Além da fronteira
19 18. Sugestão
Renesmee
Se alguém me dissesse, há vinte e quatro horas, que o horror de Monterrey bateria diretamente à porta da mansão onde eu buscava abrigo, eu talvez não acreditasse. Mas o medo tem o seu próprio idioma, e ele foi soletrado em sangue e carne dentro daquela caixa de papelão no quintal dos Black.
As últimas horas foram um borrão de terror sufocante.
O aroma metálico e pútrido que emanava daquela caixa, a visão grotesca da mão decepada de Héctor com o anel de selo no dedo, e cada palavra daquela carta plastificada escrita por Nahuel ecoaram na minha mente como um pesadelo vivo. “Se você não trouxer Santiago de volta... a próxima caixa vai levar a sua cabeça”. A ameaça gélida de que o meu filho seria arrancado de mim para ser entregue aos monstros do cartel destruiu qualquer resquício de controle que eu tentava manter.
A minha visão escureceu naquele mesmo pátio. O ar simplesmente faltou nos meus pulmões, o chão desapareceu sob os meus pés e as vozes trêmulas de Rebecca e Paul desapareceram na escuridão de um desmaio violento.
Quando finalmente voltei à consciência, não estava mais no frio do quintal. Eu estava deitada na cama king-size do quarto de Jacob, envolta pelas cobertas pesadas. Mas o silêncio não durou um segundo.
O quarto estava tomado pela presença avassaladora de Jacob.
Ele ainda vestia o terno escuro sob medida da reunião corporativa, mas a gravata estava entreaberta e os primeiros botões da camisa arrancados. Ele andava de um lado para o outro aos passos largos, como uma fera enjaulada preste a despedaçar as grades. O rosto dele era a imagem pura do ódio descontrolado.
— Filhos da puta! Desgraçados do caralho! — vociferava Jacob, a voz ecoando como um trovão que fazia as janelas de vidro da suíte tremerem. — Como essa porra de pacote passou pelos meus portões?! Eu pago uma fortuna para ter este perímetro blindado e um maldito envelope com pedaço de defunto chega na mão dela?!
Sam e Paul estavam de pé perto da porta, em silêncio, de cabeças baixas, absorvendo a fúria cega do Don.
— Eu vou matar cada um deles! — Jacob esmurrou a mesa de cabeceira de madeira maciça, fazendo a luminária saltar com o impacto. — Se Nahuel Mendoza pensa que vai me mandar pedaços do irmão dele e ameaçar a minha mulher e o garoto dentro da minha casa, eu vou transformar Monterrey num inferno na terra! Eu vou caçar aquele verme até no quinto dos infernos e arrancar a cabeça dele com as minhas próprias mãos!
Pisquei devagar, o meu peito subindo e descendo acelerado enquanto assistia àquele vendaval de palavrões e promessas de morte. O terror que me paralisara momentos antes começou a dar lugar a uma sensação estranha e avassaladora.
Jacob percebeu que eu havia aberto os olhos.
No mesmo segundo, a tempestade gélida no olhar dele deu lugar a uma preocupação desesperada. Ele interrompeu as pragas no meio da frase, ignorou os seus capitães na porta e atravessou o quarto em dois passos, ajoelhando-se ao lado do colchão e segurando o meu rosto com as suas mãos imensas e quentes.
— Nessie... — sussurrou ele, a voz subitamente rouca e trêmula, contrastando brutalmente com a fúria de segundos atrás. — Olhe para mim. Você está bem? Fale comigo, por favor.
Ajoelhado ali, prometendo destruir o mundo por ter permitido que o medo me tomasse, Jacob não parecia o Don temido por Chicago. Ele era apenas o meu protetor implacável. E, mesmo no meio daquele caos sangrento, ao sentir o calor das mãos dele na minha pele, o medo parou de me sufocar.
Encarei os olhos negros de Jacob, buscando o fôlego que o pânico havia me roubado. A palma da mão dele, quente e ligeiramente áspera, acariciava a minha bochecha com uma delicadeza inacreditável para um homem que, segundos atrás, parecia pronto para demolir o prédio inteiro.
— O Mateo... — murmurei, a minha voz saindo fraca, um sopro de desespero subindo pela minha garganta. — Jacob, o meu filho...
— Ele está bem, Nessie — cortou Jacob imediatamente, aproximando o rosto do meu, sem soltar o meu queixo. — O garoto está trancado no quarto de jogos com a Lily e o Quil na porta. Ninguém vai tocar no Mateo. Ninguém vai tocar em você. Você me ouviu?
Olhei por cima do ombro dele. Sam e Paul permaneciam estáticos perto da entrada do quarto, as expressões endurecidas como estátuas de pedra, aguardando o comando final do Don.
— Ele mandou a mão do Héctor... — solucei, permitindo que uma lágrima pesada escapasse e molhasse o polegar de Jacob. — Nahuel matou o próprio irmão e mandou os restos dele para cá. Ele sabe que estou em Chicago, Jacob. Ele vai vir atrás de nós.
— Que venha — rosnou Jacob, a voz vindo do fundo do peito, uma vibração grave e mortal. — Que venha esse desgraçado. Ele não sabe o erro monstruoso que cometeu ao cruzar o meu caminho e colocar o nome de vocês na boca dele.
Ele se levantou da borda da cama, sem deixar de segurar a minha mão, e girou o corpo na direção dos seus dois capitães.
— Sam — ordenou Jacob, a postura ereta, exalando a autoridade máxima do império dos Black. — Ligue para o Jasper agora. Diga a ele para acionar todos os contatos federais e fechar os olhos de qualquer fiscalização nos nossos galpões de armas. Quero os nossos melhores homens posicionados em cada entrada da cidade.
— Já está sendo feito, Jacob — respondeu Sam, a voz firme e disciplinada. — Quil já acionou o patrulhamento em rodízio ao redor da mansão
— Não é só vigilância que eu quero, Sam — rebateu Jacob, os olhos faiscando de ódio. — Quero a cabeça de quem entregou essa porra de pacote nos meus portões até o final da noite. Achem o entregador, achem o carro, achem quem pagou esse filho da puta. E quando acharem... tragam para o meu galpão no porto. Eu mesmo vou fazer o interrogatório.
— Pode deixar, Don Black — assentiu Paul, um sorriso sombrio surgindo no rosto do segurança antes de ele se virar e sair pelo corredor ao lado de Sam
Quando a porta pesada da suíte se fechou novamente, o silêncio voltou a tomar conta do quarto
Jacob virou-se para mim. Ele tirou o paletó do terno, jogando-o de qualquer jeito sobre a poltrona, e desabotoou o colarinho da camisa. Sentou-se na borda do colchão e me puxou para os seus braços sem pedir licença. Envolvi o seu pescoço, escondendo o meu rosto na curva entre o seu ombro e o peito, sentindo o cheiro forte do seu perfume amadeirado misturado ao calor do seu corpo.
— Eu não vou deixar nada acontecer com você, Nessie — jurou ele contra o meu cabelo, os braços apertando o meu corpo contra o dele como se quisesse me fundir à sua própria pele. — Nahuel Mendoza assinou a própria sentença de morte no momento em que mandou aquela caixa. Chicago vai ser o caixão dele.
A porta da suíte foi aberta bruscamente, interrompendo o abraço e a promessa de Jacob. Rachel e Sarah cruzaram o portal, e o ar do quarto ficou saturado instantaneamente por uma tensão familiar sufocante. Era evidente que as duas vinham discutindo fervorosamente por todo o corredor.
Jacob se ergueu do colchão de um pulo, colocando-se na minha frente de forma protetora enquanto me recompunha na cama.
— O que é isso agora? — rosnou Jacob, encarando a irmã e a mãe. — Ninguém sabe bater na porta desta porra de quarto?
— Jacob, não ouça a sua irmã! Ela perdeu completamente o juízo! — esbravejou Sarah, a voz vindo carregada de uma indignação ríspida enquanto ajeitava o seu casaco beige. — A casa caindo, um pedaço de cadáver entregue nos nossos portões, e ela me vem com esse absurdo!
— Absurdo é a senhora continuar cega para a geopolítica deste território, mãe! — rebateu Rachel, dando dois passos largos para dentro do quarto e ignorando a fúria do irmão.
Rachel virou o olhar diretamente para Jacob, a expressão tomada por um pragmatismo gélido que lembrava muito a postura de um estrategista de guerra.
— Você quer salvar a pele da Renesmee e do garoto sem arrastar a nossa família para uma carnificina solitária com o México, Jacob? — disparou Rachel, a voz firme e cortante. — Então se case com ela. Agora.
Um silêncio pesado caiu sobre a suíte. Pisquei, paralisada sob as cobertas, sentindo o meu coração dar uma cambalhota no peito. Jacob congelou no lugar, os ombros largos tencionando enquanto encarava a irmã mais velha como se ela estivesse falando um idioma desconhecido.
— Você enlouqueceu de vez, Rachel? — esbravejou Sarah, apontando para a filha. — Casar o Don de Chicago com a viúva fugitiva de um chefe de cartel mexicano? Isso seria o nosso atestado de ruína! O que os nossos aliados vão dizer?!
— É exatamente pelos aliados que ele precisa fazer isso, mãe! — retrucou Rachel, elevando o tom de voz e dando um passo na direção de Jacob. — Me escuta, Jacob. As famílias aliadas de Chicago e os clãs da Costa Leste não vão mover um único dedo para nos apoiar em uma guerra contra Monterrey se a Renesmee continuar sendo apenas isso... a viúva de Héctor Mendoza que você está escondendo na sua cama. Ninguém vai arriscar homens e dinheiro por uma amante ou por uma refugiada.
Rachel aproximou-se mais do irmão, encarando-o nos olhos com uma frieza calculada.
— Agora, se você colocar uma aliança no dedo dela... se ela se tornar formalmente a senhora Black, a esposa do Don de Chicago... a história muda completamente. Se Nahuel Mendoza tentar tocar na esposa de Jacob Black, ele estará declarando guerra a toda a nossa aliança. As famílias aliadas vão apoiar você, porque nenhuma máfia aceita que um cartel do sul venha matar a mulher de um Don dentro do seu próprio território. É uma questão de honra e de precedentes!
Sarah soltou uma risada sarcástica e inconformada.
— Isso é alucinação, Rachel! Você está sugerindo que o seu irmão dê o nosso sobrenome e a nossa herança a uma mulher que mal conhecemos!
— Estou sugerindo o único movimento político que blinda a Renesmee legal e socialmente perante o submundo! — rebateu Rachel, sem recuar um milímetro.
Olhei para Jacob. Ele permanecia imóvel, encarando o chão do quarto enquanto assimilava o argumento da irmã.
A hesitação no rosto dele era nítida. Jacob me desejava com uma possessividade avassaladora, queria me proteger e me manter sob a sua custódia a todo custo, mas casamento nunca fizera parte dos seus planos imediatos. Ele era um Don que prezava pelo controle absoluto, e transformar a nossa relação em um matrimônio oficial diante de todo o submundo de Chicago era um passo gigantesco e definitivo.
— Jacob... — murmurei, a minha voz saindo fraca do leito, sentindo o peso daqueles olhares sobre mim.
Quando ele ergueu a cabeça, a dúvida havia desaparecido completamente, substituída por um desdém frio e absoluto. Ele encarou Rachel e Sarah com o olhar gélido de quem não aceitava ter os seus passos ditados por ninguém.
— Casamento não é uma opção — declarou Jacob, a voz vindo num tom baixo, grave e categórico que fez o ar do quarto congelar.
— Jacob, você não está enxergando o quadro geral! — insurgiu-se Rachel, dando mais um passo à frente, exasperada. — É a única forma estratégica de envolver os outras mafias e blindar a presença dela aqui sem parecer uma provocação pessoal!
— Eu não dou a mínima para o que as outras famílias pensam, Rachel — cortou Jacob, a voz subindo uma oitava, cortante como uma lâmina. — Eu sou o Don desta cidade. Eu não preciso de uma aliança de papel ou da bênção de famílias aliadas para proteger o que é meu. Se Nahuel Mendoza ou qualquer outro desgraçado tentar tocar na Renesmee, eu destruo quem quer que seja com os meus próprios homens.
Sarah soltou um suspiro audível, cruzando os braços e lançando um olhar vitorioso para Rachel, embora a sua postura continuasse rígida.
— Pelo menos o meu filho ainda preserva um pingo de juízo — comentou a matriarca, a voz gotejando ironia. — Um casamento com a viúva de Mendoza seria uma piada de mau gosto nos círculos de Chicago.
— Cale a boca, mãe — rosnou Jacob, virando-se para Sarah com os olhos faiscando em fúria. — A senhora não está no comando aqui.
Apertei os lençóis com força, o peito subindo e descendo enquanto assistia àquela embate. A palavra minha mulher ecoou no meu peito, carregada daquela possessividade bruta que Jacob exercia sobre mim, mas a rejeição sumária ao matrimônio deixou um gosto amargo e confuso na minha boca.
— Você está sendo orgulhoso e inconsequente, Jacob — insistiu Rachel, mantendo o tom firme, sem se deixar intimidar pelo rosnado do irmão. — Você acha que pode travar uma guerra em duas frentes sozinho? Se você não der a ela o seu sobrenome, para o resto do submundo ela continua sendo uma ameaça mexicana escondida na sua casa.
— Ela está sob a minha proteção, e isso é mais do que suficiente para qualquer um nesta cidade saber que mexer com ela é cometer suicídio — rebateu Jacob, aproximando-se da porta e abrindo-a de par em par. — Essa conversa acabou. As duas, fora do meu quarto. Agora.
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