Além da fronteira
18 17. Sombras do passado
Bella Cullen
O silêncio do nosso apartamento na Upper East Side costumava ser um refúgio, mas naquelas tardes frias de setembro em Nova Iorque, ele se transformava em uma gaiola de vidro. Da janela da sala de estar, eu observava as copas das árvores do Central Park começarem a perder o verde, cedendo aos tons alaranjados do outono.
Um outono que sempre trazia de volta o mesmo fantasma.
O som do piano vindo do estúdio ao fundo do corredor era a única constante na minha vida. Edward tocava uma melodia melancólica, suave e inacabada, uma composição que ele jamais conseguira terminar. Eu sabia o motivo. Cada nota daquela música fora escrita para a memória que nós dois fomos forçados a enterrar.
— Mãe? — a voz grave de Anthony cortou o meu transe.
Virei-me devagar e encontrei o meu filho de vinte anos parado no arco da sala. Anthony tinha a postura ereta e os traços marcantes do pai, mas os olhos... os olhos dele carregavam uma sombra que não pertencia a um jovem da sua idade. Ele cresceu sabendo que faltava um pedaço da nossa família.
— Não ouvi você chegar, querido — disse, forçando um sorriso acolhedor enquanto ajeitava o meu casaco de lã.
— O pai está tocando aquela música de novo — observou Anthony, caminhando até a mesa de centro e deixando as chaves do carro sobre a madeira polida. — Ele passou a noite inteira no escritório olhando para os arquivos antigos, mãe. Vocês dois não conseguem esquecer, não é?
Apertei as mãos uma na outra, sentindo o nó na minha garganta se estreitar.
— Existem coisas que o tempo não consegue apagar, Anthony. Especialmente quando a mente falha em preencher os vazios.
A minha mente. O meu maior pesadelo.
Há mais de duas décadas, a nossa vida foi estraçalhada por um plano sórdido e impecavelmente calculado por Tânia Denali. Movida por uma inveja doentia e por uma vingança cega contra a nossa família, Tânia teceu uma teia de mentiras e armadilhas que nos separou. Ela usou documentos falsos, chantagens e manipulações que fizeram Edward e eu acreditarmos no pior um do outro.
Tomada pelo desespero e por um surto psicótico induzido pelo medo e pelo isolamento, eu fugi de Nova Iorque. Escondi-me sob identidades falsas, cruzando estados rumo ao sul enquanto carregava no meu ventre a filha que eu e Edward concebemos no auge do nosso amor.
O abismo da minha memória começava aí.
Foram meses de escuridão absoluta. Quando Edward finalmente conseguiu desmascarar a armadilha de Tânia e rastrear os meus passos com a ajuda de investigadores, ele me encontrou em uma pequena clínica comunitária à beira do colapso em El Paso, no Texas — a passos da fronteira com o México. Eu estava magra, pálida, com a mente despedaçada e sem qualquer lembrança cristalina daqueles meses de fuga.
E sem a minha bebê.
Quando abri os olhos naquele leito e vi o rosto de Edward banhado em lágrimas ao meu lado, a primeira coisa que perguntei foi pela nossa menininha. Mas ninguém tinha respostas. A única coisa que os médicos locais sabiam era que eu havia dado à luz em algum lugar incerto daquela região fronteiriça, longe de qualquer registro hospitalar oficial, e que a criança não estava comigo quando fui socorrida vagando desorientada.
Nossa filha. Minha garotinha.
Edward e eu gastamos fortunas, contratamos os melhores detetives do país e reviramos a fronteira atrás de uma única pista. Mas Tânia Denali apagou os rastros com precisão diabólica antes de desaparecer no submundo, deixando-nos com a dúvida cruel que corroía as nossas almas dia após dia: a nossa bebê estava viva?
Essa dúvida era o nosso maior remorso. O erro de termos caído na armadilha de Tânia custara a nossa filha e deixara uma cicatriz sangrenta que nem o nascimento posterior de Anthony conseguira fechar por completo.
•••
A mesa de jantar da nossa residência em Nova Iorque exalava a sofisticação fria que a posição da família Cullen exigia. Lustres de cristal iluminavam os pratos de porcelana e os talheres de prata dispostos com perfeição. À cabeceira, Edward mantinha a postura impecável de quem comandava um dos braços mais influentes do submundo da Costa Leste, enquanto Anthony e eu ocupávamos os lugares ao seu lado.
Embora aos olhos da sociedade nova-iorquina fôssemos magnatas do setor imobiliário e do mercado financeiro, a verdadeira natureza do nosso poder estava enraizada no crime organizado. E, naquele ambiente restrito, as conversas de jantar raramente giravam ao redor de frivolidades civis.
— Falei com Carlisle esta tarde — começou Edward, cortando com precisão um pedaço da carne em seu prato e quebrando o silêncio que se instalara. — Ele está finalizando os termos para expandir a nossa rede de distribuição de investimentos para o Centro-Oeste. Ele quer fechar um acordo de cooperação comercial direto com Chicago.
Ergui os olhos do meu prato, prestando atenção. Carlisle, o patriarca e a mente estratégica por trás de todas as nossas alianças continentais, raramente movia peças sem um plano minucioso.
— Chicago? — perguntei, ajustando o guardanapo no colo. — O território dos Black?
— Exatamente — confirmou Edward, tomando um gole do seu vinho tinto. — O controle de Jacob Black sobre o porto e as rotas de trânsito em Illinois é absoluto. Ter o aval dele facilitaria a lavagem de capital na região sem interferências de cartéis rivais. No entanto... a situação por lá acabou de se complicar.
Anthony, que até então ouvia a conversa com a atenção típica de quem estava sendo treinado para assumir o império logo após o próprio pai, inclinou-se ligeiramente para a frente, curioso.
— Complicar como, pai? Alguma rusga com o governo? — indagou o meu filho.
— Não com o governo — respondeu Edward, a voz baixando para um tom mais grave e analítico. — Com o México. Nossos informantes na fronteira relataram que a tensão entre o império dos Black e a alta cúpula de Monterrey atingiu o ponto crítico. Aparentemente, Jacob Black acolheu alguém que o novo chefe de Monterrey quer ver morto a qualquer custo. O ambiente em Chicago está extremamente instável; fala-se abertamente nos bastidores de que uma guerra entre a máfia de Chicago e o cartel mexicano pode estourar a qualquer momento.
Anthony soltou uma risada curta, balançando a cabeça com um entretenimento debochado.
— Ah, a famosa guerra de Chicago... — comentou o jovem, pegando o celular sobre a mesa e deslizando os dedos pela tela com um sorriso cínico. — Se os relatórios do avô Carlisle falam de instabilidade, a mídia e as páginas de fofoca do submundo só falam de uma coisa sobre o Don de Chicago esta semana.
Olhei para o meu filho, franzindo o cenho de leve.
— De que você está falando, Anthony?
— Você não viu, mãe? — disse Anthony, virando a tela do aparelho na minha direção, mostrando a foto de um portal de notícias de bastidores e colunas sociais do crime organizado. — Teve o baile de aniversário de quinze anos da sobrinha do Jacob Black no fim de semana passado. A imprensa cobriu a entrada dos convidados de elite, e as redes tão fervendo.
Edward olhou para o filho com um toque de severidade no olhar.
— Anthony, fofocas de tabloides não nos interessam quando estamos discutindo a segurança dos nossos negócios.
— Ah, pai, mas isso aqui é interessante — rebateu Anthony, sem se abalar com a bronca do pai. — O misterioso e inalcançável Don Black, que nunca aparece acompanhado por mulher nenhuma que não seja da própria família, foi visto no baile de máscaras com uma mulher misteriosa. A imprensa tá doida tentando descobrir quem é a ruiva. Dizem que o cara não tirou as mãos dela a noite inteira.
Senti um aperto repentino no peito, uma pontada inexplicável que me fez congelar por meio segundo com o garfo no ar. Olhei de relance para a tela do celular do meu filho, onde a imagem borrada e estilizada de um homem alto de ombros largos dançava com uma mulher de vestido escuro e longos cabelos acobreados com reflexos avermelhados, o rosto parcialmente coberto por uma máscara rendada.
— Uma mulher misteriosa... — murmurei, a minha voz saindo num sopro quase inaudível.
— Uma distração momentânea dele, provavelmente — desdenhou Edward, embora o seu olhar tenha demorado um segundo a mais na tela do celular de Anthony antes de voltar a me encarar. — Mas o fato é que Carlisle quer cautela. Se Jacob Black colocar Chicago em rota de colisão direta com os cartéis do sul, nossos investimentos naquela zona precisam ficar em espera até sabermos quem vai sair de pé dessa guerra.
Concordei com a cabeça mecanicamente, voltando os olhos para o meu prato. No entanto, a imagem daquela mulher de cabelos arruivados ao lado do Don de Chicago permaneceu gravada na minha mente, trazendo consigo uma vaga e incômoda inquietação que eu não sabia de onde vinha.
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