Além das Palavras

14 For Whom The Bell Tolls


Duas semanas se passaram desde que Beth retornou de Atlanta. Exatamente duas semanas que ela não vê Daryl e que sente seu coração ansioso pela falta de contato com o professor. Era como se faltasse algo de fundamental em sua vida.

Beth encara a janela da sala e observa o céu nublado. Ela não tinha dúvidas que em poucas horas, a cidade estaria coberta pela neve. O dia estava incrivelmente frio e melancólico.

Um suspiro escapa de seus lábios, enquanto a garota desiste de continuar encarando o cenário sombrio que se fazia naquela manhã de sábado. Não tinha muito o que fazer e estava sozinha em casa. Beth também não sentia ânimo de sair ou mandar mensagem para qualquer amigo ou para os irmãos.

A garota se dirige a cozinha, onde prepara cereais com leite para tomar como café da manhã. Ela escuta o barulho típico do jornal batendo em sua porta e decide se levantar para pegar a correspondência e se colocar a par das notícias do dia.

Poderia assistir televisão ou acessar a internet, como qualquer outro jovem do século vinte e um faria normalmente. No entanto, Beth sempre preferiu o tradicional. Livros físicos ao invés de e-books, dicionários e enciclopédias da biblioteca ao invés dos sites de buscas e o jornal de papel ou rádio ao invés da televisão ou internet.

Beth coloca a tigela de cereais sobre a mesa de centro da sala e vai até a porta de entrada da casa, onde pega o jornal e se senta no tapete felpudo da sala. Após algumas colheradas do cereal, Beth abre o jornal e passa a ler as notícias até chegar na parte e entretenimento.

— Ah, é o artigo do professor Daryl — murmura Beth com a colher na boca.

Ela coloca o talher de volta na tigela e ajeita a própria postura, ansiosa para ler a resenha que o professor faria naquele dia. Amava ler as críticas que o homem costuma escrever no jornal todos os sábados. Era sempre inspirador e a incentivava a conhecer mais livros, que geralmente não ganham tantos destaques.

— Parece que hoje é sobre John Dunne — destaca Beth, sorrindo. — Por Quem os Sinos Dobram. Vamos ver o que ele tem a dizer desse livro.

Beth inicia a leitura da coluna dedicada a fazer resenhas de livros quase desconhecidos ou que são pouco apreciados pelos jovens hoje em dia. Um sorriso se faz presentes nos lábios da garota.

“A escrita dele é sempre concisa, mas nunca perde seu faro poético. Por isso que é tão bom”, pensa Beth, terminando de ler a crítica. “Definitivamente, o professor Daryl é um bom homem para ser capaz de escrever palavras tão bonitas. A escrita tende a refletir o eu verdadeiro das pessoas”.

A loira coloca o jornal de volta a mesa de centro e observa a foto do professor ao lado de seu nome. As memórias da visita a casa da família do homem retornam a sua mente e um sorriso nostálgico se faz presente.

Nem faz tanto tempo assim que se viram e ela sentia falta do professor. Muita falta. Ao ponto de se ver várias vezes diante da porta do escritório de Daryl, ponderando se deveria entrar, mesmo que não tivesse qualquer assunto concreto para tratar com o homem, para no fim desistir sem nem mesmo tentar.

— Você é ridícula, Beth. Ridícula! — resmunga Beth, jogando seu corpo para trás.

A loira encara o teto da sala e se lembra das palavras doces usadas por Daryl para descrever o livro que recomendava para essa semana. Por algum motivo, sentiu um enorme desejo de conferir aquele livro que foi tão elogiado pelo professor.

Beth confiava no bom gosto do professor para a leitura. Durante esses anos que ela vem acompanhando as recomendações semanais de Daryl, ela nunca tinha se decepcionado com o que leu e inclusive, era a grata a ele por recomendar tantos livros incríveis.

Assim, determinada a comprar a nova recomendação de Daryl, Beth termina seu café da manhã e vai se arrumar para ir à livraria onde costumava ir para comprar seus livros. Se sentia muito mais animada ao pensar que teria mais um assunto para discutir com o professor, quando o encontrasse pelo campus da faculdade.

Naquele dia, Daryl também se encontrava melancólico pelo clima frio. Desde que retornou da cidade de sua família, não foram poucas as vezes em que ele se pegou passando horas pensando em Beth e relembrando os momentos que passou ao lado da garota enquanto estiveram viajando.

Ele não sabia explicar o que sentia e era estranho como eles conseguiam se conectar tão bem quando juntos. Nunca tinha se sentido assim antes com qualquer aluno. Eles compartilhavam de gostos e experiências parecidas. Possuíam um amor pela Literatura que ele jamais compartilhou antes com alguém.

Batidas na porta o despertam de seus devaneios. Ao permitir a entrada do visitante, Daryl se surpreende ao ver seu antigo mentor. Theodore se aproxima da mesa de seu ex-aluno, dando um sorriso gentil.

— Bom dia, Daryl — cumprimenta o homem com o seu típico sorriso caloroso. — O dia hoje está tão frio. Pensei que trabalharia em casa. Me surpreendi quando Archie me contou que você estava no seu escritório.

— Bom dia, professor Theodore. Eu precisei me encontrar com alguns alunos que me pediram ajuda no TCC — conta Daryl, levantando-se para preparar o chá para servir ao professor e a si mesmo.

— Não sabia que você pegou a matéria de orientação de conclusão de curso nesse semestre — comenta Theodore com curiosidade.

— Não peguei. O coordenador até me ofereceu, mas já estou com seis matérias. Não consigo dar atenção para uma matéria que exigiria maior atenção da minha parte — explica Daryl, colocando as folhas de chá no bule. — Eu apenas tirei algumas dúvidas e dei algumas sugestões aos alunos que escolheram fazer o trabalho de conclusão com o tema Literatura Inglesa.

— Entendi — responde Theodore.

Daryl termina de preparar o chá e orienta Theodore a se sentar no ambiente de recepção de sua sala. Ele serve a xícara de seu antigo mentor, oferece alguns cookies e se senta no sofá de frente para o homem, servindo-se em seguida.

— Obrigado.

— Não foi nada. Espero que esteja de seu agrado, professor Theodore.

— Com certeza, está. Você sempre levou muito jeito para preparar chá. Foi por sua causa que eu viciei em chá na época em que eu me tornei seu orientador — relembra Theodore, dando uma risada anasalada nostálgica.

— É bom ouvir que o senhor, que sempre teve uma grande resistência, passou a apreciar um bom chá assim como eu — comenta Daryl, pegando sua xícara de chá.

Após ele dar um gole na bebida quente, o professor suspira e coloca a xícara de volta ao pires. Daryl observa Theodore por alguns instantes e não precisa de muito para saber que o homem não tinha ido apenas fazer uma visita casual.

— E então, professor Theodore, como eu posso te ajudar?

— Não posso apenas fazer uma visita amigável a um ex-aluno? Preciso ter um motivo para vir ao seu escritório?

— Não é necessário, mas eu o conheço o bastante para saber quando suas visitas possuem a intenção de ser apenas um encontro amigável. Nesse momento, posso ver que está escolhendo sabiamente as palavras que usará para me informar sobre algo que está o incomodando — retruca Daryl, bebendo mais um pouco de chá.

— Certo. Nada passa de forma despercebida por seus olhos de águia.

Theodore ri e toma mais um pouco de chá, saboreando o sabor cítrico e o aroma refrescante e doce do limão com pêssego. Por alguns instantes, o homem pondera se realmente deveria se envolver na vida de Daryl. Mesmo sendo próximos, ele temia ultrapassar o limite e quebrar a confiança que demoraram a construir nesses anos em que eles se conhecem.

— Seu pai me contou que você levou uma aluna para passar dois dias com sua família em Atlanta e até mesmo se envolveu em uma briga com Merle para defender a garota — comenta Theodore, surpreendendo Daryl. — Mas o que me chocou ainda mais foi descobrir que essa aluna se tratava de Beth Greene.

— Não sei o que eu deveria dizer ao senhor, professor Theodore — responde Daryl, assim que se recupera da surpresa. Ele toma mais um gole de chá e encara o homem com seriedade. — Também não sei dizer se o senhor veio me repreender ou fazer como meu pai e começar a me parabenizar, mesmo eu dizendo que nosso relacionamento se resume a sermos professor e aluna.

— Não estou em posição de repreender ou parabenizar, Daryl. Ambos são adultos e não cometeram nenhum crime. Mas me preocupa como essa história pode acabar. Mesmo que não tenham feito nada de errado, muitas pessoas verão a relação de vocês com maus olhos e poderão fazer comentários que poderá machucar vocês — responde Theodore, suspirando.

— As outras pessoas verão com maus olhos ou o senhor? — retruca Daryl, deixando Theodore sem palavras. — Não duvido de suas boas intenções, professor Theodore. Eu o conheço há anos e sei que é um grande amigo do meu pai. Por isso, sei que apenas deseja o meu bem, mas também tenho consciência do seu apego ao passado.

— Não é assim, Daryl...

— A senhorita Greene e eu não estamos namorando. Nosso relacionamento até o momento é extremamente respeitoso e de amizade. Posso talvez ter extrapolado ao levá-la até Atlanta, mas tive minhas razões para isso e ela recebeu a aprovação da família, mesmo não sendo menor de idade. Além disso, sobre a briga, o senhor deveria saber melhor do que ninguém que minhas desavenças com Merle existem desde que éramos crianças. Nós teríamos brigado mesmo se a senhorita Greene não estivesse.

— Eu... entendo — concorda Theodore, envergonhado pela forma como foi repreendido por seu ex-aluno.

Daryl não mentiu e ficou evidente que ele passou dos limites ao comentar sobre o caso. Não deveria ter se intrometido, mesmo que tivesse as melhores intenções. Ele conhece o rapaz o suficiente para saber que ele sempre se colocou em modo defesa quando sentia que sua privacidade era invadida.

— Sinto muito. Não deveria ter comentado — lamenta o professor, envergonhado. — Eu apenas estava preocupado com você. Nunca se sabe o que o destino nos reserva. Beth é uma aluna excelente e poderia muito bem fazer um intercâmbio com o Zach e...

— E o senhor acredita que ela poderia voltar para o ex-namorado e supostamente me deixar — Daryl completa a sentença com um gosto amargo na boca. — Professor Theodore, mesmo que a senhorita Greene voltasse com o seu ex-aluno, eu não teria nada a ver com isso. Como eu disse, nós somos apenas amigos. Talvez nem mesmo isso, considerando o nosso nível de intimidade.

O silêncio se faz presente. Nada é dito, mas parecia que ambas as partes tinham mais a se dizer. Mesmo assim, Theodore sabia que não poderia insistir mais no assunto. Daryl provavelmente se irritaria ainda mais se ele tentasse se explicar. Guardaria suas opiniões para si mesmo e torceria para que essa história se desenrolasse sem que mais corações se machucassem.

— Certo. Desculpe. Vamos esquecer essa história — responde Theodore, dando um sorriso forçado. Daryl assente. — Li a sua coluna de hoje. Foi uma crítica e tanto. Estou pensando seriamente em voltar a ler “Por Quem os Sinos Dobram”.

— Obrigado, professor.

Daryl se sentia aliviado pela mudança de assunto. Respeitava Theodore e sempre foi muito aberto a seus conselhos. No entanto, ouvir a menção do nome de Beth o deixou extremamente sensível.

— Ah, certo. Poderia me fazer um grande favor?

— Claro, professor Theodore — concorda Daryl, curioso.

— Eu não consegui comprar o livro do seu pai nas últimas semanas. Se não for muito incomodo, poderia passar na livraria próxima a sua casa e comprar o livro para mim? — pede o homem, sorrindo esperançoso.

— Posso sim. Sem problemas. É caminho mesmo. Posso passar por lá quando sair daqui. Eu entrego para o senhor na segunda-feira — responde Daryl, recolhendo as xícaras vazias que estavam sobre a mesa de centro.

— Certo. Muito obrigado. Eu vou embora agora. Vou para a casa da família da minha esposa e só volto amanhã à noite. Me mande mensagem informando o valor do livro que eu lhe faço a transferência — informa Theodore, levantando-se do sofá. — Bom descanso e até segunda-feira.

— Até mais, professor.

Daryl observa o professor sair e suspira. Por algum motivo, aquela conversa havia despertado muito sentimentos negativos e incomodado seu coração. Então, buscando esquecer esses pensamentos incoerentes, Daryl resolve terminar de arrumar seu escritório e seguir para a livraria.

Ele já tinha atendido todos os alunos com quem marcou no dia e, por ser sábado, Daryl tinha a liberdade para trabalhar em casa ou na faculdade. Então, ele não demora muito para arrumar suas coisas e deixar o prédio universitário.

O caminho até a livraria foi feito sem que o homem notasse. Com sua mente perdida em pensamentos e o corpo funcionando em modo automático, foi surpreendente para Daryl quando viu o letreiro bonito da livraria próxima a sua casa.

Após estacionar o carro e se agasalhar bem para enfrentar o frio intenso que se fazia na, Daryl entra na livraria e suspira aliviado ao sentir o aquecedor do lugar amenizar o frio que fazia.

Ao encarar a prateleira com os livros mais vendidos da semana, Daryl sorri ao reconhecer o último lançamento do pai. O sentimento de orgulho invade seu peito, enquanto pega um dos livros expostos para comprar ao professor.

— Se tonou um Best Seller mais uma vez — murmura, encarando a capa do livro. — Nosso grande Will D. Bruce realmente nunca falha.

“Isso me lembra de Beth. Ela ficará feliz em saber que o seu autor favorito conseguiu realizar esse feito mais uma vez”, pensa Daryl, imaginando a reação da garota.

Sentia uma imensa vontade de ligar para ela e usar o sucesso do livro do pai como desculpa para falar com a garota.

“Mas parece estranho que eu ligue apenas por isso...”, pondera novamente, sentindo-se como um bobo por não saber como agir. “É melhor não ligar. Posso criar uma situação estranha para nós. É melhor eu só procurar por mais livros”.

Enquanto anda pelas prateleiras da livraria, Daryl nota uma garota abaixada, procurando algum livro na parte debaixo da prateleira daquela sessão. O professor para de andar e nota que não conseguiria continuar o percurso.

“Parece que terei que voltar e começar pelo outro lado”, pensa Daryl, vendo que a garota provavelmente demoraria para perceber que atrapalhava o caminho. No entanto, o perfil do rosto concentrado da garota chama sua atenção. “Ela parece um pouco familiar...”

— Beth Greene?

A garota desvia o olhar dos livros para ver quem a chamava. Beth arfa ao reconhecer Daryl e, inconscientemente, abre um pequeno sorriso, feliz por encontrar o homem que vagava em seus pensamentos naquele momento.

— Professor Daryl? — balbucia Beth, ainda surpresa. — O que faz aqui?