Além da psicologia

23 Diferente por não ser igual


Notas iniciais
Sei que estou devendo mais capítulos de O jogo, para quem está acompanhando, mas agora o povo da escola me lugou e fica pedindo pra eu fazer contos sobre eles. Acho que vou começar a cobrar. Da ultima vez minha colega pediu pra eu escrever aobre ela e o professor de química. Eu até postei no site; quem quiser ler, se chama A química da química.

Diferente por não ser igual

No meio de uma multidão de milhares de cabeças iguais, havia uma diferente.

No meio de trilhões de neurônios, havia uma parte que trabalhava para uma mente disperça, desatenta e impulsiva. Um conjunto de neurônios que formavam um cérebro "defeituoso".

E esse pequeno cérebro "defeituoso", entre os milhares de outros cérebros "normais" na multidão, era de um garoto de doze anos. E ele seguia a multidão com passos curtos, mas rápidos.

Seus pés estavam no chão, mas seus pensamentos viajavam pelo espaço onde havia milhões de coisas interessantes. E centenas de teorias eram criadas em um segundo por aquela cabeça que foi inúmeras vezes julgada "incapaz".

Enquanto caminhava, suas mãos se mexiam nervosamente. Virava a cabeça várias vezes para observar ao redor e ver milhares de pessoas olhando fixamente para frente e andando com passos calculados. Eram todos iguais. Mas o menino não. Ele parava, observava... Dezenas de perguntas lhe pertubavam de uma vez só e depois sumiam dando lugar a um inexplicável branco e àquele péssimo momento de frustração em que se forçava para lembrar o que estava pensando segundos antes. E isso acontecia com frequência, para piorar.

Quando a multidão parou, o garoto se inquietou. Bateu os pés no chão e esperou por um movimento.

Nada.

Como aquilo era sufocante! Ficar em pé, parado, olhando para a mesma direção. Que agonia ele sentia! Que vontade de cutucar alguém para conversar sobre suas loucas ideias que o atormentavam e lhe tiravam o sono a noite. Que força incontrolável lhe pressionava da cabeça aos pés para sair correndo.

E era por isso que era diferente. Porque não conseguia ser igual. Porque não prestava atenção no que as pessoas falavam. Porque tinha uma curta memória. Porque se frustava rápido. Porque, segundo as outras milhares de pessoas, ele não era inteligente. Porque enquanto a inteligência das pessoas for definida em exames escolares, garotos como ele serão apenas idiotas.

E, parado, no meio daquelas cabeças iguais e normais, se sentiu um intruso. Por que não conseguia ser como os outros? Por que todos os seus projetos iniciados raramente eram terminados? Por que não conseguia fazer uma coisa de cada vez? Por que tinha que fazer tudo ao mesmo tempo como se não se contentasse apenas com uma tarefa? Por que, às vezes, não queria fazer nada?

E aquele cérebro peculiar dentre os outros milhares era alvo de estudos científicos. A medicina queria saber, a psicologia queria saber, a pedagogia queria saber, mas ninguém tinha conhecimento completo sobre aquele cérebro diferente.

Apenas ele sabia. Apenas o menino sabia de tudo. E não precisava da medicina, da psicologia ou da pedagogia para lhe dizer que era um gênio. Ele sabia disso. A cada fracasso, descobria mais de si.

E aquele garoto cresceu. Recebeu ajuda daqueles normais da multidão e seguiu em frente com a cabeça erguida, com seus pensamentos dispersos e suas mãos inquietas. Se perdeu algumas vezes pelo caminho devido a falta de atenção e sua impulsividade.

Mas ele era um gênio por ser diferente.

E ele sabia disso.

E milhares de outras pessoas sabiam disso.

E ele era um gênio.

Mas também, no meio daquela multidão, havia um segundo garoto que tinha um cérebro igual ao do primeiro.

E ele também era um gênio por ser diferente no meio dos iguais.

Mas ninguém soube disso já que sua cabeça, seus pequenos neurônios e ele, não foram percebidos pelo resto da multidão.

Esse segundo garoto era um gênio, mas ele não sabia disso. A medicida, a psicologia, a pedagogia não buscou conhecê-lo.

Ele era um gênio e não sabia. Então ninguém soube.