Além da fronteira
9 08. Após os portões de ferro
Renesmee
O trajeto até os limites norte de Chicago foi feito em um silêncio denso, quebrado apenas pelos sussurros fascinados de Mateo enquanto olhava a paisagem pela janela do SUV blindado. A escolta de dois carros mantinha uma distância perfeita, formando um escudo invisível ao nosso redor. Minha mão direita ainda guardava a memória do toque de Jacob, mas me forcei a manter a postura ereta ao meu lado no banco de trás.
Quando o veículo desacelerou diante de imponentes portões de ferro trabalhado, a sensação de entrar em outro mundo foi imediata.
O portão deslizou ruidosamente para os lados, dando passagem para uma alameda ladeada por árvores altas e bem podadas que levava até a mansão no estilo neoclássico. A propriedade exalava o peso do dinheiro antigo, da influência e do poder absoluto.
O carro parou com suavidade diante da escadaria principal de pedra clara.
— Chegamos — anunciou Jacob, a voz vindo num tom calmo, embora o olhar atento dele já estivesse varrendo o pátio pela janela.
Ele desceu primeiro e abriu a porta para nós. Peguei Mateo no colo, sentindo o pequeno corpo dele tenso contra o meu peito diante da imponência do lugar. Jacob colocou a mão espalmada no meio das minhas costas, conduzindo-nos com naturalidade para o alto dos degraus.
No topo da escadaria, a porta dupla de madeira nobre já estava aberta.
Alinhados no hall de entrada, sob o brilho de um candelabro de cristal que pendia do teto alto, a equipe responsável pelo funcionamento da casa aguardava em perfeita ordem. O ambiente tinha a atmosfera polida e impecável de uma propriedade aristocrática.
No centro do recepção, à frente de duas governantas de uniforme escuro e de um mordomo impecavelmente trajado, estava Sarah Black.
A matriarca da família trajava um conjunto elegante em tons sóbrios. A postura ereta e o olhar perspicaz revelavam de imediato que aquela era uma mulher acostumada a ditar as regras do seu próprio domínio.
— Mãe — cumprimentou Jacob, adentrando o hall e tirando o sobretudo. — Esta é a Renesmee. E este é o Mateo.
Sarah deu passos lentos e medidos na nossa direção. O olhar afiado da mulher varreu cada detalhe do meu rosto e das minhas roupas simples, descendo em seguida para a touca de lã e o casaco azul do meu filho. Não havia hostilidade na expressão dela, mas sim uma avaliação minuciosa e formal, a mesma que a matriarca de um império dedicaria a quem quer que cruzasse a soleira de sua casa.
— Seja bem-vinda à mansão Black, Renesmee — disse Sarah, a voz vindo num tom refinado e perfeitamente modulado. Ela ofereceu uma leve inclinação de cabeça. — Meu filho me informou sobre a sua chegada esta manhã. Espero que a viagem até aqui tenha sido tranquila.
— Obrigada pela recepção, Sra. Black — respondi, mantendo o tom firme e cortês que aprendi a usar para não transparecer o medo que ainda queimava sob a minha pele. — E por nos receber em sua casa.
— Esta casa pertence à minha família, e a partir de hoje vocês são nossos convidados de honra — declarou Sarah, com a solenidade firme de quem exige o cumprimento estrito da etiqueta. Ela virou-se ligeiramente para o mordomo ao seu lado. — Thomas, por favor, instrua a equipe para que as bagagens e os pertences que chegarem sejam acomodados imediatamente nas suítes do segundo andar.
— Sim, senhora Black — o homem fez uma reverência contida e retirou-se com a postura impecável de quem conhece as ordens de cor.
Sarah abaixou o olhar para Mateo, e por uma fração de segundo a severidade de seu rosto cedeu a uma expressão ligeiramente mais suave.
— E para o jovem rapaz... a cozinha já preparou um lanche adequado no terraço interno. A equipe cuidará para que ele se sinta perfeitamente acomodado enquanto você conhece as instalações, Renesmee.
Mateo olhou para mim, os olhinhos arregalados para a amplitude do hall.
— Pode ir com a senhora, meu amor — murmurei, beijando a bochecha dele antes de colocá-lo no chão. — A mamãe está bem se precisar aqui.
Uma das governantas aproximou-se com extrema gentileza para guiar Mateo, enquanto Sarah gesticulava suavemente para que prosseguíssemos pela sala principal.
— O Jacob me adiantou muito pouco sobre os motivos de uma mudança tão repentina — comentou Sarah, os passos ecoando sobre o mármore polido ao lado do filho. — Mas nesta casa, a segurança e o decoro vêm em primeiro lugar. Nada do que pertence a este teto é violado.
Olhei para Jacob pelo canto do olho. Ele caminhava ao meu lado com as mãos nos bolsos, a figura imponente servindo como um escudo vivo entre mim e o mundo exterior.
Jacob acompanhou-nos até o início da grande escadaria de que levava aos andares superiores. Seu celular vibrou no bolso e ele o retirou, observando a tela com o cenho franzido.
— Preciso resolver uma questão com o Jasper — disse ele, a voz baixa direcionada a mim, antes de encarar a mãe. — Deixo vocês duas.
— Vá com calma, meu filho — respondeu Sarah com a costumeira serenidade implacável. — Eu cuidarei para que Renesmee conheça exatamente como esta casa funciona.
Jacob me encarou por um segundo mais longo, um aviso silencioso de que estaria por perto, e deu meia-volta, cruzando o hall rumo ao escritório principal no térreo.
Fiquei a sós com a matriarca dos Black. Sarah fez um gesto sutil com a mão para que a acompanhasse degraus acima. O som dos saltos dela sobre a pedra polida era ritmado e preciso.
— A mansão foi construída no início do século passado — começou Sarah, conduzindo-me pelos corredores amplos e decorados com obras de arte clássicas e tapeçarias sóbrias. — Passou por duas reformas estruturais para garantir o máximo de conforto... e de segurança. Os muros externos são blindados, o sistema de câmeras cobre cada centímetro do perímetro e a equipe de guarda pessoal do Jacob se reveza em turnos de vinte e quatro horas.
— É uma propriedade impressionante, Sra. Black — comentei com polidez, observando a elegância imponente de cada detalhe.
— É a nossa fortaleza — corrigiu ela de forma seca, porém sem aspereza.
Paramos diante de duas portas duplas de madeira escura no final do corredor do segundo andar. Sarah abriu a primeira porta, revelando uma suíte majestosa iluminada por janelas altas. A cama king-size vestia lençóis de linho impecáveis em tons neutros, e havia uma porta comunicante aberta para o quarto ao lado, uma suíte infantil decorada com bom gosto, onde os brinquedos já estavam organizados e de onde vinha o som suave da governanta arrumando o espaço.
— Estes são as suas acomodações — anunciou Sarah. — O quarto do Mateo tem acesso direto ao seu para a sua tranquilidade. Tudo o que precisarem de vestuário, higiene ou cuidados pessoais será providenciado pela equipe. Basta solicitar.
— Muito obrigada. É muito mais do que esperávamos.
Sarah girou devagar sobre os calcanhares, voltando-se para mim. O olhar dela era analítico, perspicaz, despido de qualquer máscara social.
— Agora, Renesmee, precisamos falar sobre a sua permanência aqui — disse ela, a voz caindo para um tom solene. — Eu sei muito pouco sobre de onde você veio ou o que o trouxeste até ao meu filho. O Jacob protege o que é dele com a própria vida, e se ele decidiu abrir as portas desta casa para você e seu menino, eu honrarei essa decisão. No entanto, esta propriedade opera sob regras estritas.
Sustentei a postura, retribuindo o olhar.
— Quais regras, Sra. Black?
— A primeira e mais importante: você não sai desta propriedade sem autorização prévia minha ou do Jacob — declarou Sarah, cada palavra soando pesada e cortante. — Não por punição, mas por disciplina e segurança. O mundo fora destes portões tornou-se instável a partir do momento em que você pisou neles. Uma única caminhada desavisada ou uma decisão precipitada de sua parte pode colocar em risco não apenas a sua vida e a do seu filho, mas a estrutura inteira que sustenta o meu filho e a nossa família.
Engoli em seco, sentindo o peso daquela exigência. A ilusão de liberdade que tentei construir em Chicago parecia desvanecer-se completamente, substituída por um confinamento luxuoso, mas necessário.
— Entendido — murmurei.
— As refeições são servidas nos horários marcados na sala de jantar principal — continuou Sarah, ignorando a hesitação na minha voz. — Se precisar de algo para o menino fora dos horários, a cozinha estará sempre à disposição. Os funcionários estão sob ordens de relatar qualquer anormalidade. Você é nossa convidada de honra, Renesmee, mas enquanto estiver sob este teto, as leis da casa Black se aplicam a você.
— Eu respeito isso — respondi, mantendo a dignidade. — Não estou aqui para causar problemas para a sua família, Sra. Black. Só quero manter meu filho a salvo.
Sarah observou-me por alguns segundos, e a rigidez do seu rosto cedeu ligeiramente a um aceno contido de aprovação.
— Fico satisfeita em ouvir isso.
Jacob
Deixei a mansão sob a vigilância cerrada da minha mãe e da guarda pessoal que cerquei ao redor do perímetro. O céu de Chicago continuava pesado, carregado de nuvens cinzentas que ameaçavam desabar a qualquer momento.
EntreI no meu SUV e fiz o trajeto até o centro da cidade escoltado por dois carros de apoio. Paul seguia ao meu lado no passageiro, silencioso, mas com os olhos varrendo cada cruzamento com a paranoica precisão de quem sabe que o inimigo já cruzou a fronteira.
Quando as portas do elevador privativo se abriram no último andar do edifício da Black Enterprises, fui direto para a minha sala.
Jasper já nos esperava. Ele estava de pé junto à imensa parede de vidro que dava vista para o distrito financeiro, segurando uma pasta de couro preta nas mãos. Ele vestia um terno cinza sob medida, a postura impecável de um homem que resolvia no papel os problemas que Paul e eu resolvemos na força bruta.
— Você demorou — disse Jasper, virando-se assim que entrei, lançando um olhar rápido para Paul, que se posicionou junto à porta fechada.
— A acomodação da garota na mansão tomou mais tempo do que o previsto — respondi, tirando o sobretudo e jogando-o sobre o sofá de couro antes de me sentar atrás da minha mesa. — O que você tem para mim?
Jasper caminhou devagar até a mesa e colocou a pasta sobre o tampo de madeira nobre.
— O sujeito que seu pessoal pegou no pier já virou história, pelo que me disseram — começou Jasper, o tom frio e profissional. — Mas o problema maior não é o que sobrou dele no lago. É a mulher que você colocou dentro da sua casa, Jacob.
Apertei os maxilares, encarando-o fixamente.
— Me diga algo que eu já não saiba, Jasper.
— Eu fiz uma varredura completa nos sistemas federais, no banco de dados da imigração e nas redes de saúde desde que você me deu o nome dela — declarou Jasper, abrindo a pasta e retirando uma série de documentos impressos. — O status legal da Renesmee neste país é um pesadelo burocrático absoluto.
Ele deslizou uma folha para a minha frente.
— Ela entrou nos Estados Unidos a pé, pela fronteira do Texas, há três meses. Sem inspeção, sem visto, sem carimbo no passaporte e usando uma identidade mexicana falsa que já foi descartada. Para o Departamento de Segurança Interna (DHS) e para a Imigração (ICE), a mulher que dorme na sua suíte de hóspedes não existe. É uma clandestina. Se for parada em uma blitz comum na rua, ela é deportada para o México no mesmo dia.
— Ninguém vai deportar a Renesmee — disse eu, a voz caindo um tom, soando como um rosnado contido. — Nem a imigração, nem o cartel.
— Então você precisa dar a ela um motivo legal para estar aqui — rebateu Jasper, inclinando-se ligeiramente sobre a mesa. — Porque se o Héctor Mendoza não conseguir pegar a mulher dele pela força, a primeira coisa que ele vai fazer, através dos advogados corruptos que ele mantém em San Antonio, é usar as autoridades federais contra ela. Se descobrirem que o herdeiro do cartel de Monterrey está em Chicago sob a guarda de um empresário investigado, você vai ter os federais batendo na sua porta com um mandado de busca.
— E como nós a blindamos? — interveio Paul do fundo da sala, a voz grave cortando o ambiente. — A mãe dela era americana, não era? A Renesmee nos contou que a mãe nasceu aqui antes de fugir para o México.
Jasper assentiu devagar, virando-se para Paul antes de olhar para mim.
— Teoricamente, sim. Pela lei de imigração dos EUA, por ser filha de uma cidadã americana, a Renesmee é cidadã americana por direito de sangue desde o dia em que nasceu. Esse é o único trunfo que nós temos.
— Então use esse trunfo — ordenei, batendo a mão espalmada sobre a mesa.
— Não é simples, Jacob — alertou Jasper, sustentando o meu olhar. — A mãe dela deu a garota para uma família mexicana e sumiu do mapa. A Renesmee não tem a certidão de nascimento americana da mãe, não tem o registro consular e não tem como provar o vínculo biológico sem um teste de DNA de parentesco direto ou um documento oficial que ligue as duas. O processo de reconhecimento de cidadania por Jus Sanguinis pode levar anos na Justiça federal.
Fiquei em silêncio por um segundo, a mente trabalhando rápido enquanto assimilava o obstáculo.
— Nós não temos anos — declarei, encarando Jasper com uma determinação implacável. — Eu quero uma solução rápida. Não me importa quanto dinheiro eu precise mover, quantas assinaturas precisem ser compradas ou quais juízes precisam ser acionados. Eu quero os documentos da Renesmee limpos e um passaporte americano na mão dela antes que o cartel decida mover a próxima peça.
Jasper observou a minha postura, percebendo que não havia espaço para negociação no meu tom. Ele fechou a pasta de couro devagar, um sorriso amargo de canto surgindo em seus lábios.
— Existe o caminho legal e demorado, e existe o caminho da Black Enterprises — disse Jasper, a voz vindo num tom quase audível. — Se vamos pelo caminho mais rápido, vou precisar acionar os nossos contatos no Departamento de Estado e criar uma cadeia de custódia retroativa para a certidão da mãe dela. Vai custar uma fortuna em subornos e favores.
— Faça o que for preciso. A partir de hoje, a Renesmee passa a ser intocável tanto perante a lei quanto perante a rua. — ordenei sem piscar
Jasper soltou um suspiro pesado e recolheu a pasta de couro sobre o tampo da mesa. O silêncio na sala de reuniões durou alguns segundos, cortado apenas pelo murmúrio distante do trânsito de Chicago lá fora.
Ele não se moveu de imediato para a porta. Em vez disso, o advogado apoiou as mãos nas costas da cadeira de couro à sua frente, inclinando a cabeça com aquele olhar clínico e calculista que ele só reservava quando a situação deixava de ser puramente burocrática.
— Você está movendo montanhas por essa mulher, Jacob — soltou Jasper, a voz vindo num tom baixo e medido. — Comprando assinaturas no Departamento de Estado, arriscando a reputação da empresa, peitando o cartel de Monterrey e colocando uma clandestina sob o mesmo teto que a sua mãe. Qual é o verdadeiro interesse do Don nisso tudo?
Travei o maxilar, mantendo meus olhos fixos nele com uma dureza imediata.
— A Renesmee salvou a minha vida — respondi, o tom cortante como uma lâmina de aço. — Quando eu estava esvaindo em sangue, foi ela quem remendou a minha pele e impediu que eu morresse antes dos meus homens chegarem. Eu pago as minhas dívidas, Jasper. Você sabe disso melhor do que ninguém.
Jasper soltou uma risada curta, sem um pingo de humor, e abanou a cabeça devagar.
— Eu te conheço há mais de dez anos, Jacob. Sei exatamente como você paga suas dívidas — rebateu o advogado, sem recuar um milímetro diante do meu olhar. — Você daria uma mala cheia de dinheiro a ela, uma casa em outra cidade com segurança reforçada e um suprimento vitalício de recursos para o garoto. Mas você trouxe a mulher para a sua mansão. Deixou que ela tratasse das suas feridas e está disposto a comprar o governo federal para manter o garoto sob a sua asa. Isso não parece só gratidão por uma vida salva. Nem de longe.
A fúria subiu quente pelo meu pescoço. Apoiei os cotovelos sobre a mesa de madeira nobre e inclinei o corpo para a frente, o olhar queimando em direção ao meu advogado e amigo.
— Você enlouqueceu de vez, Hale? — questionei, a voz vindo num tom de ameaça contida que fez até Paul se ajeitar contra a porta ao fundo da sala. — Ficou maluco ou perdeu o juízo de vez para vir até a minha sala insinuar uma merda dessas?
Jasper permaneceu imóvel, apenas sustentando a pressão.
— Eu não me meto com mulheres de inimigos — continuei, cada palavra saindo pausada, fria e dita com a autoridade de quem dita as regras do próprio império. — E muito menos com mulheres que têm filhos de outros homens. Eu sou o líder dessa família e sei exatamente onde fica a linha que divide os meus negócios da minha vida pessoal. A Renesmee é uma testemunha e uma aliada em potencial contra Monterrey. Nada mais do que isso.
— Se você diz... — murmurou Jasper, erguendo levemente as mãos em um gesto de rendição calculada, embora o brilho de dúvida continuasse intacto em seus olhos. — Mas não se esqueça de que o Héctor Mendoza pensa exatamente o oposto. Para o cartel, você não está apenas abrigando uma fugitiva; você está pegando o que era dele. E se você agir movido por algo além da lógica, Jacob... essa guerra vai custar muito mais caro do que o dinheiro que vou gastar para limpar os papéis dela.
— Apenas faça o seu trabalho e consiga os documentos — ordenei, cortando qualquer margem para tréplica. — Da minha cabeça e das minhas decisões cuido eu.
Jasper encarou-me por mais um segundo em silêncio, deu um aceno contido de cabeça e girou sobre os calcanhares, saindo da sala com passos firmes.
Assim que a porta de madeira se fechou, encostei-me na cadeira de couro e passei a mão pelo rosto, sentindo o cansaço da madrugada e a tensão da conversa pesarem sobre meus ombros. Do outro lado do cômodo, Paul soltou um pigarro baixo, mas preferiu não abrir a boca.
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