Além da vida
5 Bella- Vinte e dois anos.
Notas iniciais
Sentada no sofá de couro escuro, observei minha filha respirar fundo, os olhos semicerrados enquanto Nahuel a guiava mais uma vez por suas memórias. Esse processo era sempre delicado. Nessie lutava contra as lembranças que não eram suas, tentando não ser tomada pelo passado de Eva. Eu sabia que era doloroso para ela, mas não tínhamos escolha. Precisávamos que ela conseguisse controlar essas memórias, para que sua vida não fosse uma extensão da vida de alguém que já não estava mais aqui.
Nahuel mantinha a voz calma e constante, como sempre fazia durante as sessões.
— Respire, Nessie. Deixe a memória fluir sem resistir. O que você vê agora?
Nessie estava pálida, as mãos agarradas ao tecido da cadeira, mas sua voz saiu firme, ainda que trêmula.
— Estou dirigindo... Estou em uma estrada... há um carro na minha frente.
Ela fechou os olhos com mais força, e eu prendi a respiração, temendo o que viria a seguir. Nessie vinha evitando falar sobre Claire desde a festa, mas o encontro havia mexido com ela de uma forma profunda. Eva estava mais presente em suas memórias do que nunca.
— Quero ultrapassar esse carro... — continuou Nessie, a voz ficando mais tensa. — Eu preciso evitar que essa pessoa chegue até Jacob. Ela... ela vai contar algo a ele, e eu não posso permitir!
Ela respirou fundo, seus olhos se movendo sob as pálpebras fechadas como se estivesse vivendo aquela cena de novo. Minha garganta estava seca, e Edward, ao meu lado, apertava minha mão, igualmente preocupado. Nahuel observava com paciência, esperando que ela continuasse.
— Tento ultrapassar... mas vem um caminhão na direção oposta... Está muito perto! — Nessie começava a ficar ofegante, e o desespero em sua voz era palpável. — Buzino para o carro da frente, tento voltar para a minha pista... Mas ele não me deixa! Ele não me deixa voltar!
Ela começou a tremer, e uma lágrima solitária escorreu por seu rosto.
— Grito... Grito e... — Sua voz quebrou quando finalmente murmurou as palavras que me rasgaram por dentro. — Bato no caminhão.
Nesse instante, os olhos de Nessie se abriram bruscamente, arregalados de terror. Ela estava ofegante, o corpo rígido de tensão. Eu me aproximei imediatamente, me ajoelhando ao lado dela, enquanto Edward se inclinava, as mãos apoiadas em seus ombros. Ela começou a soluçar.
— Eu vi... Eu vi o acidente, mãe! — disse ela entre lágrimas, a voz embargada de dor. — Eu vi o acidente que matou Eva!
Eu a envolvi em meus braços, puxando-a para perto de mim. Sua cabeça desabou no meu ombro enquanto ela chorava descontroladamente. Edward estava ao nosso lado, segurando-a com firmeza, tentando transmitir o máximo de calma e segurança possível.
— Está tudo bem, Nessie. Estamos aqui com você — murmurei, passando a mão por seus cabelos. — Você está segura agora.
— Eu não... eu não sabia que seria assim... Eu... eu senti tudo, mãe! — Nessie soluçava. — O medo... o desespero... Eu tentei salvar Jacob de alguma coisa, mas... eu morri! Eu morri naquele carro!
Edward trocou um olhar comigo, sua expressão era séria, mas também cheia de preocupação. Sabíamos que essa memória estava enterrada profundamente na mente de Nessie, um fragmento da vida de Eva que ela não havia enfrentado até agora.
— Isso foi no passado, Nessie — Edward sussurrou, sua voz suave e cheia de carinho. — Não é sua memória, é a de Eva. Você está aqui, viva. E nós vamos superar isso juntos.
Ela chorou por mais alguns minutos, até que sua respiração começou a se acalmar. Eu sabia que essa memória seria uma cicatriz emocional para ela. As marcas do passado de Eva pareciam profundas, e, às vezes, quase insuportáveis. Mas Nessie era forte. Ela enfrentaria isso, assim como sempre fez.
— Eu não quero que essas memórias me controlem... — murmurou ela, a voz fraca. — Mas às vezes é tão difícil separar o que sou eu e o que é ela.
— Você vai conseguir — disse Nahuel, que observava a cena com serenidade. — Você já está conseguindo. Cada vez que enfrenta essas lembranças, está tomando o controle de volta. Elas são parte de você, mas não definem quem você é.
Nessie assentiu, ainda nos meus braços, e eu senti seu corpo relaxar aos poucos. Edward e eu trocamos um olhar silencioso, ambos compartilhando a mesma preocupação: o encontro com Claire havia precipitado algo que talvez ainda não estivéssemos prontos para lidar.
*******
Dois anos se passaram, e Nessie, agora com 22, havia amadurecido de forma impressionante. O peso das memórias de Eva ainda estava presente, mas ela havia aprendido a lidar melhor com elas, exceto pela lembrança do acidente. Aquela memória, em particular, era a que mais a assombrava. Nessie tinha certeza de que Eva não havia morrido em um acidente comum. Havia algo mais, algo que Eva queria evitar que Jacob soubesse. A imagem do carro que a jogou contra o caminhão não saía da mente de Nessie, e ela estava decidida a descobrir quem estava por trás daquilo.
Nahuel havia realizado várias sessões de regressão, mas a identidade da pessoa no carro permanecia oculta, um trauma profundo que bloqueava aquela lembrança. Nahuel acreditava que poderia ser impossível para Nessie acessá-la, mas ela não desistiria. E agora, após anos de tentativas de manter Nessie na Holanda, Edward finalmente cedeu e concordou em deixá-la voltar para Seattle, para o hospital de Carlisle. A mudança traria desafios, e um deles era o inevitável encontro com Jacob.
— Você tem certeza de que está pronta para essa viagem? — perguntei, enquanto estávamos sentados na sala de estar. Edward estava ao meu lado, observando atentamente a filha, como sempre fazia quando havia uma decisão importante a ser tomada.
Nessie assentiu com firmeza, mas havia uma sombra de incerteza em seus olhos.
— Eu estou, mãe. Já passou da hora de voltar. Eu sei que lidar com Jacob não vai ser fácil, mas... — ela suspirou. — Eu preciso enfrentar isso. Não posso ficar fugindo para sempre.
Eu troquei um olhar com Edward. Sabíamos que essa mudança seria uma nova etapa na vida dela, mas também seria cheia de desafios.
— Concordo que você está pronta para voltar — disse Edward, com a voz calma, mas firme. — Mas, Nessie, precisamos ser cautelosos. Ninguém pode saber sobre as memórias de Eva, muito menos o que você suspeita sobre o acidente.
Nessie franziu a testa.
— Você acha que alguém pode ficar me observando?
— Não sabemos — falei, tocando a mão dela gentilmente. — Mas se Eva realmente foi assassinada, a pessoa responsável pode tentar algo se souber que você está investigando o passado dela. Não podemos correr esse risco. É por isso que precisamos ser extremamente cuidadosos.
— Precisamos de sigilo absoluto sobre o que você está descobrindo — acrescentou Edward. — Nem mesmo Jacob pode saber... ainda.
Nessie assentiu lentamente, refletindo sobre o que estávamos dizendo. Ela sabia que havia um perigo potencial envolvido, e essa era uma das razões pelas quais tínhamos relutado em deixá-la voltar.
— E quanto a Nahuel? — ela perguntou, mudando de assunto. — Ele vai para Seattle comigo?
Edward balançou a cabeça.
— Nahuel tem muitos pacientes na Holanda. Ele só irá se for absolutamente necessário. Ele acredita que você já está bem avançada no controle das memórias, e acha que essa última lembrança do acidente pode levar tempo... ou talvez nunca seja lembrada.
Nessie suspirou, um tanto desapontada, mas compreendia.
— Eu só espero que eu consiga... saber quem estava naquele carro — murmurou ela, a determinação em sua voz era evidente.
— Você conseguirá, filha. No seu tempo — assegurei, apertando sua mão. — Mas... você também precisa estar preparada para algo mais.
— O que seria? — perguntou Nessie, arqueando uma sobrancelha.
— O encontro com Jacob — respondi, minha voz suave, mas direta. — Eu sei que vai ser inevitável, e eu sei o quanto isso pesa para você. Ainda que você esteja lidando bem com as memórias de Eva, encontrar Jacob... pode despertar coisas em você que você não está esperando.
Nessie mordeu o lábio inferior e olhou para as mãos, claramente refletindo sobre isso. Por mais que ela tivesse amadurecido, o vínculo com Jacob era algo que sempre a tocava de maneira profunda.
— Eu sei, mãe. E eu acho que estou pronta — disse ela, olhando para mim e para Edward. — Eu não posso mais fugir desse encontro. E, seja o que for que Eva tenha escondido de Jacob, eu preciso descobrir... e ele também precisa saber.
Edward e eu trocamos olhares preocupados. Sabíamos que essa volta para Seattle significaria um confronto inevitável com o passado de Eva e, talvez, com perigos que ainda não tínhamos considerado.
— Nós estamos aqui por você, Nessie. Sempre — disse Edward, a expressão séria, mas o amor por nossa filha evidente em seus olhos. — Apenas... tenha cuidado.
Nessie assentiu, determinada.
— Eu vou, pai. Prometo.
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