Além da psicologia

11 Crise pós "Eu te amo"


Notas iniciais
Ui, sei que passei bastante tempo sem postar, mas não tive nenhum comentário nos últimos capítulos então fiquei desanimada, mas aí vai mais um.

A voz de Filipe ecoava na minha cabeça enquanto tentava dormir.

"Eu te amo".

Ele realmente me amava? Pode parecer estranho (tudo em mim é estranho), mas por causa da minha fobia social, a frase Eu te amo era um desafio e tanto pra mim. O que me tranquilizava era que teria consulta com Liliane no dia seguinte.

Acordei cedo, como sempre e dia de consulta. Mas era domingo, e acho que Liliane era a única psicóloga no universo que fazia consulta aos domingos.

Vi a hora em meu celular 7:30. Mas tinha 5 ligações de Filipe. Cinco ligações??? Todas antes das seis. O que Filipe queria comigo de manhã cedo?

Arrumei-me e fui ao consultório.

– O que houve? — perguntou Liliane ao me ver. Deveria estar com uma cara horrível.

– Vamos conversar.

Entrei e sentei no sofá. Nunca sentava no sofá nas consultas, sempre na cadeira, mas minha cabeça rodava naquela manhã.

– Vish... Se Karine Amaral está propondo uma conversa séria, acho que é sério mesmo.

Não me movi.

– Falei com sua mãe sexta — ela continuou. — Ela disse que você estava há um mês sem crises. Fiquei feliz por você.

Permaneci imóvel. Ela se sentou ao meu lado e me abraçou.

– Conte-me o que a aflige. Outra crise de TAS? Algum problema no baile de ontem? Você sabe que...

– Um garoto me beijou – soltei friamente cortando-a. Ela ficou surpresa.

– Ele meio que... Forçou você a beijá-lo ou...

– Não. Ele não me forçou.

Minha psicóloga piscou e, pela primeira vez, a deixei sem palavras.

– A gente foi ao baile juntos – contei. – Foi divertido, dançamos, conversamos... Depois fomos para casa comer um lanche. Conversamos e ele me deu um beijo.

Soltei as palavras tão rapidamente e Liliane apenas me observou.

– Você gosta de...

– Sim – a cortei novamente. – Quer dizer, sei lá. Ele é um ótimo garoto, mas não foi o beijo que me deixou perturbada.

– O que, então?

– Ele olhou pra mim e disse: Eu te amo. Amo você Karine, como nunca amei oura garota.

Liliane franziu o cenho.

– Ele disse isso mesmo?

– Sim. E... E... E eu não soube o que fazer! Apenas minha mãe dizia que me amava e eu quase nunca respondia. É difícil formar a frase. Eu... Te... Ah!

– Eu sei. Uma limitação sua.

– Sempre limitação – sussurrei e enterrei o rosto nas mãos. Mas não queria chorar.

– Não fique chateada. Eu compreendo você.

– E se eu magoá-lo?

– Tenha uma conversa com ele, Karine. Se ele ama você realmente, vocês vão se acertar.

– Mas nós não estamos brigados. O problema é comigo. Estou perdida!

Liliane suspirou.

– Tenho certeza que você vai saber o que fazer.

Mas eu não sabia o que fazer.

Cheguei na escola no dia seguinte e vi Filipe logo na entrada com uma cara brava e batia o pé impacientemente no chão.

– Por que você não atendeu minhas ligações? – ele questionou bravo.

– Você me ligou às cinco e meia!

– Ás sete, às duas e às oito da noite também!

– Desculpa, eu estava nervosa.

– Nervosa? Por que você estaria nervosa?

– Pelo o que aconteceu sábado.

Ele ficou em silêncio.

– Você era meu melhor amigo – disse. – Mas aí parece que as coisas mudaram.

– Pensei que você gostasse de mim.

– Mas eu gosto.

– Então qual é o problema?

O sinal tocou antes que eu formulasse uma resposta.

– Vamos para a sala – chamei.

Ficamos sem nos falar durante as aulas. Eu tinha tinha que resolver tudo na hora do intervalo.

Passei um bilhete para ele:

Atrás da biblioteca, na hora do recreio. Te vejo lá.

Ele olhou para mim e assentiu.

Na hora do intervalo, fui para trás da biblioteca. Era o ponto cego da escola, sem muito fluxo de alunos nem funcionários e nenhuma câmera. Privacidade total.

– O que foi, Karine? – ele perguntou tedioso ao me ver.

– Primeiro você diz que me ama, agora fica com raiva de mim?!

– Você não me compreende!

– Como não compreendo? Pelo menos entenda meu lado!

– Seu lado? Karine, o que eu fiz pra você, de verdade?

– Me deixou confusa. Olha, pra mim é difícil ouvir ou dizer eu te amo.

– Por quê? – Ele cruzou os braços depois de tirar os óculos.

– Você teria de ser sociofóbico para entender.

– Ah, culpa dos transtornos...

Ele baixou a cabeça e a sacudiu.

– Filipe, isso é uma limitação minha. Eu queria ser uma garota normal, mas...

– Você é uma garota normal. Acha que quando estou perto de você eu enxergo seus problemas psicológicos? Eu quero você e não eles!

– Filipe, eu estava há um mês sem nenhuma crise, mas aí você me beija e confunde toda minha cabeça!

– Ah, então sou eu o culpado da sua crise?

– Eu não disse isso!

– Mas foi o que eu entendi!

Já estávamos gritando um com o outro. O que eu queria mesmo era abraçá-lo.

– Você quer um tempo? – ele perguntou depois de um longo suspiro.

– Não.

Aproximei-me dele e toquei seus braços descruzando-os.

Ele desviou o olhar de mim.

– Você me pediu para não sermos rótulos – sussurrei.

Ele olhou para mim. Os lindos olhos azuis... O cabelo castanho encaracolado... Os músculos definidos em um corpo alto e esbelto.

Diferente de qualquer nerd magrelo.

Então eu fiz algo que nunca tinha feito antes. O beijei. Nunca havia beijado um garoto antes, eles sempre me beijam primeiro.

Filipe escorregou as mãos por minha cintura e me abraçou apertando-me conta ele. Enterrei as mãos nos cabelos dele, mas nosso momento perfeito foi interrompido por risadas de moleques da nossa sala.

– Olha só, a transtornista com o nerd! – provocou um garoto seco e feio.

– Não enchem! – gritou Filipe.

– Ui, ui... Tá nervosinho? Cuidado para não ser contaminado pela síndrome do pânico.

E eles saíram rindo.

– Seus virgens! – gritou Filipe antes deles partirem.

Eles se voltaram e cessaram riso.

– O quê? – indagou um dos moleques.

– Você é surdo ou idiota?

– Virgem é você!

– Quem disse? Por que não volta lá e chora com seus amantes seu gayzinho!

– Boiola é você seu fodido!

– Calado, bixinha! – arrisquei uma provocação.

– Vai te foder, descontrolada!

– Melhor ser descontrolada que viadinho.

– Tira a roupa, aí eu te mostro quem é o viado!

– Querido, qualquer merda com pênis pode fazer o que você tá pensando. Fazer sexo não o torna homem.

Ele fez menção de avançar pra cima de mim, mas Filipe o segurou com seus braços fortes.

– Toque nela e você vai morrer virgem.

Ele nos lançou um olhar de ódio e foi embora com os companheiros idiotas.

Sentei-me no chão.

– O que foi aquilo? – perguntei.

– Aquilo o quê?

– Seus virgens.

– Ah... Garotos como eles odeiam ser chamados de virgens.

– Como você sabe disso? Também não gosta de ser chamado de virgem?

Ele riu.

– Não tenho problemas com virgindade. E eu não sou eles.

– Ah, então você não é mais virgem?

– Claro que sou virgem.

Ele sorriu para mim.

– Com quem perderia minha virgindade? – ele continuou. – Sexo só vale se houver amor.

– Tem razão.

Ficamos em silêncio. Ele se aproximou de mim e também sentou no chão. Logo me abraçou.