o tempo passar. Tampouco se importaram com o desconforto de estarem sentados no chão, de frente para um riacho durante o inverno. Nada disso tinha importância para eles. Simplesmente era natural que estivessem juntos.
Após assistirem o bonito nascer do Sol, Daryl e Beth resolveram que era hora de voltarem para a residência dos Dixon. Felizmente, por quase todos os membros da família terem extrapolado na bebida e ainda ser muito cedo, o casal conseguiu entrar em casa sem que fossem notados.
Cansados demais para irem atrás de comida, ainda que estivessem famintos, ambos decidiram dormir um pouco. Como planejavam sair um pouco depois do almoço, eles ainda tinham algum tempo para repor as energias.
No entanto, o sono tranquilo não durou muito tempo, visto que sempre quando reunidos, os Dixon tinham o costume de festejar. Assim, quando se passava de um pouco mais das nove horas da manhã, o som alto despertou o casal que dormia tranquilamente em seus respectivos quartos.
Daryl não se importou tanto. Estava acostumado com os hábitos festivos da família, assim, conseguiu ignorar por mais algum tempo a música em volume excessivo e as conversas altas que mais parecia se tratar de brigas, se não fosse pelas risadas exageradas. No entanto, Beth não conseguiu evitar o susto.
Surpresa pelo som inesperado invadindo a casa, ela se levanta do colchão improvisado onde dormia e olha em volta, buscando pelas primas de Daryl e as duas crianças que dormiam no quarto quando ela se deitou, no entanto, tudo o que encontrou foram camas vazias e vários lençóis espalhados pelo quarto.
Ainda muito sonolenta para se levantar, a garota verificou as horas em seu celular e respondeu as mensagens da mãe e da irmã. Vendo que ainda era relativamente cedo para um domingo, resolveu aproveitar a calmaria do quarto para repassar as lembranças do dia anterior que passou ao lado de seu professor.
Em alguns dias, eles seguiriam suas vidas como estranhos, já que ela não teria mais nenhuma matéria com o homem durante o restante da faculdade. Daryl era um professor de matérias bases da Literatura Inglesa. Como já havia chegado na metade do curso, sabia que dificilmente o teria como professor novamente.
Ao constatar esse fato, Beth sente seu coração se apertar. Se conhecia bem o bastante para saber que a timidez a faria hesitar em se aproximar do homem. E agora que sabe quais são seus verdadeiros sentimentos por Daryl, seria ainda mais complicado fingir que ele era apenas mais um professor que ela admirava.
Um suspiro escapa dos seus lábios no momento em que a porta é aberta com calmamente. A loira se surpreende e ergue o olhar, encontrando a mãe de seu professor, que também se assusta ao ver que Beth já havia acordado, apesar de seus esforços para entrar no quarto em silêncio.
— Oh, querida. Bom dia! Já acordou? — questiona Viola, dando um bonito sorriso.
— Bom dia — cumprimenta a loira, observando a mulher abrir as cortinas do quarto para que a claridade entrasse. — Já tem um tempinho que eu acordei, mas confesso que fiquei com um pouco de preguiça de me levantar.
— Eu entendo. Nesse clima mais frio, é ótimo ficar debaixo das cobertas — comenta Viola com humor.
Ela passa a dobrar os lençóis bagunçados pelos quartos. Beth também se levanta e passa a ajudar, mesmo que a mãe de seu professor insistisse que ela não precisava fazer nada.
— É o mínimo que posso fazer, depois de permitirem que eu participasse da festa de vocês e ainda dormisse aqui — argumenta Beth, arrumando as camas.
— À propósito, sinto muito pelo que aconteceu ontem. Merle passou muito dos limites e você deve ter ficado bastante desconfortável com a situação. Eu também não sei como foi sua conversa com Daryl, mas espero que ele não tenha te machucado ainda mais. Ele pode ser bastante... cruel quando está com raiva — explica morena, suspirando. — Como pode esses dois serem tão diferentes, mesmo quando eu tentei o meu melhor para educá-los de maneira igual?
— Não se preocupe, Viola. Eu não fiquei chateada e não levei as palavras de Merle para o coração. Confesso que fiquei surpresa, mas ele estava bêbedo e o professor Daryl já havia me contado que o irmão mais velho dele poderia ser complicado — garante Beth, tranquilizando Viola. — E quanto ao professor... bem, ele foi um perfeito cavalheiro. Em momento algum ele foi desrespeitoso.
— Entendo. Bem, imagino que vocês tenham se divertindo bastante, já que vocês chegaram apenas ao amanhecer — comenta Viola, sorrindo maliciosa.
O rosto de Beth ganha uma coloração extremamente avermelhada e ela é incapaz de rebater ao comentário da mulher, envergonhada demais para abrir a boca. Nada do que Viola insinuava tinha acontecido, mas o fato de ser pega pela mãe de seu professor quanto a ter chegado de madrugada com ele, deixava a garota sem jeito o bastante para até mesmo esclarecer o mal-entendido.
— Não... aconteceu nada... demais — murmura a loira, vendo que a sua falta de resposta deixa Viola ainda mais animada. — Apenas passamos a madrugada inteira conversando de frente ao riacho.
— Fico feliz que você esteja apaixonada por Daryl — fala Viola, voltando a dobrar os lençóis.
— O... quê...? — balbucia Beth, envergonhada. — Não é...
— Não precisa mentir para mim, querida. Posso ver que você gosta de Daryl desde o momento em que eu te vi. Seus olhos brilham quando conversa com ele e durante a festa de ontem, você não conseguia tirar os olhos dele.
— Não acha ruim o fato de eu ser uma aluna dele?
Viola recolhe as roupas sujas jogadas no chão e encara Beth com um sorriso gentil. Entendia a preocupação da garota. Na verdade, a loira não era a primeira aluna de Daryl que ela viu se apaixonar por ele, mas ao contrário das outras vezes, Viola sentia que dessa vez, o sentimento era recíproco.
— Bom, você é uma mulher de vinte e cinco anos, enquanto Daryl tem trinta e oito. Apenas treze anos de diferença. Não vejo nenhum problema quanto a isso, afinal, você é maior de idade. E vocês mesmos não disseram que o semestre acabou e que ele não será mais o seu professor? Se os dois estão solteiros, se gostam e desejam ter um relacionamento, não vejo qualquer problema — retruca Viola com confiança.
Beth se surpreende com o apoio de Viola. De alguma forma, as palavras confiantes da mulher lhe trazem esperança ao seu coração angustiado, que se questionava se seria capaz de confessar seus sentimentos a Daryl e ser correspondida.
— Agora vá tomar café da manhã, antes que a comida esfrie — orienta a morena, na porta do quarto. — E não se preocupe demais. Tenho certeza de que tudo irá se resolver. Se tiver que acontecer, não há nada e nem ninguém que possa impedir o amor de vocês.
Beth agradece ao conselho de Viola e observa a mulher sair. A garota permanece mais alguns minutos refletindo sobre as palavras da mãe de seu professor e decide que confiaria no destino. Ao contrário de seu relacionamento anterior, ela deixaria tudo acontecer naturalmente.
A garota decide se arrumar e desce para tomar café da manhã. Daryl não demorou a aparecer, sorrindo aquela forma que fazia o coração da garota se agitar. O sorriso é correspondido de maneira tímida, mas eles não têm tempo de conversar, pois logo se tornam alvos das provocações dos primos de Daryl.
Depois de todo o caos que aconteceu no dia anterior, a esposa de Merle se desculpou com Beth e Daryl, além de exigir ao marido que implorasse perdão pelo comportamento desnecessário do homem. À contragosto, Merle se desculpou, mas não permaneceu na casa dos avós.
Sentindo-se humilhado pela forma fria que estava sendo tratado, Merle vai embora com a esposa e a filha mais nova antes mesmo do almoço. O clima permaneceu estranho por alguns minutos, mas logo, todos estavam envolvidos nas conversas e risadas ao se entreterem com as histórias da família.
— Espere um pouco, você é cantora? — questiona Linda, enquanto todos conversavam diante da lareira, esperando o almoço ficar pronto.
— Sim — confirma Beth, envergonhada. — Na verdade, eu sou compositora, mas pretendo me especializar para me tornar uma cantora profissional. Por enquanto, sou uma cantora amadora.
— Nesse caso, você tem que cantar para nós — afirma Paris, animada.
— Ah, eu não sei — fala Beth, envergonhada.
— Vamos lá, Beth. Nós temos que ouvir seu talento. Daryl elogiou tanto a sua escrita. Aposto que você é uma ótima cantora — insiste Linda, encarando Beth com expectativas e isso a deixa mais nervosa.
— Vocês estão colocando muita pressão em Beth — repreende Daryl, colocando a mão sobre o ombro de Beth. — Não se sinta obrigada. Se você não quiser cantar, não precisa se forçar a fazer isso.
— Você fala como se a gente estivesse colocado uma arma na cabeça dela e a obrigado a cantar, Toupeira — retruca Adam, encarando o primo com uma expressão risonha.
— É quase isso. Vocês são irritantes e a Beth é educada demais para negar um pedido de vocês. Então eu tenho certeza de que ela vai fazer mesmo contra a vontade dela, então não insistam, se ela diz que não quer — responde Daryl e os primos do rapaz passam a rir, divertindo-se com sua defesa a aluna.
— Certo, certo — resmunga Whitney, encarando Daryl com diversão. — Muito bem, Beth. Não precisa cantar se não quiser. Mas, seria muito legal cantarmos ao lado da lareira, ao som de violão, não acha, Toupeira?
— Pelo menos ia passar o tempo de maneira mais divertida, enquanto o almoço não fica pronto — concorda James, esperançoso.
— Temos violão aqui? — pergunta Beth, curiosa.
— Sim. Daryl sempre gostou de tocar violão, então ele era e Hannah eram os nossos cantores antigamente — conta a avó de seu professor com um sorriso nostálgico.
— Eu não sabia que você tocava violão, professor — comenta Beth, encarando Daryl com animação.
— Eu toquei um pouco na adolescência com a Hannah, mas não era tão bom assim e já esqueci de tudo o que aprendi, já que faz anos desde que toquei da última vez — responde o professor, envergonhado.
— Ele está se fazendo de humilde. O Toupeira tocava muito bem — garante Hannah, sorrindo nostálgica.
— Somente quando vocês tocavam era que o Toupeira interagia com a família — provoca Travis, rindo. Ao receber o olhar repreendedor da avó, o rapaz se encolhe. — Mas ele tocava bem.
— Por que a Beth não canta e o Daryl toca? — sugere Will, animado ao imaginar a apresentação dos dois.
— Excelente ideia — concorda Viola, entrando na sala com uma caneca na mão. — Eu coloquei a carne para assar e Madeleine está cuidando da comida. Então, enquanto esperamos, por que não aproveitamos uma apresentação de qualidade?
Daryl e Beth se encaram. Eles se sentiam ansiosos e envergonhados. Queriam realizar esse dueto, mas temiam que não conseguissem realizar uma boa apresentação. No entanto, antes que eles argumentassem com Viola, Sharon aparece na sala com o violão que Daryl não tocava há anos.
— Aqui, tio Daryl.
Sharon entrega o instrumento ao homem, que o pega surpreso.
— Era tão divertido quando você tocava, tio Daryl. Então, por favor, toca de novo. Por favor! — implora a sobrinha do professor com os olhos brilhando. — Eu também eu quero muito ouvir você cantar, Beth!
E diante de todos os olhares cheios de expectativas dos Dixon e principalmente de Sharon, Daryl e Beth não tiveram escolha além de aceitar. Sendo quase o completo oposto de seu pai Merle, Sharon tinha conquistado Beth com sua doçura e era como uma filha para Daryl. Eles não conseguiam negar nada aos seus olhos azuis brilhantes.
— Certo. Que música vamos cantar? — questiona Beth, encarando Daryl com curiosidade.
— Por que não escolhemos alguma que seja sua composição e você me ensina os acordes? — sugere Daryl, um pouco mais conformado com a situação.
Beth sorri e concorda, feliz por cantar com Daryl uma música que ela mesma compôs. Era algo que ela jamais imaginou que poderia acontecer e sabia que dificilmente teria uma nova oportunidade.
A música escolhida por Beth foi “Julie”. Era uma canção divertida, com acordes simples, além de que sabia que seria também fácil para a família aprender e cantar junto com eles. Também era uma música que ela compôs com a ajuda da mãe, então mesmo que a letra não tivesse esse sentido, “Julie” tinha um ar familiar para Beth.
Como era de se esperar, assim que Daryl passou a tocar de forma hábil, Beth se viu envolvida naquele clima agradável e passou a cantar com animação. Rodeada de pessoas divertidas, ao lado de uma lareira que os aquecia do intenso frio, ela se sentia em casa. Era confortável e feliz.
Daryl também se sentia bem ao compartilhar aquele momento tão divertido com sua família e Beth. Era como se tivesse evaporado todas as preocupações que carregava em seu coração desde que a mãe o obrigou a ir para Atlanta. Estava verdadeiramente feliz naquele momento. Como nunca sentiu antes.
Ele também se sentia encantado. A voz de Beth o hipnotizava e ela parecia brilhar enquanto cantava. Fazendo o que ele achava ser impossível, a garota conseguiu se tornar ainda mais bonita, enquanto interpretava a canção de sua autoria.
E o clima entre os dois não passou despercebido pela família Dixon, que encantava com a sintonia do casal. Para eles, era evidente que os dois se gostavam, mas conheciam Daryl o bastante para saber que por causa de suas convicções, dificilmente ele aceitaria seus sentimentos.
Ainda assim, todos torciam para que Beth fosse capaz de mudar Daryl. Sabiam o quanto ele se prendia e se cobrava. Talvez, a garota fosse quem ele precisava para o libertar de seus traumas e finalmente se entregasse ao amor.
Após o almoço, Beth e Daryl decidiram que era hora de volta. Com o inverno, a estrada ficaria ruim de dirigir ao final do dia e o percurso era longo. Além disso, a mãe de Beth já estava preocupada com a filha.
A despedida foi recheada de abraços e promessas de retorno breve. E o restante do caminho foi marcado por um silêncio confortável e o gosto agridoce do turbilhão de sentimentos que carregavam em seus corações.
Por um lado, se sentiam felizes e encantados pelo fim de semana mágico que tiveram. Por outro lado, sentiam a insegurança os dominarem pela incerteza de como ficaria seu relacionamento, agora que não teriam mais as aulas como desculpa para se encontrarem.
Mesmo assim, esperavam que, assim como nas outras vezes, o destino que os espera possa trazer todas as respostas que precisam para acalmar seus corações ansiosos e apaixonados.
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