Além da vida
9 Renesmee- Conexão
A manhã ainda estava apenas começando, mas minha mente já estava cheia de perguntas e incertezas. Eu precisava me aproximar de Seth, mas a questão era como.
Deixei a lanchonete para trás e caminhei pelos corredores, ignorando os olhares curiosos que me seguiam. Era inevitável — as pessoas sempre me olhavam como se estivessem vendo um fantasma. Não era surpresa, considerando a semelhança entre mim e Eva. Respirei fundo e continuei andando até chegar à sala da direção. As secretárias estavam conversando quando me aproximei, mas assim que me viram, suas conversas cessaram, e ambas sorriram, educadamente.
— Precisa de alguma coisa, senhorita Cullen? — perguntou uma delas, com um tom profissional, mas carregado de curiosidade.
Eu sorri de volta, tentando parecer natural, embora meu coração estivesse acelerado.
— Na verdade, sim. — Me aproximei um pouco mais do balcão. — Estou procurando pelo doutor Clearwater. Sabe onde eu poderia encontrá-lo?
As duas secretárias se entreolharam antes de uma delas responder.
— A sala dele fica no terceiro andar, ala oeste. — Ela olhou o relógio rapidamente. — Mas agora ele deve estar na sala dos médicos. Ele sempre descansa lá antes do almoço.
Assenti, agradecida.
— Obrigada. Vou ver se consigo encontrá-lo.
Ela me deu as direções e eu segui para o elevador, minha mente já correndo em busca de uma desculpa para entrar na sala dos médicos sem parecer suspeita. Não queria levantar mais suspeitas do que já havia, mas precisava falar com Seth.
Ao sair do elevador, segui as orientações até encontrar a sala dos médicos. Inspirei profundamente e empurrei a porta com cuidado. Lá estava ele. O doutor Seth Clearwater, deitado em um dos sofás, parecendo relaxado. Ele levantou a cabeça ao me ver e ficou surpreso, levantando-se rapidamente.
— Nessie? — Ele piscou, ainda confuso. — O que está fazendo aqui?
Eu sorri, tentando disfarçar a tensão que crescia dentro de mim.
— Ah, desculpa! — murmurei, fingindo hesitação. — Eu estava procurando pelo meu pai, Edward. Você o viu por aí?
Seth sorriu, um pouco mais à vontade, e se levantou por completo, ajustando o jaleco.
— Não, não o vi. Mas estou surpreso em te ver por aqui. Pensei que não gostasse muito de hospitais.
— Bom, precisava me distrair de algumas coisas. Meu pai teve uma reunião aqui, então acabei vindo junto. — Dei de ombros, tentando parecer casual, mesmo com o olhar dele pesando sobre mim.
Ele era gentil, como sempre, mas algo na maneira como ele me olhava me incomodava. Talvez fossem as memórias de Eva, ou talvez fosse apenas minha própria insegurança. De qualquer forma, eu não podia recuar agora.
— Está com fome? — Seth perguntou, de repente. — Estava indo almoçar daqui a pouco. Se você não tiver outros planos, podemos ir juntos.
Eu hesitei por um segundo, mas então percebi que essa era minha chance. Se precisava me aproximar de Seth e descobrir mais sobre sua ligação com Eva, aquela era a oportunidade perfeita.
— Almoçar seria ótimo. — Sorri, mesmo que meu estômago estivesse em um nó. — Não tenho outros planos por enquanto.
Seth sorriu de volta, genuinamente, e eu soube que ele não tinha a menor ideia do que se passava na minha cabeça.
— Ótimo! Vamos então. Eu conheço um lugar aqui perto que serve uma comida incrível.
Ele se virou para pegar suas coisas, enquanto eu tentava acalmar os pensamentos que me atormentavam. Iríamos almoçar juntos, e eu precisava ser esperta. Cada palavra, cada gesto, poderia me aproximar das respostas que eu tanto precisava.
Enquanto saíamos da sala e seguíamos em direção ao elevador, eu não pude deixar de me perguntar: quão profunda era a conexão de Seth com Eva? E quão longe eu teria que ir para descobrir tudo?
Seth me levou para um restaurante pequeno e aconchegante a algumas quadras do hospital. O tipo de lugar que eu jamais teria notado se estivesse andando por ali sozinha. As paredes eram de madeira escura, decoradas com quadros antigos de paisagens, e o cheiro de comida fresca pairava no ar. Havia uma tranquilidade ali que contrastava com o agito do hospital. As mesas de madeira eram simples, mas bem cuidadas, e o lugar parecia ser frequentado por poucos clientes locais, o que deixava o ambiente ainda mais acolhedor.
Sentamos em uma mesa próxima à janela, com vista para a rua. O sol filtrava-se pelas cortinas leves, criando um clima de fim de tarde, mesmo que fosse hora do almoço. Seth parecia à vontade ali, o que me fez pensar que ele provavelmente vinha com frequência.
— Este lugar é um dos meus favoritos — disse ele, com um sorriso tranquilo. — O cardápio é pequeno, mas tudo o que eles fazem aqui é bom.
Eu sorri de volta, tentando acompanhar o tom leve da conversa, mesmo que minha mente estivesse distante.
— Parece ótimo — respondi, enquanto folheava o cardápio, sem prestar muita atenção nas opções. Eu precisava me concentrar na conversa, mas a presença de Seth, a forma como ele falava e o lugar me faziam sentir... estranha. Como se eu já tivesse estado ali antes.
Seth começou a falar sobre o trabalho no hospital, as dificuldades e alegrias de lidar com os pacientes, e eu tentava parecer interessada, mas algo não estava certo. O cheiro, o ambiente, a companhia... tudo isso estava mexendo comigo de uma forma que eu não conseguia controlar.
De repente, uma imagem surgiu na minha mente, tão vívida que me fez perder o fôlego. Eu estava naquele mesmo restaurante, mas não era eu. Era Eva. E Seth estava lá também, sentado à minha frente, sorrindo de um jeito que parecia íntimo demais. A cena era clara: eles estavam em uma conversa séria, e eu — ou melhor, Eva — estava tentando terminar algo. Ela dizia que o que tinha acontecido entre eles havia sido um erro e que não poderia se repetir. Seth estava frustrado, sua voz cheia de emoção, declarando que não a perderia e que lutaria por ela. Eles pareciam tão próximos, tão conectados. E então, ele se inclinava sobre a mesa e a beijava, e ela retribuía, apesar de toda a sua resistência inicial.
Meu coração começou a acelerar, e eu tentei afastar a lembrança, mas ela era tão forte, tão real, que eu mal conseguia respirar. As palavras de Seth no presente começaram a se misturar com as da memória, criando uma confusão dentro de mim que eu não sabia como lidar.
— Nessie? — A voz de Seth me trouxe de volta à realidade, e eu percebi que estava apertando a borda da mesa com força. — Você está bem?
Eu olhei para ele, tentando focar no presente, mas as memórias de Eva ainda estavam muito vivas na minha mente. Seth percebeu que algo estava errado e, sem hesitar, estendeu a mão por cima da mesa, segurando a minha.
— Sua mão está fria — disse ele, com preocupação evidente na voz. — Você não parece bem.
Eu respirei fundo, tentando encontrar uma desculpa, algo que pudesse justificar o que estava acontecendo comigo sem entregar que as lembranças de Eva estavam tomando conta. Mas era difícil me concentrar com o toque de Seth e as emoções confusas que sentia — minhas e de Eva, se misturando.
— Eu... acho que não estou me sentindo muito bem — murmurei, tentando soar convincente. — Você poderia me levar para casa?
Seth assentiu imediatamente, sem questionar. Ele pagou a conta rapidamente e me ajudou a levantar. O restaurante, que antes parecia acolhedor, agora parecia pequeno e sufocante. Eu precisava sair dali, longe das memórias que não eram minhas, longe das emoções que não conseguia controlar.
— Vamos — disse Seth, guiando-me para fora, sua mão ainda firme no meu braço enquanto me conduzia pela calçada. Eu sabia que ele estava preocupado, mas mal conseguia olhá-lo agora, com todas as lembranças de Eva entre nós.
E enquanto caminhávamos de volta ao hospital para pegar o carro, eu me perguntei o que mais eu descobriria sobre o passado de Eva — e, principalmente, sobre a relação dela com Seth.
Quando chegamos de volta ao hospital, vi meu pai na recepção, com o semblante mais carregado do que o normal. Percebi de imediato que havia cometido um erro ao não avisá-lo para onde tinha ido. Ele sempre foi superprotetor, mas desde que voltei, a preocupação dele parecia ter aumentado, como se ele estivesse constantemente esperando que algo desse errado.
Assim que ele me viu ao lado de Seth, se aproximou com passos rápidos, o rosto já transparecendo a tensão que sentia.
— Onde você estava? — A voz de Edward soou grave, e por um momento, eu senti o peso de sua preocupação me sufocar. Não sabia que ele ficaria tão preocupado assim com uma simples ausência.
Antes que eu pudesse responder, Seth se adiantou, tentando acalmar a situação.
— Eu a levei para almoçar. Nessie não estava se sentindo muito bem, então achei que uma pausa ajudaria. — Seth manteve a voz baixa, tentando parecer tranquilizador, mas eu percebi o leve desconforto nele. Ele sabia que Edward não gostava muito da ideia de ele estar tão próximo de mim.
O olhar que meu pai lançou a Seth foi rápido e duro. Parecia um aviso silencioso de que ele não aprovava aquela situação. Então, voltando-se para mim, Edward me estendeu as chaves do carro, sua expressão imperturbável.
— Espere-me no carro, Nessie. — O tom era firme, sem margem para discussão.
Suspirei, cansada. Não estava em condições de discutir ou contrariar meu pai. O desconforto que senti durante o almoço ainda estava presente, então apenas assenti e segui para o carro, tentando não pensar muito no que acabara de acontecer.
Entrei no carro e me sentei no banco do carona. Fechei os olhos, respirando fundo, tentando controlar a sensação de ansiedade que parecia crescer dentro de mim. Meu coração ainda batia descompassado, e por mais que eu tentasse, não conseguia afastar as imagens de Eva e Seth da minha cabeça. Aquelas lembranças não eram minhas, mas o impacto que elas tinham em mim era avassalador.
Minutos depois, ouvi a porta do carro se abrir, e meu pai entrou no banco do motorista. Eu o observei de relance, notando a rigidez em seu rosto, a tensão nas mãos que apertavam o volante. Ele estava irritado, isso era óbvio. O silêncio entre nós era pesado, quase sufocante.
Tentei quebrá-lo.
— Está tudo bem? — perguntei, tentando parecer tranquila, mas minha voz saiu mais hesitante do que eu gostaria.
Edward me olhou com uma expressão séria, os olhos intensos como sempre, mas desta vez havia algo a mais. Um tipo de preocupação que eu raramente via nele. Ele respirou fundo antes de falar, como se estivesse escolhendo bem as palavras.
— Você está proibida de se aproximar de Seth Clearwater novamente.
As palavras foram um soco. Fiquei imóvel por alguns segundos, tentando processar o que ele acabara de dizer. A proibição soava definitiva, como se ele soubesse de algo que eu não sabia.
— O quê? — balbuciei, sem entender por que ele estava tão enfático sobre isso. — Pai, eu só almocei com ele. Não é nada demais.
Edward me encarou, seus olhos brilhando com uma intensidade que me deixou desconfortável.
— É mais sério do que você imagina, Nessie. Seth não é quem você pensa que ele é.
Eu abri a boca para retrucar, mas as palavras não saíam. O que ele queria dizer com aquilo? Eu só queria me aproximar de Seth para entender mais sobre Eva, mas havia algo na forma como meu pai falava que me deixava alerta, como se ele soubesse muito mais do que estava disposto a contar.
— Pai, o que você quer dizer com isso? — perguntei, finalmente encontrando a voz.
Ele desviou o olhar por um momento, como se estivesse considerando até onde poderia ir com essa conversa.
— Seth teve uma conexão muito forte com Eva. — Sua voz era baixa, quase um sussurro, mas cheia de significado. — E não é uma boa ideia para você se aproximar dele.
Meu coração disparou de novo, mas dessa vez por uma razão diferente. Havia algo a mais nessa história, algo que eu ainda não compreendia completamente. Olhei para o rosto de meu pai, tentando decifrar o que ele estava escondendo, mas ele já havia fechado qualquer brecha, seus olhos voltando a se fixar no volante.
O silêncio voltou a dominar o carro, e eu sabia que essa conversa não estava nem perto de acabar.
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